Edição 1 637 - 23/2/2000
 


A seguir, o primeiro capítulo do livro À Espera de um Milagre, de Sthephen King, título relançado pela Editora Objetiva. O livro, adaptado para o cinema, concorre ao Oscar de melhor filme deste ano e é estrelado por Tom Hanks.

 


Parte um

As duas meninas mortas

1

Isso aconteceu em 1932, quando a penitenciária estadual ainda ficava em Cold Mountain. E, é claro, a cadeira elétrica também estava lá.

Os detentos faziam piadas sobre a cadeira do mesmo modo que as pessoas fazem piadas sobre coisas que lhes dão medo, mas que não podem ser evitadas. Chamavam-na de "Velha Fagulha" ou "Carga Pesada". Faziam piadas a respeito da conta de eletricidade e de como o Diretor Moores iria cozinhar a sua ceia do Dia de Ação de Graças naquele outono, com sua mulher Melinda doente demais para cozinhar.

Mas, para os que efetivamente teriam que se sentar naquela cadeira, logo, logo a situação perdia a graça. Presidi a setenta e oito execuções durante o tempo que passei em Cold Mountain (essa é uma cifra sobre a qual nunca me confundi e me lembrarei dela no meu leito de morte) e acho que a maioria daqueles homens finalmente se apercebia por completo da realidade do que lhes estava acontecendo, quando seus tornozelos estavam sendo afivelados ao carvalho sólido das pernas da Velha Fagulha. Vinha-lhes então a percepção (podia-se vê-la enchendo seus olhos, uma espécie de desalento frio) de que suas pernas tinham encerrado suas carreiras. O sangue ainda fluía nelas, os músculos ainda estavam fortes, mas mesmo assim elas estavam liquidadas: nunca mais iriam caminhar um quilômetro pelo campo nem dançar com uma moça em uma festa de galpão. Os clientes da Velha Fagulha chegavam à noção de sua morte a partir dos tornozelos. Havia um saco de seda negra que era colocado nas suas cabeças depois que tinham terminado seus últimos comentários destrambelhados e, na maioria das vezes, desconjuntados. O saco supostamente era para o bem deles, porém eu sempre achei que, na verdade, era para o nosso bem, para impedir-nos de ver a horrível onda de desalento nos seus olhos, quando se davam conta de que iam morrer com os joelhos dobrados.

Em Cold Mountain, não havia um corredor da morte, apenas o Bloco E, isolado dos outros quatro e com aproximadamente um quarto das dimensões deles, de tijolos em vez de madeira, com um telhado horroroso de metal nu que, no verão, resplandecia como um olho em delírio. Havia seis celas lá dentro, três de cada lado de um largo corredor central, cada uma quase o dobro das celas dos outros quatro blocos. Além disso, cada uma para um só ocupante. Ótimas acomodações para uma prisão (principalmente nos anos trinta), mas os detentos as trocariam por celas em quaisquer dos outros quatro blocos. Pode acreditar no que lhe digo, eles trocariam sim.

Durante os meus anos como superintendente de bloco, nunca todas as seis celas ficaram ocupadas ao mesmo tempo — é preciso agradecer a Deus pelas pequenas benesses. O máximo foi de quatro, brancos e pretos misturados (em Cold Mountain não havia segregação alguma entre os mortos-vivos) e isso era uma pequena amostra do inferno. Um deles era uma mulher, Beverly McCall. Era preta como um ás de espadas e linda como o pecado que você nunca teve coragem suficiente para cometer. Tinha aturado seis anos de espancamento pelo marido, mas não aturaria um único dia de pilantragem dele. Na noite em que descobriu que ele a estava traindo, ficou esperando pelo infeliz do Lester McCall, conhecido por seus cupinchas (e, presumivelmente, por sua amante de curtíssima duração) como Cortador, no topo da escada que conduzia ao apartamento por cima de sua barbearia. Esperou até que ele estivesse a meio caminho de tirar seu sobretudo e então despejou suas entranhas traidoras por cima dos seus sapatos bicolores. Usou uma das navalhas do próprio Cortador para isso. Duas noites antes da data em que devia se sentar na Velha Fagulha, chamou-me à sua cela e disse que tinha recebido num sonho a visita do seu pai-de-santo. Ele lhe tinha dito que devia abandonar seu nome-escravo e morrer com seu nome-livre, Matuomi. Esse era o seu pedido, que sua ordem de execução fosse lida com o nome de Beverly Matuomi. Imagino que seu pai-de-santo não lhe havia dado nenhum prenome ou, de qualquer modo, um nome que ela pudesse entender. Eu disse que estava bem, certo, sem problema. Uma coisa que aqueles anos como chefe dos guardas me tinham ensinado era nunca recusar nada a um condenado a menos que não tivesse outro jeito. No caso de Beverly Matuomi, de qualquer maneira, não fazia a menor diferença. O Governador telefonou no dia seguinte, por volta das três da tarde, comutando sua sentença para prisão perpétua na Colônia Penal para Mulheres de Grassy Valley — só penal e nada de pênis, costumávamos dizer naquela época. Deixe que lhe diga que fiquei contente ao ver a bunda redonda de Bev indo para a direita ao invés de para a esquerda, quando ela chegou diante da mesa da guarda.

Uns trinta e cinco anos depois — tinha que ser pelo menos trinta e cinco — vi aquele nome na página de avisos fúnebres do jornal, embaixo do retrato de uma senhora preta de rosto magricela, com uma nuvem de cabelos brancos e óculos com pedras de fantasia nos cantos da armação. Era Beverly. Passara os últimos dez anos de sua vida como uma mulher livre, dizia o necrológio, e tinha salvo a biblioteca da cidadezinha de Raines Falls praticamente sozinha. Também lecionara na escola dominical e tinha sido muito querida naquele pequeno fim de mundo. A manchete dizia BIBLIOTECÁRIA MORRE DE ATAQUE CARDÍACO e, embaixo, em tipo menor, quase como uma lembrança tardia: Passou Mais de Duas Décadas na Prisão por Homicídio. Somente os olhos, grandes e radiantes por trás dos óculos com pedras de fantasia nos cantos da armação, eram iguais. Mesmo com setenta e tantos, eram os olhos de uma mulher que não hesitaria em pegar uma gilete de um jarro azul com desinfetante caso o impulso parecesse premente. Sabe como são os assassinos, mesmo que acabem como velhas bibliotecárias em cidadezinhas sonolentas. Pelo menos saberia se passasse tanto tempo como eu tomando conta de assassinos. Só houve uma ocasião em que tive uma dúvida. É por isso, acho eu, que estou escrevendo isso.

O corredor largo no centro do Bloco E tinha o piso coberto com linóleo da cor de limas velhas, de modo que o que nas outras prisões era chamado de O Último Quilômetro, em Cold Mountain era, às vezes, chamado de O Quilômetro Verde. Ou então, o Corredor da Morte. Calculo que media umas sessenta passadas grandes, no sentido norte-sul, de uma ponta à outra. Numa ponta, ficava a solitária. Na outra, havia uma junção em T. Uma volta para a esquerda significava a vida — se você chamasse de vida o que transcorria no pátio de exercícios calcinado de sol, e muitos assim chamavam. Muitos levavam essa vida durante anos, sem quaisquer conseqüências ruins visíveis. Ladrões, piromaníacos e pervertidos sexuais, todos falando suas conversas, andando suas caminhadas e fazendo seus pequenos tratos.

Entretanto, uma volta para a direita — e as coisas eram diferentes. Primeiro você entrava na minha sala (onde o carpete também era verde, algo que estava sempre querendo trocar mas nunca chegava a fazê-lo) e passava em frente à minha mesa, que era flanqueada à esquerda pela bandeira dos Estados Unidos e à direita pela bandeira estadual. No lado oposto havia duas portas. Uma dava para um pequeno banheiro usado por mim e pelos guardas do Bloco E (às vezes até pelo Diretor Moores). A outra se abria para uma espécie de galpão de depósito. Ali é que você terminava quando percorria o Corredor da Morte.

Era uma porta pequena — quando eu passava por ela, tinha que abaixar a cabeça e John Coffey na realidade teve que se sentar e deslizar. Saía-se para um patamar pequeno, depois se descia por três degraus de cimento para um piso de tábuas corridas. Era uma sala deprimente, sem aquecimento e com um teto de metal, igual ao do bloco ao qual estava anexado. Durante o inverno, o frio ali era forte o bastante para fazer enxergar seu hálito e no verão era sufocante. Na execução de Elmer Manfred — acho que foi em julho ou agosto de 30 — tivemos nove testemunhas que desmaiaram.

Do lado esquerdo — mais uma vez — do galpão de depósito havia vida. Ferramentas (todas trancadas em molduras entrecruzadas de correntes, como se fossem carabinas em vez de pás e picaretas), mantimentos secos, sacas de sementes para o plantio de primavera nas hortas da prisão, caixas de papel higiênico, engradados com chapas lisas para a fábrica de placas de automóvel da prisão... até sacos de cal para a marcação do losango de beisebol e do campo de futebol — os presos jogavam no que era conhecido como o Pasto e, em Cold Mountain, as tardes de outono eram aguardadas com grande interesse.

Do lado direito — uma vez mais — morte. A própria Velha Fagulha, assentada numa plataforma de madeira no canto do sudeste da sala de depósito, sólidas pernas de carvalho, braços largos de carvalho que tinham absorvido o suor aterrorizado de homens nos poucos minutos derradeiros de suas vidas e o capacete de metal, geralmente pendurado de esguelha no espaldar da cadeira, como uma espécie de gorro redondo de um menino-robô numa história em quadrinhos de Buck Rogers. Um fio saía dele e entrava por um orifício, cercado por uma gaxeta, na parede de tijolos por trás da cadeira. Num lado, havia um balde de latão. Se olhasse dentro dele, veria uma rodela de esponja, cortada no tamanho exato para se ajustar ao capacete metálico. Antes das execuções, ela era empapada de água salobra para proporcionar melhor condutividade à descarga de eletricidade de corrente contínua, que passava pelo fio, através da esponja e penetrava no cérebro do condenado.

2

1932 foi o ano de John Coffey. Os detalhes ainda estarão nos jornais, para quem se interessar o suficiente para procurá-los — alguém com mais energia do que um homem muito velho passando a cochilar o final da sua vida em um lar para idosos na Georgia. Lembro-me de que foi um outono quente, muito quente mesmo. Outubro era quase como agosto e a mulher do diretor, Melinda, estava no hospital lá em Indianola. Foi no outono em que tive a pior infecção das vias urinárias da minha vida, não ruim o bastante para me pôr no hospital, mas quase tão ruim para me fazer ter vontade de morrer cada vez que tinha que fazer pipi. Foi o outono de Delacroix, o francesinho meio careca com o camundongo, o que era capaz de fazer aquele número engraçadinho com o carretel. Porém, o mais importante é que foi o outono em que John Coffey veio para o Bloco E, condenado à morte pelo estupro e assassinato das gêmeas Detterick.

Havia quatro ou cinco guardas no bloco em cada turno, mas muitos deles eram temporários. Dean Stanton, Harry Terwilliger e Brutus Howell (a quem os homens chamavam de Brutal, mas era de brincadeira, pois ele não faria mal a uma mosca, a menos que fosse preciso, apesar do seu tamanho) estão todos mortos agora, bem como Percy Wetmore, que era brutal de verdade... para não mencionar que era burro. Percy não tinha nada que estar no Bloco E, onde um temperamento violento era inútil e às vezes perigoso, mas de algum modo era aparentado com o Governador pelo lado da mulher e por isso ficava ali.

Foi Percy Wetmore quem introduziu John Coffey no bloco, com o berro supostamente tradicional de "Homem morto caminhando! Homem morto caminhando por aqui!".

Mesmo já sendo outubro, ainda estava tão quente quanto as dobradiças do inferno. A porta do pátio de exercício se abriu, deixando entrar uma inundação de luz intensa e o maior homem que jamais vi, salvo alguns dos sujeitos do basquete que aparecem na TV, lá na sala de recreação, desse lar para babões desgarrados em que acabei vindo parar. Ele tinha correntes nos braços e cruzando seu tórax de barril, estava com grilhões de ferro nos tornozelos e arrastava uma corrente entre eles que fazia um barulho como uma cascata de moedas, enquanto ele caminhava pelo corredor de cor verde, entre as celas. Percy Wetmore estava de um lado dele, o pequeno magricela do Harry Terwilliger do outro e os dois pareciam crianças andando junto com um urso capturado. Até Brutus Howell parecia um garoto ao lado de Coffey, e Brutal tinha ombros largos e um metro e oitenta de altura, havia jogado como defensor de futebol americano e chegara até o nível de campeonatos universitários, quando foi reprovado na Universidade Estadual de Louisiana e voltou para o interior.

John Coffey era preto, como a maioria dos homens que vinha passar uma temporada no Bloco E antes de morrer no colo da Velha Fagulha e tinha dois metros e cinco de altura. Mas não era todo comprido e fino como aqueles sujeitos do basquete na TV — tinha os ombros largos, o peito estufado, coberto de músculos em todas as direções. Tinham posto nele uma roupa azul de brim do maior tamanho que encontraram no depósito, mas ainda assim as bainhas das calças ficavam a meia altura de suas barrigas das pernas, encalombadas e cheias de cicatrizes. A camisa estava aberta até abaixo do peito e as mangas paravam em algum ponto dos antebraços. Segurava seu boné com a mão enorme, o que era melhor: encarrapitado no seu coco pelado de mogno, pareceria o tipo de boné usado por um mico de realejo, só que azul em vez de vermelho. Dava a impressão de que poderia ter rompido as correntes com que estava preso com a mesma facilidade com que se rompem as fitas de presentes de Natal, mas quando se olhava nos seus olhos via-se que ele não ia fazer nada disso. Não é que eles parecessem imbecilizados — embora Percy pensasse isso e não demorou para que começasse a chamá-lo de idiota — mas sim perdidos. Não parava de olhar em volta, como se estivesse querendo entender onde estava. Talvez até quem ele era. Meu primeiro pensamento foi de que ele parecia um Sansão negro... só que depois de Dalila tê-lo raspado tão lisinho com sua mão infiel e retirado dele toda a alegria.

— Homem morto caminhando! — trombeteava Percy, puxando pela manga da camisa aquele homem do tamanho de um urso, como se realmente achasse que era capaz de movê-lo mesmo que Coffey resolvesse que não queria mais se mover por seus próprios pés. Harry não disse nada, mas estava com uma expressão encabulada. — Homem morto...

