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Brasil Vitória
da democracia Fez vinte anos, neste dia
15 de março, que o poder foi devolvido aos civis. Dois consumados
artistas da política, Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, desferiram
o golpe de misericórdia no regime militar  Roberto
Pompeu de Toledo
Orlando
Brito
 | | Tancredo,
com Sarney de um lado e Ulysses do outro, discursa em seguida à vitória na eleição
indireta |
Um era alto, outro, baixo. Um escondia,
atrás de impressionantes pálpebras, olhos de um azul translúcido.
O outro trazia os olhos quase fechados, de tão apertados. Um exibia sua
melhor forma ao discursar, a voz forte, a eloqüência tecida em frases
torneadas com esmero. O outro estava em seu ambiente nas conversas ao pé
de ouvido, feitas de insinuações exploratórias e desejos
apenas esboçados. Um, o paulista Ulysses Silveira Guimarães, foi
apelidado de "Senhor Diretas" desde que sintetizou na campanha pela eleição
direta para a Presidência a causa da redemocratização do Brasil.
O outro, o mineiro Tancredo de Almeida Neves, nunca foi chamado de "Senhor Indireta",
mas poderia ter sido. Ele perpetrou o milagre de transformar a última das
celebrações fechadas, fraudulentamente chamadas de eleições
pelos militares uma burla sazonal destinada a sacramentar o nome já
ungido nas confabulações dos quartéis , na maior consagração
de um candidato presidencial da história do país.
No momento em que se celebram vinte anos do fim do regime militar, é de
justiça lembrar sobretudo dos dois. Ulysses e Tancredo foram, com estilos
diferentes e convicções parecidas, dois artistas da política.
Juntos, formaram uma dupla. Como, talvez, para explorar os paralelismos na história
brasileira, dom Pedro I e José Bonifácio, nas idas e vindas, costuras
e descosturas, que resultaram na Independência. É tentador compará-los
a outra dupla, Dom Quixote e Sancho Pança. Ulysses à primeira vista
se encaixaria, de corpo e alma, no formato de Quixote, e Tancredo no de Sancho
mas a comparação não se sustenta. Um e outro tinham
tanto de Quixote quanto de Sancho. Ulysses foi um Quixote com um Sancho na barriga,
Tancredo um Sancho com um Quixote implantado no cérebro. Outra diferença
é que os dois não combateram moinhos de vento, mas a fortaleza real
da ditadura. Essa luta venceram. Perderam outra: ambos acalentaram o sonho de
ser presidente, e não foram.
A redemocratização que se consuma no dia 15 de março de 1985,
dia de festa e pesar festa pela posse do primeiro presidente civil, pesar
pela hospitalização às pressas de Tancredo, na noite anterior
, tem origem mais de dez anos antes. Eleição parlamentar de
15 de novembro de 1974 esse o marco inaugural. A oposição
legal, encarnada no MDB um dos dois partidos permitidos pelas regras do
regime , elege dezesseis entre 22 senadores e aumenta a bancada na Câmara
de 87 para 160 deputados. Engraçada, a ditadura brasileira. Nos porões,
torturava e matava. Mas queria apresentar, aos olhos do mundo e de si mesma, uma
face civilizada e permitia eleições. Era como alguém
de cuecas que, da cintura para cima, se cobrisse de fraque. Não eram eleições
para presidente, governador, ou prefeito de cidade grande, que aí já
seria demais. Mas o Congresso o regime queria ver funcionando desde também
que não se levasse demasiado a sério, como poder autônomo.
Eis o regime afundado na contradição
que viria a perdê-lo. Para ter um Congresso, precisava fazer eleição.
E, para fazer eleição, tinha de se submeter a essa entidade com
alto risco de sair do controle, chamada eleitor. Nos primeiros anos, o sistema
rígido garantiu tranqüilidade à Arena, o dócil partido
do governo. Mas agora, na eleição de 1974, algo se quebrara. O feitiço
da oposição consentida e do bipartidarismo ameaçava virar
contra o feiticeiro. Orlando
Brito
 | | A
campanha das diretas, com suas principais estrelas no palanque, e a celebração
pela vitória de Tancredo no Congresso | Jorge
Rosenberg
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Mas recuemos alguns meses. O espetacular desempenho da oposição,
em novembro de 1974, não teria sido possível sem outro evento
a candidatura de Ulysses Guimarães à Presidência, na eleição
que, em janeiro daquele ano, sacramentaria o general Ernesto Geisel como quarto
comandante do regime. Ou melhor, a "anticandidatura". De todas as criações
do artista Ulysses, na arte da política, esta foi sua obra-prima. Foi operacional,
porque dela resultaram frutos, mas também e sobretudo bela.
