Edição 1 637 - 23/2/2000

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Brasil aos pedaços

"Dar rumos comuns à nação não é só fazer projetos de lei e dizer frases na televisão, como parecem pensar muitos membros do Legislativo e do Executivo"

 

Ilustração: Alê Setti

As notícias sobre o deslanche das exportações do Estado do Amazonas merecem reflexão. Registrou-se no ano passado um aumento de 136% nas vendas estaduais ao exterior. A retração do mercado interno, de um lado, e o barateamento das exportações depois da desvalorização do real, de outro, explicam esse fenômeno. Entretanto, a construção da BR-174, ligando Manaus a Caracas, vai amarrar mais solidamente o Amazonas à economia do Caribe.

Sempre houve uma atração caribenha sobre a Amazônia. As investidas francesas e holandesas na região no século XVII nada tinham a ver com o Brasil propriamente dito. Destinavam-se a fincar bases na rota do Caribe. A corrente das Guianas, que empurra tudo para o norte a partir do Cabo de São Roque, no Rio Grande do Norte, cortava a área do resto do Brasil. Para resolver o problema, a coroa criou o Estado do Grão-Pará e Maranhão, em 1621, diretamente ligado a Lisboa, de onde era mais fácil chegar ao litoral amazônico do que da Bahia ou do Rio de Janeiro.

No Brasil daquela época, cada região tinha seu próprio norte. A Bahia exportava tabaco para a Costa da Mina, de onde trazia africanos, Pernambuco ajudava os portugueses a pilhar Angola, o Rio de Janeiro fazia triangulação com Buenos Aires e Luanda em negócios envolvendo a prata e escravos, São Paulo mancomunava-se com bandoleiros do Paraguai para saquear as missões jesuíticas. Esse Brasil aos pedaços se tornou uma só coisa depois que surgiu o ouro no coração da América do Sul. Em torno do grande polígono mineiro, formado pelas minas de Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais, constituiu-se o mercado interno que engendrou o país nascido em 1822. O peso decisivo do Rio de Janeiro ajudou a manter as regiões brasileiras unidas.

Agora, numa fase de longa retração no mercado interno, há de novo pólos magnéticos se ativando no sul e no norte do país. Com hidrovias e novos mercados, o Mercosul funda uma geografia econômica que engloba os Estados sulinos. No Norte surge este Merconorte que puxa a Amazônia para o Caribe – para um mercado de 30 bilhões de dólares, de valor aparentemente igual ao do Mercosul, mas bem diferente em razão de duas circunstâncias importantes. Em primeiro lugar, há o Merconorte da bandidagem, dos traficantes colombianos e outros, associados a seus congêneres brasileiros. Agindo numa região onde a autoridade republicana brasileira sempre foi débil, esses setores estão criando uma poderosa economia do crime. Em segundo lugar, há o magnetismo de Miami, a nova Roma do mundo latino-americano.

Ah, na história americana Miami é qualquer coisa! Depois da Guerra da Secessão, quando o mercado interno dos Estados Unidos foi unificado, Boston afirmou-se como a grande capital econômica e cultural da aristocracia nortista que dominava o país. Após a I Guerra Mundial, quando o dólar venceu a libra inglesa nas finanças internacionais, Boston passou o bastão para Nova York, capital cosmopolita da nova potência mundial. Agora Miami aparece como a primeira capital de um subsistema latino da dominação americana do mundo, à espera de que Los Angeles se afirme como capital do subsistema asiático.

Diante desses desafios, coloca-se o problema do governo federal e da própria capital federal brasileira. Nem Brasília nem nenhuma outra capital brasileira jamais poderá vir a ter a preeminência que o Rio de Janeiro – simultaneamente capital política, econômica e cultural do país – exerceu no Brasil durante um século e meio. Dar rumos comuns à nação não é só fazer projetos de lei e dizer frases na televisão, como parecem pensar muitos membros do Legislativo e do Executivo. Muito mais que isso, é preciso demonstrar aptidão política para limitar o esgarçamento social, juntar vontades e destinos, seguir o movimento do mundo e impedir que ressurja um Brasil aos pedaços. Na situação atual, inércia e inépcia formam uma combinação mortal para as nações.

 

Luiz Felipe de Alencastro é historiador