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Ciência Mulher
é um bicho complicado Duas descobertas: as mulheres
têm muito mais genes trabalhando do que os homens. E Adão
é que nasceu da "costela" de Eva  Thereza
Venturoli
Dois
artigos publicados nesta semana na revista inglesa Nature, referência
para a comunidade científica em todo o mundo, trazem promessas imensas
e excitantes: a primeira, e mais significativa, é direcionar a pesquisa
genética para caminhos até agora pouco explorados e que podem
levar à prevenção de doenças hereditárias.
A segunda promessa é enriquecer o já vasto repertório de
piadas sobre as diferenças entre homens e mulheres que emergem dos
trabalhos como bichos ainda mais complexos do que se supunha. Duas equipes de
geneticistas desvendaram segredos cruciais de uma das mais misteriosas estruturas
genéticas dos mamíferos: o cromossomo X um dos 46 novelos
de DNA onde ficam as informações que definem a espécie humana.
Eles descobriram que o X funciona de modo diferente em organismos masculinos e
femininos, o que pode explicar boa parte das desigualdades biológicas entre
os sexos. Descobriram também que entre as mulheres há uma variedade
enorme de perfis genéticos, ao contrário do que ocorre com os homens.
E que outro cromossomo, o Y, que só aparece nos homens, não passa
de um X que foi se degenerando ao longo dos milhões de anos de evolução.
O feito das duas equipes abre novas perspectivas para a busca da cura de doenças
genéticas relacionadas ao cromossomo X, que costumam se manifestar só
em filhos homens, como a hemofilia e alguns tipos de distrofia muscular.
Dentre os 46 cromossomos instalados aos pares no núcleo de cada célula
humana, o X e o Y são os que ditam a receita para a produção
de proteínas que determinam o sexo do indivíduo e outras características
relacionadas. As mulheres carregam o par XX e os homens, o par XY. Apesar de trabalharem
em conjunto, as duas estruturas são muito diferentes. O X é um gigante
com mais de 1 000 genes, enquanto o nanico Y reúne menos de 100 deles.
Isso significa que a mulher deveria ter muito mais genes trabalhando do que o
homem e, conseqüentemente, produzir uma overdose de proteínas. Para
evitar esse exagero, a natureza criou um mecanismo de compensação:
quando o embrião feminino está ainda no início de seu desenvolvimento,
no útero, um dos cromossomos do par XX é "desligado". Com esse sacrifício
altruísta (quase de mãe, diriam alguns), os genes da mulher garantem
uma certa igualdade genética entre os dois sexos.
 | O
PERSONAGEM PRINCIPAL Na capa da Nature,
o cromossomo X, personagem central das diferenças entre os sexos, para
o bem e para o mal |
Esse mecanismo
já era parcialmente conhecido pela ciência. Agora, porém,
os biólogos Laura Carrel, da Universidade do Estado da Pensilvânia,
e Huntington Willard, da Universidade Duke, ambas nos Estados Unidos, verificaram
que apenas 75% dos genes do X inativo nas mulheres são efetivamente silenciados.
Entre os restantes, 15% mantêm-se bem acordados. Os demais 10% podem estar
"ligados" em algumas células, e "desligados" em outras. Os biólogos
americanos verificaram também que esse liga-desliga não atinge necessariamente
os mesmos genes. Daí se conclui, primeiro, que as células do organismo
feminino têm uma espécie de "personal stylist" genético, que
confere a cada uma delas características únicas. Nos homens nada
disso acontece: como eles têm apenas um X, ele nunca pode ser desativado.
A outra conclusão que se pode tirar do trabalho é que, apesar dessa
compensação natural, as mulheres efetivamente têm mais genes
trabalhando do que os homens. Ainda não se sabe quais são as conseqüências
bioquímicas dessas disparidades genéticas. Mas é bem provável
que o liga-desliga aleatório exerça papel fundamental no surgimento
de várias doenças hereditárias. "Para curar e prevenir essas
doenças é preciso não só identificar os genes relacionados
a elas, mas também entender os mecanismos que controlam a ação
de cada um desses genes", diz a biomédica Marimélia Porcionatto,
da Universidade Federal de São Paulo. O
outro trabalho publicado pela Nature, da equipe liderada por Mark Ross,
do Instituto Sanger, na Inglaterra, traz uma idéia dramática em
termos de evolução das espécies, ao confirmar uma hipótese
levantada há três décadas: a de que o cromossomo Y surgiu
de um cromossomo X que sofreu uma mutação há 300 milhões
de anos. A equipe de Ross seqüenciou os genes alinhados ao longo do X e comparou
essa seqüência com a ordem em que os genes aparecem no Y. Descobriu
que, em vários trechos, eles coincidem uma indicação
de que, em algum momento do passado remoto, só havia X. Ou seja, o Y nasceu
de um X. Mais ou menos como a costela de Adão da qual saiu Eva, só
que, aqui, ocorreu o contrário: o Y é que veio da "costela" feminina,
X. Como isso teria acontecido? Acredita-se que,
numa das recombinações dos genes que ocorrem a cada nova geração,
um X espertinho teria juntado um pacote de algumas instruções que
definem particularidades masculinas por exemplo, a produção
de espermatozóides. Por algum motivo, esse pacote caiu nas graças
da seleção natural e foi sendo transmitido de geração
para geração. O X modificado, então, foi pouco a pouco perdendo
pedaços e se transformando num Y. Restou ao outro X a função
de passar adiante a maior parte das características sexuais. Com isso,
os homens atuais têm no Y apenas 78 genes. Essa divisão desequilibrada
de responsabilidades tem lá seu custo: como não podem "desligar"
seu X, os homens têm maior probabilidade de desenvolver doenças transmitidas
por ele. "Ainda não conhecemos todos os genes capazes de gerar doenças,
mas esse seqüenciamento nos ajudará a identificá-los mais rapidamente",
disse a VEJA Chris Gunter, editor da Nature e autor do comentário
que acompanha os dois artigos. |