No papel de anticandidato, Ulysses foi insuflado, mais do que nunca, pelo espírito
do Quixote. Mas o Sancho que guardava nas entranhas se mantinha ligado para o
que a representação podia render de agito e de propaganda.
Ulysses teve a idéia numa noite em São Paulo. Numa conversa boêmia
com um velho amigo, o advogado e escritor de livros policiais Luís Lopes
Coelho, contou, entre um uísque e outro, que ele e os companheiros da cúpula
do MDB estavam namorando a idéia de lançar sua candidatura, mas
ainda não tinham encontrado o jeito de fazê-lo. Havia dois perigos.
Por um lado, a candidatura podia cair no ridículo, de tão fantasiosa.
Por outro, podia servir de chancela à eleição indireta, criando
a ilusão de que realmente houvera disputa. Como fazer? Uísque vai,
conversa vem, Ulysses teve o estalo. "Anticandidatura." Tinha encontrado a palavra.
Ele exercia o ofício da política com o mesmo instrumento dos poetas:
as palavras. Seria uma "anticandidatura", não uma candidatura, revelando
no nome a ironia e a dubiedade da situação. Ele seria o anticandidato.
A convenção do MDB lançou-o
como anticandidato em setembro de 1973. O discurso que então pronunciou,
redigido todo de próprio punho, inscreve-se entre os mais admiráveis
da história do Brasil. Começava assim: "O paradoxo é o signo
da presente sucessão presidencial brasileira. O anunciado como candidato
em verdade já é o presidente. Não aguarda a eleição
e sim a posse. Na oposição também não há candidato,
pois não pode haver candidato a lugar de antemão provido. A 15 de
janeiro próximo, com o apelido de eleição, o Congresso Nacional
será palco de cerimônia de diplomação, na qual senadores,
deputados federais e estaduais da agremiação majoritária
certificarão investidura outorgada com anterioridade."
Orlando
Brito
 | | Posse
de Sarney: vice virou titular |
O
trecho tem forma de um enunciado lógico. Remete a outro enunciado lógico
da história do Brasil o famoso "sorites de Nabuco", formulado não
por Joaquim, mas por seu pai, José Tomás, para desmascarar a farsa
eleitoral do Império: "O Poder Moderador pode chamar a quem quiser para
organizar ministérios; esta pessoa faz a eleição, porque
há de fazê-la; esta eleição faz a maioria. Eis aí
está o sistema representativo do nosso país".
O discurso de Ulysses tinha trechos poéticos, como o "Navegar é
preciso, viver não é preciso", criado para orientação
dos navegadores romanos, retomado por Fernando Pessoa e aclimatado a um fado por
Caetano Veloso. E palavras que explicitavam o sentido da campanha que se iniciava:
"Não é o candidato que vai percorrer o país. É o anticandidato,
para denunciar a antieleição, imposta pela anticonstituição
(...)". Apesar dos numerosos empecilhos
espalhados no caminho pela censura, a começar pela proibição
da transmissão da convenção do MDB pela televisão,
a anticandidatura suscitou eventos, mostrou que a oposição estava
viva, e plantou as sementes do êxito do MDB na eleição parlamentar
seguinte. Outro capítulo do
processo de redemocratização desenrolava-se simultaneamente dentro
dos palácios, tendo por protagonista outra dupla, os generais Geisel e
Golbery do Couto e Silva. Chamava-se "abertura", devia ser "lenta, gradual e segura",
segundo a fórmula de Geisel, e se desenvolvia porque os dois, os mais lúcidos
dirigentes produzidos pelo regime, perceberam que o sistema caminhava para a ruína.
Uma saída tinha de ser encontrada. Pulemos este pedaço. O momento
é de celebração do poder civil. Apressemos o passo até
o xeque-mate aplicado no regime. Ele se desdobra em dois lances a campanha
das diretas e a eleição presidencial indireta de 1985. No primeiro
sobressai Ulysses, no segundo, Tancredo.
