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Cinema Menos
seria mais O francês Eterno Amor
tem uma bela idéia para desenvolver. Mas exagera na afetação

Isabela Boscov
Divulgação  |
| Jodie, com Audrey: francês impecável e atuação
que rouba o filme |
Manech é
dado como morto executado por covardia, na verdade durante a I Guerra
Mundial. Mas sua noiva, Mathilde, acha que, se ele estivesse de fato morto, ela
saberia, e que tudo é uma questão de refazer seus passos até
encontrá-lo. Partindo desse mote, Eterno Amor (Un Long
Dimanche de Fiançailles, França/Estados Unidos, 2004), que estréia
nesta sexta-feira no país, desenvolve uma idéia belíssima:
a de que qualquer história engendra incontáveis outras, e que nem
todo o tempo do mundo basta para que se reconstitua um único dia na vida
de um homem. Dirigido por Jean-Pierre Jeunet e estrelado por Audrey Tautou, a
mesma dupla de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, esse novo filme
compartilha com o anterior, porém, tanto as qualidades quanto os defeitos
e qualidades e defeitos aqui são quase sempre uma coisa só.
Eterno Amor é primorosamente fotografado. Tanto, aliás, que
beira a afetação. Audrey preserva, no papel de Mathilde, todos os
traços que fizeram dela a gamine francesa da hora. Como o faz quer
a situação exija ou não, esses traços redundam em
cacoetes. E o diretor Jeunet tem um olho privilegiado para a fantasia, mas, como
aqui se está no território da tragédia (ainda que com toques
cômicos), essa aptidão soa dissonante. Eterno
Amor teve origem no romance Um Domingo para Sempre, um sucesso do escritor
francês Sébastien Japrisot que está sendo lançado no
Brasil, na cola do filme. A impressão que Jean-Pierre Jeunet deixa, contudo,
é a de que duvida da força de seu enredo e de seu roteiro, e por
isso os enfeita tanto. Em vez de acrescentar ao filme, essa ênfase subtrai
dele o drama e a espontaneidade. Nada torna isso tão evidente quanto a
entrada em cena de Jodie Foster (falando um francês impecável) no
papel de Elodie, uma viúva de guerra que tem uma revelação
a fazer a Mathilde. Ao narrar como foi obrigada pelo marido a dormir com um amigo
dele e apaixonou-se como nunca antes, Jodie aponta os caminhos que Eterno Amor
poderia ter seguido e, sem querer, desfere um golpe contra ele. Toda a sorte do
mundo para Manech e Mathilde mas, a partir do momento em que Jodie aparece,
o que se deseja mesmo é que o filme esqueça esses dois e siga a
história incomparavelmente mais intensa de Elodie e seu soldado desaparecido.
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