Edição 1897 . 23 de março de 2005

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Ambiente
A prova do efeito estufa

A cobertura de neve do Kilimanjaro,
cartão-postal da África, desaparece
no mesmo ritmo do aquecimento global


Ariel Kostman

O Monte Kilimanjaro, na Tanzânia, é a montanha mais alta do continente africano e também um de seus mais conhecidos cartões-postais. Mesmo se situando numa região de clima tropical, seus 5.895 metros de altitude permitiram que nos últimos 11.000 anos o cume permanecesse coberto de neve. Anualmente, 20.000 turistas visitam a região para conhecer as paisagens descritas por Ernest Hemingway em seu romance autobiográfico As Neves do Kilimanjaro, depois transformado em filme estrelado por Gregory Peck e Ava Gardner. A notícia chocante é que as famosas neves do Kilimanjaro, um maciço vulcânico, praticamente desapareceram, depois de definhar a olhos vistos nos últimos vinte anos. Tudo indica que por trás do fenômeno está o aquecimento global causado pela concentração na atmosfera de dióxido de carbono (CO2), o gás poluente emitido pela fumaça de fábricas e automóveis em todo o mundo. A camada de CO2 impede que parte da radiação solar que chega à Terra volte ao espaço e se disperse, criando-se assim o efeito estufa, que já elevou em 1 grau a temperatura média do planeta nas últimas décadas.

Na semana passada, o Monte Kilimanjaro, cujo nome em swahili, o idioma local, significa "a montanha que brilha", se transformou num dos símbolos dos ambientalistas. Fotos da montanha já sem neve foram distribuídas num livro aos ministros da área de energia e meio ambiente de vinte países que se reuniram em Londres para discutir o combate ao aquecimento global. Na pauta do encontro estavam as medidas propostas pela Inglaterra, que lidera o movimento pela redução de CO2 entre os países desenvolvidos.

Segundo um estudo do Byrd Polar Research Center, da Universidade do Estado de Ohio, desde 1912 o Kilimanjaro vem perdendo lentamente sua cobertura gelada em conseqüência de uma ligeira mudança no clima africano, que se tornou mais seco. Nada que se compare, porém, à evaporação ocorrida recentemente por causa do efeito estufa. "No início do século passado havia 12 quilômetros quadrados de gelo no topo do Kilimanjaro e, em 2000, apenas 2,2", informa o autor do estudo, o climatologista Lonnie G. Thompson. "Até 2020, o gelo terá sumido completamente", ele prevê. Fenômeno semelhante está ocorrendo, embora em menor escala, nas geleiras dos Alpes, dos Andes e do Himalaia. Na véspera do encontro de Londres, a organização WWF (Fundo Mundial para a Natureza) divulgou um estudo afirmando que as geleiras do Himalaia estão recuando entre 10 e 15 metros por ano, o que pode provocar enchentes no norte da Índia e, mais tarde, deixar centenas de milhões de pessoas sem abastecimento de água na própria Índia, na China e no Nepal.

Se as emissões de dióxido de carbono se mantiverem nos níveis atuais, até o fim do século a temperatura média no planeta pode aumentar em até 6 graus, causando uma série de catástrofes naturais. Os especialistas concordam que o principal instrumento para evitar essa tragédia é o Tratado de Kioto, um acordo pelo qual os 141 países signatários se comprometem a diminuir a emissão de gases poluentes nas próximas décadas. O objetivo inicial é, até 2012, diminuir os índices a um nível 5% abaixo daquele verificado em 1990. O problema é que os Estados Unidos, responsáveis por um quarto da poluição global gerada por dióxido de carbono, se recusam a ratificar o tratado alegando que ele seria prejudicial à economia americana. A recusa do governo americano em aderir ao acordo tem o respaldo de um grupo de cientistas que acreditam que o aquecimento global não é causado pelo homem. Segundo eles, as emissões de dióxido de carbono têm pouca influência no fenômeno. O aumento das temperaturas na Terra e o derretimento das geleiras seriam apenas mais uma das alterações que ocorrem no clima do planeta de tempo em tempo. Muitas vezes as pesquisas desses cientistas, é bom que se note, são financiadas por governos ou instituições que têm os interesses contrariados pelo Tratado de Kioto. Em geral, a comunidade científica concorda que é preciso fazer algo antes que seja tarde demais.

 
 
 
 
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