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Internacional
Todos estão fartos
do IRA Americanos
agora também tratam a organização irlandesa como ela
é, um grupo terrorista  José
Eduardo Barella
Jason
Reed/Reuters
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senador Ted Kennedy com as irmãs e a namorada de McCartney, em Washington: indignação
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Com uma história de mais de três
décadas de terrorismo em nome de uma causa nacionalista, o Exército
Republicano Irlandês (IRA) já não convence ninguém
nem os católicos da Irlanda do Norte, que o grupo armado pretende
representar, nem seus descendentes americanos, que sempre nutriram simpatia por
suas motivações. O desgaste ficou claro na semana passada, nos Estados
Unidos. Pela primeira vez em dez anos, os dirigentes do Sinn Fein, o braço
político do IRA, foram barrados na festa anual da Casa Branca para comemorar
o santo padroeiro dos irlandeses. Para completar, Gerry Adams, o principal líder
do Sinn Fein, recebeu uma porta na cara do senador americano Edward Kennedy, que
sempre se mostrou simpático à causa de unir à República
da Irlanda a província que hoje é parte da Inglaterra. Espécie
de patriarca dos irlandeses-americanos, ele recusou-se a receber Adams para uma
reunião. A mudança de atitude deve
muito à coragem de cinco católicas irlandesas, com quem, aliás,
o senador democrata se encontrou na semana passada. Elas se transformaram em celebridades
pela persistência com que exigem que sejam levados à Justiça
os assassinos todos eles militantes do IRA de seu irmão,
Robert McCartney, em uma briga de bar em Belfast, a capital da Irlanda do Norte.
Em sua peregrinação por Washington, as McCartney foram recebidas
até pelo presidente George W. Bush. A desmoralização do IRA
e de seus representantes políticos nos Estados Unidos é um golpe
letal para a linha terrorista do nacionalismo irlandês, que tinha nos 40
milhões de descendentes irlandeses do país uma boa fonte de doações
e de sustentação moral. Dissolveu-se finalmente o paradoxo representado
pelos americanos que apoiavam, por atavismo, um grupo terrorista no momento em
que seu país está empenhado numa guerra global ao terrorismo.
Peter
Morrison/AP
 | | Mural
do IRA: Estado paralelo |
O IRA
deveria ter saído de circulação em 2001, quando renunciou
à luta armada no contexto de um acordo de paz. Na verdade, o grupo continua
valendo-se de seus métodos violentos e, agora, atua mais como uma organização
criminosa comum do que como uma entidade política. Na sua lista de pecados
recentes está o roubo de um banco no setor católico de Belfast,
em dezembro passado, do qual foi levado o equivalente a 140 milhões de
reais. Foi o maior crime desse tipo no Reino Unido desde o histórico assalto
ao trem pagador, em 1963. O uso de armas pesadas e o estilo militar do roubo fizeram
as suspeitas cair imediatamente sobre o IRA, o único grupo com capacidade
e experiência para uma ação dessas na Irlanda do Norte. O
assalto ajudou a melar as negociações iniciadas dias antes entre
os líderes do Sinn Fein e o principal partido da maioria protestante para
retomar um acordo suspenso em 2002. A nova negociação, que previa
a divisão mais equilibrada de poder na administração da Irlanda
do Norte, prometia ser o golpe final na disputa de 300 anos entre católicos
e protestantes que, desde o surgimento do IRA, levou à morte de 3.600 pessoas.
O segundo episódio a expor a faceta mafiosa
do IRA foi o assassinato de Robert McCartney e a posterior campanha de suas irmãs
por justiça. Os detalhes da morte de Robert, no fim de janeiro, mostraram
a disposição do grupo terrorista em atuar como um Estado paralelo
dentro da comunidade católica. O crime não teve motivação
política. Operário de 33 anos e pai de dois filhos, McCartney era
filiado ao Sinn Fein e participava de uma festa do partido em um pub do setor
católico de Belfast. Em determinado momento, começou uma pancadaria
no bar e Robert tentou impedir que outros participantes da festa que por
acaso eram terroristas do IRA agredissem um amigo. McCartney morreu esfaqueado.
Após o crime, os assassinos destruíram as câmeras de segurança
e, antes de fugir, ameaçaram de morte todos os presentes que se arriscassem
a contar o que viram à polícia. Pelo menos setenta pessoas estavam
no bar, incluindo três dirigentes do Sinn Fein. Nenhuma testemunha se dispôs
a colaborar com as investigações.
A intimidação não impediu as cinco irmãs e a namorada
de McCartney de exigir publicamente a punição dos culpados. Diante
da repercussão do caso, dirigentes do Sinn Fein e do IRA tentaram apaziguar
a família. O partido político suspendeu sete militantes, e o grupo
terrorista fez uma proposta espantosa à família McCartney: a própria
organização se encarregaria de punir os responsáveis com
tiros nos joelhos ou nos cotovelos. A proposta foi recusada pelas cinco irmãs,
para espanto dos chefões do IRA. Elas mantiveram sua exigência de
que os acusados se apresentem à Justiça. "O comunicado do IRA foi
um golpe fatal para sua imagem, pois confirma que o grupo abandonou a política
e passou a agir como uma organização mafiosa", disse a VEJA o cientista
político irlandês Brendan O'Leary, autor de cinco livros sobre o
grupo terrorista. A solução derradeira para o conflito entre católicos
e protestantes esbarra na recusa do IRA em desarmar-se. Desde que concordaram
em cessar os ataques terroristas, há quatro anos, os integrantes do grupo
dedicaram-se a usar seu armamento, sua organização e seu sistema
de lealdade entre chefes e subordinados para controlar o tráfico de armas,
a prostituição e outros tipos de negócios ilegais nos bairros
católicos. Fazer justiça com as próprias mãos contra
desafetos políticos e ladrões é comum nesse submundo que
só respeita as normas próprias. Os métodos de punição
vão desde o espancamento e tiros nas articulações até
a execução. Nos últimos anos, duas dezenas de pessoas foram
mortas em acertos de contas do IRA. Chegou-se ao ponto em que nem os católicos
irlandeses agüentam o IRA. |