Edição 1893 . 23 de fevereiro de 2005

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Carta ao leitor
Tentações populistas

 
Reuters
Lula, com Chávez: maus exemplos dos vizinhos do sul e do norte

Uma reportagem da presente edição de VEJA mostra como a economia familiar de milhares de pequenos investidores europeus foi destruída pelo calote que a Argentina deu em sua dívida pública há três anos. A reportagem ressalta também o risco embutido na idéia de que o calote pode ser uma saída aceitável para países endividados com dificuldades para equilibrar sua economia. Não é. Ninguém sofreu mais as conseqüências da moratória unilateral da dívida soberana argentina do que os pobres daquele país. Ninguém também pagará um preço maior do que os próprios argentinos para readquirir a confiança em sua economia e atrair investimentos.

Mas, quando se anunciar, nesta semana, o resultado final dos acordos de renegociação da dívida dos nossos vizinhos do sul, não faltarão no Brasil análises dando conta de que o calote não é assim tão nocivo. Afinal, não é improvável que o governo de Buenos Aires atinja a massa crítica esperada de respostas "sim" a sua proposta de pagar apenas um quarto do que deve. Junte-se a isso o anúncio de que a economia argentina cresceu 8,8% em 2004 e tem-se o cenário propício a vender a ilusão de que calote vale a pena.

Do vizinho do norte, a Venezuela, vem outra ilusão numérica de que os países podem progredir mesmo ignorando as regras consagradas de estabilização financeira que o governo Lula, com acerto e não sem sacrifícios para sua popularidade, adotou no Brasil. Com 35% do seu PIB produzido por exportações de petróleo, a Venezuela beneficiou-se da explosão dos preços do combustível e cresceu 17% em 2004. Apesar disso e do controle de capitais, 10 bilhões de dólares fugiram no ano passado e a qualidade de vida do povo no país de Hugo Chávez se deteriorou ainda mais.

Os números da economia de Argentina e Venezuela escondem artificialismos que podem ser descritos por uma expressão cara aos economistas: "dependendo do motor, até tijolo voa". Argentina e Venezuela, que Lula visitou na semana passada, oferecem duas tentações populistas às quais o Brasil não deve ceder. Com longa e funesta tradição na América Latina, o populismo se alimenta da ignorância das massas e da fragilidade das instituições. O populismo nada mais conseguiu do que a perpetuação do subdesenvolvimento e dos privilégios dos seus beneficiários.

 
 
 
 
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