Edição 1893 . 23 de fevereiro de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Auto-retrato
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Livros
Fome de histórias

A necessidade humana de narrar, numa
coletânea organizada por Paul Auster


Jerônimo Teixeira

EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho do livro

Para apreciar devidamente Achei que Meu Pai Fosse Deus (tradução de Pedro Maia Soares; Companhia das Letras; 400 páginas; 49 reais), é melhor o leitor ignorar o nome de Paul Auster na capa. Não se deve esperar a prosa elegante, repleta de citações literárias, que fez a fama do escritor americano. Auster não é o autor, mas apenas o organizador desse livro que parte de uma idéia simples. Convidado a fazer um programa radiofônico na rede de emissoras públicas dos Estados Unidos, em 1999, o escritor convocou os ouvintes a mandar histórias para ele ler no ar. Havia apenas duas exigências: que os textos fossem curtos, e que tratassem de episódios verdadeiros. O retorno dos ouvintes veio na forma de mais de 4.000 histórias. Depois de alguns meses selecionando e lendo essas narrativas no rádio, Auster resolveu coletar as melhores num livro. O próprio antologista adverte na introdução que a maioria dos 179 textos da coletânea – 58 dos quais foram cortados na edição brasileira que está chegando às livrarias – não pode ser qualificada como "literatura". "Trata-se de outra coisa, de uma linguagem crua, direta", diz. Sem artifícios estéticos ou preocupações estilísticas, o livro apela para a necessidade atávica que todo ser humano tem de ouvir – e contar – boas histórias.

Da conversa em torno da fogueira à troca de mensagens instantâneas pela internet, a narração é uma prática constitutiva da nossa espécie. O hábito tem inclusive uma função evolutiva, como vêm sugerindo os psicólogos evolucionistas: as histórias que contamos permitem a partilha de experiências, a troca de conhecimento e o reforço de valores. Algumas ganham caráter civilizatório, na medida em que são mitos fundadores ao redor dos quais povos inteiros organizam sua sociedade, sua cultura, sua religião. O Antigo Testamento é um exemplo eloqüente: era um repositório não só das histórias, mas também da lei do povo hebreu. A Ilíada e a Odisséia, poemas épicos de Homero, foram peças fundamentais da educação dos gregos antigos. O progresso humano caminhou no sentido da especialização das diversas áreas de conhecimento, inclusive do direito, e hoje a lei já não se expressa por meio de parábolas e historinhas exemplares. Mas à noite, ao pé da cama, nenhuma mãe pensaria em ler o Código Civil para seus filhos pequenos: as histórias, além de encantar as crianças, ainda retêm uma função educativa e moral, muito clara no enredo simplista dos contos de fada, em que os maus são punidos e os bons vivem felizes para sempre. As pessoas atribuem um certo caráter formativo não apenas às histórias que ouvem quando crianças, mas também aos episódios que elas mesmas viveram nesse período. A psicanálise (que é, afinal, uma terapia baseada na narrativa de histórias e sonhos) explorou esse caráter fundamental das lembranças de infância, e a coletânea de Auster a confirma em várias histórias – a mais pungente delas fala de uma menina que recebe de seu pai um violento tapa no rosto apenas por ter perdido um chapéu.

Com algum exagero retórico, Auster diz que seu projeto era o de constituir um "museu da realidade americana". Do faxineiro ao empresário, há autores das mais diversas profissões e classes sociais. Auster conseguiu de fato reunir muitos relatos poderosos – como o da filha de agentes funerários diante de seu primeiro cadáver –, ao lado de algumas narrativas canhestras e umas tantas bobagens – inclusive algumas cativantes, como a história de uma galinha, que abre o livro.

Na melhor tradição americana, Achei que Meu Pai Fosse Deus é democrático. Parte da premissa de que todo mundo tem uma boa história para contar. Auster evade assim uma questão teórica que se tornou recorrente na literatura, desde o modernismo: a idéia de que a narrativa estaria em "crise", de que a capacidade de contar histórias e assim conferir algum sentido à existência estaria comprometida pelas vertiginosas mudanças culturais e tecnológicas do mundo moderno. O filósofo alemão Walter Benjamin observou, durante o entreguerras, que os soldados voltaram das trincheiras da I Guerra Mundial mais pobres, e não mais ricos, em "experiência comunicável": a situação que eles viveram era tão catastrófica que escapava a todo esforço narrativo. A coletânea de Auster contraria também essa idéia. Uma das melhores seções do livro é devotada a histórias de guerra – inclusive do conflito no Vietnã, um dos traumas centrais dos Estados Unidos no século XX.

 
 
 
 
topovoltar