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Medicina Um
arsenal elétrico Implantes que dão choques
são uma arma dos médicos para tratar alguns distúrbios
 Giuliana
Bergamo
A neuromodulação é uma terapia
que parece ter boas perspectivas. Ela consiste no implante de aparelhos que, ao
causar pequenos choques elétricos em áreas bem delimitadas do corpo,
controlam doenças para as quais não há remédio. As
primeiras máquinas de neuromodulação surgiram na década
de 60. De lá para cá, elas foram ficando cada vez menores e mais
precisas. Sintomas da doença de Parkinson, crises de epilepsia, alguns
casos de surdez, quadros de obesidade mórbida e incontinência urinária
já podem ser resolvidos à base desses eletrochoques. A promessa
agora é que a técnica possa ajudar também as vítimas
de depressão, enxaqueca e paralisia decorrente de derrame, entre outros
distúrbios. Os dispositivos mais modernos têm menos de 5 centímetros
de diâmetro e são compostos de uma bateria, um chip e microeletrodos.
"Com o aperfeiçoamento tecnológico desses aparelhos, a esperança
é que eles possam vir não só a atenuar, como também
a evitar os sintomas de várias enfermidades, muito antes que eles se manifestem",
diz o neurocirurgião Arthur Cukiert, um dos pioneiros no Brasil do uso
da neuromodulação para o controle de crises de epilepsia. Os principais
inconvenientes desses implantes são o preço o mais barato
custa 10.000 dólares e o tempo de vida útil das baterias.
De cinco a dez anos depois da cirurgia para a colocação do aparelho,
a maioria dos pacientes tem de voltar à mesa de operação
para recarregar a máquina. As funções
sensoriais e motoras do corpo humano são coordenadas pelo sistema nervoso.
As suas ramificações espalhadas pelo organismo levam para o cérebro
informações provenientes de estímulos externos e, ao mesmo
tempo, servem para transportar os comandos cerebrais que permitem ao corpo reagir
a elas. É graças a esse mecanismo que, por exemplo, esticamos o
braço para pegar um copo de água quando estamos com sede ou recolhemos
a mão ao encostar numa panela quente. Tudo isso ocorre por intermédio
de trocas elétricas entre as células nervosas. É com base
nisso que as terapias de neuromodulação foram desenvolvidas. Descobriu-se
que algumas doenças e seus sintomas ou causam panes nesse circuito ou decorrem
de falhas nesse sistema. No primeiro caso, enquadra-se, por exemplo, a doença
de Parkinson, em que problemas de comunicação neural, por falta
da substância dopamina, resultam em tremores nas mãos, entre outras
complicações. No segundo caso, estão os quadros de paralisia
deflagrados por um derrame. A neuromodulação visa a restabelecer
alguma ordem na comunicação dos neurônios (veja
quadro). Ou seja, regular os impulsos elétricos entre as células
nervosas. Há situações em que o método funciona, mas
sem que se saiba exatamente por quê. É o que ocorre no tratamento
da obesidade mórbida. Um "marca-passo estomacal" dispara ininterruptamente
pequenos choques na parede do estômago. Isso aumenta a sensação
de saciedade e evita que o paciente se empanturre.
A neuromodulação surgiu no fim da década de 60, com a aplicação
de eletrodos em vítimas de dores crônicas nas pernas. Mas só
quase vinte anos mais tarde foi desenvolvido o primeiro aparelho suficientemente
pequeno para ser implantado dentro do corpo. Hoje, cerca de 35% das dores crônicas
nas costas e nas pernas que não têm solução com medicamentos
podem ser tratadas com os implantes. Apesar dos sucessos conquistados pela neuromodulação,
esse tipo de tratamento ainda suscita muitas dúvidas. Uma delas se refere
ao seu uso mais extensivo para o tratamento da enxaqueca. Alguns neurologistas
mais radicais defendem o implante de aparelhos em boa parte dos 900 milhões
de pessoas que padecem dessa forma de dor de cabeça no mundo, 26 milhões
delas no Brasil. Os mais cautelosos acham isso um exagero. A neuromodulação
no combate à enxaqueca um tratamento invasivo, não se deve
esquecer só seria indicada para casos muito graves, que não
respondem a nenhum tipo de medicamento. "Esses pacientes representam menos de
1%", diz o neurocirurgião José Oswaldo de Oliveira Júnior,
médico do Hospital do Câncer de São Paulo.
