Edição 1897 . 23 de março de 2005

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Partidos
Eles sabem de tudo

No caso Farc, o espião e o chefe da
investigação falam a VEJA e mostram
que a Abin escondeu a verdade


Policarpo Junior


Ana Araujo
"Na chácara Coração Vermelho, eu ouvi pela primeira vez, da boca do padre Olivério, que as Farc dariam 5 milhões de dólares para o PT. Não foi a única vez que ouvi isso. Sempre relatei tudo ao coronel Eduardo Ferreira. Só não sei se o dinheiro foi pago."
O espião que, infiltrado na esquerda há vinte anos, apurou para a Abin as primeiras informações sobre o caso Farc-PT

Na quinta-feira passada, numa reunião no Congresso, o general Jorge Armando Felix, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, confirmou a informação dada pela reportagem de capa da edição passada de VEJA. Disse que, de fato, a Agência Brasileira de Inteligência guarda em seus arquivos um documento no qual se informa que as Farc, a narcoguerrilha da Colômbia, planejavam dar 5 milhões de dólares à campanha do PT. VEJA noticiou que o auxílio financeiro aparecia no documento número 0095/3100, datado de 25 de abril de 2002 e classificado como "secreto". Tudo isso foi confirmado pelo general, mas houve um adendo categórico. O general disse que a informação sobre a doação de 5 milhões de dólares não foi levada a sério pela Abin, que a encarou como "um boato" e arquivou o documento. Ao explicar a estranheza segundo a qual uma agência de inteligência cataloga como "secreto" algo que não passa de "boato", o general disse que a intenção foi evitar o vazamento da informação e sua exploração eleitoral contra o então candidato oposicionista Luiz Inácio Lula da Silva. A explicação oficial até faz sentido, mas não é verdadeira.

Na semana passada, VEJA voltou a entrevistar o espião que, infiltrado no movimento sindical em Brasília, abastecia a Abin com informações sobre as Farc e suas relações financeiras com o PT. O espião pediu para manter sigilo sobre sua identidade, pois ainda está na ativa. "Tenho família, e esse é meu trabalho há vinte anos", diz ele, que é casado, tem filhos e ganha 2.000 reais por mês em seu emprego formal, público. O espião infiltrou-se no movimento sindical vinte anos atrás, e, entre seus "colegas" de militância, há petistas e comunistas. Seu trabalho sempre foi informar a Abin sobre o que se passa nos bastidores sindicais da capital. Esbarrou quase que por acaso com as Farc. Esquerdistas convidaram-no para participar da criação de um comitê em defesa da guerrilha colombiana. O espião topou e passou a participar de reuniões, quase sempre reservadas. Até que sua rotina foi quebrada, no dia 13 de abril de 2002, quando participou da reunião político-festiva de esquerdistas pró-Farc na chácara Coração Vermelho, situada nos arredores de Brasília. Foi nessa reunião que o espião ouviu o padre Olivério Medina, embaixador da guerrilha no Brasil, falar da doação de 5 milhões de dólares para a campanha de Lula em 2002.

Evaristo Sá/AFP
Eduardo Nicolau/AE
O senador Demostenes (à esq.) e o general Felix (à dir.): eles devem voltar a se encontrar no Congresso porque a história ficou pior

Na quarta-feira passada, em entrevista concedida num hotel de Brasília, ele concordou em posar para uma fotografia desde que não revelasse sua identidade e contou detalhes da história. A seguir, os principais pontos:

"Logo que saí da reunião, no dia 13 de abril, me encontrei com meu contato na Abin, às margens de uma rodovia próxima à chácara Coração Vermelho. Ali, dentro do carro, escrevi um informe e falei do dinheiro das Farc para o PT. Eu tinha ouvido a história pela primeira vez. O padre Olivério Medina estava bastante feliz."

"No dia 22 de abril, ouvi a história de novo. Foi numa reunião num sindicato. Um dos amigos das Farc, um militante chileno, disse que eram 5 milhões de dólares e que o dinheiro já tinha sido repassado para o PT. Coloquei essa informação em meu relatório."

"A Abin achou a história tão importante que meu contato, o coronel Eduardo Adolfo Ferreira, me convidou para jantar numa churrascaria e me propôs abandonar todas as minhas atividades para me dedicar só à espionagem deste caso. Chegou a me oferecer 60.000 reais como indenização, pois eu teria de largar meu emprego. Mas não aceitei largar tudo."

"Meus relatos se baseiam no que vejo e ouço. Não sei se o dinheiro foi pago. Sei que, entre os amigos das Farc, esse assunto era tratado com seriedade e segredo. O dinheiro sairia de Trinidad e Tobago para 300 empresários do PT, que o distribuiriam para os comitês do partido. Isso eu também escrevi nos informes que entreguei ao coronel."


