Edição 1893 . 23 de fevereiro de 2005

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Cinema
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O francês Eterno Amor tem uma bela idéia
para desenvolver. Mas exagera na afetação


Isabela Boscov


Divulgação
Jodie, com Audrey: francês impecável e atuação que rouba o filme

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Manech é dado como morto – executado por covardia, na verdade – durante a I Guerra Mundial. Mas sua noiva, Mathilde, acha que, se ele estivesse de fato morto, ela saberia, e que tudo é uma questão de refazer seus passos até encontrá-lo. Partindo desse mote, Eterno Amor (Un Long Dimanche de Fiançailles, França/Estados Unidos, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país, desenvolve uma idéia belíssima: a de que qualquer história engendra incontáveis outras, e que nem todo o tempo do mundo basta para que se reconstitua um único dia na vida de um homem. Dirigido por Jean-Pierre Jeunet e estrelado por Audrey Tautou, a mesma dupla de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, esse novo filme compartilha com o anterior, porém, tanto as qualidades quanto os defeitos – e qualidades e defeitos aqui são quase sempre uma coisa só. Eterno Amor é primorosamente fotografado. Tanto, aliás, que beira a afetação. Audrey preserva, no papel de Mathilde, todos os traços que fizeram dela a gamine francesa da hora. Como o faz quer a situação exija ou não, esses traços redundam em cacoetes. E o diretor Jeunet tem um olho privilegiado para a fantasia, mas, como aqui se está no território da tragédia (ainda que com toques cômicos), essa aptidão soa dissonante.

Eterno Amor teve origem no romance Um Domingo para Sempre, um sucesso do escritor francês Sébastien Japrisot que está sendo lançado no Brasil, na cola do filme. A impressão que Jean-Pierre Jeunet deixa, contudo, é a de que duvida da força de seu enredo e de seu roteiro, e por isso os enfeita tanto. Em vez de acrescentar ao filme, essa ênfase subtrai dele o drama e a espontaneidade. Nada torna isso tão evidente quanto a entrada em cena de Jodie Foster (falando um francês impecável) no papel de Elodie, uma viúva de guerra que tem uma revelação a fazer a Mathilde. Ao narrar como foi obrigada pelo marido a dormir com um amigo dele e apaixonou-se como nunca antes, Jodie aponta os caminhos que Eterno Amor poderia ter seguido e, sem querer, desfere um golpe contra ele. Toda a sorte do mundo para Manech e Mathilde – mas, a partir do momento em que Jodie aparece, o que se deseja mesmo é que o filme esqueça esses dois e siga a história incomparavelmente mais intensa de Elodie e seu soldado desaparecido.

 
 
 
 
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