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Brasil Abrindo
a caixa vermelha A extravagante vitória
de Severino, o "rei do baixo clero", mostra
o desprezo do PT pelo Legislativo e revela que a experiência de
poder está esfacelando o partido  Otávio
Cabral
Gustavo
Miranda/Ag. O Globo
 | Ueslei
Marcelino/Folha Imagem
 | Severino
comemora a vitória, que pegou até
sua família de surpresa: plataforma sindical | Greenhalgh
amarga a derrota: pesquisa já mostrava que ele perderia para qualquer um
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O presidente
Lula disse que a derrota foi do PT. O candidato derrotado do PT, Luiz Eduardo
Greenhalgh, afirmou que quem perdeu foi o governo. Até aí, nada
de novo. Ninguém gosta de ser apontado como responsável por um fracasso,
ainda mais quando se trata de um naufrágio de proporções
ciclópicas, como foi a escolha para presidir a Câmara dos Deputados
do obscuro deputado pernambucano Severino Cavalcanti, do PP, o partido de Paulo
Maluf. O presidente americano John Kennedy, assassinado em 1963, dizia que "a
derrota é orfã e a vitória, cheia de pais". Sob esse ponto
de vista, a derrota do governo na eleição para a presidência
da Câmara é atípica. Ela tem três pais. •
O primeiro deles é o próprio Greenhalgh, um advogado de longa militância
esquerdista que sempre fez questão de dizer que escolhe as causas que defende
por preferência ideológica. Nada a ver, portanto, com a figura venerável
de um Sobral Pinto (1893-1991), o conservador que defendia os comunistas perseguidos
pelo regime militar. Greenhalgh é acionado constantemente em defesa das
ilegalidades cometidas pelos militantes do MST. Foi advogado dos seqüestradores
do empresário Abilio Diniz, em 1989, ocasião em que defendeu a tese
temerária de que a motivação política para o crime
deveria ser uma atenuante. Some-se a isso sua personalidade incontrastável
e tem-se uma candidatura pouco palatável para a maioria dos deputados federais,
um conjunto de pessoas que representa a média da população
brasileira, cuja posição política é bem mais conservadora
do que "o perfil avançado do companheiro Greenhalgh", como definiu o deputado
José Genoino, presidente do PT. No segundo turno da eleição
na Câmara, o avançado Greenhalgh teve apenas 195 votos. Severino
Cavalcanti, conhecido como o "rei do baixo clero", por representar a maioria de
deputados sem voz, sem articulação e, convenhamos, sem idéias,
recebeu 300 votos. • O segundo progenitor da derrota
é o PT. "Não dá para negar, a culpa é do partido",
dizia a amigos o ministro José Dirceu, da Casa Civil, perplexo com o resultado.
Em seus 25 anos de história, o Partido dos Trabalhadores já sofreu
diversos reveses, a começar pelas três derrotas consecutivas de Lula
nas eleições presidenciais, mas nunca experimentara um tombo tão
humilhante e tão didático como o da semana passada.
O episódio mostrou que o partido, no exercício de seus dois primeiros
anos de poder federal, gerou entre os deputados um sentimento de repulsa que,
até agora, estava contido e dissimulado. Na eleição de Severino,
aproveitando o anonimato do voto secreto, os deputados mandaram seu recado de
repúdio às práticas prepotentes e hegemônicas do PT
particularmente seu olímpico desprezo pelos demais partidos. Em
vez de aglutinar aliados e ampliar apoios, o PT optou pelo exercício imperial
do poder. Tratou aliados como siglas de aluguel, filiando e desfiliando deputados
conforme sua conveniência. O PTB foi seu laboratório preferido. O
partido elegeu 26 deputados, mas inchou para 51. O PL, de 26 deputados, saltou
para 46. Os adversários emagreceram brutalmente: o PSDB caiu de setenta
para 53 deputados, e o PFL, de 84 para 65. Diz um dirigente petista: "Criamos
um monstro, uma hidra de três cabeças, que agora nos devorou". A
prática de embaralhar as bancadas atropelando a liturgia partidária
talvez se explique pela gênese do PT. Como quase todas as siglas de origem
socialista, o partido traz em seu código genético um certo desprezo
pelo Parlamento, historicamente visto pelas esquerdas como uma instituição
da "democracia burguesa" que carece de legitimidade popular. O próprio
Lula já descreveu o Congresso Nacional no passado como uma casa que abrigava
uns "300 picaretas". • O terceiro, e último,
pai da maior derrota política de Lula é o Palácio do Planalto.