— Chega disso — falei. Estava dentro da que ia ser a cela de Coffey, sentado no seu catre. É claro que eu sabia que ele ia vir e estava ali para dar-lhe as boas-vindas, mas não tinha a menor idéia do verdadeiro tamanho do homem até vê-lo. Percy me lançou um olhar que dizia que todos nós sabíamos que eu era um imbecil (com exceção do bobo grandalhão, é claro, que só sabia de estuprar e assassinar menininhas), mas não falou nada.

Eles três pararam do lado de fora da porta da cela, que estava toda aberta, corrida para trás no trilho. Fiz um aceno de cabeça para Harry, que perguntou: — O senhor tem certeza de que quer ficar aí dentro com ele, chefe? — Não tinha ouvido Harry Terwilliger ficar com um tom nervoso muitas vezes. Ele estava lá ao meu lado durante os distúrbios de seis ou sete anos antes e nunca titubeara, nem mesmo quando começaram a circular boatos de que eles tinham armas de fogo. Agora, porém, ele estava com um tom nervoso.

— Você vai me dar trabalho, garotão? — perguntei, sentado ali no catre e tratando de não mostrar nem pela expressão nem pela fala como me sentia infeliz — aquela infecção nas vias urinárias que mencionei antes não estava ainda tão ruim como ficou depois, mas não era nenhuma brincadeira, posso lhe garantir.

Coffey abanou a cabeça lentamente — uma vez para a esquerda, uma vez para a direita e depois parou de volta no centro. Depois que seus olhos me encontraram, nunca mais me largaram.

Harry estava com uma prancheta de mão contendo os formulários relativos a Coffey. — Entregue pra ele — disse para Harry. — Ponha na mão dele.

Harry assim fez. O cachorrão pegou-os como se fosse um sonâmbulo.

— Agora traga-os para mim, garotão — disse eu. Coffey assim fez, as correntes tilintando e chacoalhando. Teve que abaixar a cabeça para entrar na cela.

Olhei-o de alto a baixo, mais para registrar sua altura como um fato e não como uma ilusão de ótica. Era real: dois metros e cinco. Seu peso constava como cento e trinta, mas acho que isso era apenas uma estimativa. Ele devia pesar uns cento e quarenta e cinco, talvez até cento e sessenta quilos. No espaço destinado a cicatrizes e sinais particulares, havia uma palavra escrita em letra de imprensa, na caligrafia trabalhosa de Magnusson, o velho preso com privilégios especiais do Registro de Movimentação: Numerosos.

Ergui os olhos. Coffey tinha se mexido um pouco para um lado, e eu podia enxergar Harry de pé, do outro lado do corredor, em frente à cela de Delacroix — quando Coffey chegou, ele era nosso único outro prisioneiro no Bloco E. Del era um homem franzino, ficando careca, com a expressão amedrontada de um contador que sabe que logo vão descobrir que desviou dinheiro. Seu camundongo amestrado estava sobre seu ombro.

Percy Wetmore estava encostado no portal da cela que acabara de se tornar a cela de John Coffey. Tirara seu cassetete de peroba da alça de couro feita sob medida na qual o carregava e estava batendo com ele na palma da mão do jeito que faz um homem quando tem um brinquedo que quer usar. De repente, não suportava vê-lo ali. Talvez fosse o calor fora de época, talvez fosse a infecção das vias urinárias me esquentando o baixo-ventre e tornando quase insuportável a comichão dentro das minhas cuecas de flanela, talvez fosse saber que o estado me tinha mandado um preto que era quase um idiota para ser executado e estava claro que Percy queria antes trabalhar um pouco em cima dele. Provavelmente eram todas essas coisas. Mas, o que quer que fosse, por uns instantes parei de me preocupar com as ligações políticas de Percy.

— Percy — disse eu. — Estão fazendo a mudança lá na enfermaria.

— Bill Dodge está encarregado desse grupo...

— Sei que está — falei. — Vá e lhe dê uma mão.

— Isso não é trabalho meu — retrucou Percy. — Esse granfeitor é trabalho meu. — Granfeitor era o nome de gozação que Percy dava aos grandalhões — uma combinação de grandee malfeitor. Ele não gostava dos grandalhões. Ele não era magricela como Harry Terwilliger, mas era baixo. Uma espécie de galinho-de-briga, do tipo que gosta de comprar briga, principalmente quando tem todas as vantagens.

— Então seu trabalho terminou — falei. — Vá lá para a enfermaria.

Ele esticou o lábio inferior. Bill Dodge e seus homens estavam carregando caixas e pilhas de roupa de cama, até mesmo camas. A enfermaria toda estava indo para um novo edifício pré-fabricado, lá do lado oeste da prisão. Trabalho encalorado, levantar coisas pesadas. Percy Wetmore não queria nada com nenhum dos dois.

— Eles têm todos os homens de que precisam — disse ele.

— Então vá até lá e dê uma de assistente do chefe — redargüi, elevando a voz. Vi Harry fazer uma careta e não lhe dei atenção. Se o Governador mandasse o Diretor Moores me despedir por me meter com a pessoa errada, quem é que Hal Moores ia botar no meu lugar? Percy? Isso era piada. — Na verdade, não me interessa o que que você vai fazer, Percy, basta que você fique fora daqui por algum tempo.

Por um momento, achei que ele não ia ceder e aí haveria um problema sério, com Coffey de pé ali esse tempo todo, como o maior relógio parado do mundo. Depois Percy enfiou seu cassetete de volta na alça feita de encomenda — coisa da mais tola vaidade — e foi andando batendo os pés pelo corredor. Não me lembro de quem estava sentado na mesa da guarda naquele dia — acho que era um dos temporários — mas Percy não deve ter gostado do seu jeito, porque rosnou enquanto passava:

— Apague esse ar de zombaria da sua cara de merda, senão eu apago você.

Um chacoalhar de chaves, uma explosão súbita de luz do sol quente vinda do pátio de exercício e então Percy Wetmore sumiu, pelo menos momentaneamente. O camundongo de Delacroix corria sem parar de um ombro para o outro do francesinho, mexendo seus bigodes finíssimos.

— Fique quieto, Sr. Guizos — disse, e o camundongo se deteve no seu ombro esquerdo como se entendesse. — Trate apenas de ficar muito parado e muito quieto. — No sotaque cantado de cajun de Delacroix, a palavra quieto tinha um som exótico e estrangeiro — qui-iet'.

— Vá se deitar, Del — disse eu com rispidez. — Vá descansar. Você também não tem nada com isso.

Ele fez como mandei. Delacroix tinha estuprado uma menina, matou-a e depois jogou o corpo atrás do edifício onde ela morava, embebeu-o em óleo combustível e ateou-lhe fogo, na esperança algo confusa de assim destruir a prova do crime que cometera. O fogo se alastrou para o próprio edifício, tomou conta dele e mais seis pessoas morreram, dentre elas duas crianças. Era o único crime que tinha dentro de si e agora era apenas um homem de modos suaves, com uma expressão preocupada e cabelos compridos caindo-lhe despenteados por cima da parte de trás da gola da camisa. Dentro em breve, iria se sentar com a Velha Fagulha e ela lhe daria fim... mas, o que quer que tivesse feito, aquela coisa horrível já tinha sumido, e agora ele ficava deitado no catre, deixando seu pequeno companheiro correr, dando gritinhos, por cima das suas mãos. De um certo modo, isso era o pior: a Velha Fagulha nunca queimava o que estava dentro deles e as drogas que atualmente são injetadas neles não fazem isso adormecer. Isso sai, salta para dentro de alguma outra pessoa e nos deixa para matar as carcaças que, de qualquer jeito, não estão mais vivas.

Voltei minha atenção para o gigante.

— Se eu deixar o Harry tirar essas correntes, você vai ficar bonzinho?

Ele confirmou com a cabeça. Foi como quando tinha abanado a cabeça: para baixo, para cima, de volta para o centro. Seus olhos estranhos olharam para mim. Havia neles uma espécie de paz, mas não do tipo em que tinha certeza que podia confiar. Chamei Harry com o dedo, ele entrou e soltou as correntes. Agora ele não estava demonstrando medo algum, nem mesmo quando se ajoelhou entre os dois troncos de árvore das pernas de Coffey para soltar os grilhões dos tornozelos, e isso me tranqüilizou um pouco. Percy é que tinha posto Harry nervoso e eu confiava nos instintos dele. Confiava nos instintos de todos os homens do meu dia-a-dia no Bloco E, com exceção de Percy.

Tenho um discursinho padrão, que faço para os homens recém-chegados ao bloco, mas hesitei no caso de Coffey, porque ele parecia tão anormal, e não só pelo tamanho.

Quando Harry deu um passo atrás (Coffey tinha permanecido imóvel durante toda a cerimônia da retirada dos ferros, plácido como um cavalo Percheron), olhei para minha nova responsabilidade, batendo na prancheta com o polegar, e disse: — Você fala, garotão?

— Sim senhor, patrão, falo — respondeu. Sua voz era um troar grave e baixo. Fez-me pensar num motor de trator que acabava de ser regulado. Não tinha um autêntico sotaque arrastado de sulista, mas havia uma espécie de construção sulista no seu modo de falar o que observei mais tarde. Era como se viesse do Sul e não como se fosse do Sul. Não parecia analfabeto, mas tampouco parecia ter instrução. Na sua maneira de falar, como em tantas outras coisas, ele era um mistério. Eram sobretudo os seus olhos que me perturbavam — eles tinham uma espécie de ausência pacífica, como se ele estivesse flutuando longe, muito longe.

— Seu nome é John Coffey.

— Sim senhor, patrão, como o que se toma com leite, só que não se escreve do mesmo jeito.

— Então você sabe soletrar, é? Ler e escrever?

— Só meu nome, patrão — disse ele com serenidade.

Dei um suspiro, depois fiz para ele uma versão curta do meu discurso padrão. Já tinha chegado à conclusão de que ele não ia causar nenhum problema. Nisso eu estava tanto certo como errado.

— Meu nome é Paul Edgecombe — falei. — Sou o superintendente do Bloco E — o chefe dos guardas. Se quiser alguma coisa de mim, peça para me chamarem usando meu nome. Se eu não estiver aqui, chame esse outro homem — o nome dele é Harry Trewilliger. Você entendeu isso?

Coffey fez que sim com a cabeça.

— Só não espere ter o que quiser a menos que nós achemos que é o que você precisa — isso aqui não é hotel. Continua me acompanhando?

Ele tornou a confirmar com a cabeça.

— Isto é um lugar sossegado, garotão — não é feito o resto da prisão. São só você e o Delacroix aqui. Você não vai trabalhar. Na maior parte do tempo, você vai só ficar sentado. Vai ter a oportunidade de refletir sobre as coisas. — Era tempo demais para a maioria deles, mas isso eu não disse. — De noite ligamos o rádio, se tudo estiver em ordem. Você gosta de rádio?

Assentiu com a cabeça, mas de forma dúbia, como se não tivesse certeza do que era um rádio. Mais tarde descobri que isso era verdade, de certo modo: Coffey conhecia as coisas quando as encontrava de novo, mas nesse meio tempo ele se esquecia delas. Conhecia os personagens de Our Gal Sunday, mas tinha apenas a mais vaga lembrança do que estavam fazendo da última vez.

— Se você se portar bem, vai comer na hora certa, nunca verá a solitária lá no final do corredor nem terá que usar um daqueles paletós de lona que são abotoados nas costas. Vai ter duas horas no pátio todas as tardes, de quatro às seis, exceto nos sábados, quando o resto da população da prisão tem suas partidas de futebol. Você pode receber suas visitas nos domingos de tarde, se tiver alguém que queira visitá-lo. Tem, Coffey?

Ele abanou a cabeça. — Não tenho ninguém — respondeu.

— Bem, então, o seu advogado.

— Acho que vi as costas dele pela última vez — falou. — Ele foi emprestado pra mim. Acho que ele não vai conseguir achar o caminho até aqui nas montanhas.

Olhei bem para ele para ver se estava tentando ser engraçadinho, mas pareceu que não. Nem tinha esperado outra coisa. Os recursos não eram impetrados para gente como John Coffey, não naquela época. Tinham o seu dia em juízo — ou dois ou três — e depois o mundo se esquecia deles até ver uma notinha no jornal dizendo que um certo sujeito tinha levado um pouco de eletricidade por volta da meia-noite. Mas um homem com mulher, filhos ou amigos por quem esperar nas tardes de domingo era mais fácil de controlar, se parecesse que controle ia ser um problema. Mas ali isso não parecia um problema, o que era bom. Porque ele era tão danado de grande.

Remexi-me um pouco no catre, depois resolvi que talvez me sentisse um pouco mais confortável nas minhas partes inferiores se ficasse de pé e assim fiz. Ele se afastou de mim, para trás, respeitosamente, e juntou as mãos na frente do corpo.

— O seu tempo aqui pode ser fácil ou duro, garotão, só depende de você. Estou aqui para lhe dizer que será melhor se você facilitar as coisas para todos nós, porque, no final, dá tudo no mesmo. Nós o trataremos tão bem quanto você merecer. Você tem alguma pergunta?

— Vocês deixam uma luz acesa depois da hora de dormir? — perguntou imediatamente, como se só estivesse esperando por uma oportunidade.

Pisquei os olhos ao ouvir isso. Os recém-chegados ao Bloco E me tinham feito um bocado de perguntas esquisitas — uma vez até sobre o tamanho dos peitos da minha mulher —, mas essa nunca.

Coffey estava sorrindo um pouco sem jeito, como se soubesse que nós o acharíamos bobo, mas não tinha como evitar.

— Porque às vezes eu fico com um pouco de medo no escuro — disse ele. — Se é um lugar que não conheço.

Olhei para ele — o tamanhão dele — e me senti estranhamente comovido. Eles comoviam a gente, sabe. Você não os via no que tinham de pior, malhando seus horrores como demônios numa forja.

— É, isso aqui fica bastante claro a noite inteira — falei. — Metade das luzes ao longo do Quilômetro fica acesa das nove até as cinco todas as manhãs. — Então me dei conta de que ele não teria a menor idéia do que eu estava dizendo — ele não distinguia o Corredor da Morte da margem do Mississippi — de modo que apontei com o dedo: — No corredor.

Ele indicou com a cabeça que tinha entendido, aliviado. Também não tinha certeza se ele sabia o que era um corredor, mas ele podia ver as lâmpadas de 200 watts nas suas gaiolas de arame.

Então fiz algo que nunca fizera antes com um preso: estendi-lhe a mão. Até hoje não sei por quê. Talvez tenha sido por ele perguntar sobre as luzes. Posso lhe garantir que isso fez Harry Terwilliger piscar os olhos. Coffey pegou minha mão com uma delicadeza surpreendente, minha mão quase desapareceu na dele, e foi só isso. Tinha ganho mais um e pronto.

