Edição 1897 . 23 de março de 2005

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Economia e negócios
85 anos de cadeia por fraude

Condenado, Bernard Ebbers, da
WorldCom, pode passar o resto
de sua vida atrás das grades


Stan Honda/AFP
Ebbers tentou defender-se dizendo ser ignorante em questões de contabilidade


Chegou à fase do castigo a novela do mais estonteante escândalo contábil do planeta. Na semana passada, o ex-poderoso chefão da WorldCom, Bernard Ebbers, foi condenado em nove das nove acusações de crime corporativo que pesavam contra ele. Na lista de mutretas presentes no processo, constam itens como fraude, conspiração e emissão de documentos falsos. Agora, aos 63 anos, Ebbers espera pela sentença final, que sairá apenas em junho. Sabe-se, porém, que a pena pode chegar a 85 anos de cadeia. Ou seja, na prática, trata-se de uma prisão perpétua. O tamanho da bordoada já surtiu o primeiro efeito. Fez com que os advogados de outros executivos que estão na mira dos tribunais americanos revissem a base de suas defesas. A lista inclui Dennis Kozlowski, ex-presidente da Tyco, Kenneth Lay, da Enron, e Richard Scrushy, da Health South Corporation.

O argumento central de Ebbers não funcionou nos tribunais. Ele alegou que desconhecia as fraudes por ser um "caipira", um sujeito sem nenhum conhecimento de contabilidade. "A desculpa é esfarrapada e simplesmente ilógica", disse a VEJA o especialista em criminologia da Universidade de St. John's, Robert Tillman. "Como pode uma empresa pagar milhões por ano a um presidente se ele é tão ignorante a ponto de não saber o que se passa em sua própria companhia?" Curioso foi o contraponto apresentado pelos promotores, responsáveis pela acusação. Para demonstrar a culpa do ex-presidente da WorldCom eles foram buscar uma prova na cozinha. Disseram que Ebbers tinha total conhecimento dos números da companhia, pois, para economizar, cortara até o cafezinho gratuito para os funcionários. Economizou 4 milhões de dólares com a medida.

Em seus dias de glória, a WorldCom, a gigante de pés de barro da indústria de telecomunicações mundial, teve quase 100.000 funcionários e mais de 20 milhões de clientes em 65 países. Seu valor de mercado chegou perto de 200 bilhões de dólares. Ironicamente, os acionistas da companhia orgulhavam-se da ferocidade com que os executivos da empresa compravam outras firmas concorrentes. Em apenas três anos, entre 1995 e 1998, a WorldCom desembolsou 49,5 bilhões de dólares em aquisições. Por trás da estratégia da companhia estava Bernard Ebbers.

A situação começou a deteriorar-se, no entanto, no início do estouro da bolha das empresas pontocom, em Wall Street, em 2000. Foi aí que a empresa passou a cortar suas previsões de crescimento. Surgiram as suspeitas e uma investigação da Securities and Exchange Commission (SEC), órgão que fiscaliza as operações financeiras. Ebbers renunciou ao cargo de presidente da companhia em 2002. No fim das contas, constatou-se uma fraude contábil da ordem de 11 bilhões de dólares. Balanços foram inflados artificialmente para animar os investidores e facilitar a capitalização da empresa. Ebbers também foi acusado de tomar um empréstimo de 366 milhões de dólares com a WorldCom para pagar dívidas pessoais.

Para o especialista em criminologia Robert Tillman, o veredicto contra Ebbers, apesar de pesado, é uma "vitória simbólica". "Uma fraude da magnitude da WorldCom requer milhares de pessoas envolvidas, além de empresas de advocacia, de contabilidade, entre outras, que permanecerão impunes", disse. "O presidente de uma firma, um CEO, nunca age sozinho. Os EUA já viram esse filme antes", acrescentou, referindo-se a casos como o do ex-magnata das bolsas nos anos 80, Michael Milken – ele foi condenado a dez anos de prisão por crimes financeiros, mas cumpriu apenas dois anos da pena (veja quadro).

Outra demonstração de quão simbólica pode ser considerada a vitória, observa Tillman, é o envolvimento de Ebbers com o ex-analista de telecomunicações do Salomon Smith Barney, Jack Grubman. VEJA publicou há duas semanas a resenha de um livro (Blood on the Street) que mostrava como Grubman ajudou a tornar a WorldCom uma das maiores empresas do ramo no mundo. Pode-se afirmar que Grubman teve uma atuação decisiva na mirabolante ascensão da firma, pois, além de ser uma espécie de tutor de negócios de Ebbers, ele também recomendava a compra maciça de ações da WorldCom aos investidores do banco. Apesar das provas evidentes de que Grubman cometia fraudes em seus relatórios, ele não foi levado à Justiça criminal. Foi somente banido do mercado de ações e pagou uma multa de 15 milhões de dólares.

Muitos advogados e promotores americanos comemoraram a condenação de Grubman. Eles acreditam que se trata de uma vitória porque o governo dos EUA decidiu comprar uma briga criminal com um ex-presidente de uma grande companhia. Normalmente, essas disputas se arrastam em um campo delicado e desgastante. "Desta vez, o governo se meteu na história e a decisão da Justiça manda uma mensagem clara para quem continuar a fraudar os balanços: a lei deve ser cumprida", disse a VEJA Henry Pontell, professor de direito da Universidade da Califórnia. É isso o que se espera, principalmente para o bem dos pequenos acionistas.

 

Milionários com experiência carcerária

 
Mark Wilson/Reuters
• MICHAEL MILKEN
Cumpriu dois anos por uso de informação sigilosa no mercado de títulos de alto risco
David Cantor/AP
• IVAN BOESKY
Passou dois anos preso por pagar a banqueiros para ter acesso a dados privilegiados
Reuters
• LEONA HELMSLEY
Magnata do setor hoteleiro. Processada por evasão fiscal, ficou um ano e meio na prisão
John Marshall Mantel/AP
• MARTHA STEWART
Apresentadora de TV, usou informação sigilosa na venda de ações. Passou cinco meses na prisão

• CHARLES PONZI
Precursor do esquema de pirâmides, passou onze anos na prisão. Morreu no Brasil em 1949

 
 
 
 
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