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 André
Petry O
beato do apagão "Afinal, todo mundo
sabe que a gravidez indesejada é comum entre mulheres pobres. Mulher
abastada, se quiser, faz aborto na esquina, com conforto e a higiene necessária"
Severino Cavalcanti não é um homem de seu
tempo. É de antes. Como radical da direita católica, daqueles que
desenvolvem um tipo peculiar de fobia pública a tudo o que se assemelha
a prazer sexual, Severino é contra a flexibilização da lei
do aborto. Acha que a legislação atual, que autoriza o aborto apenas
em casos de estupro e risco para a vida da gestante, já é permissiva
demais e deveria ser revogada. Enquanto isso...
O governo decidiu aumentar a distribuição
de pílulas do dia seguinte nos postos da rede pública de saúde.
A pílula do dia seguinte -- que os religiosos dizem ser abortiva, mas os
cientistas, que afinal são autoridade no assunto, afirmam que não
-- é uma medida sensata de saúde pública. Afinal, todo mundo
sabe que a gravidez indesejada é comum entre mulheres pobres. Mulher abastada,
se quiser, faz aborto na esquina, com todo o conforto e com a higiene necessária.
Severino acha que relacionamento homossexual é
coisa do diabo. Jamais votaria a favor de qualquer projeto de lei que regularizasse
a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Como presidente da Câmara,
já prometeu que nada nesse âmbito, no que depender dele, será
aprovado. Enquanto isso... Um
juiz de Porto Alegre, Roberto Arriada Lerea, reconheceu que a separação
de um casal de homens que viviam juntos havia cinco anos devia gerar os mesmos
efeitos de um divórcio heterossexual. Ou seja: os bens adquiridos durante
a união estável deveriam ser divididos entre os dois. É uma
decisão inovadora, na qual o juiz faz questão de dizer que a união
estável -- ou o casamento civil -- é acessível a todos os
brasileiros, não importa o sexo. Nem a religião. Severino
rejeita a idéia de autorizar a pesquisa de células-tronco embrionárias,
sob a alegação, difundida pelo dogma religioso, de que um embrião
representa uma vida, a vida é um dom divino e, portanto, tem de manter-se
imune à ação do homem. A pesquisa de células-tronco
embrionárias é a maior promessa científica de triunfo humano
sobre a morte e a dor, mas religiosos como Severino não entendem assim.
No Congresso Nacional, o projeto que trata do assunto produziu um consenso. Os
cientistas brasileiros poderão pesquisar os embriões que estiverem
há mais de cinco anos nos estoques das clínicas de fertilização
e prestes a ser descartados. Ou seja: o máximo que se conseguiu foi permitir
que os cientistas estudem os cerca de 20.000 embriões que, de qualquer
modo, acabarão sendo jogados no lixo. Enquanto
isso... O governo da Inglaterra já concedeu
duas licenças para que dois grupos de cientistas explorem os mistérios
das células-tronco embrionárias, que prometem oferecer a cura de
doenças degenerativas, como Alzheimer e Parkinson. A autorização
mais recente foi dada ao cientista Ian Wilmut, o pai da ovelha Dolly. Ele ganhou
a permissão mais avançada que existe até hoje: poderá
fazer clonagem terapêutica de embriões humanos para estudar sua mecânica
a fundo. Se e quando os ingleses tiverem sucesso, é provável que
apareça carola brasileiro rico pegando o avião para se tratar por
lá. Durante a longa votação
que resultou na vitória de Severino, o plenário da Câmara
ficou subitamente às escuras. O apagão durou uns quatro minutos.
Era premonitório. |