Edição 1897 . 23 de março de 2005

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Brasil
Vitória da democracia

Fez vinte anos, neste dia 15 de março,
que o poder foi devolvido aos civis. Dois
consumados artistas da política, Ulysses
Guimarães e Tancredo Neves, desferiram
o golpe de misericórdia no regime militar


Roberto Pompeu de Toledo

 
Orlando Brito
Tancredo, com Sarney de um lado e Ulysses do outro, discursa em seguida à vitória na eleição indireta

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Memórias do Regime Militar

Um era alto, outro, baixo. Um escondia, atrás de impressionantes pálpebras, olhos de um azul translúcido. O outro trazia os olhos quase fechados, de tão apertados. Um exibia sua melhor forma ao discursar, a voz forte, a eloqüência tecida em frases torneadas com esmero. O outro estava em seu ambiente nas conversas ao pé de ouvido, feitas de insinuações exploratórias e desejos apenas esboçados. Um, o paulista Ulysses Silveira Guimarães, foi apelidado de "Senhor Diretas" desde que sintetizou na campanha pela eleição direta para a Presidência a causa da redemocratização do Brasil. O outro, o mineiro Tancredo de Almeida Neves, nunca foi chamado de "Senhor Indireta", mas poderia ter sido. Ele perpetrou o milagre de transformar a última das celebrações fechadas, fraudulentamente chamadas de eleições pelos militares – uma burla sazonal destinada a sacramentar o nome já ungido nas confabulações dos quartéis –, na maior consagração de um candidato presidencial da história do país.

No momento em que se celebram vinte anos do fim do regime militar, é de justiça lembrar sobretudo dos dois. Ulysses e Tancredo foram, com estilos diferentes e convicções parecidas, dois artistas da política. Juntos, formaram uma dupla. Como, talvez, para explorar os paralelismos na história brasileira, dom Pedro I e José Bonifácio, nas idas e vindas, costuras e descosturas, que resultaram na Independência. É tentador compará-los a outra dupla, Dom Quixote e Sancho Pança. Ulysses à primeira vista se encaixaria, de corpo e alma, no formato de Quixote, e Tancredo no de Sancho – mas a comparação não se sustenta. Um e outro tinham tanto de Quixote quanto de Sancho. Ulysses foi um Quixote com um Sancho na barriga, Tancredo um Sancho com um Quixote implantado no cérebro. Outra diferença é que os dois não combateram moinhos de vento, mas a fortaleza real da ditadura. Essa luta venceram. Perderam outra: ambos acalentaram o sonho de ser presidente, e não foram.

A redemocratização que se consuma no dia 15 de março de 1985, dia de festa e pesar – festa pela posse do primeiro presidente civil, pesar pela hospitalização às pressas de Tancredo, na noite anterior –, tem origem mais de dez anos antes. Eleição parlamentar de 15 de novembro de 1974 – esse o marco inaugural. A oposição legal, encarnada no MDB – um dos dois partidos permitidos pelas regras do regime –, elege dezesseis entre 22 senadores e aumenta a bancada na Câmara de 87 para 160 deputados. Engraçada, a ditadura brasileira. Nos porões, torturava e matava. Mas queria apresentar, aos olhos do mundo e de si mesma, uma face civilizada – e permitia eleições. Era como alguém de cuecas que, da cintura para cima, se cobrisse de fraque. Não eram eleições para presidente, governador, ou prefeito de cidade grande, que aí já seria demais. Mas o Congresso o regime queria ver funcionando – desde também que não se levasse demasiado a sério, como poder autônomo.

Eis o regime afundado na contradição que viria a perdê-lo. Para ter um Congresso, precisava fazer eleição. E, para fazer eleição, tinha de se submeter a essa entidade com alto risco de sair do controle, chamada eleitor. Nos primeiros anos, o sistema rígido garantiu tranqüilidade à Arena, o dócil partido do governo. Mas agora, na eleição de 1974, algo se quebrara. O feitiço da oposição consentida e do bipartidarismo ameaçava virar contra o feiticeiro.

