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Partidos
Eles sabem de tudo
No caso Farc, o espião e o chefe da
investigação falam a VEJA e mostram
que a Abin escondeu a verdade

Policarpo Junior
Ana Araujo
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"Na chácara Coração
Vermelho, eu ouvi pela primeira vez, da boca do padre Olivério,
que as Farc dariam 5 milhões de dólares para o
PT. Não foi a única vez que ouvi isso. Sempre
relatei tudo ao coronel Eduardo Ferreira. Só não
sei se o dinheiro foi pago."
O espião que, infiltrado na esquerda há vinte
anos, apurou para a Abin as primeiras informações
sobre o caso Farc-PT |
Na quinta-feira passada, numa reunião
no Congresso, o general Jorge Armando Felix, ministro-chefe do Gabinete
de Segurança Institucional, confirmou a informação
dada pela reportagem de capa da edição passada de
VEJA. Disse que, de fato, a Agência Brasileira de Inteligência
guarda em seus arquivos um documento no qual se informa que as Farc,
a narcoguerrilha da Colômbia, planejavam dar 5 milhões
de dólares à campanha do PT. VEJA noticiou que o auxílio
financeiro aparecia no documento número 0095/3100, datado
de 25 de abril de 2002 e classificado como "secreto". Tudo isso
foi confirmado pelo general, mas houve um adendo categórico.
O general disse que a informação sobre a doação
de 5 milhões de dólares não foi levada a sério
pela Abin, que a encarou como "um boato" e arquivou o documento.
Ao explicar a estranheza segundo a qual uma agência de inteligência
cataloga como "secreto" algo que não passa de "boato", o
general disse que a intenção foi evitar o vazamento
da informação e sua exploração eleitoral
contra o então candidato oposicionista Luiz Inácio
Lula da Silva. A explicação oficial até faz
sentido, mas não é verdadeira.
Na semana passada, VEJA voltou a entrevistar
o espião que, infiltrado no movimento sindical em Brasília,
abastecia a Abin com informações sobre as Farc e suas
relações financeiras com o PT. O espião pediu
para manter sigilo sobre sua identidade, pois ainda está
na ativa. "Tenho família, e esse é meu trabalho há
vinte anos", diz ele, que é casado, tem filhos e ganha 2.000
reais por mês em seu emprego formal, público. O espião
infiltrou-se no movimento sindical vinte anos atrás, e, entre
seus "colegas" de militância, há petistas e comunistas.
Seu trabalho sempre foi informar a Abin sobre o que se passa nos
bastidores sindicais da capital. Esbarrou quase que por acaso com
as Farc. Esquerdistas convidaram-no para participar da criação
de um comitê em defesa da guerrilha colombiana. O espião
topou e passou a participar de reuniões, quase sempre reservadas.
Até que sua rotina foi quebrada, no dia 13 de abril de 2002,
quando participou da reunião político-festiva de esquerdistas
pró-Farc na chácara Coração Vermelho,
situada nos arredores de Brasília. Foi nessa reunião
que o espião ouviu o padre Olivério Medina, embaixador
da guerrilha no Brasil, falar da doação de 5 milhões
de dólares para a campanha de Lula em 2002.
Evaristo Sá/AFP
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Eduardo Nicolau/AE
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| O senador Demostenes (à
esq.) e o general Felix (à dir.): eles devem voltar
a se encontrar no Congresso porque a história ficou pior |
Na quarta-feira passada, em entrevista concedida
num hotel de Brasília, ele concordou em posar para uma fotografia
desde que não revelasse sua identidade e contou detalhes
da história. A seguir, os principais pontos:
"Logo que saí da reunião, no dia 13 de abril, me encontrei
com meu contato na Abin, às margens de uma rodovia próxima
à chácara Coração Vermelho. Ali, dentro
do carro, escrevi um informe e falei do dinheiro das Farc para o
PT. Eu tinha ouvido a história pela primeira vez. O padre
Olivério Medina estava bastante feliz."
"No dia 22 de abril, ouvi a história de novo. Foi numa reunião
num sindicato. Um dos amigos das Farc, um militante chileno, disse
que eram 5 milhões de dólares e que o dinheiro já
tinha sido repassado para o PT. Coloquei essa informação
em meu relatório."
"A Abin achou a história tão importante que meu contato,
o coronel Eduardo Adolfo Ferreira, me convidou para jantar numa
churrascaria e me propôs abandonar todas as minhas atividades
para me dedicar só à espionagem deste caso. Chegou
a me oferecer 60.000 reais como indenização, pois
eu teria de largar meu emprego. Mas não aceitei largar tudo."
"Meus relatos se baseiam no que vejo e ouço. Não sei
se o dinheiro foi pago. Sei que, entre os amigos das Farc, esse
assunto era tratado com seriedade e segredo. O dinheiro sairia de
Trinidad e Tobago para 300 empresários do PT, que o distribuiriam
para os comitês do partido. Isso eu também escrevi
nos informes que entreguei ao coronel."