Saí da cela. Harry fechou a porta, correndo-a no seu trilho, e passou os dois ferrolhos. Coffey ficou parado onde estava por mais um ou dois minutos, como se não soubesse o que fazer a seguir, e então sentou-se no catre, juntou suas mãos de gigante entre os joelhos e baixou a cabeça como um homem que está se lamentando ou rezando. Então ele disse alguma coisa, naquela sua voz estranha, quase de sulista. Ouvi com absoluta clareza e, embora até então não soubesse muito sobre o que ele tinha feito — não é preciso saber o que um homem fez para alimentá-lo e cuidar dele até que chegue a hora de pagar pelo que deve —, ainda assim senti um calafrio.

— Não pude evitar — disse ele. — Tentei tirar de volta, mas já era tarde demais.

3

— Você vai ter uns probleminhas com Percy — disse Harry enquanto íamos andando pelo corredor e entrávamos na minha sala. Dean Stanton, uma espécie de meu terceiro na escala de comando — na verdade, não tínhamos nada disso, situação que Percy Wetmore teria retificado num segundo —, estava sentado à minha escrivaninha, atualizando os arquivos, uma tarefa que eu parecia nunca encontrar tempo para fazer. Ele mal ergueu os olhos quando entramos, apenas empurrou seus óculos pequenos com a polpa do polegar e mergulhou de volta na sua papelada.

— Tenho tido problemas com esse pica-pau desde o dia em que chegou aqui — disse eu, puxando minhas calças para longe das virilhas e fazendo uma careta. — Você ouviu o que ele estava berrando quando trouxe aquele grandalhão para baixo?

— Não podia deixar de ouvir — falou Harry. — Eu estava lá, lembra?

— Eu estava na privada e ouvi muito bem — disse Dean. Puxou para si uma folha de papel, levantou-a contra a luz para que eu pudesse ver que nela havia, além da escrita, um anel de marca de xícara de café, e depois jogou-a na cesta de papéis. — "Homem morto caminhando". Deve ter lido isso numa daquelas revistas de que gosta tanto.

E provavelmente tinha mesmo. Percy Wetmore era leitor assíduo de Argosy, Stag e Men's Adventure. Parecia que em cada número havia uma história de prisão e Percy as lia com avidez, como um homem que estivesse fazendo uma pesquisa. Era como se estivesse tentando descobrir como atuar e achava que essa informação estava naquelas revistas. Estava comigo fazia seis meses — tinha vindo logo depois que cuidamos de Anthony Ray, o assassino da machadinha — e na realidade ainda não tinha participado de uma execução.

— Ele conhece gente — disse Harry. — É bem relacionado. Você vai ter que responder por tê-lo mandado sair do bloco e vai ter que responder ainda mais por esperar que ele faça algum trabalho de verdade.

— Eu não espero isso — disse eu e não esperava... mas tinha esperanças. Bill Hodges não era do tipo de deixar um homem ficar apenas vagando por aí e como único trabalho pesado ficar olhando os outros. — Por enquanto, estou mais interessado no grandalhão. Ele vai nos criar problemas?

Harry abanou a cabeça com vigor.

— No tribunal lá no Condado de Trapingus, ele ficou quieto como um cordeiro — disse Dean. Tirou seus óculos pequenos e sem aros e começou a limpá-los no colete. — É claro que eles tinham posto mais correntes nele do que as que Scrooge viu no fantasma de Marley, mas ele podia ter armado o diabo se quisesse. Isso é um jogo de palavras, filho.

— Eu sei — retruquei, embora não soubesse. É só que detesto deixar Dean Stanton levar vantagem sobre mim.

— Sujeito grande, não é? — falou Dean.

— É sim — concordei. — Monstruosamente grande.

— Provavelmente vamos ter que aumentar a força da Velha Fagulha para Cozimento Máximo a fim de fritar-lhe o rabo.

— Não se preocupe com a Velha Fagulha — disse eu, distraído. — Ela transforma os grandes em pequenos.

Dean apertou os lados do nariz, onde havia duas manchas vermelho vivo feitas pelos óculos, e concordou com a cabeça. — É certo. Há algo de verdade nisso.

Perguntei: — Algum de vocês sabe de onde ele veio antes de aparecer em... Tefton? Foi em Tefton, não foi?

— Certo — disse Dean. — Tefton, lá no Condado de Trapingus. Parece que ninguém sabe, antes de ele aparecer lá e fazer o que fez. Acho que ele apenas vagava por aí. Talvez você consiga descobrir um pouco mais nos jornais, se está mesmo interessado. Na biblioteca da prisão, eles guardam os exemplares de até um ano e meio e não vão fazer a mudança disso até a semana que vem. — Deu um sorriso largo. — Mas você talvez tenha que ouvir seu amiguinho Percy xingando e gemendo no andar de cima.

— De qualquer modo, talvez eu vá dar uma espiada — disse eu e nessa tarde foi o que fiz.

A biblioteca da prisão ficava nos fundos do edifício que ia ser transformado na oficina de automóveis da prisão — pelo menos esse era o plano. Eu achava era que isso ia significar mais comissões ilegais no bolso de alguém, mas estávamos na Depressão e guardei minhas opiniões para mim — do modo como devia ter ficado calado a respeito de Percy, mas às vezes um homem simplesmente não consegue manter o bico fechado. Na maioria das vezes, a boca de um homem lhe cria mais problemas do que seu pirulito jamais poderia criar. De qualquer modo, a oficina de automóveis nunca foi montada — na primavera seguinte, a prisão foi deslocada cem quilômetros mais adiante na estrada que ia para Brighton. Acho que foram mais negociatas feitas nos escritórios. Mais pilhas de comissões ilegais. Para mim não tinha importância.

A administração tinha passado para um edifício novo, no lado leste do pátio; a enfermaria estava sendo transferida (pra começar, de quem tinha sido a idéia de jerico de colocar a enfermaria no segundo andar era apenas mais um dos mistérios da vida). A biblioteca estava só parcialmente abastecida — não que jamais tivesse tido muita coisa — e ficava vazia. O velho edifício era um caixote quente de paredes de tábuas, meio enfiado entre os Blocos A e Bloco E. Os banheiros dos dois ficavam encostados nele e o edifício inteiro estava sempre exalando aquele vago odor de mijo, o que provavelmente era a única boa razão para a mudança. A biblioteca tinha a forma de um L e não era muito maior do que o meu escritório. Procurei um ventilador, mas tinham levado todos embora. Devia estar fazendo uns trinta e oito graus lá dentro e, quando me sentei, pude sentir aquele latejar quente no baixo-ventre. Feito um dente infeccionado. Sei que isso é absurdo, considerando-se a região de que estou falando, mas é a única coisa com que posso fazer comparação. Ficava muito pior durante e logo depois de fazer pipi, que tinha acabado de fazer antes de ir até ali.

No final das contas, havia um outro sujeito lá — um velho preso de confiança esquelético chamado Gibbons, cochilando no canto com um romance de faroeste no colo e o chapéu puxado sobre os olhos. O calor não o estava incomodando, nem os grunhidos, baques e palavrões ocasionais vindos da enfermaria no andar de cima (onde tinha que estar pelo menos uns seis graus mais quente e eu esperava que Percy Wetmore estivesse gostando). Não incomodei o velho e fui para a perna curta do L, onde ficavam guardados os jornais. Pensei que podiam ter sido levados embora, junto com os ventiladores, a despeito do que dissera Dean. Mas ainda estavam ali e o negócio sobre as gêmeas Detterick foi bem fácil de encontrar: tinha sido notícia de primeira página desde quando o crime fora cometido, em junho, até o fim do julgamento, em julho. As coisas andavam muito mais depressa naquela época.

Logo me esqueci do calor, dos baques no andar de cima e do rouco assobio do velho Gibbons. A idéia daquelas menininhas de nove anos — suas cabeças de fofos cabelos louros e seus sorrisos encantadores como os das Gêmeas Bobbsey — em ligação com a escuridão volumosa de Coffey era desagradável, mas impossível de ser ignorada. Dado seu tamanho, era fácil imaginá-lo literalmente comendo-as, como um gigante num conto de fadas. O que ele tinha na realidade feito era ainda pior e tinha sido uma sorte para ele que não tivesse sido simplesmente linchado lá mesmo naquela margem do rio. Quer dizer, isso se você considerar que ficar esperando para caminhar pelo Corredor da Morte e se sentar no colo da Velha Fagulha é uma sorte.

4

O Rei Algodão tinha sido deposto no Sul setenta anos antes que todas essas coisas acontecessem e nunca mais seria rei de novo, mas naqueles anos da década de trinta teve um pequeno ressurgimento. Não havia mais as grandes plantações de algodão, mas havia quarenta ou cinqüenta fazendas de algodão na parte sul de nosso estado. Klaus Detterick era dono de uma delas. Pelos padrões dos anos cinqüenta, ele seria considerado como estando um degrau acima da pobreza, mas pelos dos anos trinta ele era considerado como estando bem de vida porque pagava sua conta na mercearia em dinheiro no final da maioria dos meses e era capaz de olhar nos olhos o presidente do banco caso se cruzassem na rua. A casa da fazenda era linda e espaçosa. Além do algodão, havia dois outros bens: galinhas e algumas vacas. Ele e sua mulher tinham três filhos: Howard, de uns doze anos, e as gêmeas, Cora e Kathe.

Em uma noite morna de junho daquele ano, as meninas pediram e receberam permissão para dormir no alpendre lateral, fechado com tela, que se estendia por todo o comprimento da casa. Isso era um grande evento para elas. Sua mãe lhes deu um beijo de boa-noite pouco antes das nove, quando a última luz tinha sumido do céu. Foi a última vez em que as viu antes de que estivessem nos seus caixões e o agente funerário reparasse na parte pior dos danos.

Naquela época, as famílias do campo iam cedo para a cama — "logo que ficava escuro debaixo da mesa", dizia minha mãe às vezes — e dormiam profundamente. Sem dúvida assim dormiram Klaus, Marjorie e Howie Detterick na noite em que as gêmeas foram apanhadas. Era quase certo que Klaus teria sido acordado por Bowser, o velho e grande mestiço de Collie da família, se ele tivesse latido. Mas Bowser não latiu. Nem naquela noite nem nunca mais.

Klaus se levantou com a primeira luz da manhã, para fazer a ordenha. O alpendre ficava do lado da casa oposto ao estábulo e Klaus não pensou em ir dar uma olhada nas meninas. O fato de que Bowser não se juntara a ele tampouco era causa para alarme. O cão tinha o maior desprezo pelas vacas e pelas galinhas, e geralmente se escondia na sua casinhola por trás do estábulo quando essas tarefas estavam sendo realizadas, a menos que fosse chamado... e, ainda por cima, chamado com energia.

Marjorie desceu uns quinze minutos depois de que o marido tinha enfiado as botas no quartinho de ferramentas e saíra com passos fortes para o estábulo. Começou a preparar o café, pôs o bacon para fritar. Os cheiros combinados atraíram Howie, que desceu de seu quarto na mansarda, mas não as meninas do alpendre. Ela enviou Howie até lá para buscá-las, enquanto estalava ovos na gordura do bacon. Klaus ia querer que as meninas pegassem outros frescos logo que terminasse o café da manhã. Só que não se tomou café da manhã na casa dos Detterick naquela manhã. Howie voltou do alpendre branco como folha de papel e com seus olhos, antes inchados de dormir, inteiramente arregalados.

— Elas sumiram — disse ele.

Marjorie foi até o alpendre, inicialmente mais aborrecida do que alarmada. Mais tarde disse que tinha imaginado, se é que tinha imaginado alguma coisa, que as meninas resolveram dar uma volta e pegar flores com a luz do começo do alvorecer. Isso ou alguma tolice semelhante de meninas pequenas. Uma olhada e entendeu por que Howie tinha ficado pálido.

Berrou por Klaus — gritou histérica por Klaus — que veio numa corrida desabalada, as botas de trabalho pintadas de branco pelo meio balde de leite que tinha derramado nelas. O que encontrou no alpendre teria amolecido as pernas do mais valente dos pais. As colchas nas quais as meninas se tinham enrolado à medida que a noite avançou e ficou mais fria tinham sido atiradas para um canto. A porta de tela tinha sido arrancada da dobradiça superior e agora estava pendurada, torta, no portal. E sobre as tábuas, tanto do alpendre como dos degraus diante da porta de tela mutilada, havia manchas grandes de sangue.

Marjorie implorou ao marido para não sair à caça das meninas sozinho e para não levar o filho se achasse que tinha que ir atrás delas, mas podia ter poupado o fôlego. Ele pegou a escopeta que guardava, armada, no quartinho de ferramentas, bem no alto, fora do alcance de mãos miúdas, e deu a Howie a .22 que estavam guardando para o seu aniversário em julho. Então saíram, nenhum dos dois dando a menor atenção à mulher que, aos gritos e em prantos, queria saber o que fariam se topassem com um bando de vagabundos errantes ou um punhado de negros maus fugidos da fazenda do condado lá em Lavine. Nisso eu acho que os homens estavam certos, sabe. O sangue não estava mais escorrendo, mas ainda estava apenas pegajoso e mais próximo do vermelho vivo do que do grená que aparece quando o sangue já está bem seco. O seqüestro não tinha ocorrido há muito tempo. Klaus deve ter raciocinado que ainda havia uma chance para as meninas e estava decidido a buscá-la.

Nenhum dos dois sabia nada de rastrear — eram catadores, não caçadores, homens que entravam no mato atrás de gambás e veados, na estação de caça não porque tivessem muita vontade, mas porque era o que se costumava fazer. E o quintal em volta da casa era uma área de terra coberta de pegadas que não queriam dizer nada. Contornaram o estábulo e logo viram por que Bowser, que era ruim de mordida mas bom de latido, não tinha dado o alarme. Estava caído, metade dentro e metade fora da casinhola, que tinha sido feita com sobras das tábuas do estábulo (havia uma placa com a palavra Bowser escrita com capricho por cima do buraco curvo da frente — vi uma fotografia dela num dos jornais), a cabeça virada quase inteiramente para trás. Teria sido preciso um homem de enorme força para ter feito uma coisa assim num animal tão grande, disse mais tarde o promotor para o júri do caso John Coffey... e então olhou por muito tempo e de forma estudada para o réu gigantesco, sentado atrás da mesa da defesa, com os olhos baixos e usando um macacão novo em folha que o estado comprara e que por si só parecia a própria condenação. Ao lado do cão, Klaus e Howie encontraram restos de lingüiça cozida. A teoria — bem fundada, não tenho dúvida — era de que Coffey tinha primeiro atraído o cão com bocados e então, quando Bowser começou a comer a última lingüiça, estendera as mãos e lhe quebrara o pescoço com um giro forte dos pulsos.

