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Brasil O
dique pode estourar Medidas salvam ex-prefeita
e facilitam a vida de estados e municípios endividados
 Christiane
Silva
Vidal
Cavalcanti/AE
 | | A
ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy nega as irregularidades |
Nos
últimos quatro anos, a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) conseguiu a
façanha de transformar o Brasil em referência mundial no controle
de gastos públicos. Aprovada em maio de 2000, ela prevê a punição
aos governantes que gastam mais do que arrecadam, incham a folha de pagamentos,
inauguram grandes obras às vésperas das eleições e
deixam a conta para seus sucessores. A lei prevê desde a suspensão
dos repasses financeiros do governo federal para estados e municípios até
a condenação criminal de prefeitos, governadores e mesmo do presidente
da República. Seus resultados foram notáveis. Desde 1998, estados
e municípios saíram de um rombo de 2,8 bilhões de reais para
17,5 bilhões de reais em caixa, e a lei foi essencial para esse avanço.
Não é um feito corriqueiro. Equilibrar receitas e despesas tem sido
uma tarefa árdua no Brasil e no resto do mundo. A Argentina foi levada
a uma situação dramática pelo desajuste fiscal e até
os Estados Unidos começam a se preocupar com a gastança militar
do presidente George W. Bush.
O sucesso da lei
no Brasil pode ser medido pela ira de seus opositores no mundo da política.
Sempre que podem, prefeitos e governadores descontentes procuram maneiras de afrouxá-la.
Recentemente, duas dessas tentativas tiveram sucesso. A primeira delas ocorreu
em janeiro passado, quando o governo federal editou uma medida provisória
regularizando a situação de prefeituras que contraíram empréstimos
sem autorização do Tesouro Nacional num programa nacional de iluminação
de ruas. A medida salvou a pele da petista Marta
Suplicy, ex-prefeita de São Paulo. Em 5 de fevereiro de 2004, a prefeitura
fez um contrato aditivo de 27 milhões de reais a um empréstimo original
com a Eletropaulo para substituir, na cidade, lâmpadas de mercúrio
pelas de vapor de sódio, mais econômicas. Como a prefeitura se encontrava
acima do seu limite máximo de endividamento, esse aditivo deveria ter passado
pelo crivo do Tesouro Nacional. Não o foi. Em conseqüência,
o Ministério da Fazenda enviou em 27 de dezembro de 2004 ofício
ao Senado informando que a prefeita havia descumprido a lei. Um mês depois,
no entanto, com a anuência do próprio ministro Antonio Palocci, o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva resolveu dar uma força à
ex-prefeita: editou uma medida provisória que voltou no tempo para anistiar
Marta livrando-a de punições. Com a medida, a ex-prefeita não
poderá ser processada nem corre o risco de perder sua elegibilidade.
Apesar do cheiro forte de casuísmo, o governo diz que não teve como
objetivo proteger a ex-prefeita. "De todos os prefeitos, somente Marta nos comunicou
ter feito um aditivo. Os demais não nos avisaram. Talvez ela queira ser
a prefeita mais perfeita do mundo", disse Joaquim Levy, secretário do Tesouro
Nacional, afirmando que outros cometeram o mesmo pecado de Marta, mas não
foram suficientemente diligentes para confessar. "Ficou evidente que a MP foi
editada para tentar livrar a Marta Suplicy de qualquer acusação
de irresponsabilidade administrativa e até criminal", sustenta o economista
Raul Velloso. A ex-prefeita nega que tenha havido irregularidades.
Denio
Hurtado/AE
 | | Raul
Velloso: a medida é um sinal claro de que o governo abre exceções
aos aliados, desmoralizando a LRF |
Por
enquanto as atenções não se voltaram para os detalhes do
primeiro empréstimo feito por Marta Suplicy por meio do Programa Nacional
de Iluminação Pública Eficiente o Reluz assinado em
outubro de 2002. O objetivo do Reluz é nobre: prevê investimentos
de 2 bilhões de reais por parte da Eletrobrás para melhorar a eficiência
de 9,5 milhões de pontos de iluminação pública e instalar
outros 3 milhões de postes no país. Funciona da seguinte maneira:
com o dinheiro das contas de luz pagas por pessoas e por empresas, a Eletrobrás
financia até 75% desses projetos em até 24 meses, com juros de 5%
ao ano. As concessionárias de energia ficam encarregadas da execução
das obras. Depois, devolvem o dinheiro à Eletrobrás. Os outros 25%
são divididos entre os municípios e as concessionárias. Quanto
maior é o poder de barganha dos prefeitos, menor é a parcela que
fica com os municípios. Embora o município de São Paulo tenha
uma enorme capacidade de negociação, devido a seu tamanho, o contrato
da prefeita com a concessionária local, a Eletropaulo, estipulou que a
prefeitura arcaria com 100% do projeto (um valor inicial de 187 milhões
de reais). Além disso, deu um prazo confortável para que a empresa
girasse o dinheiro da prefeitura antes de usá-lo para repagar à
Eletrobrás. Em tese, não há ilegalidade alguma no contrato
original. O que existe é um indício de que a ex-prefeita não
usou toda a sua capacidade de negociação para reduzir o endividamento
da prefeitura e proteger o bolso do contribuinte municipal. A Eletropaulo não
quis comentar o assunto. Infelizmente, o governo
federal deu um segundo golpe na Lei de Responsabilidade Fiscal. No dia 15 de março
passado, o Ministério da Fazenda anunciou que os estados e municípios
terão até 2016 para reduzir seus endividamentos para o patamar razoável
previsto na lei, equivalente a 1,2 vez o valor de suas receitas líquidas.