Os chamados articuladores do governo sempre foram rápidos na formulação
de promessas e lentos em seu cumprimento, quando não negaceavam simplesmente.
"Nesse governo, você só acredita depois que o Diário Oficial
é impresso ou a ordem bancária é emitida", diz Ricardo Barros,
outro deputado do PP de Severino. Diante de reclamações tão
desabridas, pode parecer que o governo e o PT estão sendo punidos porque
não cederam à voraz pressão fisiológica dos aliados,
sempre ávidos por cargos e verbas. Fosse isso, o governo teria perdido
a eleição na Câmara por suas virtudes infelizmente,
aconteceu o contrário. O governo faz o jogo do fisiologismo, mas atua no
varejo, de modo a garantir o filé para os próprios petistas. "O
PT tem 15% dos parlamentares e 80% dos cargos", diz o deputado Luiz Antonio Fleury,
do PTB paulista. "Os aliados só são lembrados na hora de votar o
que importa para o governo." É possível que esse comportamento exclusivista
seja herança dos tempos em que o PT lutava para ser força hegemônica
da esquerda. Tanto que, no governo, nem os aliados históricos têm
amplo espaço. O exemplo clássico é a insistência com
que o PT tenta derrubar o ministro Aldo Rebelo da Coordenação Política.
Seu pecado maior não é ser um desastrado articulador político.
É ser do PC do B.
Celso
Junior/AE
 | | Lula,
antes de deixar o Suriname e voltar ao país: a derrota tirou o sono do presidente |
O
PT, depois que ascendeu ao Planalto, tem sofrido as dores da divisão entre
a cúpula, acusada de ser autoritária, e a base, que não se
cansa de reivindicar mais espaço cantilena que lembra o tom das
lamúrias dos próprios partidos aliados. A escolha de Greenhalgh
foi um exemplo dessa arrogância. Os membros da bancada foram convidados
a indicar os nomes de sua preferência e, com 47 votos, ganhou Virgílio
Guimarães. Greenhalgh ficou em terceiro lugar, com 39 votos. Mesmo assim,
por decisão autocrática, foi escolhido o candidato oficial. Em janeiro,
Virgílio Guimarães, que se rebelou contra o fato de ter sido preterido,
encomendou uma pesquisa ao instituto Sensus para avaliar as possibilidades do
PT. Ali, descobriu que Greenhalgh perdia para qualquer candidato, inclusive para
Severino Cavalcanti. Na simulação da pesquisa, Severino ficava com
48% dos votos e Greenhalgh, com 27% proporcionalmente bem perto do que
aconteceu na semana passada. Nem assim a cúpula do PT achou que deveria
reavaliar sua posição. Nem assim cogitou ouvir a opinião
dos aliados. Deu no que deu e, agora, caberá ao país encarar
Severino até fevereiro de 2007.
Passado
o susto com a derrota do partido do governo na Câmara, foi a vez de o vencedor
se assustar. "O senhor tem certeza da candidatura? Vão falar mal do senhor
por causa do aumento do salário dos deputados. Vai ser muito desgaste,
meu sogro", dizia Olga, nora do deputado Severino Cavalcanti. Ela e demais membros
da família vinham aconselhando o deputado a desistir da candidatura à
presidência da Câmara. Temiam que o patriarca fosse exposto à
zombaria coletiva, já que concorria impulsionado por uma plataforma explicitamente
sindical e parecia não ter a mínima chance de vencer a disputa.
Venceu. Severino Cavalcanti surpreendeu a própria família e, no
mesmo dia da vitória, produziu o primeiro susto. Ele manteve a bandeira
de conceder um monumental aumento de quase 70% no salário dos deputados,
que poderá passar de 12.850 para 21.500 reais. Prometeu também manter
a lei que garante férias de noventa dias por ano aos deputados. Para coroar
sua vitória, reafirmou seu projeto de, a um custo de 70 milhões
de reais, dar carro oficial a cada um dos 513 deputados.
O segundo susto viria em seguida. Em sua primeira entrevista depois da vitória,
Severino deu a conhecer uma pauta de outros projetos que não aqueles destinados
tão-somente a melhorar a qualidade de vida de seus pares na Câmara.
