Edição 1 637 - 23/2/2000

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FiqueiRico.com.br

Com boas idéias e dinheiro dos investidores de risco,
a internet brasileira copia o modelo americano
e produz seus milionários

Roberta Paduan

Edgard Perez Fernandes Nogueira, Aonde? Sylvio Alves de Barros Netto, WebMotors
Paula Santos e Hermínio Sotero, Vesta Technologies Fábio de Oliveira e Gustavo Viberti, Cadê
Paulo Humberg, Lokau Ronaldo, Mário, Romero e Rodrigo, BuscaPé

Evanndro Paes dos Reis, Ogilvy Interactive

Fotos: Claudio Rossi

O valor de mercado das empresas americanas nascidas em torno da rede mundial já supera 1 trilhão de dólares. Isso significa que a economia virtual formada pelos serviços on-line dos Estados Unidos é mais pujante do que a economia real de um país real, o Canadá, o rico vizinho do norte. Em relação aos americanos, os números da internet brasileira são ainda muito pequenos, mas algumas semelhanças entre os dois fenômenos indicam que o caso brasileiro pode replicar em escala menor o que se passa nos Estados Unidos. No Brasil, apenas 5% dos lares têm computadores conectados à rede, mas em nenhum outro lugar do mundo o ritmo de crescimento da internet supera o verificado por aqui. Já estão funcionando aqui grandes empreendimentos, como o Universo Online, o UOL, que responde por 40% de todo o tráfego de internet no Brasil, provedores como O Site ou Terra, além de gratuitos, como o iG. Como aconteceu nos Estados Unidos, e não na Europa, jovens imberbes estão ganhando milhões com empresas de garagem criadas em torno da internet. Para esses garotos, é como uma corrida ao ouro, sem carroça, sem dinamite, sem mina e, às vezes, sem sair de casa.

Claudio Rossi

Sylvio Alves de Barros Netto, 32 anos

Empresa: WebMotors www.webmotors.com.br
Ramo: negocia carros e dá informações sobre o mercado automotivo
Investimento inicial: 800 000 dólares em abril de 1996
Fortuna: a WebMotors, avaliada em 30 milhões de dólares, recebeu 14 milhões de dólares da GP Investimentos, em novembro do ano passado

Os jovens americanos que entram no negócio da internet vêm atraindo os dólares de investidores que lidam com "capital de risco". No ano passado, esse capital aventureiro despejou 7,6 bilhões de dólares nos negócios dessa garotada. Esse dinheiro está tocando a economia das empresas chamadas dotcom, ou pontocom, em português, que nada mais são do que o triunfo da esperança sobre a realidade. Isso porque pouquíssimas dão lucro e todas prometem ser grandes máquinas arrecadadoras num futuro que ninguém se arrisca a dizer quando vai chegar. As maiores empresas desse tipo já estão consolidadas. São, por exemplo, a famosa Yahoo! ou a livraria virtual Amazon.com, que valem bilhões de dólares na bolsa de valores. O que chama a atenção agora é o enorme segundo time de serviços recém-criados e ainda desconhecidos do grande público, mas que já despertaram a cobiça dos investidores de alto risco. No Brasil a estimativa é que exista atualmente 1,3 bilhão de dólares prontos a ir para as mãos de jovens que se acham aptos a lançar um negócio on-line. Bancos de investimentos, como o Opportunity, o Pactual, o GP, e um punhado de fundos constituídos por capital de risco estrangeiro andam com lupas em busca de alguma idéia luminosa que possam ajudar a se materializar na internet. "A nossa empresa é uma das muitas que estão prontas a financiar quem tenha um plano de negócios bem estruturado", diz Guido Padovano, diretor de Private Equity da Merrill Lynch, maior corretora de valores dos Estados Unidos.

Esse segmento mais espevitado da internet, o ocupado pelos pequenos empreendedores, é uma ponta apenas da nova economia montada em torno do computador, uma onda de choque que está revolucionando o capitalismo no mundo. Os jovens estão no lado mais espontâneo e surpreendente do fenômeno. Há três anos, por puro passatempo, o adolescente carioca Edgard Nogueira, de 17 anos, montou o Aonde?, um serviço de busca de informações na internet. Hoje, seu serviço recebe quase 4 milhões de visitas por mês. Esse tráfego, colossal para o tamanho da rede brasileira, atraiu a atenção dos investidores. O Aonde.com tem um valor de mercado que ultrapassa os 10 milhões de reais e já atraiu cinco interessados em investir em troca de uma participação no empreendimento. "Não vou vender tudo, mas acho inevitável arranjar um sócio capitalista que me permita alavancar o site", diz Edgard, com um sorriso cheio de metais dos braceletes do aparelho ortodôntico.

