Edição 1893 . 23 de fevereiro de 2005

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Brasil
Abrindo a caixa vermelha

A extravagante vitória de Severino, o "rei
do baixo clero", mostra o desprezo do PT
pelo Legislativo e revela que a experiência
de poder está esfacelando o partido


Otávio Cabral

 
Gustavo Miranda/Ag. O Globo
Ueslei Marcelino/Folha Imagem

Severino comemora a vitória, que pegou até sua família de surpresa: plataforma sindical

 

Greenhalgh amarga a derrota: pesquisa já mostrava que ele perderia para qualquer um

NESTA REPORTAGEM
Quadro: A cabeça do novo presidente

O presidente Lula disse que a derrota foi do PT. O candidato derrotado do PT, Luiz Eduardo Greenhalgh, afirmou que quem perdeu foi o governo. Até aí, nada de novo. Ninguém gosta de ser apontado como responsável por um fracasso, ainda mais quando se trata de um naufrágio de proporções ciclópicas, como foi a escolha para presidir a Câmara dos Deputados do obscuro deputado pernambucano Severino Cavalcanti, do PP, o partido de Paulo Maluf. O presidente americano John Kennedy, assassinado em 1963, dizia que "a derrota é orfã e a vitória, cheia de pais". Sob esse ponto de vista, a derrota do governo na eleição para a presidência da Câmara é atípica. Ela tem três pais.

• O primeiro deles é o próprio Greenhalgh, um advogado de longa militância esquerdista que sempre fez questão de dizer que escolhe as causas que defende por preferência ideológica. Nada a ver, portanto, com a figura venerável de um Sobral Pinto (1893-1991), o conservador que defendia os comunistas perseguidos pelo regime militar. Greenhalgh é acionado constantemente em defesa das ilegalidades cometidas pelos militantes do MST. Foi advogado dos seqüestradores do empresário Abilio Diniz, em 1989, ocasião em que defendeu a tese temerária de que a motivação política para o crime deveria ser uma atenuante. Some-se a isso sua personalidade incontrastável e tem-se uma candidatura pouco palatável para a maioria dos deputados federais, um conjunto de pessoas que representa a média da população brasileira, cuja posição política é bem mais conservadora do que "o perfil avançado do companheiro Greenhalgh", como definiu o deputado José Genoino, presidente do PT. No segundo turno da eleição na Câmara, o avançado Greenhalgh teve apenas 195 votos. Severino Cavalcanti, conhecido como o "rei do baixo clero", por representar a maioria de deputados sem voz, sem articulação e, convenhamos, sem idéias, recebeu 300 votos.

• O segundo progenitor da derrota é o PT. "Não dá para negar, a culpa é do partido", dizia a amigos o ministro José Dirceu, da Casa Civil, perplexo com o resultado. Em seus 25 anos de história, o Partido dos Trabalhadores já sofreu diversos reveses, a começar pelas três derrotas consecutivas de Lula nas eleições presidenciais, mas nunca experimentara um tombo tão humilhante – e tão didático – como o da semana passada. O episódio mostrou que o partido, no exercício de seus dois primeiros anos de poder federal, gerou entre os deputados um sentimento de repulsa que, até agora, estava contido e dissimulado. Na eleição de Severino, aproveitando o anonimato do voto secreto, os deputados mandaram seu recado de repúdio às práticas prepotentes e hegemônicas do PT – particularmente seu olímpico desprezo pelos demais partidos. Em vez de aglutinar aliados e ampliar apoios, o PT optou pelo exercício imperial do poder. Tratou aliados como siglas de aluguel, filiando e desfiliando deputados conforme sua conveniência. O PTB foi seu laboratório preferido. O partido elegeu 26 deputados, mas inchou para 51. O PL, de 26 deputados, saltou para 46. Os adversários emagreceram brutalmente: o PSDB caiu de setenta para 53 deputados, e o PFL, de 84 para 65. Diz um dirigente petista: "Criamos um monstro, uma hidra de três cabeças, que agora nos devorou". A prática de embaralhar as bancadas atropelando a liturgia partidária talvez se explique pela gênese do PT. Como quase todas as siglas de origem socialista, o partido traz em seu código genético um certo desprezo pelo Parlamento, historicamente visto pelas esquerdas como uma instituição da "democracia burguesa" que carece de legitimidade popular. O próprio Lula já descreveu o Congresso Nacional no passado como uma casa que abrigava uns "300 picaretas".