O novo presidente se disse contra a autonomia do Banco Central e atacou a política
econômica do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, que ele, como deputado,
sempre apoiou. No campo político, defendeu a coincidência de todas
as eleições do país e pregou a prorrogação
por dois anos do atual mandato do presidente Lula. Ao analisar a meia hora de
entrevista, a jornalista Dora Kramer, colunista do jornal O Estado de S. Paulo,
resumiu admiravelmente a cena. Severino, segundo ela, se mostrara "um presidente
da Câmara desprovido pelo menos naquele momento de organização
mental e articulação oral para estabelecer um diálogo razoavelmente
sensato". Severino Cavalcanti, 74 anos, terceiro
mandato, é a melhor expressão do chamado "baixo clero", a massa
de deputados que, sem influência nem expressão política, exercem
seu mandato como se fossem vereadores federais. Desde a semana passada, Severino
virou o "rei do baixo clero". Como conseguiu chegar lá? O Congresso Nacional
é um reflexo da sociedade brasileira. Ora pode ser um pouco melhor, ora
pode ser um pouco pior, mas nunca é radicalmente diferente. Entre os parlamentares,
portanto, há sempre bons e maus, cultos e iletrados, honestos e corruptos.
A eleição de Severino Cavalcanti não é, portanto,
nenhum espanto por sua biografia. O espanto é ele ter sido eleito, sendo
apenas um cardeal do baixo clero, e capaz de provocar um susto atrás do
outro.
 | | Nabuco,
estrela pernambucana do Parlamento imperial: erudição e boas causas |
Com
as primeiras reações adversas a sua súbita projeção
no cenário nacional como presidente de uma das Casas do Congresso
constitucionalmente ele passa a ser o terceiro homem na ordem de sucessão
do presidente da República , foi a vez de Severino se assustar. "Não
sou um tresloucado. Não vou ser um homem que vai atrapalhar o país
nem farei oposição ao presidente Lula", disse Severino. O novo presidente
da Câmara chegou a atribuir as reações a sua origem pernambucana
e ao fato de não ter cursado universidade. Engano. O Nordeste sempre produziu
alguns dos maiores intelectuais e parlamentares da história brasileira.
Joaquim Nabuco, morto em 1910, conterrâneo de Severino e pai do abolicionismo,
é o paradigma dessa estirpe. Os mercados financeiros, ávidos rastreadores
de fragilidades na governabilidade dos países, não farejaram nenhum
risco em Severino. O dólar manteve sua trajetória de queda e a bolsa
subiu, sinais clássicos de vitalidade. O susto Severino deve se dissipar.
Já a derrota do PT continuará assombrando o Planalto e o presidente
Lula por muito tempo.
A SAGA DO "BIU DO RELÓGIO"
Reprodução
Leo Caldas/Titular
 | | Severino,
a mulher e seus netos: para ele, a família tem direito a tudo, até a emprego público
|
Ao arrebanhar os 300 votos que o colocaram
no mais alto posto de sua vida pública, Severino Cavalcanti, 74 anos, fez
uma campanha idêntica às que o consagraram entre os eleitores da
cidade de João Alfredo, no agreste pernambucano: o assistencialismo explícito.
Os deputados gostam de salário gordo, mordomias fartas e benesses diversas,
e os eleitores de João Alfredo precisam de emprego, ambulância, tijolo
e dentadura e é isso que Severino sempre lhes deu. Em sua cidade
natal, até fundou uma entidade, a Associação Beneficente
João Vicente Ferreira, nome de seu pai, que se encarrega de aliviar as
dores da miséria. "Nós damos assistência a mais de 600 pessoas",
diz Olga Cavalcanti Ferreira, nora de Severino. "Ajudamos a marcar consultas,
levamos e trazemos do hospital, damos todo tipo de assistência. Se não
for assim, o povo morre." Em 2003, por exemplo, a entidade recebeu 100 000 reais
em verbas federais. A estratégia, no pobre interior de Pernambuco, tem
dado certo. Em 1994, Severino ganhou seu primeiro mandato de deputado federal
com 31 000 votos. Na última eleição, em 2002, teve mais de
80 000. Filho de um alfaiate e uma dona-de-casa,
Severino é o nordestino que venceu na vida por si próprio. Em 1946,
embarcou num navio e partiu para São Paulo, onde morou por dezessete anos,
conheceu sua mulher, dona Amélia, com quem é casado há 51
anos, e teve quatro filhos. Em São Paulo ou em João Alfredo, para
onde voltou em 1963, Severino sempre sobreviveu com a lábia de bom vendedor.
