Edição 1893 . 23 de fevereiro de 2005

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Auto-retrato
Pablo Paulino

Claudio Rossi


O santista Pablo Paulino, de 17 anos, é um fenômeno do mundo do surfe, um esporte em que os brasileiros ainda têm pouca tradição. Criado em uma favela de Fortaleza, no Ceará, Pablo sagrou-se, no mês passado, campeão mundial na categoria júnior (até 20 anos), na Austrália. Ele contou ao repórter Marcelo Carneiro as dificuldades que superou para conquistar essa façanha.

COMO UM SURFISTA POBRE E DE UM PAÍS COM POUCA TRADIÇÃO NO ESPORTE CONSEGUIU CONQUISTAR UM TÍTULO MUNDIAL?
É preciso batalhar muito. Nossos surfistas são bons, mas alguns não têm cabeça. Já vi gente ganhar carros e muito dinheiro em premiações e não ter uma casa para morar. Tenho amigos que surfam tão bem quanto eu, mas não querem saber de treinar. Quando estou no Rio de Janeiro ou no Ceará, até meus parentes reclamam que não saio à noite. Eu digo que no dia seguinte tenho de estar de manhãzinha dentro d'água.  

PARA GANHAR O CAMPEONATO, VOCÊ DERROTOU AUSTRALIANOS, HAVAIANOS E AMERICANOS, OS MELHORES SURFISTAS DO MUNDO. COMO CONSEGUIU VENCÊ-LOS?
Acho que os brasileiros surfam muito melhor, mas na hora das competições ficam intimidados e parecem envergonhados por eles terem mais experiência e mais grana, além de melhores ondas, do que nós. O Brasil já ganhou três títulos mundiais de júnior, mas nunca um profissional. Minha meta é entrar no WCT (divisão de elite do surfe profissional).  

ATÉ O ANO PASSADO, VOCÊ ESTAVA PRATICAMENTE SEM PATROCÍNIO, APESAR DE SER CAMPEÃO BRASILEIRO E SUL-AMERICANO. COMO CONSEGUIA PARTICIPAR DAS COMPETIÇÕES?
Contava com o apoio de amigos. Às vezes, meu shaper (fabricante de pranchas), Tiago Cunha, dava as passagens, mas eu não tinha dinheiro para a comida nem para a hospedagem. Os outros surfistas, então, arrumavam alguma coisa para eu comer.

O QUE MUDOU EM SUA VIDA DEPOIS DE TER SE TORNADO CAMPEÃO DO MUNDO?
Tudo. Agora estou em uma equipe (Billabong, uma das maiores marcas de surfe do mundo) que tem ótima estrutura, com técnico, preparador físico, nutricionista e professora de inglês. Também passei a fazer parte de uma agência que, além de empresariar minha carreira, dá assessoria financeira, me ajudando a aplicar melhor o dinheiro que ganho nas competições.  

E O QUE VOCÊ FEZ COM OS 6 000 DÓLARES QUE GANHOU PELA CONQUISTA DO CAMPEONATO MUNDIAL?
Dei tudo a minha mãe. Ela queria comprar um terreno em Fortaleza. Nem sei se era o melhor investimento, mas ela merece. Antes de ganhar o campeonato mundial, estava morando no Rio de Janeiro e fiquei praticamente um ano e meio sem vê-la. Eu saí de casa aos 13 anos dizendo que seria um surfista profissional. Ela não queria deixar, tinha medo de me ver sozinho em uma cidade grande, mas entendeu que a gente podia melhorar de vida.  

COMO VOCÊ COMEÇOU A SURFAR?
Eu nasci em Santos, mas aos 7 anos minha família mudou-se para o Titanzinho, uma vila de pescadores em Fortaleza, que tem ótimas ondas. Como não tinha dinheiro, surfava com um pedaço de prancha quebrada. Quando eu estava com 8 anos, a Tita Tavares (uma das principais surfistas femininas do país) me viu tentando pegar uma onda enorme. Quase morri afogado, mas ela me salvou e depois me deu uma prancha.  

ATÉ SURFISTAS EXPERIENTES ADMITEM TER MEDO DE ONDAS GRANDES. COMO VOCÊ LIDA COM ISSO?
Não tenho medo. Pelo contrário, gosto bastante. Quando eu tinha 14 anos, tentei uma manobra arriscada em uma onda de 2 metros, no Titanzinho, e bati com a cabeça numa pedra. Fui levado desmaiado e só acordei em casa, com cinco pontos na testa. Minha mãe falou que nunca mais ia me deixar surfar. Eu disse para ela: "Que é isso, mãe? Agora é que está ficando bom".

 
 
 
 
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