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Entrevista: Gerardo della Paolera
São só bravatas
Para o economista argentino, o encanto
do povo com o presidente Kirchner é ilusório,
e o surto nacionalista vai custar caro ao país

Carina Nucci
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Antonio Ribeiro

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"A experiência
argentina não deveria servir de exemplo para país
algum, muito menos para o Brasil" |
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A população argentina vive uma
catarse. Ilude-se com o crescimento momentâneo da economia
e apóia um governo populista numa tentativa desesperada de
recuperar o orgulho e o patrimônio que perdeu desde a crise
iniciada no fim da década de 90. A análise é
do economista argentino Gerardo della Paolera, presidente da Universidade
Americana de Paris. Aos 46 anos, Paolera carrega no currículo
o fato de ter repatriado na década de 90 mais de sessenta
acadêmicos argentinos que haviam deixado o país para
lecionar em universidades estrangeiras. Hoje, repetir o feito é
praticamente impossível. "Cerca de 200 000 profissionais
qualificados saíram do país nos últimos anos
e, se voltarem para a Argentina, vão ganhar algo como 1 000
dólares por mês." Paolera lamenta que o populismo nacional-desenvolvimentista
tenha ressurgido com força na Argentina e culpa o fato de
a reforma liberal dos anos 90 não ter sido concluída
com sucesso: "Faltou uma Lei de Responsabilidade Fiscal. O déficit
público destruiu a Lei da Conversibilidade e empobreceu metade
da população argentina".
Veja Que lições
o Brasil pode tirar da negociação bem-sucedida da
dívida argentina?
Paolera Em primeiro lugar, nossa experiência
não deveria servir de exemplo para país algum, muito
menos para o Brasil. Com poupança doméstica baixa,
o Brasil precisa muito mais do mercado externo para financiar seus
investimentos. Além disso, o mundo todo está olhando
para o Brasil. Ao lado da China e da Índia, é um país
que se destaca pelo crescimento de suas exportações
e pela firme posição nas negociações
comerciais. Não pode se dar ao luxo de pensar em moratória.
Veja O caso argentino aqueceu
o debate sobre a reestruturação da dívida de
países emergentes. Qual o preço que a Argentina pagará
pela moratória?
Paolera Já está pagando um preço
altíssimo. A fatura que diz respeito ao calote já
é visível nos indicadores de pobreza, que ainda chegam
a mais de 40% da população, nos salários que
caíram absurdamente desde 2001, nos bancos quebrados e nas
empresas sem crédito. Quando vou a Buenos Aires, vejo o retrato
de uma aguda desigualdade social, que, ao contrário do que
ocorre nos demais países da América Latina, fica cada
vez mais profunda na Argentina.
Veja E quais serão
as conseqüências de impor enormes perdas aos credores?
Paolera Acho que a conta da negociação
dura que a Argentina fez com os credores ainda está para
chegar. Ela virá quando o país precisar financiar
seus gastos e reconquistar a confiança dos investidores.
Grandes bancos prevêem que o país pagará juros
relativamente baixos para uma república que acabou de sair
do calote: cerca de 10% ao ano. Mas o principal problema não
será o custo do financiamento, e sim o volume que a Argentina
conseguirá atrair. Será muito difícil para
ela contrair grandes dívidas daqui para a frente.
Veja A exemplo do presidente
venezuelano, Hugo Chávez, o presidente argentino, Néstor
Kirchner, incitou a população contra empresas petrolíferas
estrangeiras. O que isso representa para a América Latina?
Paolera Kirchner e Chávez transformaram o ideal
de Simón Bolívar que acreditava na aliança
política da América Latina no discurso hipócrita
e impossível da independência econômica. Aos
fatos: a Argentina está sobrevivendo graças à
China, que consome vorazmente nossos produtos. A Venezuela está
sobrevivendo porque os Estados Unidos deflagraram uma guerra que
fez o preço do petróleo subir e porque o mundo está
consumindo mais combustível para crescer. Se a América
Latina quiser crescer sem solavancos, de maneira sustentada, não
tem outro caminho que não seja o do comércio internacional.
Kirchner e Chávez sabem disso, e não há ideologia
alguma por trás de suas ações. Ainda que tentemos,
é impossível intelectualizá-los. O que há
por trás de suas ações é um discurso
fácil, populista, de quem está aproveitando uma situação
conjuntural para ganhar força política. A história
argentina está repleta de bravatas como essa. A postura de
Kirchner é muito parecida com a do ex-presidente Juan Domingo
Peron, que, com medidas populistas, em poucos anos esgotou as reservas
de ouro do país na década de 40.
Veja O presidente Lula tem
se aproximado de Kirchner e Chávez. O que isso significa
para a América Latina?
