E depois Terceiro Mundo somos nós?
A ascensão da
direita na Áustria, pena de morte para adolescentes
nos EUA coitados, eles não têm jeito
Há o caso da Áustria, mas não só
o caso da Áustria. Há Le Pen na França,
caçador de magrebinos. Há na Itália
o separatismo anti-siciliano, antinapolitano e anticalabrês.
A guerra religiosa na Irlanda. A limpeza étnica na
Iugoslávia. Será que um dia a Europa toma
jeito? Tenhamos em mente que o continente que inventou a
democracia e a liberdade e produziu o melhor da ciência
e o melhor da arte é também o continente que
inventou o racismo e a intolerância. O cineasta polonês
Andrei Wajda disse uma vez: "A Alemanha continuará
a significar, entre outras coisas, Auschwitz. Vale dizer:
Goethe e o genocídio, Beethoven e as câmaras
de gás, Kant e as botas dos nazistas". Por extensão,
a Europa é, e sempre será, o teto da Capela
Sistina e o gueto de Varsóvia, São Francisco
de Assis e a Inquisição, o iluminismo e a
Noite de São Bartolomeu, a Declaração
dos Direitos do Homem e do Cidadão e o holocausto.
* * *
Há o caso do surto de fé eleitoral nos Estados
Unidos. Escolher entre os quatro principais concorrentes
na corrida presidencial será tarefa dificílima
se o critério do eleitor for a piedade e a devoção.
O principal candidato do Partido Republicano, George W.
Bush, afirmou num programa de TV que Jesus é "o filósofo,
ou pensador", que mais o influenciou. "Rezo diariamente",
diz ele. "Leio as escrituras todo dia." Bush assegura ter
sempre Jesus no coração. O principal candidato
do Partido Democrata, o vice-presidente Al Gore, diz que,
nas decisões que enfrenta a cada dia, freqüentemente
se pergunta: "Que faria Jesus Cristo em meu lugar?" O principal
desafiante de Bush no Partido Republicano, o senador e herói
de guerra John McCain, afirma que encontrou na fé
o encorajamento e a inspiração para resistir,
durante os seis anos da Guerra do Vietnã em que foi
mantido prisioneiro pelo inimigo. O principal desafiante
de Gore no Partido Democrata, ex-senador Bill Bradley, recusa-se
a discutir fé em público, ao contrário
do que os outros fazem abundantemente, mas não impede
que sua assessoria divulgue que, sim, fez parte da Sociedade
dos Atletas Cristãos, ao tempo em que era jogador
de basquete; sim, decorava trechos da Bíblia;
e, sim, fazia pregações aos colegas, nesse
mesmo período de sua vida. Um brasileiro que cochilasse
durante um debate eleitoral americano acordaria imaginando-se
num programa da TV Record.
Compreende-se que a religião ocupe tanto espaço
da campanha. Segundo uma pesquisa do Instituto Gallup, só
49% dos americanos dizem que votariam num candidato ateu.
Com um gay eles seriam mais generosos: 59% votariam nele.
De toda forma, ficam algumas perguntas no ar. Está-se
escolhendo o mais preparado para liderar o país ou
para ir para o céu? Os americanos vão eleger
um presidente ou um aiatolá? Não é
por nada, mas, às vezes, os Estados Unidos parecem
o Irã.
* * *
Há o caso da pena de morte para crimes cometidos
por adolescentes, também nos Estados Unidos. Já
são três os condenados executados neste ano,
nessas circunstâncias dois no Estado da Virgínia,
um no do Texas. Todos tinham entre 16 e 17 anos quando praticaram
o crime homicídio, sempre. Dos 38 Estados americanos
que adotam a pena de morte, 23 permitem sua aplicação
em criminosos juvenis. Desde que a pena de morte foi restabelecida
no país, em 1976, houve dezesseis casos de execuções
desse tipo. Outros setenta aguardam a vez. O governador
do Texas, George W. Bush, aquele mesmo que, agora candidato
à Presidência, tem Jesus sempre no coração,
considera que a legislação penal de seu Estado,
a qual permite a punição de crimes cometidos
a partir de 17 anos, é "apropriada". (Bush, a quem,
como governador, cabe a última palavra, em casos
de pena de morte, deu sinal verde a mais de 100 execuções
falamos agora de execuções em geral, não
apenas de criminosos juvenis durante seu mandato.)
A revista The New Yorker, de onde foram extraídos
os números acima, cita a sentença com que
um juiz de Chicago, em 1924, livrou da pena de morte, por
ser menores, dois jovens que haviam matado um terceiro.
"Essa determinação", diz a sentença,
"parece de acordo com o progresso do direito penal ao redor
do mundo e com os ditames da humanidade civilizada." Isso
em 1924. Já hoje... Hoje, além dos Estados
Unidos, só cinco países permitem a pena de
morte em crimes de menores Irã, Nigéria,
Paquistão, Arábia Saudita e Iêmen. Não
é por nada, mas, às vezes, os Estados Unidos
parecem mesmo o Irã.
* * *
E há o caso da corrupção eleitoral
na Alemanha, onde o ex-chanceler Helmut Kohl deixou-se afogar
num mar de contribuições secretas a seu partido...
E há o caso do terrorismo assassino do ETA na Espanha...
Em comum, esses casos têm o fato de ser todos europeus
ou americanos. Oferece-se esta página aos leitores
desta banda do mundo como consolo ou, se se quiser, vingança.
E depois Terceiro Mundo somos nós? Coitados deles.
Deve ser penoso viver num mundo mergulhado na ignorância
e na violência, no populismo demagógico, no
atraso e na intolerância.