Edição 1893 . 23 de fevereiro de 2005

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Cidades
Uma extravagância
visual em Nova York

Casal de artistas causa polêmica
ao encher o Central Park com seus
"portões" cor de laranja


Marcelo Marthe

 
Fotos Reuters

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Desde a semana passada, um item extravagante chama atenção na paisagem do inverno de Nova York. Instalada no Central Park, um dos cartões-postais da cidade, a obra de arte The Gates ("Os Portões") é composta de 7.500 traves de vinil com 5 metros de altura, adornadas com grandes cortinas de náilon que tremulam ao vento. Dispostas por toda a extensão do parque, elas produzem um efeito magnífico graças a sua tonalidade laranja – ou cor de açafrão, na definição oficial. O projeto consumiu 21 milhões de dólares e sua construção envolveu 800 pessoas. Além delas, 300 monitores são encarregados de vigiar a obra dia e noite, para evitar a ação de vândalos. Trata-se de números recordes até mesmo para os maiores especialistas nesse tipo de empreitada, o artista plástico conhecido apenas como Christo, seu primeiro nome, e sua mulher e parceira, Jeanne-Claude – ele de origem búlgara e ela, francesa. Desde os anos 60, o casal promove intervenções desse gênero. Valendo-se de panos e plásticos, eles já "embrulharam" o Parlamento alemão, a Ponte Neuf, em Paris, e as árvores de um bosque suíço. Certa vez, circundaram onze ilhas da costa da Flórida com 600.000 metros quadrados de tecidos.

 
Parte sul do Central Park com os "portões" de Christo

As criações da dupla sempre foram cercadas de polêmica. Os mais conservadores questionam seu valor artístico – elas não seriam mais que exercícios de megalomania, tão espalhafatosas quanto superficiais. Christo e Jeanne-Claude também enfrentam a oposição de urbanistas e ambientalistas a cada novo projeto. Essas críticas, no entanto, são equivocadas. Expoente daquilo que se convencionou chamar de arte ambiental, o casal não embarca nas viagens conceituais tão comuns entre os artistas contemporâneos. Quando questionados sobre o significado profundo de sua obra, eles não titubeiam em responder: nenhum. "Cada projeto é somente uma celebração da alegria e da beleza. Não estamos interessados em transmitir mensagens", disse Jeanne-Claude a VEJA. O que não quer dizer que seus trabalhos não tenham valor. Eles proporcionam aquilo que o crítico de arte e curador americano Robert Storr chamou certa vez de "experiências de deslocamento", por meio das quais as pessoas são "arrancadas de suas circunstâncias habituais". Ao embrulhar prédios e modificar paisagens que fazem parte do dia-a-dia, Christo e Jeanne-Claude oferecem uma oportunidade para que o trivial ganhe ares de novidade e seja olhado de outra forma. Quanto às ressalvas dos ambientalistas e urbanistas, os projetos têm duração efêmera – e não deixam rastros. The Gates ocupará o Central Park por somente dezesseis dias, até 27 de fevereiro, e não será remontado no futuro. Todo o material vai ser reciclado industrialmente. "Não nos interessa cultivar relíquias", diz Jeanne-Claude.

 
AP
As árvores "embrulhadas" na Suíça: intervenções radicais na paisagem

Por causa das polêmicas, o casal tem dificuldade para viabilizar seus projetos. The Gates levou 26 anos para sair do papel. A idéia foi lançada originalmente na década de 70, quando os dois já viviam em Nova York havia cerca de dez anos, mas foi vetada pela comissão que administra o Central Park. "Os argumentos contrários eram tantos que preencheram um calhamaço de 150 páginas", diz Jeanne-Claude. O projeto só vingou quando o empresário Michael Bloomberg, amigo e entusiasta do trabalho de Christo, virou prefeito da cidade. Ainda assim, foi preciso alterá-lo – em vez de perfurar o solo para colocar os portões, passou-se a usar blocos de aço como base das estruturas. Com todos os cuidados, ainda há protestos. Criticam-se os portões porque perturbariam o equilíbrio ecológico do parque, lar de espécies de pássaros ameaçadas. Outros alegam que ceder um espaço público para uma experiência desse tipo é um precedente perigoso. O casal enfrentou problemas parecidos em outras obras. Para espetar milhares de guarda-chuvas em arrozais no Japão, eles gastaram anos para convencer dezenas de proprietários de terras, um a um, a assinar contratos de autorização. Também travaram uma batalha para tornar realidade o projeto da Ponte Neuf, em 1985. Na época, Jeanne-Claude, que toma a dianteira dos negócios enquanto Christo faz as vezes de cérebro artístico, entrou em conflito com Jacques Chirac, então prefeito de Paris e futuro presidente francês. "A França é um reino caduco", diz ela.

Christo e Jeanne-Claude, ambos de 69 anos, conheceram-se na França na década de 50. Refugiado do regime comunista da Bulgária, onde vivia, ele ganhava a vida pintando retratos. Um de seus clientes foi um general francês, pai de Jeanne-Claude – e assim nasceu o romance. Em nome da independência, o casal banca cada centavo de suas obras. Uma escultura de Christo da década de 60 pode atingir cifras milionárias, e alguns de seus desenhos são comercializados por até 600.000 dólares. Os esboços de The Gates já atingiram essa cotação.

 

 
 
 
 
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