Claudio Rossi
Evanndro Paes dos Reis,
30 anos

Empresa: Ogilvy Interactive
Ramo: publicidade na internet e sistemas de comércio eletrônico
Investimento inicial: 2 000 dólares, em agosto de 1995
Fortuna: o grupo Ogilvy & Mather pagou, conforme o mercado, 10 milhões de dólares pela Hipermídia, empresa de criação de websites fundada por Evanndro

O sucesso do engenheiro Evanndro Paes dos Reis, 30 anos, de São Paulo, foi fruto de sua crença no futuro da internet brasileira. Ex-executivo de três grandes empresas de tecnologia, IBM, Sun e Apple, Evanndro percebeu anos atrás que alguns sites americanos já começavam a vender produtos e atrair publicidade. Por que não tentar fazer o mesmo no Brasil? Pediu demissão da Apple e fundou a Hipermídia, uma empresa especializada em criar websites. Na época em que trocou o salário fixo pelo risco do negócio próprio numa área que recebia poucos investimentos, ele chegou a passar alguns meses dormindo num colchonete estendido no chão de um apartamento emprestado por um amigo. O sacrifício valeu. No ano passado, o negócio publicitário na rede faturou 44 milhões de dólares. É pouco num mercado total de quase 4,5 bilhões de dólares. Mas é bom registrar que o faturamento foi 120% maior do que o de 1998. A empresa de Evanndro cresceu junto e, no ano passado, foi vendida ao grupo anglo-americano Ogilvy & Mather. O valor é mantido em segredo, mas o mercado dá como certo que a transação foi fechada por 10 milhões de dólares. Evanndro, que passou a trabalhar para a Ogilvy, alterna seus passeios pelas ruas de São Paulo ora num jipe Cherokee, ora num BMW.

A súbita riqueza de Evanndro e Edgard são indicações de que a internet brasileira se inclina mais para o modelo americano. Tanto lá como aqui o crescimento da rede está baseado na lógica do empreendimento privado que nasce pequeno, cresce e gera uma expectativa milionária antes mesmo de produzir lucro. Para um bom número de economistas americanos esse modelo tem características das velhas "bolhas" de euforia que tantos dissabores provocaram no passado. Ninguém sabe ao certo se os sites que hoje valem milhões mesmo sendo deficitários vão realmente se tornar lucrativos um dia. Por enquanto, os investidores americanos e brasileiros têm colocado dinheiro real em esperança virtual. Um serviço
on-line montado por um adolescente vale 10 milhões de reais? A empresa de Evanndro, que produz sites de comércio eletrônico e faz publicidade para a rede, vale 10 milhões de dólares? Indo mais longe, a livraria virtual americana Amazon.com, que deu um prejuízo de 350 milhões de dólares no ano passado, vale 24 bilhões de dólares – quase oito vezes mais do que o governo brasileiro levantou há dois anos com a privatização da Companhia Vale do Rio Doce, uma das maiores mineradoras do mundo?

Bem, a resposta é: não vale. Mas vale. Na topografia da nova economia tocada pelos cliques da internet, o valor de uma empresa tornou-se uma questão muito abstrata. Para início de conversa, dar lucro não é condição essencial para que um serviço on-line valha milhões ou bilhões. Os serviços on-line mais valorizados, à luz das regras da economia tradicional, são apenas éter. São nada. São feitos de computadores comuns ligados a uma rede e recebem visitas diárias de pessoas que também possuem computadores. Não há propriamente um patrimônio físico. Esses serviços vivem da esperança de que no dia seguinte voltarão a ser visitados por milhares ou milhões de pessoas. Neste momento, tais abstrações valem dinheiro. Na semana passada, a PT Multimedia, subsidiária da Portugal Telecom, pagou 365 milhões de dólares por um dos maiores serviços de internet brasileiros, o Zip.Net. O que essa montanha de dinheiro comprou? Comprou um serviço que fornece correio eletrônico de graça para 2,6 milhões de pessoas e recebe 170 milhões de visitantes por mês em suas páginas na rede. A PT Multimedia espera usar o Zip.Net como plataforma para lançar-se como provedora de acesso e intermediária de comércio eletrônico em todos os países de língua portuguesa no mundo – uma comunidade de cerca de 200 milhões de pessoas.

