Edição 1897 . 23 de março de 2005

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Índia
Tesouro debaixo do colchão

Governo quer que indianos troquem
a mania de guardar ouro em casa por
investimento bancário


Ruth Costas


Indranil Mukherfee/AFP
Indianas na joalheria: 10 bilhões de dólares gastos em peças de ouro, em 2004


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Porque o ouro guardado em casa é ruim para a economia da Índia

A economia da Índia passa por um período de rápida expansão, mas estaria ainda melhor não fosse o fascínio que o ouro exerce sobre seus cidadãos. É um costume indiano, em especial entre os moradores das pequenas cidades e dos vilarejos rurais, usar o dinheiro que sobra no fim do mês para comprar jóias e ouro, que ficam guardados em casa. Há dois usos para esses artigos preciosos. Um é enfeitar as pessoas e os ambientes em festas tradicionais e casamentos. O outro é acumular um produto de valor que serve de reserva para os tempos de vacas magras, como a aposentadoria, a perda do emprego ou uma crise econômica. Os indianos são o povo que mais compra ouro no mundo. Só no ano passado, foram adquiridos 10 bilhões de dólares do metal, quase o dobro do que o país recebeu em investimentos estrangeiros. O governo quer convencer a população a abandonar esse hábito, porque ele estrangula a economia, que é curta em capital para investimento. Se a poupança guardada debaixo do colchão circular pelo sistema bancário, haverá mais dinheiro para o consumo e para financiar o aumento da capacidade produtiva indiana, gerando empregos e riqueza.

Hoje, a população indiana guarda em casa um tesouro de 200 bilhões de dólares em metais preciosos – o equivalente a 30% do PIB do país. Quase metade dessa fortuna está nas mãos de pessoas que nem sequer têm conta bancária. Numa tentativa de mudar essa situação, o governo indiano pretende tirar da informalidade grande parte do comércio de ouro e atrair esses consumidores para o sistema financeiro. A primeira iniciativa será a criação de um fundo de investimentos com lastro em ouro. Na prática, esse sistema vai permitir ao cidadão comprar um certificado que garante que ele é proprietário de certa quantidade do metal precioso, estocado no banco. Haverá cotas valendo a partir do equivalente a 6 reais, para que mesmo os indianos mais pobres possam adquirir seus certificados. Se o fundo for bem-sucedido, as pessoas poderão comprar e vender "certificados-ouro" sem ter de levar para casa o metal.

Outra vantagem do sistema é que os papéis poderão funcionar como garantia para os agricultores conseguirem empréstimos bancários. Atualmente, é comum os moradores das regiões rurais entregarem suas jóias, de pureza quase sempre duvidosa, aos bancos ou aos agiotas para ter acesso aos créditos agrícolas. "Nas grandes cidades, as pessoas já preferem gastar em outros bens de consumo, como carros e geladeiras, em vez do ouro, mesmo quando é para dar de presente de casamento. Mas nas áreas rurais, onde vivem 700 milhões de indianos, a obsessão pelo metal ainda é enorme", diz o indiano Arvind Panagariya, professor de política econômica na Universidade Columbia, nos Estados Unidos.

Não será fácil fazer com que a população rural e pobre siga o exemplo dos moradores das cidades e deixe de lado a tradição de encher baús com ouro. O costume de comprar jóias tem raízes em valores culturais e religiosos que existem há séculos. Em sânscrito, a língua usada na literatura clássica da Índia, existem sete sinônimos para a palavra "ouro". Segundo o costume do hinduísmo, religião da maioria da população, as jóias pessoais são o único patrimônio ao qual as mulheres têm direito. No casamento, os pais da noiva gastam fortunas para cobri-la de dourado e para pagar o dote, tradicionalmente entregue em ouro e pedras preciosas. Presente na maior parte das cerimônias religiosas, o metal é também um dos principais símbolos de poder e status da sociedade indiana. Além disso, para os indianos, guardar artigos valiosos em casa é a melhor forma de garantir o sustento no futuro. Apenas 11% da população tem direito à previdência, e o ouro funciona como uma aposentadoria – época em que os filhos provavelmente terão saído de casa e mudado de cidade para estudar ou trabalhar. As barras douradas são consideradas um porto seguro, uma promessa de alívio financeiro em dias de crise. Resistem ao tempo, à inflação e às turbulências da economia. Os certificados que o governo indiano quer vender à população não reluzem como elas.

 
 
 
 
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