Para lá do estábulo, ficava o pasto norte de Detterick, onde nesse dia nenhuma vaca iria pastar. Estava empapado do orvalho da manhã e, cruzando-o em diagonal para o noroeste, clara como o dia, estava a trilha marcada pela passagem de um homem.

Mesmo no seu estado de quase histeria, Klaus Detterick inicialmente hesitou em segui-la. Não era medo do homem ou homens que tinham levado suas filhas, era medo de estar seguindo pela trilha por onde o seqüestrador viera... de ir exatamente na direção errada num momento em que cada segundo podia contar.

Howie resolveu o dilema puxando um trapo de pano de algodão amarelo de um arbusto que crescia logo adiante do limite do quintal. Esse mesmo trapo de pano foi mostrado a Klaus quando ele estava sentado na cadeira de testemunha e ele começou a chorar ao identificá-lo como um pedaço do short de dormir de sua filha Kathe. Vinte metros adiante, pendente de um galho que se projetava de uma moita de framboesas, encontraram um pedaço de tecido verde-claro que coincidia com a camisolinha que Cora estava usando quando dera um beijo de boa-noite em sua mamãe e em seu papai.

Os Detterick, pai e filho, saíram quase correndo, com as armas seguras à sua frente, como fazem os soldados quando estão atravessando um território em disputa sob fogo intenso. Se há uma coisa daquele dia com a qual me espanto é que o menino, correndo desesperadamente atrás do pai (e muitas vezes com o risco de ser deixado inteiramente para trás), não tenha caído e disparado uma bala nas costas de Klaus Detterick.

A casa da fazenda estava ligada na central da telefonista — outro sinal, para os vizinhos, de que os Detterick estavam prosperando, pelo menos de forma moderada, em tempos desastrosos — e Marjorie utilizou a central para telefonar para todos os vizinhos que também estavam ligados a ela, contando-lhes o desastre que se tinha abatido como um raio que caísse de um céu azul, sabendo que cada chamada produziria círculos concêntricos superpostos, como pedrinhas atiradas rapidamente em um laguinho de águas quase paradas. Depois ergueu o fone pela última vez e disse aquelas palavras que eram quase uma marca registrada dos primeiros sistemas telefônicos daquela época, pelo menos na zona rural do sul do país: — Alô, central, você está na linha?

A central estava, mas por um instante não conseguiu falar nada — aquela mulher respeitável estava completamente aturdida. Por fim conseguiu dizer: — Sim, senhora, Sra. Detterick, sem dúvida que estou, oh meu querido doce santo Jesus, estou rezando agora mesmo para que suas garotinhas estejam bem...

— Sim, obrigada — disse Marjorie. — Mas trate de dizer ao Senhor que espere o tempo suficiente para você me passar para o escritório do xerife-geral lá em Tefton, está bem?

O xerife-geral do Condado de Trapingus era um veterano com nariz de bebedor de uísque, uma pança que parecia um barril e uma massa de cabelos brancos tão finos que pareciam pêlos de limpador de cachimbo. Conhecia-o bem — estivera em Cold Mountain muitas vezes para ver os que ele chamava de "seus meninos" serem despachados para o grande espaço do Além. As testemunhas de execução se sentavam nas mesmas cadeiras dobráveis em que você provavelmente também se sentou em uma ou duas ocasiões, em enterros, ceias da igreja ou bingos nas associações de fazendeiros (na realidade, as nossas foram tomadas emprestadas da Associação Laço Místico Nº 44 lá naquela época) e, todas as vezes em que o Xerife Homer Cribus se sentava em uma, eu ficava esperando o estalido seco que indicaria o desabamento. Eu temia e torcia por esse dia, ao mesmo tempo, mas foi um dia aue nunca veio. Pouco tempo depois — não pode ter sido mais de um verão depois que as meninas Detterick foram seqüestradas — ele sofreu um ataque cardíaco no seu escritório, aparentemente enquanto estava transando com uma moça preta de dezessete anos chamada Daphne Shurtleff. Houve muito falatório sobre isso, pois ele estava sempre exibindo sua mulher e seus seis filhos por todo lado quando chegava a época das eleições — aquela era a época em que, se você queria se candidatar a alguma coisa, o ditado era que você tinha que "ser Batista ou não ser nada". Mas, você sabe, as pessoas adoram um hipócrita — reconhecem um dos seus — e é sempre tão bom quando algum outro é apanhado com as calças abaixadas e o peru levantado e não é você.

Além de ser um hipócrita, era um incompetente, o tipo de sujeito que se fazia fotografar afagando a gata de alguma senhora, quando tinha sido outro — o Vice-Xerife Rob McGee, por exemplo — quem na verdade tinha arriscado quebrar uma clavícula ao subir na árvore onde estava a Senhorita Gatinha e trazê-la para baixo.

McGee ouviu Marjorie Detterick tartamudear durante talvez uns dois minutos, depois interrompeu-a com quatro ou cinco perguntas — rápidas e curtas, como um lutador treinado disparando pequenos socos ao rosto, do tipo de socos que são tão rápidos e tão fortes que o sangue brota antes da dor. Quando obteve as respostas que queria, disse: — Vou chamar Bobo Marchant. Ele tem cães. A senhora fique onde está, Sra. Detterick. Se seu marido e seu filho voltarem, faça com que eles fiquem aí também. De qualquer maneira, tente.

Nesse meio tempo, o marido e o filho dela tinham seguido a trilha do seqüestrador por quatro quilômetros e meio para noroeste, mas a perderam quando ela deixou o campo aberto e penetrou num bosque de pinheiros. Como eu disse, eles eram fazendeiros, não caçadores, e àquela altura sabiam que estavam atrás de um animal. Ao longo do caminho, tinham encontrado a parte de cima que casava com o short de Kathe e outro pedaço da camisolinha de Cora. Ambas as peças estavam empapadas de sangue e nem Klaus nem Howie estavam mais com a mesma pressa do princípio. Àquela altura, uma espécie de certeza fria devia estar se filtrando sobre suas esperanças quentes, escorrendo para baixo do mesmo jeito que faz a água fria, penetrando porque é mais pesada.

Procuraram por indícios em volta, num trecho do bosque, mas não encontraram nada. Buscaram num segundo lugar, com o mesmo resultado negativo. Depois num terceiro. Dessa vez encontraram um leque de sangue espalhado sobre as agulhas caídas de um pinheiro grande. Foram um pouco na direção que ele parecia apontar e então recomeçaram o processo de procurar em volta. Eram então umas nove da manhã e, detrás deles, começaram a ouvir homens falando alto e cachorros ladrando. Rob McGee tinha reunido um grupo de busca improvisado no espaço de tempo que o Xerife Cribus levaria para terminar sua primeira xícara de café adoçado com conhaque, e por volta das nove e um quarto alcançaram Klaus e Howie Detterick, ambos tropeçando desesperados em volta da orla do bosque. Os homens logo retomaram a busca, com os cães de Bobo mostrando o caminho. McGee deixou que Klaus e Howie seguissem com eles — eles não voltariam mesmo que lhes ordenasse, independente de quanto temiam o desfecho, e McGee deve ter visto isso — mas os obrigou a descarregar suas armas. McGee disse que os outros tinham feito o mesmo, era mais seguro. O que não lhes disse (nem ninguém mais) foi que os Detterick eram os únicos a quem tinha sido pedido que entregassem a munição ao vice-xerife. Meio confusos e só querendo chegar ao final do pesadelo e acabar logo com aquilo, fizeram como ele lhes pedira. Quando Rob McGee conseguiu que os Detterick descarregassem suas armas e lhe entregassem a munição, provavelmente salvou o que era a miserável vida de John Coffey.

Os cães, latindo e ladrando, os arrastaram por mais três quilômetros e meio de pinheiros e arbustos, sempre no rumo aproximado do noroeste. Então chegaram à margem do Rio Trapingus, que naquele trecho é largo e lento, correndo para o sudeste em meio a colinas baixas e arborizadas onde famílias com sobrenomes como Cray, Robinette e Duplissey ainda fabricavam suas próprias guitarras e freqüentemente cuspiam fora seus próprios dentes podres enquanto estavam arando o campo. Um sertão afastado onde os homens eram capazes de pegar serpentes com as mãos na manhã de domingo e deitar-se em amplexos carnais com suas filhas na noite de domingo. Eu conhecia essas famílias — a maioria delas tinha, de vez em quando, enviado uma refeição para Fagulha. Os homens do grupo de busca podiam ver, no lado oposto do rio, o sol de junho se refletindo nos trilhos de aço de um ramal da Great Southern. Cerca de um quilômetro e meio rio abaixo, uma ponte de madeira atravessava em direção aos campos de carvão de West Green.

Ali encontraram uma área ampla de capim e de moitas baixas pisoteadas, tão coberta de sangue que muitos dos homens tiveram que se precipitar para dentro do bosque para se livrar do que tinham tomado no café da manhã. Também encontraram o resto da camisolinha de Cora caída nessa área ensangüentada e Howie, que até então agüentara tudo de forma admirável, cambaleou nos braços do pai e quase desmaiou.

Foi ali que os cães de Bobo Marchant tiveram seu primeiro e único desentendimento do dia. Havia seis ao todo, dois sabujos, dois mastins e um par desses vira-latas que parecem terriers e que os sulistas da fronteira chamam de caça-gambás. Os caça-gambás queriam ir para noroeste, rio acima pela margem do Trapingus, o resto queria ir na direção oposta, para sudeste. Ficaram todos emaranhados nas correias e, embora os jornais não tivessem dito nada sobre essa parte, posso imaginar os palavrões horríveis que Bobo deve ter despejado sobre eles enquanto usava as mãos — sem dúvida a parte mais bem-educada dele — para arrumá-los direito de novo. Nos meus tempos, conheci alguns caçadores com cães e minha experiência me ensinou que, como alguns tipos de pessoa, eles se comportam exatamente como a gente espera.

Bobo encurtou as correias de todos, juntando-os bem, e depois passou a camisolinha rasgada de Cora Detterick por baixo das suas narinas, como para recordar-lhes o que estavam fazendo no campo num dia em que a temperatura ia chegar aos trinta e cinco ao meio-dia, e as primeiras massas escuras já começavam a aparecer no meio das nuvens que se formavam. Os caça-gambás deram outra cheirada, resolveram votar por uma chapa única, e lá se foram todos acompanhando a correnteza, latindo a plenos pulmões.

Não se passaram mais de dez minutos e os homens pararam, percebendo que podiam ouvir mais do que apenas os cães. Era um uivar, mais do que um ladrar, um som que nenhum cão jamais soltara, nem mesmo nos seus instantes finais de agonia. Era um som que nenhum deles jamais ouvira qualquer coisa emitir, mas perceberam imediatamente, todos eles, que era um homem. Assim disseram e acredito neles. Acho que também o teria reconhecido. Já ouvi homens berrarem exatamente desse jeito, acho eu, a caminho da cadeira elétrica. Não muitos — a maioria se fecha e vai em silêncio ou fazendo piadas, como se fosse um piquenique de escola —, mas uns poucos. Geralmente são os que acreditam no inferno como um lugar de verdade e sabem o que está esperando por eles no final do Corredor da Morte.

Bobo tornou a juntar os cães pelas correias. Eles eram valiosos e não tinha nenhuma intenção de perdê-los para o psicopata que estava uivando e balbuciando logo ali adiante. Os outros homens recarregaram e engatilharam suas armas. Aqueles uivos tinham dado calafrios em todos eles e feito com que o suor que lhes escorria pelos braços e pelas costas parecesse água gelada. Quando homens sentem calafrios assim, precisam de um líder para seguir em frente, e o Vice-Xerife McGee os liderou. Pôs-se na frente e caminhou com passos firmes (mas aposto que ele não estava se sentindo muito firme naquele exato momento) até um grupo de árvores baixas que se projetava para fora do bosque à direita, com os demais andando devagar, nervosos, a uns cinco passos atrás dele. Deteve-se apenas uma vez, para indicar ao maior deles — Sam Hollis — que ficasse perto de Klaus Detterick.

Do outro lado das árvores havia mais campo aberto, se estendendo até o bosque do lado direito. Para a esquerda, ficava uma encosta suave e comprida até a margem do rio. Todos ficaram onde estavam, paralisados. Acho que dariam tudo para deixar de ter visto o que estava diante deles e que ninguém jamais esqueceria — era esse tipo de pesadelo, descarnado e quase fumegante sob o sol, que fica para além das cortinas e utensílios de vidas boas e comuns — ceias de igreja, passeios por trilhas no campo, trabalho honesto, beijos de amor na cama. Cada homem tem uma caveira e, eu lhe digo, há uma caveira na vida de todos os homens. Eles a viram naquele dia, aqueles homens — eles viram o que às vezes está arreganhando os dentes por trás de um sorriso.

Sentado na margem do rio, com um macacão desbotado e manchado de sangue, estava o maior homem que qualquer um deles jamais vira — John Coffey. Seus pés enormes, de dedos separados, estavam descalços. Usava um pano vermelho desbotado na cabeça, do jeito que uma mulher do campo usaria um lenço para entrar na igreja. Moscas-varejeiras o circundavam numa nuvem negra. Aninhado em cada braço estava o corpo de uma menina nua. Seus cabelos louros, que tinham sido encaracolados e leves como cachos de mimosa, agora estavam grudados na cabeça e estriados de vermelho. O homem que as segurava estava sentado, uivando para o céu como um bezerro alucinado, suas bochechas marrom-escuro cobertas de lágrimas, sua fisionomia contorcida numa máscara monstruosa de sofrimento. Respirava em espasmos, com o peito se enchendo até forçar as fivelas dos suspensórios do macacão e depois soltando o imenso volume de ar em outro daqueles uivos. Freqüentemente você lê nos jornais que "o assassino não demonstrava nenhum remorso", mas não era o que se via ali. John Coffey estava dilacerado pelo que fizera... mas iria viver. As meninas não. Elas tinham sido dilaceradas da forma mais literal.

Ninguém parecia saber por quanto tempo tinham ficado parados ali, olhando para aquele homem uivando que, por sua vez, estava olhando por cima da grande superfície lisa do rio para um trem do outro lado, descendo veloz pelos trilhos em direção à ponte que cruzava o rio. Pareceu-lhes que ficaram olhando durante uma hora ou para sempre e, no entanto, o trem não pareceu avançar, parecia estar correndo no mesmo lugar, como uma criança sapateando de má-criação, e o sol não passou para trás de uma nuvem e a visão não se apagou dos seus olhos. Estava ali, diante deles, tão real quanto uma dentada de cachorro. O preto balançava o corpo para a frente e para trás; Cora e Kathe se balançavam com ele, como bonecas louras nos braços de um gigante. Os músculos, manchados de sangue nos braços enormes e nus do homem, se contraíam e se relaxavam, se contraíam e se relaxavam, se contraíam e se relaxavam.