Tratamento de choque
Quais as doenças que podem ser tratadas com a neuromodulação
EPILEPSIA E DEPRESSÃO O
eletrodo é implantado no pescoço, junto ao nervo vago. Ele dispara
pequenos choques em direção ao cérebro, com o objetivo de
manter equilibrada a transmissão de impulsos elétricos entre os
neurônios. Com isso, o aparelho ajuda no controle das crises de epilepsia.
Desde 2000, vinte brasileiros já receberam o implante. Estuda-se o uso
do mesmo dispositivo para o tratamento da depressão OBESIDADE Está
em uso no Canadá uma espécie de marca-passo para o estômago.
Implantado na região situada logo abaixo da cintura, o aparelho bombardeia
a parede externa do órgão com pequenos choques. Ainda não
se sabe exatamente a causa, mas esses choques aumentam a sensação
de saciedade. O implante ajudaria a eliminar até 35% do peso total do paciente.
Deve ser aprovado em breve nos Estados Unidos INCONTINÊNCIA
URINÁRIA Um aparelho colocado no abdômen estimula o nervo
sacro, na região lombar. Os impulsos elétricos controlam a ação
do esfíncter da bexiga, amenizando a incontinência. O implante está
disponível apenas em centros especializados, inclusive no Brasil
DOENÇA DE PARKINSON A bateria
do aparelho é implantada no tórax do paciente, perto da clavícula,
e eletrodos são colocados em seu cérebro. Os choques estimulam o
tálamo, o globo pálido e o subtálamo, regiões do cérebro
responsáveis pelo controle dos tremores nas mãos causados pela doença
de Parkinson. Está disponível no Brasil há cerca de dez anos
PARALISIA PÓS-DERRAME Implantada
no peito, a máquina estimula eletricamente a membrana que envolve o cérebro.
Ondas elétricas ativam a área cerebral lesionada pelo derrame. Com
isso, o paciente poderia recuperar alguns movimentos. O aparelho ainda está
em fase de testes ENXAQUECA Colocado
na base do crânio, um aparelho emite impulsos elétricos em direção
ao lobo occipital, o centro cerebral da visão. Essa estimulação
aliviaria as crises de enxaqueca. O dispositivo ainda está em fase inicial
de testes SURDEZ O implante coclear
é um dos mais antigos aparelhos de neuromodulação. Usado
no Brasil desde a década de 70, permite às vítimas de surdez
severa recuperar até 90% da audição. Um dispositivo colocado
na parte externa do ouvido capta o som e o transforma em impulsos elétricos.
Eletrodos implantados dentro do ouvido, na cóclea, levam esses estímulos
ao cérebro DORES CRÔNICAS
NAS PERNAS OU NAS COSTAS Estímulos elétricos na medula ou
na região cervical são capazes de inibir a sensação
de dor enviada pelos nervos ao cérebro. Os estudos com esse tipo de implante
começaram na década de 60 e desde meados dos anos 80 beneficiam
pacientes brasileiros Fontes:
José Oswaldo de Oliveira Júnior, Arthur Cukiert, neurocirurgiões,
e Pedro Mangabeira Albernaz, otorrinolaringologista | |
Eletricidade, mas sem cirurgia
Desde que se provou que os remédios contra a depressão não
dão conta de todos os casos da doença, os médicos buscam
métodos alternativos capazes de atuar não só na química,
mas também no circuito elétrico do cérebro. Um dos caminhos
é o implante de eletrodos no pescoço, que enviam impulsos em direção
ao cérebro e, com isso, atenuariam os sintomas mais graves da doença.
Como toda operação, ela implica riscos. Recentemente, médicos
da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, anunciaram uma técnica capaz
de modular a comunicação elétrica entre os neurônios,
sem a necessidade de levar o paciente para a sala de cirurgia. Trata-se de um
aparelho que, por meio de ondas eletromagnéticas, é capaz de reduzir
os sintomas da depressão severa. O equipamento está em fase de testes,
mas os resultados são animadores. Suspeita-se que as ondas teriam o poder
de aumentar o número de conexões nervosas entre o córtex
pré-frontal e o sistema límbico. Ou seja, de fazer a ligação
entre a área cerebral responsável pela tomada de decisões
e a porção associada ao controle das emoções. Há
teorias que defendem que a depressão é justamente o resultado da
falha de comunicação entre essas duas regiões do cérebro.
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