Roberto Stuckert Filho/Ag. O Globo
O ministro Gushiken fez a melhor defesa do PT: não dá para saber o que faz cada um dos 800 000 militantes

Nas últimas semanas, VEJA entrevistou em cinco ocasiões o coronel Eduardo Adolfo Ferreira, que recebia os informes do espião. Por exigência sua, as entrevistas foram feitas dentro de um carro em algum estacionamento – de um cemitério, um hospital, uma igreja. Um dos encontros ocorreu em sua residência, no Guará, bairro de classe média em Brasília. Nessas conversas, VEJA selou o compromisso de não revelar sua identidade até a publicação da primeira reportagem sobre o assunto, depois da qual ele daria uma entrevista de rosto à mostra. Pelo acordo, se não desse a entrevista, VEJA poderia identificá-lo. O coronel rompeu o acordo. Em razão disso, VEJA também se desobrigou de manter o acordo – e aqui revela a identidade do coronel e seu perfil profissional. O coronel, de 49 anos, trabalhou por sete anos na Abin e deixou o posto em julho de 2003, por causa de divergências em relação à condução do caso Farc. Hoje, ele dirige o departamento de inativos e pensionistas da Polícia Militar do DF. O coronel sempre esteve ligado à área de informações. Pertenceu ao Centro de Informações do Exército e chefiou o serviço de inteligência da PM do DF.

Nas entrevistas a VEJA, o coronel Ferreira contou que os relatos do espião eram repassados para três departamentos da Abin: o de Operações, o de Inteligência e o de Contra-Inteligência. O documento 0095/3100, divulgado na semana passada, é apenas um entre mais de duas dezenas de relatórios nos arquivos da Abin – nem é o mais importante, já que foi feito apenas doze dias depois da reunião na chácara Coração Vermelho. Ao contrário do que disse o general Jorge Felix, a Abin não desprezou o conteúdo do documento. Foi o inverso. As investigações sobre a guerrilha colombiana, iniciadas em 2000, tomaram um novo impulso. O coronel Ferreira contou a VEJA que "essa investigação era tratada como assunto ultra-secreto na Abin". Para evitar vazamentos, os relatórios eram digitados no gabinete do então diretor de Inteligência, José Milton Campana, que no atual governo foi promovido a diretor adjunto da Abin. No gabinete de Campana, além dos diretamente envolvidos no caso, apenas um analista de informações e um assessor tinham acesso ao material. "Fizemos três memoriais completos sobre o caso", disse o coronel.

Os memoriais, nome dado a um conjunto extenso de relatórios, eram encaminhados diretamente à então diretora da Abin, Marisa Del'Isola. "A Abin em São Paulo até rastreou o que seria uma parte do dinheiro das Farc para o PT." O coronel contou que, com a ajuda do setor de inteligência da Polícia Federal, a Abin obteve três ordens de pagamento, somando cerca de 1 milhão de dólares, com indícios de que se tratava de parte do dinheiro das Farc para o PT. "Não podemos afirmar que era o dinheiro da guerrilha mesmo. Eram indícios. Indícios fortes, mas a investigação parou quando o PT ganhou as eleições e eu saí da Abin", contou. Na semana passada, talvez na mais lúcida manifestação vinda do governo, o ministro Luiz Gushiken disse que era impossível manter controle de tanta gente. "Não dá para saber o que faz cada um dos 800.000 militantes do PT", declarou o ministro à Rede Globo. O coronel diz que, nos arquivos da Abin, há gravações em áudio das promessas das Farc de ajudar o PT e, também, cópias das três ordens de pagamento.

VEJA tem tomado todo o cuidado para não envolver nas denúncias o PT como instituição e – mesmo a custo de parecer estar dando vazão apenas a evidências ralas – evita tirar conclusões do material a que teve acesso. Mesmo assim, o aproveitamento político da questão é inevitável. O deputado Alberto Fraga (PTB-DF) divulgou uns papeluchos como se fossem "documentos oficiais" da Abin. Foi desmentido publicamente e, numa saída patética, disse que os documentos podiam ser falsos, mas que o conteúdo era verdadeiro... Está explicado por que há dois anos, quando divulgou as suspeitas de vínculos financeiros entre as Farc e o PT, ninguém lhe deu crédito. O vexame custou-lhe a presidência regional do PTB no Distrito Federal. Na semana passada, o espião do caso Farc disse que está disposto a contar tudo o que sabe no Congresso, desde que seu depoimento seja tomado em reunião fechada. Diante dessa possibilidade, VEJA consultou o senador Demostenes Torres, do PFL de Goiás, membro da comissão que apura a história. O senador disse que, publicada a reportagem da revista, faria o pedido para ouvir o espião. Disse também que convocaria o coronel Ferreira. Diz o senador: "As declarações dos dois, se confirmadas, revelam que a Abin compareceu à comissão do Congresso e ocultou a verdade dos parlamentares. É grave". É grave mesmo.

 
 
 
 
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