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Rio de Janeiro
Uma crise sem remédio
Intervenção federal expõe
caos
na saúde do Rio e prejudica planos
de Cesar Maia para 2006

Ronaldo França
Marizilda Cruppe/Ag. O Globo
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| Remédios novos e vencidos misturados em um
dos hospitais sob intervenção: desleixo e risco |
O prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia, construiu,
ao longo de três mandatos, uma imagem de bom administrador.
Graças a ela, reelegeu-se em outubro passado no primeiro
turno, com 1,7 milhão de votos, e, em seguida, teve seu nome
lançado pelo PFL como virtual candidato do partido à
Presidência da República. Na semana passada, essa imagem
foi estilhaçada por outras, como a retratada na foto acima.
A pilha de caixas de remédio foi encontrada dentro de uma
sala do Hospital Municipal Cardoso Fontes, na Zona Oeste da cidade,
e continha produtos com prazo de validade vencido misturados a outros
ainda bons para o consumo. A descoberta foi especialmente assustadora
porque, na rede pública do Rio, faltam remédios. A
imagem dessa sala é apenas um fragmento da monumental crise
gerencial e administrativa que, sob a batuta de Cesar Maia, se instalou
no setor de saúde do município. Hospitais desabastecidos,
centros cirúrgicos com infiltrações nas paredes,
salas de cirurgia sem ar-condicionado e médicos com salários
atrasados foram alguns dos problemas que vieram a público.
Uma situação tão grave que justificou a intervenção
do governo federal em seis hospitais.
Se a situação encontrada pelos
interventores já era de total descalabro (veja
exemplos), a prefeitura, para piorar, tentou criar
obstáculos ao trabalho da equipe de cerca de sessenta interventores
enviados pelo Ministério da Saúde. Foram exonerados
pela prefeitura 333 funcionários que ocupavam cargos de confiança.
Um golpe certeiro na qualidade administrativa de qualquer instituição.
Uma liminar da Advocacia-Geral da União impediu o desmonte.
Não foi só. Médicos residentes também
tiveram o salário suspenso. Compras de medicamentos feitas
pela prefeitura foram canceladas. A reforma de um centro cirúrgico,
já em andamento, foi interrompida. Estabeleceu-se então
o espetáculo no qual os políticos são imbatíveis:
esqueça-se o interesse público e monte-se um palanque
eleitoral. Na mira, as eleições de 2006. Com a candidatura
de Cesar Maia, político bom de voto, o PFL passou a ter espaço
na corrida, ainda que ele não seja o candidato com o qual
o partido pretenda efetivamente participar do pleito presidencial.
O mais provável é que Maia tente a eleição
ao governo do estado. É com um olho em 2006 que a prefeitura
e o governo federal estão conduzindo o problema que afeta
a vida de uma população estimada em 5 milhões
de pessoas. O surpreendente é a ajuda que o prefeito e sua
equipe deram aos adversários políticos.
Cesar Maia cunhou para si uma personalidade
pública controvertida. Especializou-se nos agora famosos
factóides (segundo o Aurélio: "fato, verdadeiro
ou não, divulgado com sensacionalismo, no propósito
deliberado de gerar impacto diante da opinião pública
e influenciá-la"). São freqüentes suas rusgas
com outras esferas de governo. Em alguns casos, diga-se a bem da
verdade, justificadamente. Neste momento, além da disputa
com o governo federal, suas relações são ruins
com o governo estadual, cuja política de segurança
mantém sob críticas rigorosas. Em outros casos, a
beligerância do prefeito ultrapassa todos os limites do bom
senso. Em pé de guerra com o Ibama, Cesar Maia rompeu o convênio
da prefeitura com o governo federal para a limpeza e a segurança
no Parque Nacional da Tijuca, o que inclui o acesso ao Cristo Redentor.
"A crise é federal. A transferência
dos hospitais para o município dobrou os custos da prefeitura,
que não pode absorvê-los", alega Cesar Maia. O que
o prefeito não reconhece é que sua administração
foi contaminada pela queda-de-braço política com o
governo federal, em prejuízo da população.
Isso pode ter um preço. Pesquisa recente do Ibope apontou
Maia como o primeiro colocado nas intenções de voto
ao governo do estado, com 37%. O segundo colocado, o senador Sérgio
Cabral, do PMDB, tinha apenas 19%. Com problemas como os da semana
passada, dificilmente Maia conseguirá se manter com tamanha
vantagem na liderança. Sua administração, no
setor de saúde, entrou na UTI federal. Pelo que se sabe até
agora, não tem data para sair. Já a imagem de bom
administrador pode ser um caso sem solução.
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A saúde
de pernas para o ar
Ana Araújo
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| O prefeito Cesar Maia: mancha
no currículo de um político que ganhou
fama de bom administrador |
No Hospital Souza Aguiar, o maior da cidade, havia apenas
um aparelho de raio X funcionando, mas equipamentos
novos ainda estavam guardados nas caixas
No Hospital da Lagoa, 75% dos leitos e todas as salas
de cirurgia estavam fechados
No Hospital do Andaraí, um dos mais importantes
da Zona Norte da cidade, a emergência estava fechada
Por não cumprir ritos administrativos, a prefeitura
deixou de receber 56 milhões de reais por ano
do Ministério da Saúde
No Programa Saúde da Família, o município
cumpriu apenas 9% das metas acertadas
Fonte: Ministério
da Saúde
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