Edição 1897 . 23 de março de 2005

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Rio de Janeiro
Uma crise sem remédio

Intervenção federal expõe caos
na saúde do Rio e prejudica planos
de Cesar Maia para 2006


Ronaldo França



Marizilda Cruppe/Ag. O Globo
Remédios novos e vencidos misturados em um dos hospitais sob intervenção: desleixo e risco

O prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia, construiu, ao longo de três mandatos, uma imagem de bom administrador. Graças a ela, reelegeu-se em outubro passado no primeiro turno, com 1,7 milhão de votos, e, em seguida, teve seu nome lançado pelo PFL como virtual candidato do partido à Presidência da República. Na semana passada, essa imagem foi estilhaçada por outras, como a retratada na foto acima. A pilha de caixas de remédio foi encontrada dentro de uma sala do Hospital Municipal Cardoso Fontes, na Zona Oeste da cidade, e continha produtos com prazo de validade vencido misturados a outros ainda bons para o consumo. A descoberta foi especialmente assustadora porque, na rede pública do Rio, faltam remédios. A imagem dessa sala é apenas um fragmento da monumental crise gerencial e administrativa que, sob a batuta de Cesar Maia, se instalou no setor de saúde do município. Hospitais desabastecidos, centros cirúrgicos com infiltrações nas paredes, salas de cirurgia sem ar-condicionado e médicos com salários atrasados foram alguns dos problemas que vieram a público. Uma situação tão grave que justificou a intervenção do governo federal em seis hospitais.

Se a situação encontrada pelos interventores já era de total descalabro (veja exemplos), a prefeitura, para piorar, tentou criar obstáculos ao trabalho da equipe de cerca de sessenta interventores enviados pelo Ministério da Saúde. Foram exonerados pela prefeitura 333 funcionários que ocupavam cargos de confiança. Um golpe certeiro na qualidade administrativa de qualquer instituição. Uma liminar da Advocacia-Geral da União impediu o desmonte. Não foi só. Médicos residentes também tiveram o salário suspenso. Compras de medicamentos feitas pela prefeitura foram canceladas. A reforma de um centro cirúrgico, já em andamento, foi interrompida. Estabeleceu-se então o espetáculo no qual os políticos são imbatíveis: esqueça-se o interesse público e monte-se um palanque eleitoral. Na mira, as eleições de 2006. Com a candidatura de Cesar Maia, político bom de voto, o PFL passou a ter espaço na corrida, ainda que ele não seja o candidato com o qual o partido pretenda efetivamente participar do pleito presidencial. O mais provável é que Maia tente a eleição ao governo do estado. É com um olho em 2006 que a prefeitura e o governo federal estão conduzindo o problema que afeta a vida de uma população estimada em 5 milhões de pessoas. O surpreendente é a ajuda que o prefeito e sua equipe deram aos adversários políticos.

Cesar Maia cunhou para si uma personalidade pública controvertida. Especializou-se nos agora famosos factóides (segundo o Aurélio: "fato, verdadeiro ou não, divulgado com sensacionalismo, no propósito deliberado de gerar impacto diante da opinião pública e influenciá-la"). São freqüentes suas rusgas com outras esferas de governo. Em alguns casos, diga-se a bem da verdade, justificadamente. Neste momento, além da disputa com o governo federal, suas relações são ruins com o governo estadual, cuja política de segurança mantém sob críticas rigorosas. Em outros casos, a beligerância do prefeito ultrapassa todos os limites do bom senso. Em pé de guerra com o Ibama, Cesar Maia rompeu o convênio da prefeitura com o governo federal para a limpeza e a segurança no Parque Nacional da Tijuca, o que inclui o acesso ao Cristo Redentor.

"A crise é federal. A transferência dos hospitais para o município dobrou os custos da prefeitura, que não pode absorvê-los", alega Cesar Maia. O que o prefeito não reconhece é que sua administração foi contaminada pela queda-de-braço política com o governo federal, em prejuízo da população. Isso pode ter um preço. Pesquisa recente do Ibope apontou Maia como o primeiro colocado nas intenções de voto ao governo do estado, com 37%. O segundo colocado, o senador Sérgio Cabral, do PMDB, tinha apenas 19%. Com problemas como os da semana passada, dificilmente Maia conseguirá se manter com tamanha vantagem na liderança. Sua administração, no setor de saúde, entrou na UTI federal. Pelo que se sabe até agora, não tem data para sair. Já a imagem de bom administrador pode ser um caso sem solução.

 

A saúde de pernas para o ar


Ana Araújo
O prefeito Cesar Maia: mancha no currículo de um político que ganhou fama de bom administrador

No Hospital Souza Aguiar, o maior da cidade, havia apenas um aparelho de raio X funcionando, mas equipamentos novos ainda estavam guardados nas caixas

No Hospital da Lagoa, 75% dos leitos e todas as salas de cirurgia estavam fechados

No Hospital do Andaraí, um dos mais importantes da Zona Norte da cidade, a emergência estava fechada

Por não cumprir ritos administrativos, a prefeitura deixou de receber 56 milhões de reais por ano do Ministério da Saúde

No Programa Saúde da Família, o município cumpriu apenas 9% das metas acertadas

Fonte: Ministério da Saúde

 

 
 
 
 
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