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Índia
Tesouro debaixo do colchão
Governo quer que indianos troquem
a mania de guardar ouro em casa por
investimento bancário

Ruth Costas
Indranil Mukherfee/AFP
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| Indianas na joalheria: 10 bilhões de dólares
gastos em peças de ouro, em 2004 |
A economia da Índia passa por um período
de rápida expansão, mas estaria ainda melhor não
fosse o fascínio que o ouro exerce sobre seus cidadãos.
É um costume indiano, em especial entre os moradores das
pequenas cidades e dos vilarejos rurais, usar o dinheiro que sobra
no fim do mês para comprar jóias e ouro, que ficam
guardados em casa. Há dois usos para esses artigos preciosos.
Um é enfeitar as pessoas e os ambientes em festas tradicionais
e casamentos. O outro é acumular um produto de valor que
serve de reserva para os tempos de vacas magras, como a aposentadoria,
a perda do emprego ou uma crise econômica. Os indianos são
o povo que mais compra ouro no mundo. Só no ano passado,
foram adquiridos 10 bilhões de dólares do metal, quase
o dobro do que o país recebeu em investimentos estrangeiros.
O governo quer convencer a população a abandonar esse
hábito, porque ele estrangula a economia, que é curta
em capital para investimento. Se a poupança guardada debaixo
do colchão circular pelo sistema bancário, haverá
mais dinheiro para o consumo e para financiar o aumento da capacidade
produtiva indiana, gerando empregos e riqueza.
Hoje, a população indiana guarda
em casa um tesouro de 200 bilhões de dólares em metais
preciosos o equivalente a 30% do PIB do país. Quase
metade dessa fortuna está nas mãos de pessoas que
nem sequer têm conta bancária. Numa tentativa de mudar
essa situação, o governo indiano pretende tirar da
informalidade grande parte do comércio de ouro e atrair esses
consumidores para o sistema financeiro. A primeira iniciativa será
a criação de um fundo de investimentos com lastro
em ouro. Na prática, esse sistema vai permitir ao cidadão
comprar um certificado que garante que ele é proprietário
de certa quantidade do metal precioso, estocado no banco. Haverá
cotas valendo a partir do equivalente a 6 reais, para que mesmo
os indianos mais pobres possam adquirir seus certificados. Se o
fundo for bem-sucedido, as pessoas poderão comprar e vender
"certificados-ouro" sem ter de levar para casa o metal.
Outra vantagem do sistema é que os
papéis poderão funcionar como garantia para os agricultores
conseguirem empréstimos bancários. Atualmente, é
comum os moradores das regiões rurais entregarem suas jóias,
de pureza quase sempre duvidosa, aos bancos ou aos agiotas para
ter acesso aos créditos agrícolas. "Nas grandes cidades,
as pessoas já preferem gastar em outros bens de consumo,
como carros e geladeiras, em vez do ouro, mesmo quando é
para dar de presente de casamento. Mas nas áreas rurais,
onde vivem 700 milhões de indianos, a obsessão pelo
metal ainda é enorme", diz o indiano Arvind Panagariya, professor
de política econômica na Universidade Columbia, nos
Estados Unidos.
Não será fácil fazer
com que a população rural e pobre siga o exemplo dos
moradores das cidades e deixe de lado a tradição de
encher baús com ouro. O costume de comprar jóias tem
raízes em valores culturais e religiosos que existem há
séculos. Em sânscrito, a língua usada na literatura
clássica da Índia, existem sete sinônimos para
a palavra "ouro". Segundo o costume do hinduísmo, religião
da maioria da população, as jóias pessoais
são o único patrimônio ao qual as mulheres têm
direito. No casamento, os pais da noiva gastam fortunas para cobri-la
de dourado e para pagar o dote, tradicionalmente entregue em ouro
e pedras preciosas. Presente na maior parte das cerimônias
religiosas, o metal é também um dos principais símbolos
de poder e status da sociedade indiana. Além disso, para
os indianos, guardar artigos valiosos em casa é a melhor
forma de garantir o sustento no futuro. Apenas 11% da população
tem direito à previdência, e o ouro funciona como uma
aposentadoria época em que os filhos provavelmente
terão saído de casa e mudado de cidade para estudar
ou trabalhar. As barras douradas são consideradas um porto
seguro, uma promessa de alívio financeiro em dias de crise.
Resistem ao tempo, à inflação e às turbulências
da economia. Os certificados que o governo indiano quer vender à
população não reluzem como elas.
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