Foi Klaus Detterick quem rompeu o quadro parado. Aos gritos, atirou-se sobre o monstro que tinha estuprado e matado suas filhas. Sam Hollis sabia o que tinha que fazer e tentou, mas não conseguiu. Ele tinha mais quinze centímetros de altura do que Klaus e pelo menos mais trinta quilos, mas Klaus pareceu quase ter sacudido com facilidade os braços com que Sam tentou envolvê-lo. Klaus voou pelo espaço de campo aberto à sua frente e desferiu um pontapé voador na cabeça de Coffey. Sua bota de trabalho, coberta de leite derramado, que secara e azedara com o calor, acertou em cheio na têmpora esquerda de Coffey, que não pareceu sentir nada. Continuou apenas sentado ali, carpindo e se balançando, olhando para o outro lado do rio. Da forma como imagino a cena, podia ter sido uma imagem retirada de algum sermão pentecostal no meio de bosques de pinheiros, com os fiéis seguidores da Cruz olhando ao longe na direção da Terra de Goshan... isto é, se não fossem os cadáveres.

Foram precisos quatro homens para arrancar o fazendeiro histérico de cima de John Coffey e, antes que o conseguissem, ele deu não sei quantas boas pancadas em Coffey. Não parecia fazer diferença alguma para Coffey, de uma maneira ou de outra: ele continuou olhando para o outro lado do rio e se lamuriando. Quanto a Detterick, quando finalmente foi arrancado de cima de Coffey, perdeu toda a ânsia de lutar, como se uma estranha corrente galvanizadora estivesse correndo pelo corpo do preto gigantesco (você vai ter que me desculpar, mas ainda tenho uma tendência a pensar em metáforas elétricas) e, quando o contato de Detterick com aquela fonte de força finalmente se rompeu, ele ficou prostrado como um homem atirado para trás por um fio desencapado. Ficou ajoelhado, com as pernas abertas, na margem do rio, cobrindo o rosto com as mãos, soluçando. Howie juntou-se a ele e se abraçaram, testa contra testa.

Dois homens ficaram tomando conta deles, enquanto os demais formaram um círculo de rifles em volta do preto gemendo e se balançando. Ele continuava parecendo não se dar conta de que havia ali outras pessoas além dele. McGee avançou, ficou passando o peso do corpo de um pé para o outro, hesitante, depois se agachou.

— Ei, você — falou ele num tom suave e Coffey se calou imediatamente. McGee olhou para uns olhos que estavam injetados de chorar. E ainda continuavam a verter lágrimas, como se alguém tivesse deixado uma torneira aberta dentro deles. Aqueles olhos choravam e, no entanto, estavam de alguma forma insensíveis... distantes e serenos. Achei-os os olhos mais estranhos que jamais vira na minha vida e McGee sentiu praticamente a mesma coisa. — Como os olhos de um animal que nunca viu um homem antes — dissera a um repórter pouco antes do julgamento.

— Ei, você, está me ouvindo? — perguntou McGee.

Lentamente, Coffey confirmou com a cabeça. Ainda continuava com os braços em torno das suas bonecas indescritíveis, cujos queixos estavam caídos sobre o peito, de modo que seus rostos não podiam ser vistos direito, uma das poucas graças que Deus resolveu conceder naquele dia.

— Você tem nome? — indagou McGee.

— John Coffey — respondeu ele numa voz grossa e embargada pelo choro. — Coffey, como o que se toma com leite, só que não se escreve do mesmo jeito.

McGee assentiu com a cabeça e depois apontou com um polegar para o bolso no peito do macacão de Coffey, onde algo fazia volume. Pareceu a McGee que podia ser um revólver — não que um homem do tamanho de Coffey precisasse de um revólver para causar grandes danos se resolvesse perder a calma.

— O que está aí dentro, John Coffey? Por acaso é um pau de fogo? Uma pistola?

— Nãosinhô — disse Coffey na sua voz grossa e aqueles olhos estranhos — vertendo lágrimas e agoniados por cima, distantes e esquisitamente serenos por baixo, como se o verdadeiro John Coffey estivesse em algum outro lugar, olhando para algum outro panorama onde menininhas assassinadas não fossem nada para causar agitação — não se desviaram dos do Vice-Xerife McGee por um instante. — É só um lanchezinho que eu tenho.

— Ah, é, um lanchezinho, é? — perguntou McGee e Coffey confirmou com a cabeça e disse simsinhô com os olhos chorando e uma secreção transparente escorrendo-lhe do nariz. — E onde é que alguém como você conseguiu um lanchezinho, John Coffey? — continuou, obrigando-se a permanecer calmo, embora então pudesse sentir o cheiro das meninas e pudesse ver as moscas pousando e provando os lugares nelas que estavam úmidos. Mais tarde ele disse que o pior eram os cabelos delas... e isso não estava em nenhuma matéria de jornal, pois foi considerado macabro demais para leitura familiar. Não, isso eu obtive do repórter que escreveu a história. Procurei-o depois, porque depois John Coffey se tornou uma obsessão para mim. McGee contou para esse repórter que os cabelos louros delas não estavam mais louros. Estavam castanhos. O sangue havia escorrido deles por suas faces como se tivesse sido uma tintura malfeita e não se precisava ser médico para ver que seus crânios frágeis tinham sido esmagados um contra o outro naqueles braços poderosos. Provavelmente elas estavam chorando. Provavelmente ele quisera fazê-las parar. Se as meninas tiveram sorte, isso aconteceu antes dos estupros.

Pensar ficava muito difícil para um homem vendo aquilo, mesmo um homem tão decidido como era o Vice-Xerife McGee. Pensar mal podia ocasionar equívocos, talvez mais derramamento de sangue. McGee respirou fundo e se acalmou. De todo modo, tentou.

— Bemsinhô, não me lembro direito, quero ser bicho se me lembro — disse Coffey na sua voz embargada de choro —, mas é um lanchezinho mesmo, sãodíche e acho que pickle doce.

— Talvez eu mesmo possa ver, se você não se importa — falou McGee. — Agora, John Coffey, não se mexa. Não se mexa, crioulo, porque há armas apontadas para você em quantidade suficiente para fazer você sumir da cintura para cima se sequer tremer um dedo.

Coffey ficou olhando para o outro lado do rio e não se mexeu, enquanto McGee enfiou a mão suavemente no bolso do peito daquele macacão e retirou alguma coisa embrulhada em papel de jornal, amarrado com um pedaço de barbante de açougueiro. McGee arrebentou o barbante e abriu o papel, embora tivesse certeza de que era exatamente o que Coffey tinha dito, um lanchezinho. Havia um sanduíche de bacon e tomate e uma panqueca enrolada com geléia. Havia também um pickle, embrulhado no seu próprio pedaço de uma página de caricaturas que John Coffey nunca seria capaz de entender. Não havia nenhuma lingüiça. Bowser tinha comido as lingüiças do lanchezinho de John Coffey.

McGee passou o lanche por cima do ombro para um dos homens sem tirar os olhos de Coffey. Agachado daquele jeito, estava perto demais para permitir que sua atenção se desviasse por um segundo que fosse. O lanche, embrulhado de novo e amarrado por via das dúvidas, finalmente acabou com Bob Simms, que o colocou no seu bornal, onde guardava bocados para os cães (e algumas iscas de pesca, não me surpreenderia). Não foi apresentado como prova no julgamento — a justiça nessa parte do mundo é rápida, mas não tão rápida quanto o sumiço de um sanduíche de bacon e tomate —, mas fotos dele sim.

— O que é que houve aqui, John Coffey? — indagou McGee na sua voz baixa e séria. — Você pode me dizer?

E Coffey falou para McGee e os outros quase exatamente a mesma coisa que falou para mim. Foram também as últimas palavras que o promotor repetiu para o júri no julgamento de Coffey. — Não pude evitar — falou John Coffey, segurando nos braços as meninas nuas, assassinadas e violadas. As lágrimas começaram a correr-lhe pelo rosto de novo. — Tentei tirar de volta, mas já era muito tarde.

— Crioulo, você está preso por assassinato — disse McGee e então cuspiu na cara de John Coffey.

O júri ficou na sua sala, deliberando, durante quarenta e cinco minutos. Mais ou menos o tempo suficiente para comerem seu próprio lanchezinho. Pergunto-me como tiveram estômago para isso.

5

Acho que você sabe que não descobri tudo isso numa tarde quente de outubro, na biblioteca prestes a ser fechada da prisão, de um conjunto de jornais velhos, empilhados em dois caixotes de laranjas Pomona, mas descobri o suficiente para ter dificuldade em dormir naquela noite. Quando minha mulher se levantou às duas da manhã e me encontrou na cozinha, tomando coalhada e fumando cigarros de palha Bugler, perguntou-me o que é que estava errado e menti para ela numa das poucas vezes no decurso dos nossos quarenta e três anos de casados. Disse que tivera outro incidente com Percy Wetmore. Tinha tido mesmo, é claro, mas essa não era a razão pela qual ela me encontrara acordado tão tarde. Geralmente eu conseguia deixar Percy para trás, no escritório.

— Bem, esqueça-se dessa maçã podre e vamos voltar para a cama — disse ela. — Tenho uma coisa que vai ajudá-lo a dormir e você pode ter tanto quanto quiser.

— Isso parece bom, mas acho melhor deixarmos para outro dia — respondi. — Estou com alguma coisa no encanamento e não quero passá-la para você.

Ela levantou uma sobrancelha.

— Encanamento, é? — disse. — Acho que você deve ter-se metido com a garota de esquina errada na última vez que esteve em Baton Rouge. — Nunca estive em Baton Rouge e nunca sequer toquei numa garota de esquina, e nós dois sabíamos disso.

— É apenas uma simples infecção antiga das vias urinárias — disse eu. — Minha mãe costumava dizer que os meninos pegavam isso por fazer pipi quando estava soprando o vento norte.

— Sua mãe também costumava ficar em casa o dia todo quando derramava sal na mesa — disse minha mulher. — O Dr. Sadler...

— Não, senhora — falei, erguendo a mão. — Ele vai querer que eu tome sulfa e vou ficar vomitando por todos os cantos do escritório até o final da semana. Isso vai passar, mas, nesse meio tempo, acho que é melhor que João e Maria deixem de brincar.

Ela beijou-me a testa logo acima da minha sobrancelha esquerda, o que sempre me faz sentir cócegas... como Janice bem sabia. — Pobre bebê. Como se não bastasse aquele horroroso do Percy Wetmore. Venha logo para a cama.

Obedeci, mas antes fui até a varanda dos fundos para esvaziar o reservatório (e primeiro conferi a direção do vento com um dedo molhado — o que nossos pais nos dizem quando somos pequenos raramente fica esquecido, mesmo que possa ser tolice). Fazer pipi ao ar livre é uma das alegrias da vida no campo que os poetas nunca chegaram a descobrir, mas naquela noite não foi nenhuma alegria: o líquido que saía de mim queimava como um fio de óleo de lamparina acesa. Entretanto, achei que tinha sido um pouco pior naquela tarde e sabia que tinha sido pior nos dois ou três dias anteriores.

Tinha esperança de que talvez estivesse começando a ficar bom. Nunca uma esperança foi mais infundada. Ninguém me tinha dito que, às vezes, um bichinho que se mete lá dentro, onde é quente e úmido, pode tirar um ou dois dias para descansar antes de retornar com força outra vez. Ficaria surpreso de saber disso. Ficaria ainda mais surpreso de saber que, dentro de mais quinze ou vinte anos, haveria pílulas que liquidariam esse tipo de infecção do seu organismo em tempo recorde... e embora essas pílulas pudessem fazer você sentir o estômago um pouco embrulhado ou lhe soltar os intestinos, quase nunca faziam você vomitar como as pílulas de sulfa do Dr. Sadler. Lá em 32 não havia muito que se pudesse fazer a não ser esperar e tentar ignorar aquela sensação de que alguém tinha derramado óleo de lamparina dentro do seu peru e depois encostara um fósforo nele.

Terminei minha guimba, fui para o quarto e finalmente consegui dormir. Sonhei com meninas com sorrisos tímidos e sangue nos cabelos.

6

Na manhã seguinte havia uma folha de memorando cor-de-rosa sobre minha escrivaninha, pedindo que passasse pelo escritório do diretor assim que pudesse. Sabia do que se tratava — havia regras não-escritas mas muito importantes para o jogo e eu tinha parado de obedecê-las durante algum tempo na véspera — de modo que retardei o máximo que pude. Suponho que era como ir ao médico por causa do meu problema com o encanamento. Sempre achei que se dava importância demais a esse negócio de "acabar logo com isso".

De qualquer maneira, não fui correndo ao escritório do Diretor Moores. Em vez disso, tirei a túnica de casimira do meu uniforme, pendurei-a no encosto da minha cadeira e depois liguei o ventilador no canto — era outro dia de calor. Então me sentei e comecei a examinar a folha de ocorrências da noite feita por Brutus Howell. Não havia nada ali para ficar alarmado. Delacroix tinha chorado um pouco depois de se deitar — fazia isso na maioria das noites e, tenho certeza, mais por ele próprio do que pelas pessoas que ele tinha queimado vivas — e depois tinha tirado o Sr. Guizos, o camundongo, da caixa de charutos onde dormia. Isso o tinha acalmado e dormira como um bebê o resto da noite. O mais provável era que o Sr. Guizos tivesse passado a noite sobre a barriga de Delacroix, com sua cauda enrolada sobre as patas, os olhos sem piscar. Era como se Deus tivesse resolvido que Delacroix precisava de um anjo da guarda, mas, na Sua sabedoria, decretara que só um camundongo serviria para um rato como nosso amigo homicida de Louisiana. É claro que tudo isso não estava no relatório de Brutal, mas tinha dado plantões noturnos em quantidade suficiente para preencher as entrelinhas. Havia uma anotação curta sobre Coffey: "Ficou deitado acordado, a maior parte do tempo sossegado, pode ter chorado um pouco. Tentei começar alguma conversa, mas depois de algumas respostas grunhidas de Coffey, desisti. Talvez Paul ou Harry tenham mais sorte."