Paolera Há uma diferença drástica
entre Lula, de um lado, e Chávez e Kirchner, de outro. Chávez
está sentado em cima de reservas de petróleo e usa
esse fator econômico a seu favor na hora de se posicionar
politicamente. Kirchner é um populista, no melhor estilo
peronista. Criticava o clientelismo do ex-presidente Menem e fez
a mesma coisa ao substituir os juízes da Suprema Corte argentina
por seus apadrinhados. Lula tem um time econômico que segue
à risca a máxima liberal de que não existe
almoço grátis no capitalismo. Essa equipe tem resistido
a pressões políticas, respeita contratos e mantém
a responsabilidade fiscal. O que Lula faz ao se aproximar de Chávez
e Kirchner é somente uma estratégia política
para consolidar sua liderança na América Latina. Lula
não tem nada a ver com esses dois.
Veja A Argentina cresceu
17% desde 2003, mais do que qualquer outro país em desenvolvimento.
Esse número não impressiona?
Paolera Aí é que está o problema.
A Argentina está apenas vivendo um "veranito". Ele logo vai
passar. A economia argentina tem sido beneficiada pelos juros baixos
nos países ricos. Isso estimula o consumo, eleva a procura
por produtos básicos e, conseqüentemente, contribui
para aumentar as exportações do país. Mas esse
crescimento tem um grande componente de sorte. Além disso,
a Argentina não estava pagando parte de sua dívida.
Por isso conseguia investir e ao mesmo tempo economizar e produzir
superávit primário. Se Fernando de la Rúa tivesse
essas mesmas condições em 2001, a situação
do país hoje seria outra. Não é possível
creditar os recentes indicadores econômicos a uma política
de governo para incentivar o consumo e a produção.
A Argentina tem uma dívida de 72% de seu produto interno
bruto. Somente neste ano terá de pagar 13 bilhões
de dólares, o equivalente a 8% de suas riquezas, e, para
piorar, não pode contar indefinidamente com o preço
da soja em alta para se financiar.
Veja Kirchner conseguiu renegociar
e reduzir a dívida do país de 113% para 72% do PIB...
Paolera Essa negociação não serve
de parâmetro. O presidente contou com dois fatores excepcionais.
O primeiro foi o elevadíssimo apetite dos investidores para
os mercados emergentes. Vários fundos de investimento compraram
os papéis de pequenos poupadores e vão ganhar muito
dinheiro porque os novos títulos se valorizarão à
medida que a Argentina se distanciar do calote. No dia seguinte
à reestruturação, os especuladores que pagaram
barato já podiam vender os papéis com lucro de 10%.
O segundo fator é que, se o calote tivesse ocorrido durante
a administração do ex-presidente americano Bill Clinton,
a Argentina teria tido muito mais dor de cabeça. Os argentinos
tiveram a sorte de as atenções dos dois maiores agentes
da arena internacional Estados Unidos e Europa estarem
voltadas para a guerra contra o Iraque e os conflitos entre Israel
e Palestina. A Argentina não estava no foco das atenções
mundiais e, por isso, pôde arriscar.
Veja Quem deveria ter assumido
o papel fiscalizador da Argentina na comunidade internacional? O
Fundo Monetário Internacional?
Paolera O FMI foi extremamente leniente com a
Argentina. Por uma razão muito óbvia: quanto mais
o país pagar aos credores da dívida, menos dinheiro
terá para pagar ao FMI. E a Argentina é o terceiro
maior devedor do Fundo. Na verdade, o FMI é um credor privilegiado
porque vai receber tudo o que emprestou. Por isso, preferiu não
colocar a Argentina contra a parede. Que moral teria o Fundo se
recebesse apenas 30% de sua dívida? Nesse sentido, o FMI
vive hoje um paradoxo. Em vez de ser um garantidor de recursos em
tempos de crise, tornou-se credor privilegiado de um país
sob calote.
Veja Durante os anos 90,
a classe média argentina extasiou-se com a moeda forte e
os frutos das reformas liberalizantes de Carlos Menem. Agora, numa
postura radicalmente oposta, apóia o modelo populista-estatizante
de Kirchner. Afinal, qual é a orientação ideológica
dos argentinos?
Paolera Somos um povo liberal-democrata. Mas devastado
por uma reforma liberal mal-acabada. Foram justamente os erros do
modelo liberal da década de 90 que abriram as portas para
o ressurgimento do populismo que vivemos hoje. Faltou uma Lei de
Responsabilidade Fiscal. O déficit público estava
destruindo a Lei da Conversibilidade e, quando perceberam o problema,
um não-peronista, o presidente Fernando de la Rúa,
tentou forçar o ajuste fiscal. Obviamente, não teve
apoio político porque a maioria das províncias era
governada por peronistas. Já no fundo do poço, o peronismo
ressurgiu com a promessa de crescimento e, nos últimos dois
anos, conseguiu cumpri-la. Não por mérito próprio,
e sim como conseqüência do crescimento mundial. Para
a população, não importa o motivo. Os argentinos
estão preocupados com o presente. Eles estão aproveitando
o calor do "veranito" para tentar recuperar o que perderam. A sociedade
ficou tão abalada com a crise de 2001 e 2002 que hoje desfruta,
em estado catártico, o crescimento econômico sem analisar
as condições políticas do país. Enquanto
os professores nas escolas tentam convencer os alunos a ter responsabilidade
social e dever cívico, as crianças vêem seu
governo suspendendo dívidas, os pais perdendo dinheiro ou,
em raros casos, enviando dinheiro ao exterior para se proteger.
