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Educação
Cotas para quê?
Pesquisa financiada pelo MEC derruba
tese de que negros não têm acesso às
universidades federais.

Marcelo Carneiro
O que fazer quando se tem como principal política
social um programa chamado Fome Zero e o melhor instituto de pesquisas
oficiais descobre que o problema do país é o oposto,
a obesidade? O que fazer quando uma proposta de reforma universitária
é assentada sobre a premissa de que os negros só terão
acesso ao ensino superior por meio de cotas e se descobre que a
representatividade dos negros nas escolas superiores federais já
é igual à existente na sociedade brasileira? Bem,
no governo do PT essas perguntas tiveram uma mesma e surpreendente
resposta: mudem-se as pesquisas, mantenham-se as políticas
erradas e tome mistificação para cima do respeitável
público!
O susto com as conclusões da pesquisa
da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições
Federais de Ensino Superior (Andifes) mostrando que os negros se
fazem representar em proporção exatamente igual dentro
e fora da universidade foi mal digerido no Ministério da
Educação. "Essa pesquisa não podia sair desse
jeito. Ela não está de acordo com a política
do ministério", disse a VEJA um integrante da equipe do ministro
Tarso Genro. Bem, era o que faltava. As pesquisas sérias
em países sérios com governos sérios não
têm de estar de acordo com os burocratas. Eles é que
têm de se pautar de acordo com a realidade que as pesquisas
mostram.
Wilton Junior/AE
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| Alunas barradas pelas cotas no Rio de Janeiro
e protesto contra o racismo nos EUA: questão polêmica e complexa
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Segundo o estudo da Andifes, o número
de negros nas universidades federais corresponde exatamente à
sua participação na população brasileira,
que é de 5,9%. Além disso, quase metade dos
estudantes universitários, sejam eles brancos ou negros,
pertence a famílias das classes C, D e E, nas quais a renda
mensal total varia entre 207 e 927 reais. Estudos dessa natureza
são uma excelente oportunidade para discutir os caminhos
para democratizar o ensino no Brasil. Mas o governo, como tem acontecido
com alguma freqüência quando confrontado com a realidade,
preferiu atacar os números. Na segunda-feira passada, o MEC,
que é favorável à política de cotas,
montou uma operação para desqualificar o estudo que
ele próprio financiou. O levantamento seria exposto numa
entrevista coletiva marcada para segunda-feira. Como os resultados
da pesquisa não combinavam com as convicções
do ministro, sua divulgação foi cancelada. Alvoroçada,
a burocracia correu atrás do plano B.
O principal executivo do ministério
na área de pesquisas, Eliezer Pacheco, presidente do Instituto
Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira
(Inep), foi escalado para conseguir outros números. Pacheco,
então, apresentou um estudo preliminar do Inep, realizado
com base em dados do Exame Nacional de Cursos, para provar a necessidade
da política de cotas. A propaganda não funcionou.
Quase não há diferença entre as duas pesquisas,
a censurada e a que foi tirada às pressas da gaveta. O levantamento
da Andifes diz que os brancos representam 59,4% dos estudantes das
universidades federais. O estudo do Inep afirma que esse número
é 62%, uma diferença de apenas 2,6 pontos porcentuais.
No que diz respeito aos dados sobre negros e pardos, público-alvo
das políticas de cotas raciais, a diferença é,
porcentualmente, ainda menor.
Gustavo Miranda/AE
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| Tarso Genro: contra a divulgação de pesquisa
que não confirma a tese do governo |
O economista Marcelo Néri, pesquisador do Centro de Políticas
Sociais da Fundação Getulio Vargas, produziu, com
exclusividade para VEJA, um estudo sobre a população
universitária brasileira, de acordo com a raça. Usando
dados do IBGE, Néri descobriu que, comparados a brancos e
pardos, os negros são, de longe, o contingente que apresentou
as maiores taxas de crescimento nas universidades públicas,
entre 2001 e 2003. Nesse período, o número de estudantes
negros de nível superior cresceu 55,1%, contra 14,9% a favor
dos pardos e 10,4% para os brancos. "Essa é a melhor notícia
no que se refere à participação dos negros
nas universidades. O crescimento é impressionante", diz o
economista. O aumento do número de negros e pardos nas universidades
aconteceu antes da vigência da política de cotas. São
pessoas que entraram na universidade pelos próprios méritos
acadêmicos, dos quais poderão se orgulhar e cujo desempenho
profissional futuro não ficará tisnado pelo fato de
terem cortado caminho rumo ao diploma.
O sistema de cotas sugerido pelo MEC padece
de falta de aprofundamento. Pela proposta, metade das vagas nas
universidades será reservada a negros, indígenas e
estudantes egressos de escolas públicas. Ocorre que, hoje,
segundo a pesquisa da Andifes, 46,2% dos estudantes de universidades
federais estudaram integralmente ou cursaram a maior parte do ensino
médio em colégios públicos. Ou seja, a cota
está praticamente preenchida. Em compensação,
o governo federal e as administrações de estados que
já instituíram as cotas não têm ainda
um projeto para manter os alunos pobres na faculdade. A maior parte
desses estudantes vem de famílias que não têm
renda para bancar gastos com livros ou instrumentos usados em cursos
como medicina e odontologia. Na Universidade do Estado do Rio de
Janeiro (Uerj), dos 8,7 milhões de reais previstos em orçamento
pelo governo do estado para o atendimento a alunos carentes, só
foi liberado 1 milhão. "Ação afirmativa não
pode ser reduzida a cotas. Desse modo, se está fingindo fazer
política de ação social", diz Raquel Villardi,
sub-reitora de graduação da Uerj. Outro aspecto que
tem sido relegado a segundo plano é a melhoria na qualidade
do ensino fundamental e médio, sabidamente o único
caminho para efetivamente democratizar o acesso à universidade.
A atual política de cotas também corre o risco de
ter outra nefasta conseqüência, a de atiçar artificialmente
uma animosidade inter-racial, algo inusitado no Brasil.
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