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Economia e negócios 85
anos de cadeia por fraude Condenado, Bernard Ebbers,
da WorldCom, pode passar o resto de sua vida atrás das grades
Stan
Honda/AFP
 | | Ebbers
tentou defender-se dizendo ser ignorante em questões de contabilidade |
Chegou à fase do castigo a novela do mais estonteante escândalo
contábil do planeta. Na semana passada, o ex-poderoso chefão da
WorldCom, Bernard Ebbers, foi condenado em nove das nove acusações
de crime corporativo que pesavam contra ele. Na lista de mutretas presentes no
processo, constam itens como fraude, conspiração e emissão
de documentos falsos. Agora, aos 63 anos, Ebbers espera pela sentença final,
que sairá apenas em junho. Sabe-se, porém, que a pena pode chegar
a 85 anos de cadeia. Ou seja, na prática, trata-se de uma prisão
perpétua. O tamanho da bordoada já surtiu o primeiro efeito. Fez
com que os advogados de outros executivos que estão na mira dos tribunais
americanos revissem a base de suas defesas. A lista inclui Dennis Kozlowski, ex-presidente
da Tyco, Kenneth Lay, da Enron, e Richard Scrushy, da Health South Corporation.
O argumento central de Ebbers não funcionou
nos tribunais. Ele alegou que desconhecia as fraudes por ser um "caipira", um
sujeito sem nenhum conhecimento de contabilidade. "A desculpa é esfarrapada
e simplesmente ilógica", disse a VEJA o especialista em criminologia da
Universidade de St. John's, Robert Tillman. "Como pode uma empresa pagar milhões
por ano a um presidente se ele é tão ignorante a ponto de não
saber o que se passa em sua própria companhia?" Curioso foi o contraponto
apresentado pelos promotores, responsáveis pela acusação.
Para demonstrar a culpa do ex-presidente da WorldCom eles foram buscar uma prova
na cozinha. Disseram que Ebbers tinha total conhecimento dos números da
companhia, pois, para economizar, cortara até o cafezinho gratuito para
os funcionários. Economizou 4 milhões de dólares com a medida.
Em seus dias de glória, a WorldCom, a gigante
de pés de barro da indústria de telecomunicações mundial,
teve quase 100.000 funcionários e mais de 20 milhões de clientes
em 65 países. Seu valor de mercado chegou perto de 200 bilhões de
dólares. Ironicamente, os acionistas da companhia orgulhavam-se da ferocidade
com que os executivos da empresa compravam outras firmas concorrentes. Em apenas
três anos, entre 1995 e 1998, a WorldCom desembolsou 49,5 bilhões
de dólares em aquisições. Por trás da estratégia
da companhia estava Bernard Ebbers. A situação
começou a deteriorar-se, no entanto, no início do estouro da bolha
das empresas pontocom, em Wall Street, em 2000. Foi aí que a empresa passou
a cortar suas previsões de crescimento. Surgiram as suspeitas e uma investigação
da Securities and Exchange Commission (SEC), órgão que fiscaliza
as operações financeiras. Ebbers renunciou ao cargo de presidente
da companhia em 2002. No fim das contas, constatou-se uma fraude contábil
da ordem de 11 bilhões de dólares. Balanços foram inflados
artificialmente para animar os investidores e facilitar a capitalização
da empresa. Ebbers também foi acusado de tomar um empréstimo de
366 milhões de dólares com a WorldCom para pagar dívidas
pessoais. Para o especialista em criminologia Robert
Tillman, o veredicto contra Ebbers, apesar de pesado, é uma "vitória
simbólica". "Uma fraude da magnitude da WorldCom requer milhares de pessoas
envolvidas, além de empresas de advocacia, de contabilidade, entre outras,
que permanecerão impunes", disse. "O presidente de uma firma, um CEO, nunca
age sozinho. Os EUA já viram esse filme antes", acrescentou, referindo-se
a casos como o do ex-magnata das bolsas nos anos 80, Michael Milken ele
foi condenado a dez anos de prisão por crimes financeiros, mas cumpriu
apenas dois anos da pena (veja quadro).
Outra demonstração de quão simbólica pode ser considerada
a vitória, observa Tillman, é o envolvimento de Ebbers com o ex-analista
de telecomunicações do Salomon Smith Barney, Jack Grubman. VEJA
publicou há duas semanas a resenha de um livro (Blood on the Street)
que mostrava como Grubman ajudou a tornar a WorldCom uma das maiores empresas
do ramo no mundo. Pode-se afirmar que Grubman teve uma atuação decisiva
na mirabolante ascensão da firma, pois, além de ser uma espécie
de tutor de negócios de Ebbers, ele também recomendava a compra
maciça de ações da WorldCom aos investidores do banco. Apesar
das provas evidentes de que Grubman cometia fraudes em seus relatórios,
ele não foi levado à Justiça criminal. Foi somente banido
do mercado de ações e pagou uma multa de 15 milhões de dólares.
Muitos advogados e promotores americanos comemoraram
a condenação de Grubman. Eles acreditam que se trata de uma vitória
porque o governo dos EUA decidiu comprar uma briga criminal com um ex-presidente
de uma grande companhia. Normalmente, essas disputas se arrastam em um campo delicado
e desgastante. "Desta vez, o governo se meteu na história e a decisão
da Justiça manda uma mensagem clara para quem continuar a fraudar os balanços:
a lei deve ser cumprida", disse a VEJA Henry Pontell, professor de direito da
Universidade da Califórnia. É isso o que se espera, principalmente
para o bem dos pequenos acionistas.
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