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Ensaio:
Roberto
Pompeu de Toledo
Entre cavalcanti
e severino
No novo presidente da Câmara
convivem, de modo equívoco e
perturbador, duas porções opostas
O nome Severino Cavalcanti é uma contradição
em termos. Em Pernambuco se diz que o estado é dividido entre
duas categorias: a dos cavalcantis e a dos cavalgados. O nome Cavalcanti
faz supor, portanto, que seu portador ocupa a metade de cima, nos
atropelos da cavalgada. Mas o nome Severino é de outra extração.
João Cabral de Melo Neto assim o caracterizou, no poema Morte
e Vida Severina:
"Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta".
O novo presidente da Câmara, de modo
equívoco e desconcertante, é severino e cavalcanti
ao mesmo tempo. Que peso dar à porção severina
e à porção cavalcanti que se conjugam, ou antes
se toleram, ou se esbatem, em seu nome? O deputado se quer severino.
Desde sempre, em sua trajetória parlamentar, se diz situado
do lado fraco, o lado cavalgado, da Câmara Federal. Não
se trata, esse tipo de severino, de severinos iguais aos de João
Cabral, os severinos retirantes, os muitos severinos que, por serem
iguais na vida, são iguais também na morte,
"que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia".
Não. São severinos em um outro
mundo, onde não há seca nem sinas cruéis como
"a de querer arrancar / algum roçado da cinza". São
severinos do mundo político, um mundo em princípio
de fartura e de oportunidades. Mas, dentro desse mundo, sentem-se
a escória. Queixam-se da negligência com que são
tratados, tanto pelos manda-chuvas do Poder Executivo quanto pela
aristocracia parlamentar, aquela formada pelos deputados de verbo
mais fácil, posições políticas mais
identificáveis e presença constante nos jornais. A
crônica política batizou-os, a esses humilhados e ofendidos
do Parlamento, de baixo clero. Assim como há os sem-terra
e os sem-teto, eles seriam, ou pretendem ser, no mundo do poder,
os sem-poderes. Severino Cavalcanti não só sempre
se considerou um deles, como se erigiu no porta-voz de seus lamentos.
Nesse sentido, vá lá, é um severino. Mas...
Mas com que armas e que bandeiras se puseram
os severinos, o porta-voz de suas queixas à frente, ao assalto
da fortaleza defendida pela casta de privilegiados do Parlamento?
Era de supor que com propostas e idéias. Do baixo clero,
quando aspira ao cardinalato, o mínimo que se espera é
que se esmere no latim e se empanturre de teologia. É do
máximo bom-tom, mesmo que não seja sincero, que se
deixem de lado pleitos que representem vantagens pessoais ou cheirem
a privilégios.
Pois Severino Cavalcanti, em sua cavalgada
em direção à presidência da Câmara,
fez tudo ao contrário. Jogou-se com apetite cavalcanti à
captura de um tesouro de benesses aumento de salários
para os deputados, aumento de funcionários a serviço
deles, aumento de viagens boca-livre... De quebra, e não
menos importante, aumento considerável na possibilidade de
mordidas no bolo saboroso do Orçamento. Severino Cavalcanti
fez-se de severino, mas apresentou-se a seus pares com um primor
de plataforma cavalcanti. Foi assim que ganhou. Os severinos da
Câmara estão longe dos severinos de João Cabral,
aqueles que só carregam "coisas de não: / fome, sede,
privação". Carregam coisas de sim mandato,
funcionários, casa de graça, emendas ao Orçamento.
E votaram para ter mais. Protege-os um mestre e guia cuja aparência
severina, à semelhança deles, esconde uma alma cavalcanti.
No fundo, no fundo, nada é assim tão
surpreendente o troca-troca de partidos, as barganhas, a
prevalência do fisiologismo. Já estamos acostumados.
Nem mesmo o desmoralizante desfecho da eleição na
Câmara, espécie de haraquiri institucional praticado
pela casa, é assim tão surpreendente.
Surpreendente, mesmo, é o cenário
dos salões e corredores forrados de propaganda eleitoral
dos candidatos não tanto pela sujeira e deselegância,
e mais pelo que indicam. São só 513 eleitores, todos
profissionais da política. Os cartazes indicariam: (1) que
eles não soubessem que haveria eleição, e precisassem
ser lembrados; (2) que não soubessem quais eram os candidatos;
(3) que seriam eleitores sujeitos à propaganda contida num
cartaz. Em qualquer caso, ficamos com um quadro sombrio de acuidade
mental. Coitados. Severino Cavalcanti neles! Eles merecem.
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