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Carta ao leitor Tentações
populistas Reuters
 | | Lula,
com Chávez: maus exemplos dos vizinhos do sul e do norte |
Uma reportagem da presente edição de VEJA mostra como a economia
familiar de milhares de pequenos investidores europeus foi destruída pelo
calote que a Argentina deu em sua dívida pública há três
anos. A reportagem ressalta também o risco embutido na idéia de
que o calote pode ser uma saída aceitável para países endividados
com dificuldades para equilibrar sua economia. Não é. Ninguém
sofreu mais as conseqüências da moratória unilateral da dívida
soberana argentina do que os pobres daquele país. Ninguém também
pagará um preço maior do que os próprios argentinos para
readquirir a confiança em sua economia e atrair investimentos.
Mas, quando se anunciar, nesta semana, o resultado final dos acordos de renegociação
da dívida dos nossos vizinhos do sul, não faltarão no Brasil
análises dando conta de que o calote não é assim tão
nocivo. Afinal, não é improvável que o governo de Buenos
Aires atinja a massa crítica esperada de respostas "sim" a sua proposta
de pagar apenas um quarto do que deve. Junte-se a isso o anúncio de que
a economia argentina cresceu 8,8% em 2004 e tem-se o cenário propício
a vender a ilusão de que calote vale a pena.
Do vizinho do norte, a Venezuela, vem outra ilusão numérica de que
os países podem progredir mesmo ignorando as regras consagradas de estabilização
financeira que o governo Lula, com acerto e não sem sacrifícios
para sua popularidade, adotou no Brasil. Com 35% do seu PIB produzido por exportações
de petróleo, a Venezuela beneficiou-se da explosão dos preços
do combustível e cresceu 17% em 2004. Apesar disso e do controle de capitais,
10 bilhões de dólares fugiram no ano passado e a qualidade de vida
do povo no país de Hugo Chávez se deteriorou ainda mais.
Os números da economia de Argentina e Venezuela escondem artificialismos
que podem ser descritos por uma expressão cara aos economistas: "dependendo
do motor, até tijolo voa". Argentina e Venezuela, que Lula visitou na semana
passada, oferecem duas tentações populistas às quais o Brasil
não deve ceder. Com longa e funesta tradição na América
Latina, o populismo se alimenta da ignorância das massas e da fragilidade
das instituições. O populismo nada mais conseguiu do que a perpetuação
do subdesenvolvimento e dos privilégios dos seus beneficiários.
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