Edição 1897 . 23 de março de 2005

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Brasil
O dique pode estourar 

Medidas salvam ex-prefeita e facilitam
a vida de estados e municípios endividados


Christiane Silva


Vidal Cavalcanti/AE
A ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy nega as irregularidades


Nos últimos quatro anos, a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) conseguiu a façanha de transformar o Brasil em referência mundial no controle de gastos públicos. Aprovada em maio de 2000, ela prevê a punição aos governantes que gastam mais do que arrecadam, incham a folha de pagamentos, inauguram grandes obras às vésperas das eleições e deixam a conta para seus sucessores. A lei prevê desde a suspensão dos repasses financeiros do governo federal para estados e municípios até a condenação criminal de prefeitos, governadores e mesmo do presidente da República. Seus resultados foram notáveis. Desde 1998, estados e municípios saíram de um rombo de 2,8 bilhões de reais para 17,5 bilhões de reais em caixa, e a lei foi essencial para esse avanço. Não é um feito corriqueiro. Equilibrar receitas e despesas tem sido uma tarefa árdua no Brasil e no resto do mundo. A Argentina foi levada a uma situação dramática pelo desajuste fiscal e até os Estados Unidos começam a se preocupar com a gastança militar do presidente George W. Bush.

O sucesso da lei no Brasil pode ser medido pela ira de seus opositores no mundo da política. Sempre que podem, prefeitos e governadores descontentes procuram maneiras de afrouxá-la. Recentemente, duas dessas tentativas tiveram sucesso. A primeira delas ocorreu em janeiro passado, quando o governo federal editou uma medida provisória regularizando a situação de prefeituras que contraíram empréstimos sem autorização do Tesouro Nacional num programa nacional de iluminação de ruas.

A medida salvou a pele da petista Marta Suplicy, ex-prefeita de São Paulo. Em 5 de fevereiro de 2004, a prefeitura fez um contrato aditivo de 27 milhões de reais a um empréstimo original com a Eletropaulo para substituir, na cidade, lâmpadas de mercúrio pelas de vapor de sódio, mais econômicas. Como a prefeitura se encontrava acima do seu limite máximo de endividamento, esse aditivo deveria ter passado pelo crivo do Tesouro Nacional. Não o foi. Em conseqüência, o Ministério da Fazenda enviou em 27 de dezembro de 2004 ofício ao Senado informando que a prefeita havia descumprido a lei. Um mês depois, no entanto, com a anuência do próprio ministro Antonio Palocci, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva resolveu dar uma força à ex-prefeita: editou uma medida provisória que voltou no tempo para anistiar Marta livrando-a de punições. Com a medida, a ex-prefeita não poderá ser processada nem corre o risco de perder sua elegibilidade.

Apesar do cheiro forte de casuísmo, o governo diz que não teve como objetivo proteger a ex-prefeita. "De todos os prefeitos, somente Marta nos comunicou ter feito um aditivo. Os demais não nos avisaram. Talvez ela queira ser a prefeita mais perfeita do mundo", disse Joaquim Levy, secretário do Tesouro Nacional, afirmando que outros cometeram o mesmo pecado de Marta, mas não foram suficientemente diligentes para confessar. "Ficou evidente que a MP foi editada para tentar livrar a Marta Suplicy de qualquer acusação de irresponsabilidade administrativa e até criminal", sustenta o economista Raul Velloso. A ex-prefeita nega que tenha havido irregularidades.

Denio Hurtado/AE
Raul Velloso: a medida é um sinal claro de que o governo abre exceções aos aliados, desmoralizando a LRF

Por enquanto as atenções não se voltaram para os detalhes do primeiro empréstimo feito por Marta Suplicy por meio do Programa Nacional de Iluminação Pública Eficiente – o Reluz assinado em outubro de 2002. O objetivo do Reluz é nobre: prevê investimentos de 2 bilhões de reais por parte da Eletrobrás para melhorar a eficiência de 9,5 milhões de pontos de iluminação pública e instalar outros 3 milhões de postes no país. Funciona da seguinte maneira: com o dinheiro das contas de luz pagas por pessoas e por empresas, a Eletrobrás financia até 75% desses projetos em até 24 meses, com juros de 5% ao ano. As concessionárias de energia ficam encarregadas da execução das obras. Depois, devolvem o dinheiro à Eletrobrás. Os outros 25% são divididos entre os municípios e as concessionárias. Quanto maior é o poder de barganha dos prefeitos, menor é a parcela que fica com os municípios. Embora o município de São Paulo tenha uma enorme capacidade de negociação, devido a seu tamanho, o contrato da prefeita com a concessionária local, a Eletropaulo, estipulou que a prefeitura arcaria com 100% do projeto (um valor inicial de 187 milhões de reais). Além disso, deu um prazo confortável para que a empresa girasse o dinheiro da prefeitura antes de usá-lo para repagar à Eletrobrás. Em tese, não há ilegalidade alguma no contrato original. O que existe é um indício de que a ex-prefeita não usou toda a sua capacidade de negociação para reduzir o endividamento da prefeitura e proteger o bolso do contribuinte municipal. A Eletropaulo não quis comentar o assunto.