• O terceiro, e último, pai da maior derrota política de Lula é o Palácio do Planalto. Os chamados articuladores do governo sempre foram rápidos na formulação de promessas e lentos em seu cumprimento, quando não negaceavam simplesmente. "Nesse governo, você só acredita depois que o Diário Oficial é impresso ou a ordem bancária é emitida", diz Ricardo Barros, outro deputado do PP de Severino. Diante de reclamações tão desabridas, pode parecer que o governo e o PT estão sendo punidos porque não cederam à voraz pressão fisiológica dos aliados, sempre ávidos por cargos e verbas. Fosse isso, o governo teria perdido a eleição na Câmara por suas virtudes – infelizmente, aconteceu o contrário. O governo faz o jogo do fisiologismo, mas atua no varejo, de modo a garantir o filé para os próprios petistas. "O PT tem 15% dos parlamentares e 80% dos cargos", diz o deputado Luiz Antonio Fleury, do PTB paulista. "Os aliados só são lembrados na hora de votar o que importa para o governo." É possível que esse comportamento exclusivista seja herança dos tempos em que o PT lutava para ser força hegemônica da esquerda. Tanto que, no governo, nem os aliados históricos têm amplo espaço. O exemplo clássico é a insistência com que o PT tenta derrubar o ministro Aldo Rebelo da Coordenação Política. Seu pecado maior não é ser um desastrado articulador político. É ser do PC do B.

Celso Junior/AE
Lula, antes de deixar o Suriname e voltar ao país: a derrota tirou o sono do presidente


O PT, depois que ascendeu ao Planalto, tem sofrido as dores da divisão entre a cúpula, acusada de ser autoritária, e a base, que não se cansa de reivindicar mais espaço – cantilena que lembra o tom das lamúrias dos próprios partidos aliados. A escolha de Greenhalgh foi um exemplo dessa arrogância. Os membros da bancada foram convidados a indicar os nomes de sua preferência e, com 47 votos, ganhou Virgílio Guimarães. Greenhalgh ficou em terceiro lugar, com 39 votos. Mesmo assim, por decisão autocrática, foi escolhido o candidato oficial. Em janeiro, Virgílio Guimarães, que se rebelou contra o fato de ter sido preterido, encomendou uma pesquisa ao instituto Sensus para avaliar as possibilidades do PT. Ali, descobriu que Greenhalgh perdia para qualquer candidato, inclusive para Severino Cavalcanti. Na simulação da pesquisa, Severino ficava com 48% dos votos e Greenhalgh, com 27% – proporcionalmente bem perto do que aconteceu na semana passada. Nem assim a cúpula do PT achou que deveria reavaliar sua posição. Nem assim cogitou ouvir a opinião dos aliados. Deu no que deu – e, agora, caberá ao país encarar Severino até fevereiro de 2007.

Passado o susto com a derrota do partido do governo na Câmara, foi a vez de o vencedor se assustar. "O senhor tem certeza da candidatura? Vão falar mal do senhor por causa do aumento do salário dos deputados. Vai ser muito desgaste, meu sogro", dizia Olga, nora do deputado Severino Cavalcanti. Ela e demais membros da família vinham aconselhando o deputado a desistir da candidatura à presidência da Câmara. Temiam que o patriarca fosse exposto à zombaria coletiva, já que concorria impulsionado por uma plataforma explicitamente sindical e parecia não ter a mínima chance de vencer a disputa. Venceu. Severino Cavalcanti surpreendeu a própria família e, no mesmo dia da vitória, produziu o primeiro susto. Ele manteve a bandeira de conceder um monumental aumento de quase 70% no salário dos deputados, que poderá passar de 12.850 para 21.500 reais. Prometeu também manter a lei que garante férias de noventa dias por ano aos deputados. Para coroar sua vitória, reafirmou seu projeto de, a um custo de 70 milhões de reais, dar carro oficial a cada um dos 513 deputados.