"Ele vendia de tudo", conta a filha Ana Cavalcanti Ferreira, que também
seguiu a carreira política e hoje é deputada estadual em Pernambuco.
Vendia jóias, o que lhe valeu um de seus vários apelidos, o de "Biu
do Relógio". Chegou a ser um próspero empresário, dono de
uma fábrica de móveis e de uma rede de lojas de eletrodomésticos,
a Majucana, combinação dos nomes dos quatro filhos, Maurício,
Junior, Catharina e Ana. Faliu. Hoje, seu patrimônio declarado é
de 400 000 reais, dos quais 300 000 estão guardados em casa, em dinheiro
vivo. Em quatro décadas de carreira política,
Severino já esteve em oito partidos, mas nunca deixou de abrigar-se em
legendas à direita. Fez sua estréia na UDN e, após o golpe
militar de 1964, bandeou-se para a Arena, partido que deu sustentação
ao regime dos generais. Depois disso, passou pelo PDS, PDC, PL, PPR, PFL e, finalmente,
pelo atual PP. Em 1980, liderou uma campanha pela expulsão do padre italiano
Vito Miracapillo, que se recusara a celebrar uma missa de interesse dos ditadores.
No campo moral, Severino é a expressão do conservadorismo. Católico
praticante, conheceu o papa João Paulo II em 1999 o dia mais feliz
de sua vida, segundo dizem os amigos e defende com ardor as posições
da Igreja Católica de combate ao homossexualismo e ao aborto. Numa ocasião,
durante uma audiência com um militante do movimento gay na Câmara,
quando se discutia o projeto de união civil de homossexuais, chegou a ser
grosseiro. "O senhor é ativo ou passivo?", quis saber Severino, provocando
um certo espanto na platéia. O depoente não perdeu a linha e, com
ironia, convidou o deputado a esclarecer a dúvida à frente de dois
copos de vinho, à noite. Seus comícios
em João Alfredo são cada vez mais raros, mas ainda atraem atenção.
Severino costuma dirigir-se aos eleitores como "meus beatos". "Ele sempre reclama
que deputado ganha pouco para o muito que tem de fazer, até chora. É
sempre o mesmo discurso", diz José Martins, vereador do PTB que se orgulha
de dizer que é "o único político de João Alfredo"
que nunca votou em Severino Cavalcanti. "Ele não é confiável.
Passou muitos cheques sem fundos na cidade", informa o adversário. Isso
não chega a ser uma novidade na vida do novo presidente da Câmara.
Em janeiro de 2001, quando ocupava o cargo de corregedor, no qual chegou a pregar
a absolvição até de Hildebrando Pascoal, afinal cassado e
celebrizado por picar seus adversários com serra elétrica, Severino
apareceu numa lista negra do Banco Central que relacionava dezoito deputados com
cheques sem fundos. Na época, ele tinha cinco cheques devolvidos, cada
um no valor de 4 000 reais, em média. Como
deputado federal, Severino tem sido medíocre. Ele está no terceiro
mandato. Apresentou cinqüenta projetos, mas nunca teve a glória de
ver qualquer um deles aprovado. Empregou um filho como assessor e não vê
nada errado em ter familiares no gabinete. Sua ascensão à Câmara
dos Deputados, depois de 28 anos de mandatos sucessivos na Assembléia Legislativa
de Pernambuco, deu-se por acaso. Seu amigo e correligionário deputado Ricardo
Fiuza, com quem sempre concorria em dobradinha, um para deputado estadual e outro
para federal, desistiu de candidatar-se à Câmara em 1994, atingido
em cheio pelo escândalo da descoberta de uma máfia de deputados que
manipulava o Orçamento. Severino, então, resolveu testar seu fôlego
e concorreu. Teve só 31 000 votos, mas, graças à boa votação
do PFL na época, conseguiu uma cadeira na Câmara. Agora, no exercício
de seu terceiro mandato, sentará na mais cobiçada delas. Realmente,
é um susto. Malu Gaspar
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