Roberto Stuckert Filho/Ag. O Globo
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| O ministro Gushiken fez a melhor defesa do
PT: não dá para saber o que faz cada um dos 800 000 militantes
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Nas últimas semanas, VEJA entrevistou
em cinco ocasiões o coronel Eduardo Adolfo Ferreira, que
recebia os informes do espião. Por exigência sua, as
entrevistas foram feitas dentro de um carro em algum estacionamento
de um cemitério, um hospital, uma igreja. Um dos encontros
ocorreu em sua residência, no Guará, bairro de classe
média em Brasília. Nessas conversas, VEJA selou o
compromisso de não revelar sua identidade até a publicação
da primeira reportagem sobre o assunto, depois da qual ele daria
uma entrevista de rosto à mostra. Pelo acordo, se não
desse a entrevista, VEJA poderia identificá-lo. O coronel
rompeu o acordo. Em razão disso, VEJA também se desobrigou
de manter o acordo e aqui revela a identidade do coronel
e seu perfil profissional. O coronel, de 49 anos, trabalhou por
sete anos na Abin e deixou o posto em julho de 2003, por causa de
divergências em relação à condução
do caso Farc. Hoje, ele dirige o departamento de inativos e pensionistas
da Polícia Militar do DF. O coronel sempre esteve ligado
à área de informações. Pertenceu ao
Centro de Informações do Exército e chefiou
o serviço de inteligência da PM do DF.
Nas entrevistas a VEJA, o coronel Ferreira
contou que os relatos do espião eram repassados para três
departamentos da Abin: o de Operações, o de Inteligência
e o de Contra-Inteligência. O documento 0095/3100, divulgado
na semana passada, é apenas um entre mais de duas dezenas
de relatórios nos arquivos da Abin nem é o
mais importante, já que foi feito apenas doze dias depois
da reunião na chácara Coração Vermelho.
Ao contrário do que disse o general Jorge Felix, a Abin não
desprezou o conteúdo do documento. Foi o inverso. As investigações
sobre a guerrilha colombiana, iniciadas em 2000, tomaram um novo
impulso. O coronel Ferreira contou a VEJA que "essa investigação
era tratada como assunto ultra-secreto na Abin". Para evitar vazamentos,
os relatórios eram digitados no gabinete do então
diretor de Inteligência, José Milton Campana, que no
atual governo foi promovido a diretor adjunto da Abin. No gabinete
de Campana, além dos diretamente envolvidos no caso, apenas
um analista de informações e um assessor tinham acesso
ao material. "Fizemos três memoriais completos sobre o caso",
disse o coronel.
Os memoriais, nome dado a um conjunto extenso
de relatórios, eram encaminhados diretamente à então
diretora da Abin, Marisa Del'Isola. "A Abin em São Paulo
até rastreou o que seria uma parte do dinheiro das Farc para
o PT." O coronel contou que, com a ajuda do setor de inteligência
da Polícia Federal, a Abin obteve três ordens de pagamento,
somando cerca de 1 milhão de dólares, com indícios
de que se tratava de parte do dinheiro das Farc para o PT. "Não
podemos afirmar que era o dinheiro da guerrilha mesmo. Eram indícios.
Indícios fortes, mas a investigação parou quando
o PT ganhou as eleições e eu saí da Abin",
contou. Na semana passada, talvez na mais lúcida manifestação
vinda do governo, o ministro Luiz Gushiken disse que era impossível
manter controle de tanta gente. "Não dá para saber
o que faz cada um dos 800.000 militantes do PT", declarou o ministro
à Rede Globo. O coronel diz que, nos arquivos da Abin, há
gravações em áudio das promessas das Farc de
ajudar o PT e, também, cópias das três ordens
de pagamento.
VEJA tem tomado todo o cuidado para não
envolver nas denúncias o PT como instituição
e mesmo a custo de parecer estar dando vazão apenas
a evidências ralas evita tirar conclusões do
material a que teve acesso. Mesmo assim, o aproveitamento político
da questão é inevitável. O deputado Alberto
Fraga (PTB-DF) divulgou uns papeluchos como se fossem "documentos
oficiais" da Abin. Foi desmentido publicamente e, numa saída
patética, disse que os documentos podiam ser falsos, mas
que o conteúdo era verdadeiro... Está explicado por
que há dois anos, quando divulgou as suspeitas de vínculos
financeiros entre as Farc e o PT, ninguém lhe deu crédito.
O vexame custou-lhe a presidência regional do PTB no Distrito
Federal. Na semana passada, o espião do caso Farc disse que
está disposto a contar tudo o que sabe no Congresso, desde
que seu depoimento seja tomado em reunião fechada. Diante
dessa possibilidade, VEJA consultou o senador Demostenes Torres,
do PFL de Goiás, membro da comissão que apura a história.
O senador disse que, publicada a reportagem da revista, faria o
pedido para ouvir o espião. Disse também que convocaria
o coronel Ferreira. Diz o senador: "As declarações
dos dois, se confirmadas, revelam que a Abin compareceu à
comissão do Congresso e ocultou a verdade dos parlamentares.
É grave". É grave mesmo.
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