Edição 1 637 - 23/2/2000

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E depois Terceiro Mundo somos nós?

A ascensão da direita na Áustria, pena de morte para adolescentes nos EUA – coitados, eles não têm jeito

Há o caso da Áustria, mas não só o caso da Áustria. Há Le Pen na França, caçador de magrebinos. Há na Itália o separatismo anti-siciliano, antinapolitano e anticalabrês. A guerra religiosa na Irlanda. A limpeza étnica na Iugoslávia. Será que um dia a Europa toma jeito? Tenhamos em mente que o continente que inventou a democracia e a liberdade e produziu o melhor da ciência e o melhor da arte é também o continente que inventou o racismo e a intolerância. O cineasta polonês Andrei Wajda disse uma vez: "A Alemanha continuará a significar, entre outras coisas, Auschwitz. Vale dizer: Goethe e o genocídio, Beethoven e as câmaras de gás, Kant e as botas dos nazistas". Por extensão, a Europa é, e sempre será, o teto da Capela Sistina e o gueto de Varsóvia, São Francisco de Assis e a Inquisição, o iluminismo e a Noite de São Bartolomeu, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão e o holocausto.

* * *

Há o caso do surto de fé eleitoral nos Estados Unidos. Escolher entre os quatro principais concorrentes na corrida presidencial será tarefa dificílima se o critério do eleitor for a piedade e a devoção. O principal candidato do Partido Republicano, George W. Bush, afirmou num programa de TV que Jesus é "o filósofo, ou pensador", que mais o influenciou. "Rezo diariamente", diz ele. "Leio as escrituras todo dia." Bush assegura ter sempre Jesus no coração. O principal candidato do Partido Democrata, o vice-presidente Al Gore, diz que, nas decisões que enfrenta a cada dia, freqüentemente se pergunta: "Que faria Jesus Cristo em meu lugar?" O principal desafiante de Bush no Partido Republicano, o senador e herói de guerra John McCain, afirma que encontrou na fé o encorajamento e a inspiração para resistir, durante os seis anos da Guerra do Vietnã em que foi mantido prisioneiro pelo inimigo. O principal desafiante de Gore no Partido Democrata, ex-senador Bill Bradley, recusa-se a discutir fé em público, ao contrário do que os outros fazem abundantemente, mas não impede que sua assessoria divulgue que, sim, fez parte da Sociedade dos Atletas Cristãos, ao tempo em que era jogador de basquete; sim, decorava trechos da Bíblia; e, sim, fazia pregações aos colegas, nesse mesmo período de sua vida. Um brasileiro que cochilasse durante um debate eleitoral americano acordaria imaginando-se num programa da TV Record.

Compreende-se que a religião ocupe tanto espaço da campanha. Segundo uma pesquisa do Instituto Gallup, só 49% dos americanos dizem que votariam num candidato ateu. Com um gay eles seriam mais generosos: 59% votariam nele. De toda forma, ficam algumas perguntas no ar. Está-se escolhendo o mais preparado para liderar o país ou para ir para o céu? Os americanos vão eleger um presidente ou um aiatolá? Não é por nada, mas, às vezes, os Estados Unidos parecem o Irã.

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Há o caso da pena de morte para crimes cometidos por adolescentes, também nos Estados Unidos. Já são três os condenados executados neste ano, nessas circunstâncias – dois no Estado da Virgínia, um no do Texas. Todos tinham entre 16 e 17 anos quando praticaram o crime – homicídio, sempre. Dos 38 Estados americanos que adotam a pena de morte, 23 permitem sua aplicação em criminosos juvenis. Desde que a pena de morte foi restabelecida no país, em 1976, houve dezesseis casos de execuções desse tipo. Outros setenta aguardam a vez. O governador do Texas, George W. Bush, aquele mesmo que, agora candidato à Presidência, tem Jesus sempre no coração, considera que a legislação penal de seu Estado, a qual permite a punição de crimes cometidos a partir de 17 anos, é "apropriada". (Bush, a quem, como governador, cabe a última palavra, em casos de pena de morte, deu sinal verde a mais de 100 execuções – falamos agora de execuções em geral, não apenas de criminosos juvenis – durante seu mandato.)

A revista The New Yorker, de onde foram extraídos os números acima, cita a sentença com que um juiz de Chicago, em 1924, livrou da pena de morte, por ser menores, dois jovens que haviam matado um terceiro. "Essa determinação", diz a sentença, "parece de acordo com o progresso do direito penal ao redor do mundo e com os ditames da humanidade civilizada." Isso em 1924. Já hoje... Hoje, além dos Estados Unidos, só cinco países permitem a pena de morte em crimes de menores – Irã, Nigéria, Paquistão, Arábia Saudita e Iêmen. Não é por nada, mas, às vezes, os Estados Unidos parecem mesmo o Irã.

* * *

E há o caso da corrupção eleitoral na Alemanha, onde o ex-chanceler Helmut Kohl deixou-se afogar num mar de contribuições secretas a seu partido... E há o caso do terrorismo assassino do ETA na Espanha... Em comum, esses casos têm o fato de ser todos europeus ou americanos. Oferece-se esta página aos leitores desta banda do mundo como consolo – ou, se se quiser, vingança. E depois Terceiro Mundo somos nós? Coitados deles. Deve ser penoso viver num mundo mergulhado na ignorância e na violência, no populismo demagógico, no atraso e na intolerância.