Oscar Cabral
Gustavo Viberti, 34 anos, e Fábio de Oliveira, 35
Empresa: Cadê www.cade.com.br
Ramo: site de busca
Investimento inicial: dois computadores pessoais, em novembro de 1995
Fortuna: 5,3 milhões de dólares obtidos com a venda do Cadê ao provedor StarMedia em abril de 1999


"O que conta neste momento é a percepção de que determinado serviço on-line vai tornar-se necessário no futuro para um grupo de clientes fiéis", diz Eric Chin, 31 anos, um dos mais conhecidos investidores do Vale do Silício, a província de alta tecnologia na Califórnia. Bem, e se essa percepção não se concretizar? Os investidores trabalham com a idéia de que muitas, talvez a maioria das empresas virtuais que hoje decolam em questão de meses, vão aterrissar de barriga. Sabem que no vale que hoje é do silício vai haver um vale dos caídos. Como em todas as euforias financeiras do passado, vão sobrar alguns poucos vencedores numa paisagem de muitos perdedores. Por isso as regras de investimento de risco são cada vez mais estritas. Quem tem dinheiro para investir nos Estados Unidos e no Brasil exige mais do que uma boa idéia para abrir os cofres. Os investidores esperam dos empreendedores o que chamam de "modelo de negócio". Traduzindo, os donos do dinheiro esperam que os candidatos a um investimento tenham uma idéia segura de como vão ganhar dinheiro com ela. Exigem que eles conheçam o perfil de sua audiência. É fundamental saber a idade, os gostos, se a maioria é homem ou mulher, idosos ou crianças. Conhecer a classe social e os hábitos de consumo dos visitantes do site vale ouro no mercado. Serviços que atraem milhões de visitantes mas não conseguem segurá-los, ganhar-lhes a fidelidade, tendem a valer menos.

Na Europa, a expansão da web é diferente. Tem-se baseado principalmente no investimento das grandes corporações. Outro ponto comum entre a internet brasileira e a americana são as atitudes dos empresários do ramo e sua forma de lidar com dinheiro. Eles cultivam hábitos completamente diferentes dos jovens que obtiveram lucros descomunais no mercado financeiro no final dos anos 80. Aquela turma se inspirava no padrão consumista dos yuppies. Entre os jovens empresários da internet, é mais fácil encontrar camiseta do que terno, boné em vez de gravata. A relação com o dinheiro também é outra. "Minha vida financeira melhorou em relação ao tempo em que eu ainda não estava no mercado", diz Alexandre Ribenboim, 31 anos, do Rio de Janeiro, um dos sócios da MLab, que desenvolve páginas na internet para algumas das maiores empresas do país. "Mas eu ainda não sou rico. Sou apenas potencialmente rico." A participação de Ribenboim no MLab é de 13%. A empresa vale, em uma estimativa realista, cerca de 60 milhões de reais. Ribenboim tem, portanto, um patrimônio de mais ou menos 8 milhões de reais.

Kiko Ferrite
Paula Santos, 33 anos, e Hermínio Sotero, 30
Empresa:
Vesta Technologies www.vesta.com.br Ramo: desenvolvimento de sistemas de comércio eletrônico
Investimento inicial: 2 milhões de dólares em março de 1998
Fortuna: a Vesta foi avaliada em 100 milhões de dólares pelo fundo Latinvest, que comprou 16,7% das ações da empresa em setembro de 1999


Os brasileiros que estão enriquecendo agora com negócios on-line podem ser considerados a segunda geração bem-sucedida nesse ramo no país. Antes deles, alguns desbravadores abriram as clareiras. São nomes hoje admirados e imitados.

Aleksandar Mandic, 46 anos, tem um patrimônio pessoal estimado de 10 milhões de dólares, que inclui um apartamento de 600 metros quadrados em São Paulo. Em 1995, criou um dos primeiros provedores de acesso do Brasil, o Mandic. A empresa foi vendida em 1998 para a argentina ImpSat. Mandic é um dos donos do iG, em sociedade com o publicitário Nizan Guanaes e os bancos Opportunity e GP Investimentos. Na quinta-feira passada, duas operadoras telefônicas, a Telemar e a Tele Centro Sul, compraram 34% do iG por 8,5 milhões de dólares.

O carioca Jack London, de 51 anos, também levou uma bolada estimada em 5 milhões de dólares com a venda da primeira livraria virtual do país, a BookNet. O negócio, incorporado pelo GP Investimentos, foi rebatizado de Submarino. Continua no ramo do comércio eletrônico com o site de leilões Valeu.

O engenheiro paulistano Marco Aurélio Garib, 38 anos, é sócio fundador da EverSystems, líder na América Latina em um serviço fundamental para o sucesso de transações financeiras on-line: a segurança. Garib criou um sistema de codificação que torna praticamente impossível a malfeitores interferir e furtar senhas e outros dados que circulam na rede quando clientes usam os serviços on-line dos bancos. Fundada há oito anos, a empresa é avaliada atualmente em 125 milhões de dólares.