Infelizmente, o governo federal deu um segundo golpe na Lei de Responsabilidade Fiscal. No dia 15 de março passado, o Ministério da Fazenda anunciou que os estados e municípios terão até 2016 para reduzir seus endividamentos para o patamar razoável previsto na lei, equivalente a 1,2 vez o valor de suas receitas líquidas. Com a nova orientação do ministério, eles continuarão recebendo recursos da União até lá, sem precisar reduzir gradualmente a dívida, ao contrário do que se imaginava. "O impressionante é que esse retrocesso foi criado apenas porque quatro estados e uma prefeitura estão fora dos limites da LFR", diz Amir Khair, consultor e ex-secretário de Finanças do município de São Paulo.

Por todos esses fatos, 2005 não tem sido um bom ano para o aprimoramento da responsabilidade fiscal no Brasil. Ao criar brechas que a lei não previra originalmente, o governo federal fere a credibilidade da lei, ameaçando um dos principais avanços do país no campo institucional nas últimas duas décadas.

 

As primeiras rachaduras na Lei de Responsabilidade Fiscal  

• Duas medidas do governo Lula criaram furos na lei que foi capaz de transformar o histórico déficit nas contas dos estados e municípios no superávit que ajuda o país a reduzir sua dívida pública  

• O primeiro golpe veio em janeiro deste ano, com a Medida Provisória 237. Ela legalizou empréstimos irregulares que prefeituras altamente endividadas fizeram para reduzir gastos com iluminação pública  

• No segundo ataque à lei, o Ministério da Fazenda emitiu um parecer adiando para 2016 a suspensão de verbas para estados e municípios que não reduzirem suas dívidas

 

Só eles têm do que rir

 
Severino Cavalcanti e deputados: os políticos comemoram, a gente paga

Na semana passada, os deputados federais deram mais um show de fisiologismo e de irresponsabilidade fiscal. Não contentes em aumentar as verbas de gabinete de 35 000 para 44 000 reais mensais –numa explícita compensação às frustradas tentativas de reajustar em 67% os próprios salários –, os parlamentares aprovaram uma medida que poderá ter repercussões bombásticas nas combalidas finanças dos estados. Trata-se de uma mudança na reforma da Previdência, que, se aprovada, fará com que delegados de polícia e fiscais tributários dos estados e do Distrito Federal passem a ganhar o mesmo salário que hoje recebem desembargadores dos tribunais estaduais de Justiça: em torno de 17 000 reais.

Governadores de todos os estados já começaram a calcular o impacto financeiro que o butim acarretará. Em Mato Grosso, por exemplo, a despesa adicional para contemplar apenas 1 000 funcionários poderá chegar a 100 milhões de reais por ano. "O valor equivale à folha de pagamento mensal dos 50 000 funcionários do estado", afirma o governador Blairo Maggi. Atualmente, os servidores que serão beneficiados pela medida têm como teto salarial o vencimento dos governadores – fixado pela Assembléia Legislativa de cada estado e, geralmente, inferior a 17 000 reais. A nova lei cria uma situação curiosa. Por meio dela, um delegado de polícia ou um auditor fiscal poderá ganhar quase duas vezes mais do que o governador. O salário do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, por exemplo, é de 10 500 reais. A conta para os estados ficará ainda mais salgada se for aprovado outro projeto que tramita no Congresso: o que aumenta os salários dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) de 19 000 para 21 500 em 2005 e para 24 500 em 2006. Tais reajustes, se confirmados, produzirão um efeito cascata devastador na economia dos estados. Isso porque, por força de lei, desembargadores, juízes e promotores também ganhariam aumento proporcional.

O presidente do STF, Nelson Jobim, que defende o projeto, argumenta que o repasse dos reajustes para outras instâncias não será automático, já que depende da aprovação de projetos de lei específicos em cada estado. Além disso, segundo ele, os salários dos funcionários que hoje ganham acima do teto estipulado em lei terão de ser rebaixados em virtude da nova legislação. Em visita a Jobim há duas semanas, o governador Aécio Neves contestou o argumento, dizendo que os gastos adicionais serão muito maiores do que as economias. "Se o reajuste ocorrer de fato, a Lei de Responsabilidade Fiscal correrá o risco de virar letra morta", afirma o economista Raul Velloso. Fisiologia e irresponsabilidade fiscal: duas piadas que só têm graça para esse pessoal lá de Brasília.

José Edward

Com reportagem de Carina Nucci

 
 
 
 
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