O segundo susto viria em seguida. Em sua primeira entrevista depois da vitória, Severino deu a conhecer uma pauta de outros projetos que não aqueles destinados tão-somente a melhorar a qualidade de vida de seus pares na Câmara. O novo presidente se disse contra a autonomia do Banco Central e atacou a política econômica do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, que ele, como deputado, sempre apoiou. No campo político, defendeu a coincidência de todas as eleições do país e pregou a prorrogação por dois anos do atual mandato do presidente Lula. Ao analisar a meia hora de entrevista, a jornalista Dora Kramer, colunista do jornal O Estado de S. Paulo, resumiu admiravelmente a cena. Severino, segundo ela, se mostrara "um presidente da Câmara desprovido – pelo menos naquele momento – de organização mental e articulação oral para estabelecer um diálogo razoavelmente sensato".

Severino Cavalcanti, 74 anos, terceiro mandato, é a melhor expressão do chamado "baixo clero", a massa de deputados que, sem influência nem expressão política, exercem seu mandato como se fossem vereadores federais. Desde a semana passada, Severino virou o "rei do baixo clero". Como conseguiu chegar lá? O Congresso Nacional é um reflexo da sociedade brasileira. Ora pode ser um pouco melhor, ora pode ser um pouco pior, mas nunca é radicalmente diferente. Entre os parlamentares, portanto, há sempre bons e maus, cultos e iletrados, honestos e corruptos. A eleição de Severino Cavalcanti não é, portanto, nenhum espanto por sua biografia. O espanto é ele ter sido eleito, sendo apenas um cardeal do baixo clero, e capaz de provocar um susto atrás do outro.

Nabuco, estrela pernambucana do Parlamento imperial: erudição e boas causas

Com as primeiras reações adversas a sua súbita projeção no cenário nacional como presidente de uma das Casas do Congresso – constitucionalmente ele passa a ser o terceiro homem na ordem de sucessão do presidente da República –, foi a vez de Severino se assustar. "Não sou um tresloucado. Não vou ser um homem que vai atrapalhar o país nem farei oposição ao presidente Lula", disse Severino. O novo presidente da Câmara chegou a atribuir as reações a sua origem pernambucana e ao fato de não ter cursado universidade. Engano. O Nordeste sempre produziu alguns dos maiores intelectuais e parlamentares da história brasileira. Joaquim Nabuco, morto em 1910, conterrâneo de Severino e pai do abolicionismo, é o paradigma dessa estirpe. Os mercados financeiros, ávidos rastreadores de fragilidades na governabilidade dos países, não farejaram nenhum risco em Severino. O dólar manteve sua trajetória de queda e a bolsa subiu, sinais clássicos de vitalidade. O susto Severino deve se dissipar. Já a derrota do PT continuará assombrando o Planalto e o presidente Lula por muito tempo.

 

A SAGA DO "BIU DO RELÓGIO"

Reprodução Leo Caldas/Titular
Severino, a mulher e seus netos: para ele, a família tem direito a tudo, até a emprego público

Ao arrebanhar os 300 votos que o colocaram no mais alto posto de sua vida pública, Severino Cavalcanti, 74 anos, fez uma campanha idêntica às que o consagraram entre os eleitores da cidade de João Alfredo, no agreste pernambucano: o assistencialismo explícito. Os deputados gostam de salário gordo, mordomias fartas e benesses diversas, e os eleitores de João Alfredo precisam de emprego, ambulância, tijolo e dentadura – e é isso que Severino sempre lhes deu. Em sua cidade natal, até fundou uma entidade, a Associação Beneficente João Vicente Ferreira, nome de seu pai, que se encarrega de aliviar as dores da miséria. "Nós damos assistência a mais de 600 pessoas", diz Olga Cavalcanti Ferreira, nora de Severino. "Ajudamos a marcar consultas, levamos e trazemos do hospital, damos todo tipo de assistência. Se não for assim, o povo morre." Em 2003, por exemplo, a entidade recebeu 100 000 reais em verbas federais. A estratégia, no pobre interior de Pernambuco, tem dado certo. Em 1994, Severino ganhou seu primeiro mandato de deputado federal com 31 000 votos. Na última eleição, em 2002, teve mais de 80 000.

