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Ambiente A
prova do efeito estufa A cobertura de neve do Kilimanjaro,
cartão-postal da África, desaparece no mesmo ritmo do aquecimento
global  Ariel
Kostman
O Monte Kilimanjaro, na Tanzânia, é
a montanha mais alta do continente africano e também um de seus mais conhecidos
cartões-postais. Mesmo se situando numa região de clima tropical,
seus 5.895 metros de altitude permitiram que nos últimos 11.000 anos o
cume permanecesse coberto de neve. Anualmente, 20.000 turistas visitam a região
para conhecer as paisagens descritas por Ernest Hemingway em seu romance autobiográfico
As Neves do Kilimanjaro, depois transformado em filme estrelado por Gregory
Peck e Ava Gardner. A notícia chocante é que as famosas neves do
Kilimanjaro, um maciço vulcânico, praticamente desapareceram, depois
de definhar a olhos vistos nos últimos vinte anos. Tudo indica que por
trás do fenômeno está o aquecimento global causado pela concentração
na atmosfera de dióxido de carbono (CO2), o gás poluente
emitido pela fumaça de fábricas e automóveis em todo o mundo.
A camada de CO2 impede que parte da radiação solar que
chega à Terra volte ao espaço e se disperse, criando-se assim o
efeito estufa, que já elevou em 1 grau a temperatura média do planeta
nas últimas décadas. Na semana passada,
o Monte Kilimanjaro, cujo nome em swahili, o idioma local, significa "a montanha
que brilha", se transformou num dos símbolos dos ambientalistas. Fotos
da montanha já sem neve foram distribuídas num livro aos ministros
da área de energia e meio ambiente de vinte países que se reuniram
em Londres para discutir o combate ao aquecimento global. Na pauta do encontro
estavam as medidas propostas pela Inglaterra, que lidera o movimento pela redução
de CO2 entre os países desenvolvidos.
Segundo um estudo do Byrd Polar Research Center, da Universidade do Estado de
Ohio, desde 1912 o Kilimanjaro vem perdendo lentamente sua cobertura gelada em
conseqüência de uma ligeira mudança no clima africano, que se
tornou mais seco. Nada que se compare, porém, à evaporação
ocorrida recentemente por causa do efeito estufa. "No início do século
passado havia 12 quilômetros quadrados de gelo no topo do Kilimanjaro e,
em 2000, apenas 2,2", informa o autor do estudo, o climatologista Lonnie G. Thompson.
"Até 2020, o gelo terá sumido completamente", ele prevê. Fenômeno
semelhante está ocorrendo, embora em menor escala, nas geleiras dos Alpes,
dos Andes e do Himalaia. Na véspera do encontro de Londres, a organização
WWF (Fundo Mundial para a Natureza) divulgou um estudo afirmando que as geleiras
do Himalaia estão recuando entre 10 e 15 metros por ano, o que pode provocar
enchentes no norte da Índia e, mais tarde, deixar centenas de milhões
de pessoas sem abastecimento de água na própria Índia, na
China e no Nepal. Se as emissões de dióxido
de carbono se mantiverem nos níveis atuais, até o fim do século
a temperatura média no planeta pode aumentar em até 6 graus, causando
uma série de catástrofes naturais. Os especialistas concordam que
o principal instrumento para evitar essa tragédia é o Tratado de
Kioto, um acordo pelo qual os 141 países signatários se comprometem
a diminuir a emissão de gases poluentes nas próximas décadas.
O objetivo inicial é, até 2012, diminuir os índices a um
nível 5% abaixo daquele verificado em 1990. O problema é que os
Estados Unidos, responsáveis por um quarto da poluição global
gerada por dióxido de carbono, se recusam a ratificar o tratado alegando
que ele seria prejudicial à economia americana. A recusa do governo americano
em aderir ao acordo tem o respaldo de um grupo de cientistas que acreditam que
o aquecimento global não é causado pelo homem. Segundo eles, as
emissões de dióxido de carbono têm pouca influência
no fenômeno. O aumento das temperaturas na Terra e o derretimento das geleiras
seriam apenas mais uma das alterações que ocorrem no clima do planeta
de tempo em tempo. Muitas vezes as pesquisas desses cientistas, é bom que
se note, são financiadas por governos ou instituições que
têm os interesses contrariados pelo Tratado de Kioto. Em geral, a comunidade
científica concorda que é preciso fazer algo antes que seja tarde
demais. |