Edição 1897 . 23 de março de 2005

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Internacional
O Lama mudou de idéia

Pela primeira vez, o líder budista diz que
o Tibete é da China e desiste do separatismo


Bikas Das/AP
Dalai Lama: 45 anos de exílio e uma causa que fascina Hollywood


O Dalai Lama rendeu-se, na semana passada, a um fato consumado, ainda que intragável. Pela primeira vez, ele reconheceu que o Tibete faz parte da China, e assim permanecerá. "Esta é a mensagem que eu quero passar aos chineses: não sou a favor da separação", disse o mais alto líder do budismo tibetano em entrevista a um jornal de Hong Kong. A declaração vai contra o que o religioso de 69 anos – venerado como a reencarnação do Buda desde criança – pregou nas últimas quatro décadas de exílio: a independência completa do Tibete ou, pelo menos, a autonomia política do país, invadido e anexado pelos chineses na década de 50. A mudança de atitude, segundo o Lama, deve-se ao desejo de permitir que seu povo se beneficie mais com o crescimento econômico da China. Isso já vem ocorrendo. Nos últimos três anos, a proporção de tibetanos vivendo na pobreza caiu de 68% para 48%. O índice ainda é alto, mas está no mesmo nível do de outras regiões periféricas chinesas. Em troca do reconhecimento da subordinação à China, o Dalai Lama pediu apenas respeito à religião, à língua e ao meio ambiente do Tibete. Atualmente, os tibetanos podem praticar o budismo, mas as organizações religiosas são controladas pelo Estado. O número de mosteiros e monges é limitado.

Situado no Himalaia, o Tibete foi durante séculos um Estado teocrático fechado ao mundo exterior e subordinado por tratados à China. Sua única experiência de total independência durou apenas quatro décadas e terminou em 1951, quando foi invadido e ocupado pelos comunistas chineses. Uma rebelião separatista em 1959 foi esmagada com violência pelo Exército chinês. O saldo foram 87.000 mortos e 100.000 fugitivos, entre eles seu líder espiritual, que formaram na Índia um "governo no exílio". As chances de conquistar a independência sempre foram mínimas. Nenhuma grande potência teria interesse em fazer frente à China apenas para defender a causa de uma região longínqua e pobre. No início dos anos 80, o Dalai Lama deixou passar a oportunidade de fazer um acordo com o governo chinês que lhe permitiria voltar ao país. Ele não queria abrir mão de duas exigências: a de manter um governo independente de Pequim e a de anexar à província áreas periféricas habitadas por tibetanos, mas que sempre estiveram sob soberania chinesa. Em vez de ceder nesses pontos, o Dalai Lama intensificou sua campanha internacional pela independência do Tibete. Com seu carisma, seu discurso pacifista e seu incansável trabalho de relações públicas, ele conquistou um Prêmio Nobel da Paz e a simpatia de celebridades de Hollywood. Na prática, no entanto, afastou a possibilidade de uma negociação com a China. As declarações da semana passada, se mantidas no futuro, representam uma guinada pragmática do Dalai Lama. Pode ser tarde demais. Em um comunicado oficial, o governo chinês não demonstrou entusiasmo com as novas convicções do Lama.

 
 
 
 
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