 
Orlando Brito
A campanha das diretas, com suas principais estrelas no palanque, e a celebração pela vitória de Tancredo no Congresso
Jorge Rosenberg

Mas recuemos alguns meses. O espetacular desempenho da oposição, em novembro de 1974, não teria sido possível sem outro evento – a candidatura de Ulysses Guimarães à Presidência, na eleição que, em janeiro daquele ano, sacramentaria o general Ernesto Geisel como quarto comandante do regime. Ou melhor, a "anticandidatura". De todas as criações do artista Ulysses, na arte da política, esta foi sua obra-prima. Foi operacional, porque dela resultaram frutos, mas também – e sobretudo – bela. No papel de anticandidato, Ulysses foi insuflado, mais do que nunca, pelo espírito do Quixote. Mas o Sancho que guardava nas entranhas se mantinha ligado para o que a representação podia render de agito e de propaganda.

Ulysses teve a idéia numa noite em São Paulo. Numa conversa boêmia com um velho amigo, o advogado e escritor de livros policiais Luís Lopes Coelho, contou, entre um uísque e outro, que ele e os companheiros da cúpula do MDB estavam namorando a idéia de lançar sua candidatura, mas ainda não tinham encontrado o jeito de fazê-lo. Havia dois perigos. Por um lado, a candidatura podia cair no ridículo, de tão fantasiosa. Por outro, podia servir de chancela à eleição indireta, criando a ilusão de que realmente houvera disputa. Como fazer? Uísque vai, conversa vem, Ulysses teve o estalo. "Anticandidatura." Tinha encontrado a palavra. Ele exercia o ofício da política com o mesmo instrumento dos poetas: as palavras. Seria uma "anticandidatura", não uma candidatura, revelando no nome a ironia e a dubiedade da situação. Ele seria o anticandidato.

A convenção do MDB lançou-o como anticandidato em setembro de 1973. O discurso que então pronunciou, redigido todo de próprio punho, inscreve-se entre os mais admiráveis da história do Brasil. Começava assim: "O paradoxo é o signo da presente sucessão presidencial brasileira. O anunciado como candidato em verdade já é o presidente. Não aguarda a eleição e sim a posse. Na oposição também não há candidato, pois não pode haver candidato a lugar de antemão provido. A 15 de janeiro próximo, com o apelido de eleição, o Congresso Nacional será palco de cerimônia de diplomação, na qual senadores, deputados federais e estaduais da agremiação majoritária certificarão investidura outorgada com anterioridade."

Orlando Brito
Posse de Sarney: vice virou titular

O trecho tem forma de um enunciado lógico. Remete a outro enunciado lógico da história do Brasil – o famoso "sorites de Nabuco", formulado não por Joaquim, mas por seu pai, José Tomás, para desmascarar a farsa eleitoral do Império: "O Poder Moderador pode chamar a quem quiser para organizar ministérios; esta pessoa faz a eleição, porque há de fazê-la; esta eleição faz a maioria. Eis aí está o sistema representativo do nosso país".

O discurso de Ulysses tinha trechos poéticos, como o "Navegar é preciso, viver não é preciso", criado para orientação dos navegadores romanos, retomado por Fernando Pessoa e aclimatado a um fado por Caetano Veloso. E palavras que explicitavam o sentido da campanha que se iniciava: "Não é o candidato que vai percorrer o país. É o anticandidato, para denunciar a antieleição, imposta pela anticonstituição (...)".

Apesar dos numerosos empecilhos espalhados no caminho pela censura, a começar pela proibição da transmissão da convenção do MDB pela televisão, a anticandidatura suscitou eventos, mostrou que a oposição estava viva, e plantou as sementes do êxito do MDB na eleição parlamentar seguinte.

Outro capítulo do processo de redemocratização desenrolava-se simultaneamente dentro dos palácios, tendo por protagonista outra dupla, os generais Geisel e Golbery do Couto e Silva. Chamava-se "abertura", devia ser "lenta, gradual e segura", segundo a fórmula de Geisel, e se desenvolvia porque os dois, os mais lúcidos dirigentes produzidos pelo regime, perceberam que o sistema caminhava para a ruína. Uma saída tinha de ser encontrada. Pulemos este pedaço. O momento é de celebração do poder civil. Apressemos o passo até o xeque-mate aplicado no regime. Ele se desdobra em dois lances – a campanha das diretas e a eleição presidencial indireta de 1985. No primeiro sobressai Ulysses, no segundo, Tancredo.