É uma situação ética muito negativa.
Veja O senhor é um
dos poucos analistas latino-americanos que não defendem o
uso da moeda fraca para impulsionar as exportações.
Por quê?
Paolera Parte do setor produtivo sempre clamou pela
desvalorização do peso alegando que a moeda nacional
fraca garantiria produtividade ao setor exportador. Mas produtividade
não pode ser dependente de câmbio e juros, pois esses
são instrumentos de política econômica sujeitos
a fases mais ou menos favoráveis. No caso da Argentina, a
melhor fase das exportações foi justamente durante
a vigência da paridade, quando o peso equivalia ao dólar.
Veja Qual é a explicação?
Paolera A explicação é que a
abertura comercial e a forte campanha dos produtos argentinos no
exterior foram mais importantes do que a taxa de câmbio. Produtividade
depende de novas máquinas e equipamentos e de investimento
em capital humano. A indústria argentina já opera
com 70% de sua capacidade e precisa encontrar financiamento. O problema
é que o sistema bancário não tem crédito
para oferecer. Além disso, é necessário atrair
pessoal capacitado, mas, como os salários estão baixíssimos,
o país sofre um êxodo de mão-de-obra qualificada,
principalmente de cargos cruciais como gerentes executivos. Eu diria
que cerca de 200 000 profissionais deixaram o país desde
2002 para ganhar mais na Europa e nos Estados Unidos. Vejo meus
sobrinhos com alta qualificação precisando da ajuda
dos pais e avós para sobreviver num mercado de trabalho que
paga 1 000 dólares para um profissional com mestrado e pós-graduação.
É claro que há um atraso histórico na América
Latina causado pelo modelo de substituição de importações
que vigorou após a II Guerra Mundial. Os países se
fecharam e as indústrias só atendiam ao mercado interno
sem competir com as multinacionais.
Veja No início do
século XX, a Argentina era a grande promessa da América
Latina de ter uma nação de Primeiro Mundo. Em que
bifurcação o país perdeu o rumo?
Paolera Nem eu nem meus colegas conseguimos chegar
a uma conclusão. Mas certamente o descrédito nas instituições
teve peso fundamental na brutal inversão de trajetória
de crescimento. A Argentina nunca respeitou suas instituições.
Crescemos vertiginosamente no início do século passado
porque tínhamos uma tendência natural à economia
de mercado. Fomos colonizados por europeus que vieram trabalhar
e ganhar dinheiro. Nesse contexto, o comércio com a Europa
foi uma escolha natural. Mas sempre tivemos um problema sério
de corrupção, traço que herdamos de nossos
ancestrais do Mediterrâneo. O banco central argentino, criado
em 1935, nunca teve credibilidade. A Justiça sempre foi vulnerável
a pressões políticas. Entre 1955 e 1983, tivemos dezesseis
presidentes, o que significa que cada um passou, em média,
menos de dois anos no cargo. Além disso, a Argentina vive
uma crise de identidade típica de países médios,
é irrelevante para os principais mercados e, por isso, não
tem uma política externa definida. O Brasil é nosso
maior parceiro comercial, e eu não sei dizer qual é
a política externa em relação ao país
vizinho. Às vezes, estamos em lua-de-mel com o Brasil e,
às vezes, somos arquiinimigos.
Veja A percepção
dos argentinos sobre si mesmos mudou com a deterioração
econômica?
Paolera O esporte nacional do argentino é se
achar excepcional, um europeu dentro da América Latina. Sempre
tivemos delírios de grandeza. A melhor definição
desse sentimento foi dada por André Malraux, escritor francês
e ministro da Cultura do general Charles de Gaulle na década
de 50: "Buenos Aires é a capital de um império que
nunca existiu". Esse conceito foi abalado pela crise, e os argentinos
ficaram mais humildes. Foram forçados a entender que somos
um povo simpático, mas irrelevante para o mundo. Não
seremos os Estados Unidos da América Latina, esse papel é
do Brasil. Não há nada de errado nisso. Podemos ser
um país pequeno e irrelevante em política externa,
mas com qualidade de vida. Acredito que em 25 anos poderemos nos
transformar em uma nação relativamente desenvolvida,
com economia estável, bons indicadores sociais e respeito
aos contratos.
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