Na verdade, "fazer começar a conversa" estava na essência do nosso trabalho. Não o sabia então, mas olhando para trás com a perspectiva privilegiada dessa estranha velhice (acho que todas as velhices parecem estranhas para as pessoas que têm que suportá-las), compreendo o que era e por que não o via naquela época — era grande demais, tão essencial para nosso trabalho como a respiração é para nossa vida. Não era importante que os temporários fossem bons em "fazer começar a conversa", mas era vital para mim, Harry, Brutal e Dean... e era uma das razões pelas quais Percy Wetmore era um tamanho desastre. Os detentos o odiavam e os guardas o odiavam... presumivelmente todo o mundo o odiava, com exceção de seus contatos políticos, o próprio Percy, e talvez (mas só talvez) sua mãe. Ele era como uma dose de arsênico borrifada sobre um bolo de casamento e acho que ele significava um desastre desde o começo. Era um acidente esperando para acontecer. Quanto ao resto de nós, teríamos rido da idéia de que funcionávamos de forma muito mais útil como psiquiatras dos condenados do que como seus guardas — uma parte de mim ainda quer rir dessa idéia hoje em dia —, mas sabíamos como fazer começar uma conversa... e, sem a conversa, homens que estavam com a Velha Fagulha pela frente tinham o mau hábito de ficar loucos.

Fiz uma anotação na parte de baixo do relatório de Brutal para conversar com John Coffey — tentar, pelo menos — e depois passei para um bilhete de Curtis Anderson, o Assistente-Chefe do Diretor. Dizia que ele, Anderson, estava esperando para dentro em pouco uma ordem de DDE para Edward Delacrois (erro de grafia de Anderson: o nome do homem na verdade era Eduard Delacroix). DDE queria dizer data de execução e, segundo o bilhete, Curtis soubera de boa fonte que o francesinho ia dar sua caminhada pouco antes da Noite das Bruxas — 27 de outubro era seu melhor palpite, e os palpites de Curtis Anderson eram muito bem informados. Porém, antes disso, podíamos esperar um novo residente, de nome William Wharton. Na sua caligrafia inclinada para trás e um tanto efeminada, Curtis escrevera: "Ele é o que se poderia chamar de `uma criança problema'. Louco desvairado e com orgulho disso. Vagueou por todo o estado durante mais ou menos um ano e, por fim, acertou em cheio. Matou três pessoas num assalto, uma delas uma mulher grávida, matou uma quarta pessoa na fuga. Um Patrulheiro Estadual. Só deixou de acertar numa freira e num cego." Sorri um pouco ao ler isso. "Wharton tem 19 anos, uma tatuagem na parte superior do braço com os dizeres Billy the Kid. Você vai ter que lhe dar uns tapas uma ou duas vezes, isso eu garanto, mas tenha cuidado quando der. Esse homem simplesmente não se importa com nada." Tinha sublinhado duas vezes essa opinião, depois concluiu: "Além disso, ele é capaz de demorar por aí. Está impetrando recursos e existe o fato de que é menor."

Um garoto maluco, impetrando recursos, com tendência a se demorar por algum tempo. Ora, isso tudo parecia ótimo. De repente o dia pareceu mais quente do que nunca e não podia mais ficar retardando ir ver o Diretor Moores.

Trabalhei para três diretores durante meus anos como guarda em Cold Mountain e Hal Moores era o melhor deles, disparado. Honesto, direto, sem sequer ter o espírito brincalhão rudimentar de Curtis Anderson, porém dotado da habilidade política necessária para reter seu emprego durante aqueles anos sombrios... e integridade bastante para não se deixar seduzir pelo jogo. Não iria subir mais, porém isso parecia estar bem para ele. Tinha então cinqüenta e oito ou nove, um rosto com rugas profundas que lhe davam uma aparência de sabujo com que Bobo Simms provavelmente se sentiria perfeitamente à vontade. Seus cabelos estavam brancos e suas mãos tremiam com uma espécie de paralisia parcial, mas era forte. No ano anterior, quando um preso correra para ele no pátio de exercício com uma estaca pontiaguda feita de uma ripa de caixote, Moores ficou firme, agarrou o pulso do facínora e torceu-o com tanta força que os ossos se partiram com um som semelhante ao de gravetos secos queimando num fogo vivo. O facínora, esquecendo todas as suas queixas, ajoelhou-se na terra e começou a berrar por sua mãe. Na sua voz bem-educada, com sotaque sulista, Moores disse:

— Eu não sou ela, mas se fosse, levantaria minhas saias e mijaria em você com as entranhas que lhe deram a luz.

Quando entrei no seu escritório, fez menção de se levantar e eu fiz sinal com a mão para que ficasse sentado. Sentei-me diante dele, em frente à escrivaninha, e comecei por perguntar por sua mulher... só que, na nossa parte do mundo, não é assim que se faz. O que perguntei foi: — Como vai aquela sua moça bonita? —, como se Melinda só tivesse visto dezessete verões em vez de sessenta e dois ou três. Meu interesse era sincero — era uma mulher que eu próprio poderia ter amado e com quem poderia ter-me casado, se as linhas de nossas vidas tivessem coincidido —, mas também não me importava de desviá-lo um pouco do seu assunto principal.

Suspirou fundo.

— Não muito bem, Paul. Não está nada bem mesmo.

— Mais dores de cabeça?

— Só nesta semana, mas foi a pior de todas, deixou-a de cama durante a maior parte do dia ontem. E agora ela apareceu com essa fraqueza na mão direita... — Ergueu sua própria mão direita, com manchas de fundo hepático. Ambos a vimos tremer acima do seu mata-borrão por um ou dois segundos e depois ele a abaixou novamente. Podia ver que ele daria praticamente qualquer coisa para não ter que me dizer o que estava dizendo e eu teria dado praticamente qualquer coisa para não ter que escutar. As dores de cabeça de Melinda tinham começado na primavera e durante todo o verão seguinte seu médico dizia que eram "enxaquecas devidas à tensão nervosa", talvez causada pelo estresse da aproximação da aposentadoria de Hal. Só que ambos mal podiam esperar pela aposentadoria, e minha própria mulher me dissera que a enxaqueca não é um mal de velhos e sim de jovens. Quando as pessoas que padeciam de enxaquecas chegavam à idade de Melinda Moores, geralmente melhoravam em vez de piorar. E agora essa fraqueza na mão. Não me parecia tensão nervosa, parecia mais um maldito derrame.

— O Dr. Haverstrom quer que ela vá ao hospital em Indianola — disse Moores. — Fazer uns exames. Ele quer dizer umas chapas de raios X da cabeça. E quem sabe o que mais. Ela está apavorada. — Fez uma pausa e depois acrescentou. — Para dizer a verdade, eu também.

— É, mas faça com que ela vá — disse eu. — Não espere. Se for alguma coisa que eles possam ver com raios X, pode acabar sendo alguma coisa em que eles podem dar um jeito.

— É — concordou ele e então, só por um instante — o único durante aquela parte do encontro, segundo me recordo — nossos olhos se encontraram e ficaram presos uns nos outros. Estabeleceu-se entre nós aquela espécie de entendimento perfeito e total que não necessita de palavras. Podia ser um derrame, sim. Também podia ser um câncer crescendo no seu cérebro e, se fosse isso, as chances de que os médicos em Indianola pudessem fazer qualquer coisa eram escassas passando para zero. Isso era em 32, lembre-se, quando até mesmo algo relativamente tão simples como uma infecção das vias urinárias era ou sulfa e vomite ou sofra e espere.

— Obrigado por seu interesse, Paul. Agora vamos falar sobre Percy Wetmore.

Dei um gemido e cobri os olhos.

— Recebi um telefonema da capital estadual hoje de manhã — disse o diretor num tom sereno. — Foi um telefonema furioso, como estou certo de que você pode imaginar. Paul, o governador é tão casado que ele nem raciocina, se você entende o que quero dizer. E sua mulher tem um irmão que tem um filho. Esse filho é Percy Wetmore. Percy telefonou para o pai ontem à noite e o pai de Percy telefonou para a tia de Percy. Preciso delinear o resto disso para você?

— Não — disse eu. — Percy foi se queixar. Bem como o maricas da escola dizendo à professora que viu João e Maria se esfregando no vestiário.

— É — concordou Moores —, é mais ou menos isso.

— Você sabe o que aconteceu quando Delacroix chegou aqui? — perguntei. — Percy com aquele seu maldito cassetete de peroba...

— Sei, mas...

— E você sabe como ele vai batendo com ele nas grades às vezes, só para se divertir. Ele é mau e ele é burro e não sei quanto tempo mais vou aturá-lo. Essa é a verdade.

Conhecíamo-nos há cinco anos. Isso pode ser bastante tempo para homens que se dão bem, especialmente quando parte do trabalho é trocar a vida pela morte. O que estou dizendo é que ele entendia o que eu queria dizer. Não que iria me demitir, não com a Depressão dando voltas do lado de fora das paredes da prisão como um criminoso perigoso, que não podia ser engaiolado como os nossos detentos. Homens melhores do que eu estavam nas estradas ou pegando carona nos vagões de carga. Eu tinha sorte e sabia disso: filhos criados e tirara de cima de mim a hipoteca, aquele bloco de mármore de cem quilos, fazia dois anos. Mas um homem precisa comer e sua mulher também precisa comer. Além disso, costumávamos mandar para nossa filha e genro vinte pratas sempre que podíamos (e, às vezes, quando não podíamos, mas as cartas de Jane tinham um tom particularmente desesperado). Ele era um professor secundário desempregado e, se isso não justificava ficar desesperado naquela época, então a palavra não significa nada. Portanto, não, você não deixava para trás um trabalho com salário garantido como o meu... isto é, não de cabeça fria. Mas, naquele outono, minha cabeça não estava fria. As temperaturas do lado de fora estavam altas demais para a estação e a infecção se arrastando dentro de mim tinha feito o termostato subir ainda mais. E, quando um homem está nesse tipo de situação, que diabo, às vezes seu punho dispara independente da sua própria vontade. E se você acerta um homem como Percy Wetmore uma vez, é melhor continuar batendo, porque não dá pra voltar atrás.

— Agüente — disse Moores com calma. — Foi para lhe dizer isso que o chamei aqui. Sei de boa fonte — na realidade, a pessoa que me telefonou hoje de manhã — que Percy deu entrada num requerimento em Briar e que esse requerimento será deferido.

— Briar — disse eu. Era Briar Ridge, um dos dois hospitais do estado, ambos o fim da picada. — O que é que esse garoto está fazendo? Uma excursão pelos estabelecimentos estaduais?

— É um cargo administrativo. Melhor salário e papéis para empurrar em vez de camas de hospital no auge do calor do dia — lançou-me um sorriso grande, de lado. — Sabe, Paul, você poderia já se ter livrado dele se não o tivesse colocado na sala da chave com Van Hay quando foi a vez do Cacique.

Por um instante o que ele disse pareceu tão esquisito que não consegui perceber a que estava se referindo. Talvez eu não estivesse querendo perceber.

— Em que outro posto poderia colocá-lo? — perguntei. — Deus meu, ele mal sabe o que está acontecendo no bloco! Fazer dele membro da equipe de execução propriamente dita... — Não concluí. Não podia concluir. As possibilidades de lambanças pareciam intermináveis.

— Apesar disso, você faria bem em colocá-lo na equipe para Delacroix. Isto é, se quer se ver livre dele.

Olhei para ele boquiaberto. Por fim consegui situar as coisas no seu lugar, de modo a poder falar.

— O que é que você está dizendo? Que ele quer ter a experiência bem de perto, de onde possa sentir o cheiro das bolas do sujeito sendo cozinhadas?

Moores encolheu os ombros. Seus olhos, tão suaves quando falara sobre sua mulher, agora estavam duros.

— As bolas de Delacroix vão ser cozinhadas quer Wetmore esteja ou não na equipe — disse ele. — Certo?

— É, mas ele pode fazer alguma lambança. Na realidade, Hal, é quase inevitável que vá fazer uma lambança. E diante de umas trinta testemunhas... repórteres vindos lá de Louisiana...

— Você e Brutus Howell tratarão de impedir que faça — disse Moores. — E, de qualquer maneira, se fizer, vai para a ficha dele e ainda estará lá muito depois que acabem suas ligações com a casa de governo. Entendeu?

Entendi. Fez-me ficar enojado e assustado, mas entendi.

— Ele pode querer ficar para Coffey, mas, se tivermos sorte, terá tudo que quer com Delacroix. Trate apenas de colocá-lo na equipe para essa aí.

Tinha planejado meter Percy na sala da chave novamente, depois embaixo, no túnel, tomando conta da maca de metal que levaria Delacroix para o rabecão do outro lado da rua, na frente da prisão, mas atirei todos esses planos por cima do ombro sem pensar duas vezes. Assenti com a cabeça. Tinha consciência de que estava assumindo um risco dos infernos, mas não me importei. Se com isso me livrasse de Percy Wetmore, torceria o nariz do próprio diabo. Ele podia participar dessa execução, colocar o capacete e depois olhar pela grelha e dizer a Van Hay para ligar em dois, podia ficar olhando o francesinho montar no raio que ele, Percy Wetmore, tinha liberado da garrafa. Ele que tivesse sua excitaçãozinha perversa, se isso era o que o assassinato aprovado pelo estado representava para ele. Ele que fosse para Briar Ridge, onde teria seu próprio escritório, com um ventilador para refrescá-lo. E se o seu tio por afinidade perdesse na próxima eleição e ele tivesse que descobrir como era o trabalho no duro mundo tostado de sol onde nem todos os maus elementos estavam trancafiados atrás das grades e às vezes você mesmo levava uma surra, tanto melhor.

— Muito bem — disse eu, pondo-me de pé. — Vou colocá-lo lá na frente para Delacroix. E, nesse meio tempo, vou manter a paz.

— Bom — disse ele e também se levantou. — A propósito, como anda aquele seu probleminha? — Apontou com delicadeza na direção do meu baixo-ventre.

— Parece que está um pouco melhor.

— Bem, que bom. — Acompanhou-me até a porta. — E, a propósito, quanto a Coffey? Será que vai causar problemas?

— Acho que não — respondi. — Até agora ele tem estado quieto como um galo morto. Ele é estranho — tem olhos estranhos — mas sossegado. Mas vamos ficar de olho nele. Não se preocupe com isso.

— É claro que você sabe o que ele fez.

— Claro.

A essa altura estava me levando para a sala de espera, onde a velha Srta. Hannah estava sentada, martelando na sua Underwood como, ao que parecia, vinha fazendo desde que findara a última Era Glacial. Estava contente por ir embora. Levando tudo em consideração, sentia-me como se tivesse me saído bem. E era bom saber que, afinal de contas, havia uma chance de sobreviver a Percy.

— Dê todo meu carinho a Melinda — disse eu. — E não fique imaginando o pior. Provavelmente isso vai acabar não sendo mais do que enxaquecas no final das contas.

— Sem dúvida — falou ele e, por baixo de seus olhos tristes, os lábios sorriram. A combinação era quase de assustar.

