Edição 1893 . 23 de fevereiro de 2005

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Medicina
Alerta contra a gordura trans

Ganha força o movimento para banir da
alimentação a mais perigosa das gorduras


Paula Neiva

 
Montagem sobre fotos divulgação/Ivson e Fernando Lemos


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Quanto menos, melhor

EXCLUSIVO ON-LINE
Em Profundidade: Dietas e Obesidade

A indústria alimentícia começa a fabricar uma boa notícia no Brasil: a redução e mesmo a eliminação em produtos muito consumidos da mais nociva de todas as gorduras, a trans. Criada para dar mais sabor, melhorar a consistência e prolongar o prazo de validade de alguns alimentos, a gordura trans está na pipoca de microondas, nos salgadinhos de pacotes, nos donuts, nos biscoitos, nas bolachas, nos sorvetes, nas margarinas e em vários itens das refeições de lanchonetes fast-food, como a batata frita, os nuggets e as tortinhas doces. A trans é um importante fator de risco para infartos, derrames, diabetes e outras doenças. O melhor a fazer é tentar bani-la do cardápio. Duas grandes empresas, a Unilever e a Sadia, deram uma boa mão nesse sentido: lançaram recentemente no país tradicionais margarinas em versões trans free. São elas: Doriana, Claybom e Qualy.

A trans surge da transformação de óleos vegetais líquidos em sólidos, por meio de um processo químico chamado hidrogenação parcial. Como sua origem é vegetal, durante muito tempo ela foi tida como uma opção mais saudável à gordura saturada, que, conforme se descobriu no fim da década de 50, faz mal ao coração. Encontrada sobretudo em carnes vermelhas, ovos e leite, entre outros alimentos, a gordura saturada aumenta os níveis no sangue do mau colesterol, o LDL. Aparentemente benéfica, a trans conquistou a indústria de alimentos. "No fim da década de 90, contudo, várias pesquisas científicas demonstraram que a trans é mais nociva do que a saturada", diz a nutricionista Ana Maria Lottenberg, do Hospital das Clínicas de São Paulo. A explicação para isso é que, durante a solidificação dos óleos vegetais, as moléculas de gordura passam por um rearranjo estrutural que faz com que elas, ao ser ingeridas, facilitem o depósito de LDL nas paredes das artérias coronárias. Além disso, a trans reduz as quantidades de uma proteína essencial à produção do bom colesterol, o HDL.

Pouca gente, no entanto, conhece os perigos embutidos na margarina do café-da-manhã, no bolo do lanche da tarde ou nos biscoitos que as crianças levam para a escola. Esse fato fez soar o alarme nas agências reguladoras de alimentos. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou que até 2006 os rótulos dos alimentos industrializados devem informar o consumidor sobre a quantidade de gordura trans contida neles. O mesmo prazo foi dado pela FDA às empresas americanas.

O consumo médio de gordura trans chega a 3% do total calórico diário. Numa dieta de 2.000 calorias, isso equivale a 6,6 gramas – ou quatro biscoitos recheados de chocolate (veja quadro). Pode parecer pouco, mas, em se tratando de gordura trans, é uma quantidade absurda. A Organização Mundial de Saúde preconiza que a ingestão diária de trans não ultrapasse 1% das calorias. Para a indústria, a dificuldade é substituir a gordura trans sem alterar as características dos alimentos. Embora os primeiros estudos sobre a sua nocividade tenham cerca de dez anos, só agora os primeiros produtos trans free estão chegando ao mercado. Nos Estados Unidos, a Frito-Lay, uma das maiores empresas de salgadinhos de pacote, trocou o óleo de fritura de seus produtos por outro livre de gordura trans. A Kraft Foods, fabricante do Oreo, o biscoito recheado mais consumido no mundo, já lançou no mercado americano uma versão da guloseima com 0% de trans e outras duas com baixos teores da gordura.

O maior desafio é para as cadeias de fast-food. Além de não terem encontrado ainda um óleo trans free que mantenha o sabor dos lanches, há um problema de ordem econômica a ser vencido. "Uma das grandes vantagens da gordura trans é que ela pode ser reaproveitada várias vezes sem perder suas características iniciais", diz o químico André Souto, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Esse entrave foi o que fez com que a maior rede de fast-food do mundo fosse condenada pela Justiça dos Estados Unidos. Em 2002, o McDonald's anunciou que, no ano seguinte, cortaria drasticamente a gordura trans da cozinha de seus restaurantes americanos. Como não cumpriu o prometido, a rede foi processada pela organização não-governamental BanTransFats.com. Um milhão e meio de dólares deverá ser gasto em propagandas que informem aos consumidores que o McDonald's usa gordura trans em seus produtos. Os outros 7 milhões de dólares serão doados para a Associação Americana do Coração, que pretende deflagrar uma campanha de alerta sobre os malefícios do aditivo. "Estamos apenas no início dessa guerra", disse a VEJA o advogado americano Stephen Joseph, presidente da BanTransFats.com.

 
 
 
 
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