Edição 1897 . 23 de março de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Auto-retrato
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Medicina
Um arsenal elétrico

Implantes que dão choques são uma arma
dos médicos para tratar alguns distúrbios


Giuliana Bergamo

A neuromodulação é uma terapia que parece ter boas perspectivas. Ela consiste no implante de aparelhos que, ao causar pequenos choques elétricos em áreas bem delimitadas do corpo, controlam doenças para as quais não há remédio. As primeiras máquinas de neuromodulação surgiram na década de 60. De lá para cá, elas foram ficando cada vez menores e mais precisas. Sintomas da doença de Parkinson, crises de epilepsia, alguns casos de surdez, quadros de obesidade mórbida e incontinência urinária já podem ser resolvidos à base desses eletrochoques. A promessa agora é que a técnica possa ajudar também as vítimas de depressão, enxaqueca e paralisia decorrente de derrame, entre outros distúrbios. Os dispositivos mais modernos têm menos de 5 centímetros de diâmetro e são compostos de uma bateria, um chip e microeletrodos. "Com o aperfeiçoamento tecnológico desses aparelhos, a esperança é que eles possam vir não só a atenuar, como também a evitar os sintomas de várias enfermidades, muito antes que eles se manifestem", diz o neurocirurgião Arthur Cukiert, um dos pioneiros no Brasil do uso da neuromodulação para o controle de crises de epilepsia. Os principais inconvenientes desses implantes são o preço – o mais barato custa 10.000 dólares – e o tempo de vida útil das baterias. De cinco a dez anos depois da cirurgia para a colocação do aparelho, a maioria dos pacientes tem de voltar à mesa de operação para recarregar a máquina.

As funções sensoriais e motoras do corpo humano são coordenadas pelo sistema nervoso. As suas ramificações espalhadas pelo organismo levam para o cérebro informações provenientes de estímulos externos e, ao mesmo tempo, servem para transportar os comandos cerebrais que permitem ao corpo reagir a elas. É graças a esse mecanismo que, por exemplo, esticamos o braço para pegar um copo de água quando estamos com sede ou recolhemos a mão ao encostar numa panela quente. Tudo isso ocorre por intermédio de trocas elétricas entre as células nervosas. É com base nisso que as terapias de neuromodulação foram desenvolvidas. Descobriu-se que algumas doenças e seus sintomas ou causam panes nesse circuito ou decorrem de falhas nesse sistema. No primeiro caso, enquadra-se, por exemplo, a doença de Parkinson, em que problemas de comunicação neural, por falta da substância dopamina, resultam em tremores nas mãos, entre outras complicações. No segundo caso, estão os quadros de paralisia deflagrados por um derrame. A neuromodulação visa a restabelecer alguma ordem na comunicação dos neurônios (veja quadro). Ou seja, regular os impulsos elétricos entre as células nervosas. Há situações em que o método funciona, mas sem que se saiba exatamente por quê. É o que ocorre no tratamento da obesidade mórbida. Um "marca-passo estomacal" dispara ininterruptamente pequenos choques na parede do estômago. Isso aumenta a sensação de saciedade e evita que o paciente se empanturre.

A neuromodulação surgiu no fim da década de 60, com a aplicação de eletrodos em vítimas de dores crônicas nas pernas. Mas só quase vinte anos mais tarde foi desenvolvido o primeiro aparelho suficientemente pequeno para ser implantado dentro do corpo. Hoje, cerca de 35% das dores crônicas nas costas e nas pernas que não têm solução com medicamentos podem ser tratadas com os implantes. Apesar dos sucessos conquistados pela neuromodulação, esse tipo de tratamento ainda suscita muitas dúvidas. Uma delas se refere ao seu uso mais extensivo para o tratamento da enxaqueca. Alguns neurologistas mais radicais defendem o implante de aparelhos em boa parte dos 900 milhões de pessoas que padecem dessa forma de dor de cabeça no mundo, 26 milhões delas no Brasil. Os mais cautelosos acham isso um exagero. A neuromodulação no combate à enxaqueca – um tratamento invasivo, não se deve esquecer – só seria indicada para casos muito graves, que não respondem a nenhum tipo de medicamento. "Esses pacientes representam menos de 1%", diz o neurocirurgião José Oswaldo de Oliveira Júnior, médico do Hospital do Câncer de São Paulo.