A obra de arte, aqui, é o elo que se estabelece entre um episódio
e outro, bem como entre um personagem e outro. Ulysses e Tancredo foram eleitos
no mesmo ano 1947 para as Assembléias Legislativas dos respectivos
estados. No mesmo ano 1950 ganharam cadeiras de deputado federal.
Ambos começaram no mesmo partido, o PSD. Foram juntos para a oposição,
depois do golpe de 1964 Ulysses com a característica estridência,
Tancredo com discrição, Ulysses com estratégias no limite
da utopia, Tancredo com pés no chão. Foram companheiros desde sempre
e desenvolveram carreiras paralelas. Mas o momento em que a dupla realmente funcionou,
e em seus movimentos imprimiu o empurrão final na ditadura, foi este.
A campanha das diretas foi dessas ocasiões históricas em que a nacionalidade
se reencontra consigo mesma. Entre janeiro e abril de 1984, milhões de
pessoas ocuparam as ruas de várias capitais. E foi o momento de Ulysses.
Nada mais natural que ele assumisse o comando. Nada mais lógico imaginar
que, se a campanha vingasse, seria ele o eleito para presidente. Não vingou.
A emenda constitucional que restabeleceria a eleição direta teve
no Congresso 298 votos favoráveis e 65 contra. Não atingiu os 320,
ou dois terços dos parlamentares, necessários.
Seguiu-se àquele dia 25 de abril de 1984 um clima de desolação,
mas havia um gambito a executar. Havia um Tancredo de reserva. Tancredo era o
homem, para a eleição indireta. Era o estadista da ala moderada
do MDB, aliás, agora PMDB. O político da conversa e da conciliação.
Tinha o perfil ideal para, ao mesmo tempo, tranqüilizar os militares e soldar
uma aliança com os dissidentes civis do regime. Foi a hora de Tancredo,
mas o curioso e esperto um atentado à lógica foi a
transformação da eleição indireta numa apoteose. Esticou-se
para a campanha de Tancredo o clima da campanha das direitas. Ele foi eleito por
um reduzido colégio eleitoral, com 480 votos contra 180 do candidato do
regime, Paulo Maluf, mas os números não traduzem em sua inteireza
aquela encruzilhada da história. Tancredo, candidato indireto diante de
um pífio colégio eleitoral, foi, na crônica eleitoral brasileira,
o candidato à Presidência eleito do modo mais consagrador. Pesou
a seu favor uma rara conjugação de fatores: o clima de empolgação
herdado da campanha das diretas, o cansaço com o regime, os meios de comunicação
a favor, o desejo de mudança.
Faz tempo que o Brasil não celebra mais os grandes homens. A categoria
dos "grandes homens" está em decadência. Nos meios mais ilustrados,
até se tem vergonha de invocá-la. O dinheiro brasileiro não
exibe a efígie dos heróis da pátria exibe bichos.
O general Milton Tavares de Souza, que entre outras proezas, como ás da
repressão, impediu a transmissão pela TV do discurso da anticandidatura,
empresta o nome, na cidade de São Paulo, a uma praça e a um concorrido
viaduto. Ulysses Guimarães dá nome a uma ruazinha num bairro distante.
Ulysses e Tancredo foram, com perdão pelo conceito fora de moda, grandes
homens. "Eu sou pragmático e conciliador na ação, mas inflexível
nos princípios", dizia Tancredo. "Sempre que você transige em princípios,
ganha num episódio, mas apenas num episódio." Nestes tempos de baixo
clero, raros entenderão o ensinamento contido na frase.
Ao assalto final à fortaleza do regime seguiu-se o absurdo. Na noite de
14 de março, bem na véspera de tomar posse, Tancredo foi internado.
Quem tomou posse foi José Sarney, o vice escolhido entre os dissidentes
da antiga ordem. O país inauguraria a nova fase com a respiração
suspensa, entre aflito e incrédulo a cada uma das sete operações
do presidente titular. Tancredo morreu no dia 21 de abril. Ulysses sobreviveu-o
por sete anos e meio. Morreu em 12 de outubro de 1992, quando o helicóptero
em que viajava mergulhou nas águas de Angra dos Reis, e virou comida de
peixe. Que esta data de vinte anos de queda do regime militar renda um pensamento
para eles dois. |