Quanto a mim, voltei para o Bloco E para iniciar mais um dia. Havia papéis para ler e escrever, havia pisos que tinham que ser lavados, havia refeições a serem servidas, uma lista de plantão para ser feita para a semana seguinte, havia uma centena de detalhes para tratar. Mas, sobretudo, havia a espera — numa prisão há sempre muito disso, tanto que não acaba nunca. Esperando que Eduard Delacroix percorresse o Corredor da Morte, esperando que William Wharton chegasse com seu lábio estendido e a tatuagem de Billy the Kid, e, acima de tudo, esperando que Percy Wetmore saísse da minha vida.

7

O camundongo de Delacroix era um dos mistérios de Deus. Antes daquele verão, jamais vira um no Bloco E e jamais vi outro depois daquele outono, quando Delacroix deixou nossa companhia numa noite quente e cheia de trovões em outubro — deixou-nos de uma maneira tão indescritível que mal posso fazer-me recordá-la. Delacroix afirmava que ele tinha amestrado o camundongo, que começara sua vida conosco como Willie do Barco a Vapor, mas eu realmente acho que foi ao contrário. Dean Stanton achava a mesma coisa e Brutal também. Ambos estavam lá na noite em que o camundongo fez sua primeira aparição e, como Brutal dizia: — O bicho já tava meio amestrado e era duas vezes mais esperto do que o Cajun que pensava que era seu dono.

Dean e eu estávamos no meu escritório, revendo a caixa de registros relativa ao ano anterior, nos preparando para escrever as cartas de acompanhamento para as testemunhas de cinco execuções, e escrever acompanhamentos de acompanhamentos em relação a outras seis, que se estendiam para trás até 29. Basicamente, queríamos saber apenas uma coisa: estavam satisfeitos com o serviço? Sei que isso parece grotesco, mas era uma consideração importante. Como contribuintes da Receita, eram nossos clientes, embora de um tipo muito especial. Um homem ou uma mulher que se dispõe a comparecer à meia-noite para assistir à morte de alguém tem que ter uma razão especial, preponderante, para estar ali, uma necessidade urgente, e se a execução é uma forma apropriada de castigo, então essa necessidade precisa ser satisfeita. Tiveram um pesadelo. O propósito da execução é mostrar-lhes que o pesadelo acabou. Talvez até funcione desse jeito. Às vezes.

— Ei! — falou em voz alta Brutal do lado de fora da porta, onde estava sentado à mesa da guarda no princípio do corredor. — Ei, vocês dois! Venham até aqui!

Dean e eu nos entreolhamos com a mesma expressão de susto, pensando que alguma coisa tinha acontecido com o índio de Oklahoma (seu nome era Arlen Bitterbuck, mas nós o chamávamos de Cacique... ou, no caso de Harry Terwilliger, Cacique Queijo de Cabra, porque Harry afirmava que era esse o cheiro que tinha), ou o camarada que chamávamos de Presidente. Mas aí Brutal começou a rir e nos apressamos para ver o que estava acontecendo. Dar risadas no Bloco E parecia tão errado como dar risadas numa igreja.

O velho Tut-Tut, o preso de confiança que naquela época estava encarregado do carrinho de comida, tinha passado com suas guloseimas, e Brutal tinha feito um estoque para uma noite comprida: três sanduíches, dois refrigerantes e duas fatias de torta. E também uma porção de salada de batatas que Tut certamente surrupiara da cozinha da prisão, onde supostamente ele não podia entrar. Brutal estava com o livro de registro aberto à sua frente e, por um desses milagres, ainda não tinha derramado nada nele. É verdade que ele acabara de começar seu turno.

— O quê? — perguntou Dean. — O que é?

— Afinal de contas, a assembléia estadual deve ter afrouxado os cordéis da bolsa o suficiente para contratar outro guarda neste ano — disse Brutal, ainda rindo. — Olhem só pra lá.

Apontou com o dedo e vimos o camundongo. Comecei também a rir e Dean se juntou a nós. Não podíamos mesmo evitar, porque um guarda fazendo suas rondas de inspeção a cada quarto de hora era exatamente como aquele camundongo: um guarda minúsculo, peludo, certificando-se de que ninguém estava tentando fugir ou cometer suicídio. Ele trotava um pouco na nossa direção, pelo Corredor da Morte, depois virava a cabeça de um lado para o outro, como se estivesse conferindo as celas. Depois dava outra corridinha curta para diante. O fato de que podíamos escutar ambos os nossos detentos de então roncando tranqüilos apesar de toda a gritaria e risada de algum modo tornava isso ainda mais engraçado.

Era um camundongo marrom perfeitamente comum, salvo pela maneira como parecia estar conferindo o interior das celas. Ele até entrou em uma ou duas delas, esgueirando-se agilmente por entre as grades inferiores de uma maneira que, imagino, causaria inveja a muitos dos nossos detentos, passados e presentes. Só que, é claro, os presos estariam sempre querendo esgueirar-se para fora.

O camundongo não entrou em nenhuma das duas celas ocupadas, só nas que estavam vazias. Finalmente, ele tinha vindo quase até o ponto em que nós estávamos. O tempo todo fiquei esperando que desse meia-volta, mas não deu. Não demonstrava o menor medo de nós.

— Não é normal que um camundongo se aproxime de pessoas desse jeito — comentou Dean, um pouco nervoso. — Talvez esteja com raiva.

— Oh, meu Deus — disse Brutal com a boca cheia de um sanduíche de carne moída prensada. — O grande perito em camundongos. O Homem dos Camundongos. Está vendo ele espumando pela boca, Homem dos Camundongos?

— Nem consigo ver sua boca — disse Dean e isso nos fez rir novamente. Eu também não conseguia ver-lhe a boca, mas podia enxergar as pequenas contas escuras que eram seus olhos e a mim não pareciam loucos nem raivosos. Pareciam interessados e inteligentes. Já levei homens para a morte — homens com almas supostamente imortais — que tinham ar mais idiota do que aquele camundongo.

Ele veio numa corridinha pelo Corredor da Morte até um ponto que ficava a menos de um metro da mesa da guarda... que não era nada de especial, como você pode estar imaginando, mas apenas o tipo de mesa por trás da qual os professores costumavam se sentar na escola secundária do distrito. E lá parou, enrolando sua cauda em torno das patas com o mesmo cuidado de uma senhora idosa ajeitando as saias.

Parei imediatamente de rir, sentindo subitamente um frio atravessar-me a pele e ir até os ossos. Quero dizer que não sei por que me senti desse jeito — ninguém gosta de revelar alguma coisa que vai fazê-lo parecer ridículo —, mas é claro que não sei e, se sou capaz de dizer a verdade sobre o resto, acho que posso dizer a verdade sobre isso. Por um instante, me imaginei sendo aquele camundongo, não um guarda, de forma alguma, mas apenas mais um criminoso ali no Corredor da Morte, condenado e sentenciado, mas ainda conseguindo erguer os olhos valentemente para uma mesa que devia parecer-lhe a quilômetros de altura (como a cadeira do Juízo de Deus sem dúvida nos parecerá um dia) e para os gigantes de voz forte, vestidos de azul, que se sentavam por trás dela. Gigantes que abatiam os da sua espécie com espingardas de ar comprimido, os esmagavam com vassouras ou lhes preparavam armadilhas, armadilhas que quebravam-lhes a espinha enquanto eles estavam avançando cuidadosamente por cima da palavra VICTOR para mordiscar o queijo sobre a pequena placa de cobre.

Não havia nenhuma vassoura perto da mesa da guarda, mas havia um balde com rolos de espremer o enxergão, com um enxergão ainda entre os espremedores. Pouco antes de me sentar diante da caixa de registros com Dean, tinha feito minha parte de lavar o piso de linóleo verde e das seis celas. Vi que Dean fizera menção de pegar o enxergão e dar uma pancada com ele no camundongo. Toquei seu pulso bem quando seus dedos tocaram o cabo fino de madeira.

— Deixe-o em paz — falei.

Ele deu de ombros e retirou a mão. Tive a sensação de que ele, como eu, não queria mais esmigalhar o camundongo.

Brutal arrancou um naco do seu sanduíche de carne moída prensada e segurou-o na frente da mesa, apertando-o delicadamente entre dois dedos. O camundongo pareceu olhar para cima com um interesse ainda maior, como se soubesse exatamente o que era. Provavelmente sabia. Pude ver seus bigodes estremecerem enquanto remexia o nariz.

— Ah, Brutal, não! — exclamou Dean e depois olhou para mim. — Não o deixe fazer isso, Paul! Se ele der de comer a essa maldita coisa, podemos perfeitamente estender um tapete de boas-vindas para qualquer coisa de quatro pernas.

— Só quero ver o que ele vai fazer — disse Brutal. — Como se fosse no interesse da ciência. — Olhou para mim — eu era o chefe, mesmo em pequenos desvios da rotina como esse. Pensei no assunto e encolhi os ombros, como se não tivesse muita importância, de um jeito ou de outro. A verdade é que eu também queria ver o que ele iria fazer.

Bem, ele comeu, é claro. Afinal de contas, estávamos em meio a uma depressão. Porém, o modo como ele comeu nos fascinou a todos. Ele se aproximou do fragmento de sanduíche, cheirou em volta dele e então se sentou na sua frente sobre as patas traseiras, como um cachorro fazendo um truque, agarrou-o e retirou o pão para chegar à carne. Fez isso de maneira tão proposital e consciente como um homem comendo um bom prato de rosbife no seu restaurante predileto. Nunca vi um animal comer assim, nem mesmo um cão doméstico bem ensinado. E durante todo o tempo em que estava comendo, jamais tirou os olhos de nós.

— Ou bem é um camundongo esperto ou está com uma fome dos infernos — disse uma nova voz. Era Bitterbuck. Tinha despertado e agora estava de pé junto das grades de sua cela, nu salvo por um calção de pugilista de fundilhos grandes. Havia um cigarro de palha preso entre o segundo e o terceiro nó dos dedos da mão direita e seu cabelo cinza-escuro lhe caía em duas tranças sobre os ombros — que um dia tinham provavelmente sido musculosos, mas que agora começavam a ficar amolecidos.

— Você tem algum conhecimento especial de índio a respeito de camundonguinhos, Cacique? — perguntou Brutal, observando o camundongo comendo. Estávamos todos bastante fascinados pela maneira habilidosa com que segurava o pedaço de carne prensada com as patas dianteiras, de vez em quando dando-lhe voltas ou olhando para ela como se a estivesse admirando ou apreciando.

— Nããão — respondeu Bitterbuck. — Cunhici um guerreiro um dia que tinha um par do que ele dizia que era luvas de pele de camundongo, mas num acreditei. — Depois deu uma gargalhada, como se tudo não passasse de uma piada e se afastou das grades. Ouvimos o catre ranger quando ele se deitou de novo.

Este pareceu ser o sinal para o camundongo ir embora. Terminou o que estava segurando, deu uma cheirada no que sobrava (quase só pão com mostarda amarela empapada no miolo) e depois olhou de volta para nós, como se quisesse se lembrar de nossos rostos caso nos encontrássemos novamente. Aí deu meia-volta e saiu correndo na direção de onde tinha vindo, dessa vez sem se deter em qualquer inspeção das celas. Sua pressa me fez pensar no Coelho Branco de Alice no País das Maravilhas, e dei um sorriso. Ele não parou diante da porta da solitária e sim se enfiou por baixo dela. A solitária tinha paredes forradas, para as pessoas que estavam de miolo um pouco mole. Quando não estávamos precisando dela para a finalidade para que tinha sido feita, guardávamos ali material de limpeza e alguns livros (a maioria era de histórias de faroeste por Clarence Mulford, mas um — só emprestado em ocasiões especiais — continha uma história com profusas ilustrações em que Popeye, Brutus e até Dudu, a fera do hambúrguer, se revezavam comendo Olívia Palito). Havia também coisas para trabalhos manuais, inclusive os lápis pastel que depois Delacroix utilizou muito bem. Não que ele já fosse então problema nosso; lembre-se, isso foi antes. Além disso, na solitária também estava o casaco que ninguém queria usar — branco, feito de lona costurada em camada dupla, com os botões, fivelas e presilhas subindo pelas costas. Todos nós sabíamos como prender uma criança-problema naquela camisa-de-força bem depressinha. Nossos meninos perdidos não ficavam violentos com freqüência, mas quando ficavam, meu caro, a gente não ficava esperando que a situação melhorasse por conta própria.

Brutal esticou a mão para dentro da gaveta que ficava no centro da mesa, sobre o espaço para os joelhos, e retirou o livro grande, encadernado em couro, com a palavra VISITANTES gravada na frente, em folha de ouro. Geralmente esse livro ficava na gaveta por meses a fio. Quando um preso recebia visita — a menos que fosse um advogado ou padre — ele era levado para a sala ao lado do refeitório, que estava reservada especialmente para essa finalidade. Nós a chamávamos de A Galeria. Não sei por quê.

— Que diacho você acha que está fazendo? — perguntou Dean Stanton, espiando por cima da armação dos óculos quando Brutal abriu o livro e foi passando pomposamente pelas páginas, de anos passados, de visitantes de homens agora mortos.

— Obedecendo à Regra 19 — respondeu Brutal, achando a página da época. Pegou o lápis e lambeu a ponta — um hábito desagradável do qual não conseguia se livrar — e preparou-se para escrever. A Regra 19 rezava simplesmente: "Cada visitante do Bloco E deverá exibir um passe amarelo da Administração e será registrado imediatamente."

— Ele ficou maluco — disse Dean para mim.

— Ele não nos mostrou seu passe, mas por essa vez vou deixar passar — falou Brutal. Deu mais uma lambida na ponta do lápis, para dar sorte, depois escreveu 21:49 na coluna intitulada ENTRADA NO BLOCO.

— Claro, por que não, os chefes importantes provavelmente abrem exceção para camundongos — disse eu.

— Claro que sim — concordou Brutal. — Por falta de bolsos. — Virou-se para olhar para o relógio de parede atrás da mesa, depois escreveu 22:01 na coluna intitulada SAÍDA DO BLOCO. O espaço maior entre esses dois números era intitulado NOME DO VISITANTE. Depois de pensar intensamente por um momento — provavelmente para reforçar sua limitada capacidade de escrita, pois tenho certeza de que já estava com a idéia na cabeça — Brutus Howell escreveu cuidadosamente Willie do Barco a Vapor, que era como a maioria das pessoas chamava Mickey Mouse naquela época. Era devido àquele primeiro desenho animado falado, no qual ele girava os olhos, mexia as cadeiras e puxava o cordel do apito na cabina do piloto do barco a vapor.

— Pronto — disse Brutal, fechando o livro com força e repondo-o na sua gaveta —, tudo feito e acabado.