Com a nova orientação do ministério, eles continuarão
recebendo recursos da União até lá, sem precisar reduzir
gradualmente a dívida, ao contrário do que se imaginava. "O impressionante
é que esse retrocesso foi criado apenas porque quatro estados e uma prefeitura
estão fora dos limites da LFR", diz Amir Khair, consultor e ex-secretário
de Finanças do município de São Paulo.
Por todos esses fatos, 2005 não tem sido um bom ano para o aprimoramento
da responsabilidade fiscal no Brasil. Ao criar brechas que a lei não previra
originalmente, o governo federal fere a credibilidade da lei, ameaçando
um dos principais avanços do país no campo institucional nas últimas
duas décadas.
As primeiras rachaduras na Lei de Responsabilidade
Fiscal • Duas medidas do governo Lula criaram furos
na lei que foi capaz de transformar o histórico déficit nas contas
dos estados e municípios no superávit que ajuda o país a
reduzir sua dívida pública •
O primeiro golpe veio em janeiro deste ano, com a Medida Provisória 237.
Ela legalizou empréstimos irregulares que prefeituras altamente endividadas
fizeram para reduzir gastos com iluminação pública
• No segundo ataque à lei, o Ministério
da Fazenda emitiu um parecer adiando para 2016 a suspensão de verbas para
estados e municípios que não reduzirem suas dívidas |
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Só eles têm do que rir  | | Severino
Cavalcanti e deputados: os políticos comemoram, a gente paga |
Na semana passada, os deputados federais deram mais um show de fisiologismo e
de irresponsabilidade fiscal. Não contentes em aumentar as verbas de gabinete
de 35 000 para 44 000 reais mensais numa explícita compensação
às frustradas tentativas de reajustar em 67% os próprios salários
, os parlamentares aprovaram uma medida que poderá ter repercussões
bombásticas nas combalidas finanças dos estados. Trata-se de uma
mudança na reforma da Previdência, que, se aprovada, fará
com que delegados de polícia e fiscais tributários dos estados e
do Distrito Federal passem a ganhar o mesmo salário que hoje recebem desembargadores
dos tribunais estaduais de Justiça: em torno de 17 000 reais.
Governadores de todos os estados já começaram a calcular o impacto
financeiro que o butim acarretará. Em Mato Grosso, por exemplo, a despesa
adicional para contemplar apenas 1 000 funcionários poderá chegar
a 100 milhões de reais por ano. "O valor equivale à folha de pagamento
mensal dos 50 000 funcionários do estado", afirma o governador Blairo Maggi.
Atualmente, os servidores que serão beneficiados pela medida têm
como teto salarial o vencimento dos governadores fixado pela Assembléia
Legislativa de cada estado e, geralmente, inferior a 17 000 reais. A nova lei
cria uma situação curiosa. Por meio dela, um delegado de polícia
ou um auditor fiscal poderá ganhar quase duas vezes mais do que o governador.
O salário do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, por exemplo,
é de 10 500 reais. A conta para os estados ficará ainda mais salgada
se for aprovado outro projeto que tramita no Congresso: o que aumenta os salários
dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) de 19 000 para 21 500 em 2005
e para 24 500 em 2006. Tais reajustes, se confirmados, produzirão um efeito
cascata devastador na economia dos estados. Isso porque, por força de lei,
desembargadores, juízes e promotores também ganhariam aumento proporcional.
O presidente do STF, Nelson Jobim, que defende
o projeto, argumenta que o repasse dos reajustes para outras instâncias
não será automático, já que depende da aprovação
de projetos de lei específicos em cada estado. Além disso, segundo
ele, os salários dos funcionários que hoje ganham acima do teto
estipulado em lei terão de ser rebaixados em virtude da nova legislação.
Em visita a Jobim há duas semanas, o governador Aécio Neves contestou
o argumento, dizendo que os gastos adicionais serão muito maiores do que
as economias. "Se o reajuste ocorrer de fato, a Lei de Responsabilidade Fiscal
correrá o risco de virar letra morta", afirma o economista Raul Velloso.
Fisiologia e irresponsabilidade fiscal: duas piadas que só têm graça
para esse pessoal lá de Brasília.
José Edward | |
Com reportagem de Carina
Nucci |