Filho de um alfaiate e uma dona-de-casa, Severino é o nordestino que venceu na vida por si próprio. Em 1946, embarcou num navio e partiu para São Paulo, onde morou por dezessete anos, conheceu sua mulher, dona Amélia, com quem é casado há 51 anos, e teve quatro filhos. Em São Paulo ou em João Alfredo, para onde voltou em 1963, Severino sempre sobreviveu com a lábia de bom vendedor. "Ele vendia de tudo", conta a filha Ana Cavalcanti Ferreira, que também seguiu a carreira política e hoje é deputada estadual em Pernambuco. Vendia jóias, o que lhe valeu um de seus vários apelidos, o de "Biu do Relógio". Chegou a ser um próspero empresário, dono de uma fábrica de móveis e de uma rede de lojas de eletrodomésticos, a Majucana, combinação dos nomes dos quatro filhos, Maurício, Junior, Catharina e Ana. Faliu. Hoje, seu patrimônio declarado é de 400 000 reais, dos quais 300 000 estão guardados em casa, em dinheiro vivo.

Em quatro décadas de carreira política, Severino já esteve em oito partidos, mas nunca deixou de abrigar-se em legendas à direita. Fez sua estréia na UDN e, após o golpe militar de 1964, bandeou-se para a Arena, partido que deu sustentação ao regime dos generais. Depois disso, passou pelo PDS, PDC, PL, PPR, PFL e, finalmente, pelo atual PP. Em 1980, liderou uma campanha pela expulsão do padre italiano Vito Miracapillo, que se recusara a celebrar uma missa de interesse dos ditadores. No campo moral, Severino é a expressão do conservadorismo. Católico praticante, conheceu o papa João Paulo II em 1999 – o dia mais feliz de sua vida, segundo dizem os amigos – e defende com ardor as posições da Igreja Católica de combate ao homossexualismo e ao aborto. Numa ocasião, durante uma audiência com um militante do movimento gay na Câmara, quando se discutia o projeto de união civil de homossexuais, chegou a ser grosseiro. "O senhor é ativo ou passivo?", quis saber Severino, provocando um certo espanto na platéia. O depoente não perdeu a linha e, com ironia, convidou o deputado a esclarecer a dúvida à frente de dois copos de vinho, à noite.

Seus comícios em João Alfredo são cada vez mais raros, mas ainda atraem atenção. Severino costuma dirigir-se aos eleitores como "meus beatos". "Ele sempre reclama que deputado ganha pouco para o muito que tem de fazer, até chora. É sempre o mesmo discurso", diz José Martins, vereador do PTB que se orgulha de dizer que é "o único político de João Alfredo" que nunca votou em Severino Cavalcanti. "Ele não é confiável. Passou muitos cheques sem fundos na cidade", informa o adversário. Isso não chega a ser uma novidade na vida do novo presidente da Câmara. Em janeiro de 2001, quando ocupava o cargo de corregedor, no qual chegou a pregar a absolvição até de Hildebrando Pascoal, afinal cassado e celebrizado por picar seus adversários com serra elétrica, Severino apareceu numa lista negra do Banco Central que relacionava dezoito deputados com cheques sem fundos. Na época, ele tinha cinco cheques devolvidos, cada um no valor de 4 000 reais, em média.

Como deputado federal, Severino tem sido medíocre. Ele está no terceiro mandato. Apresentou cinqüenta projetos, mas nunca teve a glória de ver qualquer um deles aprovado. Empregou um filho como assessor e não vê nada errado em ter familiares no gabinete. Sua ascensão à Câmara dos Deputados, depois de 28 anos de mandatos sucessivos na Assembléia Legislativa de Pernambuco, deu-se por acaso. Seu amigo e correligionário deputado Ricardo Fiuza, com quem sempre concorria em dobradinha, um para deputado estadual e outro para federal, desistiu de candidatar-se à Câmara em 1994, atingido em cheio pelo escândalo da descoberta de uma máfia de deputados que manipulava o Orçamento. Severino, então, resolveu testar seu fôlego e concorreu. Teve só 31 000 votos, mas, graças à boa votação do PFL na época, conseguiu uma cadeira na Câmara. Agora, no exercício de seu terceiro mandato, sentará na mais cobiçada delas. Realmente, é um susto.  

Malu Gaspar

 

 
 
 
 
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