Dei uma risada, mas Dean, que não conseguia deixar de levar as coisas a sério mesmo quando via que era uma brincadeira, estava franzindo a testa e limpando os óculos freneticamente.

— Você vai ter problemas se alguém vir isso. — Hesitou e acrescentou. — O alguém que não devia. — Hesitou novamente, passando seu olhar míope ao redor, quase como se esperasse ver que as paredes tinham orelhas, antes de concluir: — Alguém como Percy Puxe-meu-Saco-e-Vá-para-o-Céu Wetmore.

— Hã — disse Brutal. — O dia em que Percy Wetmore sentar sua bunda magra aqui nessa mesa será o dia em que eu me demito.

— Você não vai precisar fazer isso — falou Dean. — Eles vão botar você na rua por escrever piadas no livro de visitantes, se Percy disser a palavra certa na orelha certa. E ele pode. Você sabe que pode.

Brutal olhou fixo para ele, mas não disse nada. Mais tarde nessa noite, achei que ele iria apagar o que tinha escrito. E se ele não apagasse, eu apagaria.

Na noite seguinte, depois de levar primeiro Bitterbuck e depois o Presidente até o Bloco D, onde dávamos banho de chuveiro no nosso grupo depois que os presos comuns estavam trancados nas suas celas, Brutal me perguntou se não devíamos dar uma olhada em Willie do Barco a Vapor lá na solitária.

— Acho que devíamos — respondi. Tínhamos dado boas risadas por causa daquele camundongo na noite anterior, mas sabia que se Brutal e eu o encontrássemos lá na solitária — especialmente se descobríssemos que ele tinha roído um lugar numa das paredes forradas para fazer seu ninho — nós o mataríamos. É melhor matar o guia, por mais divertido que ele seja, do que ter que conviver com os imigrantes. E não devia precisar lhe dizer que nenhum de nós tinha muitos problemas de consciência com um pequeno assassinato de camundongo. Afinal de contas, era para matar ratos que o Estado nos pagava.

Mas não encontramos Willie do Barco a Vapor — que mais tarde seria conhecido como Sr. Guizos — naquela noite, nem aninhado nas paredes forradas nem por trás da pilha de quinquilharias acumuladas que retiramos para o corredor. Aliás, havia uma grande quantidade de quinquilharias, mais do que eu esperava, porque fazia muito tempo que não usávamos a solitária. Isso iria mudar com a chegada de William Wharton, mas, é claro, não sabíamos disso então. Que sorte a nossa.

— Onde é que ele se meteu? — perguntou Brutal por fim, enxugando o suor da nuca com uma faixa azul grande de usar na cabeça. — Nenhum buraco, nenhuma fenda... tem aquilo ali, mas... — Apontou para o ralo no chão. Um camundongo poderia passar pela grade, mas por baixo dela havia uma tela fina de aço através da qual nem uma mosca poderia passar. — Como foi que ele entrou? Como foi que ele saiu?

— Não sei — respondi.

— Ele entrou aqui dentro, não entrou? Quero dizer, nós três o vimos.

— Foi, bem por baixo da porta. Teve que se espremer um pouco, mas passou.

— Puxa vida — disse Brutal, uma palavra que parecia estranha, vinda de um homem grande daquele jeito. — Ainda bem que os detentos não podem ficar pequenos assim, não é?

— Pode apostar que sim — disse eu, correndo os olhos pelas paredes forradas, uma da cada vez, procurando um buraco, uma fenda, qualquer coisa. Não havia nada. — Venha. Vamos embora.

Willie do Barco a Vapor apareceu de novo três noites depois, quando Harry Terwilliger estava na mesa da guarda. Percy também estava de serviço e perseguiu o camundongo de volta pelo Corredor da Morte com o mesmo enxergão que Dean tinha pensado em usar. O roedor escapou de Percy com facilidade, enfiando-se pela fresta por baixo da porta da solitária, vencendo de ponta a ponta. Xingando o mais alto que podia, Percy destravou a porta e carregou para fora toda aquela merda de novo. Foi engraçado e assustador ao mesmo tempo, disse Harry. Percy jurava que pegaria o maldito camundongo e arrancaria sua cabeça empestada todinha, mas, é claro, não conseguiu. Suando e descabelado, com a fralda da camisa do uniforme por fora das calças nas costas, voltou para a mesa da guarda meia hora depois, procurando tirar os cabelos de cima dos olhos e dizendo a Harry (que tinha ficado calmamente lendo durante toda essa agitação) que ia pôr uma fita isolante na parte inferior daquela porta. Isso ia resolver o problema daquela praga, declarou.

— O que você achar melhor, Percy — disse Harry, virando a página do romance barato que estava lendo. Achou que Percy ia se esquecer de bloquear a fresta por baixo da porta, e tinha razão.

8

Mais adiante naquele inverno, muito depois de terem terminado esses acontecimentos, uma noite Brutal veio até mim quando só estávamos nós dois, com o Bloco E temporariamente desocupado e todos os outros guardas distribuídos para outros blocos. Percy tinha partido para Briar Ridge.

— Venha cá — disse Brutal numa voz fina, engraçada, que me fez olhar para ele de repente. Tinha acabado de entrar, saindo de uma noite fria e com um princípio de neve úmida e estava tirando a neve dos ombros do meu casaco antes de pendurá-lo.

— Há algo errado? — perguntei.

— Não — respondeu —, mas encontrei por onde o Sr. Guizos estava entrando e saindo. Quero dizer, quando ele veio pela primeira vez, antes de que Delacroix o adotasse. Você quer ver?

Claro que eu queria. Segui-o pelo Corredor da Morte até a solitária. Todas as coisas que guardávamos lá estavam no corredor. Aparentemente, Brutal tinha aproveitado a interrupção no tráfego de fregueses para fazer uma faxina. A porta estava aberta e vi nosso balde com o enxergão lá dentro. O piso, da mesma tonalidade enjoativa de verde-claro que o próprio Corredor da Morte, estava secando em estrias. De pé no centro do piso, havia uma escada de abrir, a que geralmente ficava guardada na sala de depósito que também servia de parada final para os condenados do estado. Havia uma prateleira que se projetava da parte traseira da escada, perto do topo, o tipo de coisa que um operário usaria para apoiar sua caixa de ferramentas ou um pintor seu balde de tinta com que estivesse trabalhando. Havia uma lanterna de pilha sobre ela e Brutal passou-a para mim.

— Suba até lá. Você é mais baixo do que eu, de modo que vai ter que subir quase tudo, mas eu seguro suas pernas.

— Sinto cócegas nelas — disse eu, começando a subir. — Principalmente nos joelhos.

— Prestarei atenção nisso.

— Ainda bem — disse eu —, porque uma bacia partida é um preço muito alto a pagar só para descobrir as origens de um único camundongo.

— Hã?

— Deixa pra lá. — A essa altura, estava com a cabeça junto da lâmpada dentro de uma gaiola de arame, no centro do teto, e podia sentir a escada gingando um pouco com meu peso. Podia escutar o vento de inverno gemendo do lado de fora. — Apenas trate de me segurar.

— Estou segurando, não se preocupe. — Agarrou meus tornozelos com firmeza e subi mais um degrau. Agora o cocuruto da minha cabeça estava a menos de trinta centímetros do teto e podia enxergar as teias que algumas aranhas empreendedoras tinham tecido nos vértices onde as vigas do telhado se juntavam. Passeei a luz em volta, mas não vi nada que compensasse o risco de estar ali em cima.

— Não — falou Brutal. — Você está olhando para muito longe, chefe. Olhe para a sua esquerda, onde aquelas duas vigas se juntam. Está vendo? Uma delas está meio sem cor.

— Estou vendo.

— Coloque a luz na junta.

Assim fiz e quase imediatamente vi o que ele queria que eu visse. As vigas tinham sido presas com pitocos de madeira, uma meia dúzia deles, e um tinha sumido, deixando um orifício preto, circular, do tamanho de uma moeda de vinte e cinco centavos. Olhei para ele, depois olhei desconfiado por cima do ombro para Brutal.

— Era um camundongo pequeno — disse eu —, mas tão pequeno assim? Cara, acho que não.

— Mas foi por aí que ele passou — disse Brutal. — Tenho absoluta certeza.

— Não vejo como pode ter tanta certeza.

— Incline-se mais para perto... não se preocupe, estou segurando, e dê uma cheirada.

Fiz como me pedia, tateando com uma das mãos em busca de uma das outras vigas e me sentindo melhor quando consegui agarrá-la. O vento lá fora deu outra lufada e o ar saiu daquele buraco bem no meu rosto. Pude sentir o cheiro agudo de uma noite de inverno na fronteira do sul... e alguma outra coisa também.

O cheiro de hortelã.

Não deixe acontecer nada com o Sr. Guizos, podia ouvir Delacroix dizendo numa voz que não ficava firme. Podia ouvir isso e podia sentir o calor do Sr. Guizos quando o francês o entregou a mim, apenas um camundongo, mais esperto do que a maioria da sua espécie, sem dúvida, mas ainda assim, com tudo somado, apenas um camundongo. Só que esse aí não tinha nenhuma razão para estar vivo. Não deixe aquele sujeito malvado machucar meu camundongo, disse ele e eu prometi, como sempre prometia para eles no final, quando percorrer o Corredor da Morte não era mais um mito ou uma hipótese, mas algo que eles de fato tinham que fazer. Pode pôr essa carta no correio para meu irmão, que não vejo há vinte anos? Prometo. Pode dizer quinze Ave-Marias pela minha alma? Prometo. Pode me deixar morrer com meu nome de santo e fazer com que seja escrito na minha tumba? Prometo. Era o jeito de fazê-los ir e portar-se bem, o jeito de fazê-los se sentar na cadeira no final do Corredor da Morte com sua sanidade ainda intacta. É claro que não conseguia cumprir todas essas promessas, mas cumpri a que fiz a Delacroix. Quanto ao próprio francês, foi um inferno. O sujeito malvado não pôde machucar o camundongo, não pela segunda vez, mas machucou Delacroix e muito. Oh, eu sei o que ele tinha feito, sim, mas ninguém merecia o que aconteceu com Eduard Delacroix quando ele caiu no abraço selvagem da Velha Fagulha.

Um cheiro de hortelã.

E alguma outra coisa. Alguma coisa no fundo, dentro do buraco.

Tirei uma caneta do bolso do peito com a mão direita, ainda segurando a lanterna com a esquerda, sem me preocupar mais que Brutal, sem querer, me fizesse cócegas nos joelhos sensíveis. Tirei a tampa da caneta com uma só mão, depois meti a ponta da pena lá dentro e puxei alguma coisa para fora. Era uma pequenina lasca de madeira, que tinha sido tingida de amarelo vivo, e uma vez mais ouvi a voz de Delacroix, tão nitidamente agora que seu espírito poderia estar pairando ali conosco naquele aposento — no qual William Wharton passou tanto do seu tempo.

Ei, vocês, caras! disse a voz dessa vez — a voz risonha e maravilhada de um homem que se esqueceu, pelo menos por um pouco de tempo, onde está e o que espera por ele. Venham e vejam o que o Sr. Guizos é capaz de fazer!

— Deus meu — murmurei. Senti como se tivesse perdido o fôlego.

— Você encontrou mais uma, não foi? — perguntou Brutal. — Encontrei três ou quatro.

Desci e pus a luz sobre sua palma da mão, grande e aberta. Havia várias lasquinhas de madeira espalhadas nela, como varetas de presente para duendes. Duas eram amarelas, como a que encontrara. Uma era verde e outra era vermelha. Não tinham sido pintadas e sim coloridas, com lápis de cera Crayola.

— Puxa — disse eu com a voz baixa e trêmula. — Por quê? Por que estão lá em cima?

— Quando eu era menino, não era alto como sou agora — disse Brutal. — A maior parte do que cresci foi entre quinze e dezessete. Até então eu era uma minhoca. E quando fui para a escola pela primeira vez, me senti tão pequeno... ora, tão pequeno como um camundongo, acho que se poderia dizer. Estava apavorado. Então sabe o que eu fiz?

Abanei a cabeça. Do lado de fora, outra lufada de vento. Nos ângulos formados pelas vigas, as teias de aranha se sacudiam nas correntes de ar, como renda despedaçada. Nunca estivera num lugar que me dava a sensação de ser tão assombrado e foi bem então, enquanto ficamos parados ali olhando para os restos em lascas do carretel que tinha causado tantos problemas, que minha cabeça começou a perceber o que meu coração tinha entendido desde que John Coffey tinha percorrido o Corredor da Morte: não podia mais ficar nesse trabalho. Com ou sem a Depressão, não podia mais olhar muitos outros homens passarem pelo meu escritório a caminho da sua morte.

— Pedi a minha mãe um de seus lenços — disse Brutal. — Assim, quando me sentia pequeno e com vontade de chorar, podia tirá-lo discretamente do bolso e cheirar o perfume dela e não me sentir tão mal.

— Você acha — o quê? — que aquele camundongo arrancou com os dentes uns pedaços daquele carretel colorido para se lembrar de Delacroix? Que um camundongo...

Ele ergueu os olhos. Por um instante achei que tinha visto lágrimas nos seus olhos, mas acho que me enganei a esse respeito.

— Eu num disse nada, Paul. Mas encontrei elas lá em cima e senti o cheiro de hortelã, do mesmo jeito que você — você sabe que sentiu. E não posso mais fazer isso. Não vou mais fazer isso. Se visse só mais um homem naquela cadeira, iria morrer. Vou requerer minha transferência para o Centro Correcional de Meninos na segunda-feira. Se conseguir antes do próximo, ótimo. Se não, peço demissão e volto para trabalhar em fazenda.

— O que é que você já colheu na vida, além de pedras?

— Não tem importância.

— Eu sei que não — disse eu. — Acho que vou me juntar a você.

Ele olhou bem para mim, para se certificar de que eu não estava apenas brincando com ele, depois assentiu com a cabeça como se já fosse coisa decidida. O vento deu outra lufada, dessa vez com força bastante para fazer as vigas rangerem, e nós dois olhamos inquietos para as paredes forradas. Acho que por um instante pudemos ouvir William Wharton — não Billy the Kid, não ele, para nós ele tinha sido Bill Selvagem desde seu primeiro dia no bloco — gritando e dando gargalhadas, nos dizendo que nós íamos ficar doidos de alegria de nos livrarmos dele, dizendo-nos que nunca o esqueceríamos. Nisso ele tinha razão.

Quanto ao que Brutal e eu combinamos naquela noite na solitária, acabou sendo daquele jeito mesmo. Foi quase como se tivéssemos feito um juramento solene sobre aqueles pedacinhos de madeira colorida. Nenhum dos dois tornou a participar de outra execução. A de John Coffey foi a última.