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Livros Fome
de histórias A necessidade humana de narrar,
numa coletânea organizada por Paul Auster  Jerônimo
Teixeira
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Para apreciar devidamente Achei
que Meu Pai Fosse Deus (tradução de Pedro Maia Soares; Companhia
das Letras; 400 páginas; 49 reais), é melhor o leitor ignorar o
nome de Paul Auster na capa. Não se deve esperar a prosa elegante, repleta
de citações literárias, que fez a fama do escritor americano.
Auster não é o autor, mas apenas o organizador desse livro que parte
de uma idéia simples. Convidado a fazer um programa radiofônico na
rede de emissoras públicas dos Estados Unidos, em 1999, o escritor convocou
os ouvintes a mandar histórias para ele ler no ar. Havia apenas duas exigências:
que os textos fossem curtos, e que tratassem de episódios verdadeiros.
O retorno dos ouvintes veio na forma de mais de 4.000 histórias. Depois
de alguns meses selecionando e lendo essas narrativas no rádio, Auster
resolveu coletar as melhores num livro. O próprio antologista adverte na
introdução que a maioria dos 179 textos da coletânea
58 dos quais foram cortados na edição brasileira que está
chegando às livrarias não pode ser qualificada como "literatura".
"Trata-se de outra coisa, de uma linguagem crua, direta", diz. Sem artifícios
estéticos ou preocupações estilísticas, o livro apela
para a necessidade atávica que todo ser humano tem de ouvir e contar
boas histórias. Da conversa em torno
da fogueira à troca de mensagens instantâneas pela internet, a narração
é uma prática constitutiva da nossa espécie. O hábito
tem inclusive uma função evolutiva, como vêm sugerindo os
psicólogos evolucionistas: as histórias que contamos permitem a
partilha de experiências, a troca de conhecimento e o reforço de
valores. Algumas ganham caráter civilizatório, na medida em que
são mitos fundadores ao redor dos quais povos inteiros organizam sua sociedade,
sua cultura, sua religião. O Antigo Testamento é um exemplo eloqüente:
era um repositório não só das histórias, mas também
da lei do povo hebreu. A Ilíada e a Odisséia, poemas
épicos de Homero, foram peças fundamentais da educação
dos gregos antigos. O progresso humano caminhou no sentido da especialização
das diversas áreas de conhecimento, inclusive do direito, e hoje a lei
já não se expressa por meio de parábolas e historinhas exemplares.
Mas à noite, ao pé da cama, nenhuma mãe pensaria em ler o
Código Civil para seus filhos pequenos: as histórias, além
de encantar as crianças, ainda retêm uma função educativa
e moral, muito clara no enredo simplista dos contos de fada, em que os maus são
punidos e os bons vivem felizes para sempre. As pessoas atribuem um certo caráter
formativo não apenas às histórias que ouvem quando crianças,
mas também aos episódios que elas mesmas viveram nesse período.
A psicanálise (que é, afinal, uma terapia baseada na narrativa de
histórias e sonhos) explorou esse caráter fundamental das lembranças
de infância, e a coletânea de Auster a confirma em várias histórias
a mais pungente delas fala de uma menina que recebe de seu pai um violento
tapa no rosto apenas por ter perdido um chapéu.
Com algum exagero retórico, Auster diz que seu projeto era o de constituir
um "museu da realidade americana". Do faxineiro ao empresário, há
autores das mais diversas profissões e classes sociais. Auster conseguiu
de fato reunir muitos relatos poderosos como o da filha de agentes funerários
diante de seu primeiro cadáver , ao lado de algumas narrativas canhestras
e umas tantas bobagens inclusive algumas cativantes, como a história
de uma galinha, que abre o livro. Na melhor tradição
americana, Achei que Meu Pai Fosse Deus é democrático. Parte
da premissa de que todo mundo tem uma boa história para contar. Auster
evade assim uma questão teórica que se tornou recorrente na literatura,
desde o modernismo: a idéia de que a narrativa estaria em "crise", de que
a capacidade de contar histórias e assim conferir algum sentido à
existência estaria comprometida pelas vertiginosas mudanças culturais
e tecnológicas do mundo moderno. O filósofo alemão Walter
Benjamin observou, durante o entreguerras, que os soldados voltaram das trincheiras
da I Guerra Mundial mais pobres, e não mais ricos, em "experiência
comunicável": a situação que eles viveram era tão
catastrófica que escapava a todo esforço narrativo. A coletânea
de Auster contraria também essa idéia. Uma das melhores seções
do livro é devotada a histórias de guerra inclusive do conflito
no Vietnã, um dos traumas centrais dos Estados Unidos no século
XX. |