 

Tratamento de choque  

Quais as doenças que podem ser tratadas com a neuromodulação  

EPILEPSIA E DEPRESSÃO
O eletrodo é implantado no pescoço, junto ao nervo vago. Ele dispara pequenos choques em direção ao cérebro, com o objetivo de manter equilibrada a transmissão de impulsos elétricos entre os neurônios. Com isso, o aparelho ajuda no controle das crises de epilepsia. Desde 2000, vinte brasileiros já receberam o implante. Estuda-se o uso do mesmo dispositivo para o tratamento da depressão  

OBESIDADE
Está em uso no Canadá uma espécie de marca-passo para o estômago. Implantado na região situada logo abaixo da cintura, o aparelho bombardeia a parede externa do órgão com pequenos choques. Ainda não se sabe exatamente a causa, mas esses choques aumentam a sensação de saciedade. O implante ajudaria a eliminar até 35% do peso total do paciente. Deve ser aprovado em breve nos Estados Unidos  

INCONTINÊNCIA URINÁRIA
Um aparelho colocado no abdômen estimula o nervo sacro, na região lombar. Os impulsos elétricos controlam a ação do esfíncter da bexiga, amenizando a incontinência. O implante está disponível apenas em centros especializados, inclusive no Brasil  

DOENÇA DE PARKINSON
A bateria do aparelho é implantada no tórax do paciente, perto da clavícula, e eletrodos são colocados em seu cérebro. Os choques estimulam o tálamo, o globo pálido e o subtálamo, regiões do cérebro responsáveis pelo controle dos tremores nas mãos causados pela doença de Parkinson. Está disponível no Brasil há cerca de dez anos  

PARALISIA PÓS-DERRAME
Implantada no peito, a máquina estimula eletricamente a membrana que envolve o cérebro. Ondas elétricas ativam a área cerebral lesionada pelo derrame. Com isso, o paciente poderia recuperar alguns movimentos. O aparelho ainda está em fase de testes  

ENXAQUECA
Colocado na base do crânio, um aparelho emite impulsos elétricos em direção ao lobo occipital, o centro cerebral da visão. Essa estimulação aliviaria as crises de enxaqueca. O dispositivo ainda está em fase inicial de testes  

SURDEZ
O implante coclear é um dos mais antigos aparelhos de neuromodulação. Usado no Brasil desde a década de 70, permite às vítimas de surdez severa recuperar até 90% da audição. Um dispositivo colocado na parte externa do ouvido capta o som e o transforma em impulsos elétricos. Eletrodos implantados dentro do ouvido, na cóclea, levam esses estímulos ao cérebro  

DORES CRÔNICAS NAS PERNAS OU NAS COSTAS
Estímulos elétricos na medula ou na região cervical são capazes de inibir a sensação de dor enviada pelos nervos ao cérebro. Os estudos com esse tipo de implante começaram na década de 60 e desde meados dos anos 80 beneficiam pacientes brasileiros
 

Fontes: José Oswaldo de Oliveira Júnior, Arthur Cukiert, neurocirurgiões,
e Pedro Mangabeira Albernaz, otorrinolaringologista

 

Eletricidade, mas sem cirurgia

Desde que se provou que os remédios contra a depressão não dão conta de todos os casos da doença, os médicos buscam métodos alternativos capazes de atuar não só na química, mas também no circuito elétrico do cérebro. Um dos caminhos é o implante de eletrodos no pescoço, que enviam impulsos em direção ao cérebro e, com isso, atenuariam os sintomas mais graves da doença. Como toda operação, ela implica riscos. Recentemente, médicos da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, anunciaram uma técnica capaz de modular a comunicação elétrica entre os neurônios, sem a necessidade de levar o paciente para a sala de cirurgia. Trata-se de um aparelho que, por meio de ondas eletromagnéticas, é capaz de reduzir os sintomas da depressão severa. O equipamento está em fase de testes, mas os resultados são animadores. Suspeita-se que as ondas teriam o poder de aumentar o número de conexões nervosas entre o córtex pré-frontal e o sistema límbico. Ou seja, de fazer a ligação entre a área cerebral responsável pela tomada de decisões e a porção associada ao controle das emoções. Há teorias que defendem que a depressão é justamente o resultado da falha de comunicação entre essas duas regiões do cérebro.

 
 
 
 
topovoltar