|
|
Cidades Uma
extravagância visual em Nova York Casal de
artistas causa polêmica ao encher o Central Park com seus "portões"
cor de laranja  Marcelo
Marthe Fotos
Reuters
 |
Desde a semana passada, um item extravagante chama
atenção na paisagem do inverno de Nova York. Instalada no Central
Park, um dos cartões-postais da cidade, a obra de arte The Gates ("Os
Portões") é composta de 7.500 traves de vinil com 5 metros de altura,
adornadas com grandes cortinas de náilon que tremulam ao vento. Dispostas
por toda a extensão do parque, elas produzem um efeito magnífico
graças a sua tonalidade laranja ou cor de açafrão,
na definição oficial. O projeto consumiu 21 milhões de dólares
e sua construção envolveu 800 pessoas. Além delas, 300 monitores
são encarregados de vigiar a obra dia e noite, para evitar a ação
de vândalos. Trata-se de números recordes até mesmo para os
maiores especialistas nesse tipo de empreitada, o artista plástico conhecido
apenas como Christo, seu primeiro nome, e sua mulher e parceira, Jeanne-Claude
ele de origem búlgara e ela, francesa. Desde os anos 60, o casal
promove intervenções desse gênero. Valendo-se de panos e plásticos,
eles já "embrulharam" o Parlamento alemão, a Ponte Neuf, em Paris,
e as árvores de um bosque suíço. Certa vez, circundaram onze
ilhas da costa da Flórida com 600.000 metros quadrados de tecidos.  | | Parte
sul do Central Park com os "portões" de Christo |
As criações da dupla sempre foram cercadas de polêmica. Os
mais conservadores questionam seu valor artístico elas não
seriam mais que exercícios de megalomania, tão espalhafatosas quanto
superficiais. Christo e Jeanne-Claude também enfrentam a oposição
de urbanistas e ambientalistas a cada novo projeto. Essas críticas, no
entanto, são equivocadas. Expoente daquilo que se convencionou chamar de
arte ambiental, o casal não embarca nas viagens conceituais tão
comuns entre os artistas contemporâneos. Quando questionados sobre o significado
profundo de sua obra, eles não titubeiam em responder: nenhum. "Cada projeto
é somente uma celebração da alegria e da beleza. Não
estamos interessados em transmitir mensagens", disse Jeanne-Claude a VEJA. O que
não quer dizer que seus trabalhos não tenham valor. Eles proporcionam
aquilo que o crítico de arte e curador americano Robert Storr chamou certa
vez de "experiências de deslocamento", por meio das quais as pessoas são
"arrancadas de suas circunstâncias habituais". Ao embrulhar prédios
e modificar paisagens que fazem parte do dia-a-dia, Christo e Jeanne-Claude oferecem
uma oportunidade para que o trivial ganhe ares de novidade e seja olhado de outra
forma. Quanto às ressalvas dos ambientalistas e urbanistas, os projetos
têm duração efêmera e não deixam rastros.
The Gates ocupará o Central Park por somente dezesseis dias, até
27 de fevereiro, e não será remontado no futuro. Todo o material
vai ser reciclado industrialmente. "Não nos interessa cultivar relíquias",
diz Jeanne-Claude. AP
 | | As
árvores "embrulhadas" na Suíça: intervenções radicais na paisagem |
Por causa das polêmicas, o casal tem dificuldade para viabilizar seus projetos.
The Gates levou 26 anos para sair do papel. A idéia foi lançada
originalmente na década de 70, quando os dois já viviam em Nova
York havia cerca de dez anos, mas foi vetada pela comissão que administra
o Central Park. "Os argumentos contrários eram tantos que preencheram um
calhamaço de 150 páginas", diz Jeanne-Claude. O projeto só
vingou quando o empresário Michael Bloomberg, amigo e entusiasta do trabalho
de Christo, virou prefeito da cidade. Ainda assim, foi preciso alterá-lo
em vez de perfurar o solo para colocar os portões, passou-se a usar
blocos de aço como base das estruturas. Com todos os cuidados, ainda há
protestos. Criticam-se os portões porque perturbariam o equilíbrio
ecológico do parque, lar de espécies de pássaros ameaçadas.
Outros alegam que ceder um espaço público para uma experiência
desse tipo é um precedente perigoso. O casal enfrentou problemas parecidos
em outras obras. Para espetar milhares de guarda-chuvas em arrozais no Japão,
eles gastaram anos para convencer dezenas de proprietários de terras, um
a um, a assinar contratos de autorização. Também travaram
uma batalha para tornar realidade o projeto da Ponte Neuf, em 1985. Na época,
Jeanne-Claude, que toma a dianteira dos negócios enquanto Christo faz as
vezes de cérebro artístico, entrou em conflito com Jacques Chirac,
então prefeito de Paris e futuro presidente francês. "A França
é um reino caduco", diz ela. Christo e Jeanne-Claude,
ambos de 69 anos, conheceram-se na França na década de 50. Refugiado
do regime comunista da Bulgária, onde vivia, ele ganhava a vida pintando
retratos. Um de seus clientes foi um general francês, pai de Jeanne-Claude
e assim nasceu o romance. Em nome da independência, o casal banca
cada centavo de suas obras. Uma escultura de Christo da década de 60 pode
atingir cifras milionárias, e alguns de seus desenhos são comercializados
por até 600.000 dólares. Os esboços de The Gates já
atingiram essa cotação.
|