Revista VEJA
Exposição
O homem que pintava com a alma
Uma bela exposição de 32 obras de Edward Hopper mostra como um gênio da pintura pode retratar a solidão humana — com esperança
André Petry, de Nova York
Na solidão da mulher em Night Windows (à esq.) ou do dono do posto em Gas, exemplo
da “perfeita doçura”
(Photo
Scala.firenze e Doiomedia)
O senhor de cabelos grisalhos e barriga proeminente exclamou: “Esse homem é sexualmente reprimido”. O senhor estava diante da tela Early Sunday Morning, que Edward Hopper pintou em 1930 (veja reprodução abaixo). Junto com um grupo de vinte pessoas, ele escutava os comentários sobre o quadro feitos pela guia da exposição Modern Life: Edward Hopper and His Time, no Whitney Museum, em Nova York. A guia, uma senhora de idade avançada e compleição franzina que gesticulava com a bolsa pendurada no pulso esquerdo, dizia que a pintura mostrava uma fileira de janelas no 1º andar tão enigmáticas quanto as vitrines do térreo, mas talvez pertencessem a um prostíbulo. Atiçado pela sugestão erótica, o senhor grisalho pediu a palavra, fez citações freudianas e disse que as longas sombras na calçada, projetadas pelo hidrante e pelo poste de barbeiro, eram “óbvias referências penianas” de um homem reprimido. A guia sorriu gentilmente, alguns visitantes também, talvez divertindo-se com o ousado alcance da interpretação.
Nada em Early Sunday Morning é óbvio, mas é certo que Edward Hopper (1882-1967), um ícone da pintura americana da primeira metade do século XX, fez quadros abertos a leituras distintas, às vezes até opostas. Ao longo da carreira, a avaliação crítica de sua obra sofreu mudanças radicais. Ele já foi considerado subjetivo e objetivo, realista e modernista, formalista solitário e individualista nostálgico. Mas nunca escapou à crítica, nem antes nem agora, a tremenda densidade psicológica de seus quadros, inclusive nas telas em que, como em Early Sunday Morning, não há pessoa alguma. Na exposição do Whitney Museum, que reúne 32 obras de Hopper e outras quarenta de quase trinta contemporâneos, a melhor parte está justamente na vastidão psicológica de seus quadros. Neles, há uma verdade suspensa, atemporal, como que congelada por um elemento que permeia delicadamente toda a sua obra: a impossibilidade da comunicação humana, a certeza de que somos essencialmente solitários. Hopper pintou a melancolia da existência. Só um mestre tira tanto da ponta de um pincel.
A exposição, que ficará até o dia 10 de abril, é uma aula sobre a obra de Hopper na medida em que a compara com a de seus colegas. Vendo-se o que os outros são e o que Hopper nunca foi, descobre-se um pouco mais do que ele é. A meio caminho entre realistas e modernistas, ele bebeu nas duas fontes mas nunca pertenceu a nenhum grupo artístico, apesar de ter estudado com Robert Henri (1865-1929), o príncipe do realismo americano do início do século. Nas três viagens que fez a Paris na primeira década, absorveu influência de Édouard Manet e Edgar Degas, e não se interessou por Pablo Picasso ou Henri Matisse. O que chama atenção é a perseverança com que manteve seu estilo e sua temática durante toda a carreira: sempre retratou cenas da vida real, sempre lhes deu dimensão psicológica e nunca se encantou com abstracionismos.
Não cedeu à exuberância americana do início do século nem se converteu em defensor dos pobres e oprimidos. Manteve a constância de tema e técnica mesmo tendo vivido acontecimentos traumáticos, como as duas guerras mundiais e a depressão dos anos 30. Foi, sempre, um poeta da solidão.
Consta que Hopper lia todos os dias um mesmo ensaio do poeta Ralph Waldo Emerson (1803-1882) em que há uma definição elegante da solidão: “O grande homem é aquele que, no meio da multidão, mantém com perfeita doçura a independência da solidão”. Em Night Windows, de 1928, uma mulher vestida de vermelho apanha algo no chão de seu apartamento, provavelmente em Nova York, cidade onde Hopper viveu a maior parte de sua vida. Em The Barber Shop, de 1931, a mulher lê uma revista inteiramente alheia aos acontecimentos ao seu redor. Em Gas, de 1940, o dono do posto de gasolina faz alguma coisa nas bombas à beira da estrada. Em todos, há um elemento comum: o personagem está só, entretido consigo mesmo, numa solidão talvez inevitável mas não triste. Já se disse que Hopper é o pintor da América triste, mas talvez seja uma confusão entre melancolia e tristeza. Em Hopper, a solidão tem um quê de melancolia, mas não é triste, não é desesperada. Examinando-se essas três telas — todas presentes na exposição do Whitney —, percebe-se que a solidão de Hopper é reparadora, sólida, quase aconchegante. São exemplos assombrosos da “perfeita doçura” da “independência da solidão”.
Um elemento definidor de Hopper é seu manejo estupendo da luz. Ele pesquisava intensamente antes de pintar. Chegava a ir a um determinado lugar várias vezes, sempre à mesma ho-ra, para estudar as minúcias da luz e das sombras. O resultado é que a luz de Hop-per é tão pesada, tão quente, tão sólida que parece quase mágica, irreal. Daí talvez venha sua genialidade: sob a irreverência des-se clarão intenso, a solidão que Hopper retrata ganha na tela uma dimensão de conforto, de esperança. Hopper costumava carregar na carteira a cópia de um verso de Goethe: “O começo e o fim de toda a atividade literária é a reprodução do mundo que me cerca por meio do mundo que está dentro de mim”. É essa a precisa definição da obra de Hopper. Ele narra o mundo ao seu redor, mas seu filtro pessoal dá à realidade cotidiana essa dimensão psicológica que tira o fôlego do espectador. Sim, talvez o que estivesse dentro de Hopper fossem dores terríveis, quem sabe repressões dramáticas, como sugeriu o senhor grisalho em visita à exposição. Mas o certo é que Hopper usava pincéis, mas pintava com a alma — e que delícias visuais extraordinárias sua alma nos legou.
O
estupendo manejo da luz aparece em Early Sunday Morning (á esq.) e The Barber Shop
(Fotos Doiomedia e Francis
G.Mayer/Corbis/Latinstock)