A obra de arte, aqui, é o elo que se estabelece entre um episódio e outro, bem como entre um personagem e outro. Ulysses e Tancredo foram eleitos no mesmo ano – 1947 – para as Assembléias Legislativas dos respectivos estados. No mesmo ano – 1950 – ganharam cadeiras de deputado federal. Ambos começaram no mesmo partido, o PSD. Foram juntos para a oposição, depois do golpe de 1964 – Ulysses com a característica estridência, Tancredo com discrição, Ulysses com estratégias no limite da utopia, Tancredo com pés no chão. Foram companheiros desde sempre e desenvolveram carreiras paralelas. Mas o momento em que a dupla realmente funcionou, e em seus movimentos imprimiu o empurrão final na ditadura, foi este.

A campanha das diretas foi dessas ocasiões históricas em que a nacionalidade se reencontra consigo mesma. Entre janeiro e abril de 1984, milhões de pessoas ocuparam as ruas de várias capitais. E foi o momento de Ulysses. Nada mais natural que ele assumisse o comando. Nada mais lógico imaginar que, se a campanha vingasse, seria ele o eleito para presidente. Não vingou. A emenda constitucional que restabeleceria a eleição direta teve no Congresso 298 votos favoráveis e 65 contra. Não atingiu os 320, ou dois terços dos parlamentares, necessários.

Seguiu-se àquele dia – 25 de abril de 1984 – um clima de desolação, mas havia um gambito a executar. Havia um Tancredo de reserva. Tancredo era o homem, para a eleição indireta. Era o estadista da ala moderada do MDB, aliás, agora PMDB. O político da conversa e da conciliação. Tinha o perfil ideal para, ao mesmo tempo, tranqüilizar os militares e soldar uma aliança com os dissidentes civis do regime. Foi a hora de Tancredo, mas o curioso e esperto – um atentado à lógica – foi a transformação da eleição indireta numa apoteose. Esticou-se para a campanha de Tancredo o clima da campanha das direitas. Ele foi eleito por um reduzido colégio eleitoral, com 480 votos contra 180 do candidato do regime, Paulo Maluf, mas os números não traduzem em sua inteireza aquela encruzilhada da história. Tancredo, candidato indireto diante de um pífio colégio eleitoral, foi, na crônica eleitoral brasileira, o candidato à Presidência eleito do modo mais consagrador. Pesou a seu favor uma rara conjugação de fatores: o clima de empolgação herdado da campanha das diretas, o cansaço com o regime, os meios de comunicação a favor, o desejo de mudança.

Faz tempo que o Brasil não celebra mais os grandes homens. A categoria dos "grandes homens" está em decadência. Nos meios mais ilustrados, até se tem vergonha de invocá-la. O dinheiro brasileiro não exibe a efígie dos heróis da pátria – exibe bichos. O general Milton Tavares de Souza, que entre outras proezas, como ás da repressão, impediu a transmissão pela TV do discurso da anticandidatura, empresta o nome, na cidade de São Paulo, a uma praça e a um concorrido viaduto. Ulysses Guimarães dá nome a uma ruazinha num bairro distante. Ulysses e Tancredo foram, com perdão pelo conceito fora de moda, grandes homens. "Eu sou pragmático e conciliador na ação, mas inflexível nos princípios", dizia Tancredo. "Sempre que você transige em princípios, ganha num episódio, mas apenas num episódio." Nestes tempos de baixo clero, raros entenderão o ensinamento contido na frase.

Ao assalto final à fortaleza do regime seguiu-se o absurdo. Na noite de 14 de março, bem na véspera de tomar posse, Tancredo foi internado. Quem tomou posse foi José Sarney, o vice escolhido entre os dissidentes da antiga ordem. O país inauguraria a nova fase com a respiração suspensa, entre aflito e incrédulo a cada uma das sete operações do presidente titular. Tancredo morreu no dia 21 de abril. Ulysses sobreviveu-o por sete anos e meio. Morreu em 12 de outubro de 1992, quando o helicóptero em que viajava mergulhou nas águas de Angra dos Reis, e virou comida de peixe. Que esta data de vinte anos de queda do regime militar renda um pensamento para eles dois.

 
 
 
 
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