Claudio Rossi

Romero Rodrigues Filho, 22 anos; Mário Letelier, 23; Ronaldo Morita, 24; e Rodrigo Borges, 24
Empresa: BuscaPé www.buscape.com.br
Ramo: compara preços de mercadorias de lojas on-line
Investimento inicial: três computadores pessoais e 4 800 reais, em junho de 1999
Fortuna:o site foi avaliado em 4,2 milhões de dólares pela incubadora e-Platform, que se tornou sócia do negócio em janeiro deste ano

O exemplo dos fundadores do site de buscas Cadê é animador. Criado em 1995 pelos empresários Fábio de Oliveira, 35 anos, e Gustavo Viberti, 34, do Rio, o Cadê cresceu depois que a família Montenegro, dona do Ibope, investiu 100.000 dólares na empresa. Com esse recurso modesto, o site se consolidou no mercado. Em abril do ano passado, o Cadê foi vendido por 5,3 milhões de dólares para o StarMedia, um provedor de acesso criado por um grupo de americanos interessados em internet na América Latina. "Começamos por pura diversão, sem colocar um tostão além de nossos computadores", diz Viberti. A dupla ficou à frente do Cadê até a semana passada, quando deixou o site nas mãos dos compradores para tentar outro negócio na internet que por enquanto é mantido em segredo.

Romero Rodrigues Filho, 22 anos, Mário Letelier, 23, Ronaldo Morita e Rodrigo Borges, ambos de 24 anos, paulistanos, também entraram no jogo com um endereço chamado BuscaPé. Seu site pesquisa no mercado o preço de uma série de mercadorias, de flores a artigos de computação, à venda em lojas virtuais de todo o país. Os rapazes já perceberam que tempo vale dinheiro no mundo de hoje e criaram um site que facilita a pesquisa de preços. Estão sintonizados com o futuro e, por causa disso, o BuscaPé é avaliado em 4,2 milhões de dólares pelo mercado.

A regra geral dos grandes investidores é entregar a esses negócios não mais que 8% do total de suas carteiras. Nos Estados Unidos, onde a onda está no auge, alguns sites deficitários que se lançaram na bolsa de valores já renderam retornos de 1.000% a 1.600%. Não existe negócio igual. Nem na Colômbia. Enquanto a bolha de euforia das ações da internet não estourar, esse retorno alto e quase instantâneo vem fazendo a festa do investidor americano. Mas que tipo de idéia é capaz, hoje em dia, de atrair um investidor, seja nos Estados Unidos ou no Brasil? Não existe regra geral, mas atualmente vale menos o conhecimento técnico sobre como funcionam os computadores e a internet. Tais habilidades garantem um bom emprego. E é só. O sucesso de um negócio on-line assenta-se mais sobre o conhecimento específico de temas de interesse geral que, preferencialmente, envolvam transações comerciais. O administrador de empresas Sylvio de Barros Netto, 32 anos, de São Paulo, pouco entendia de computador, mas sempre foi um apaixonado por tudo que diz respeito a automóveis. Há quase quatro anos, ele criou o WebMotors. O site vai muito além de vender carros. Ali o internauta encontra um mecanismo muito prático de comparar instantaneamente diversos modelos. Pode também visualizar lado a lado as propostas de vendedores de veículos usados. Antes de se tornar empreendedor, Barros trabalhou na General Motors e numa concessionária de São Paulo. A GP Investimentos, um dos mais agressivos investidores de risco da internet brasileira, já aplicou 14 milhões de dólares na empresa de Barros.

Claudio Rossi

Paulo Humberg,
32 anos
Empresa: Lokau www.lokau.com.br
Ramo: site de leilões Investimento inicial: 400 000 reais em junho de 1999, quando o site foi lançado com o nome de Freelance
Fortuna: o mercado estima que o Lokau vale 200 milhões de dólares. Em setembro de 1999, recebeu 11 milhões de dólares da GP Investimentos


O economista Paulo Humberg, 32 anos, ex-diretor de marketing das Lojas Americanas, estudioso dos hábitos do consumidor brasileiro, levantou os 11 milhões de dólares de que precisava para investir no Lokau, um site de leilões inspirado no americano eBay. Tanto Barros quanto Humberg sabiam bem o que queriam se alguém os apoiasse numa investida on-line. Isso foi decisivo para que pudessem atrair o capital. O que faz essa turma ser considerada milionária, mais do que o dinheiro investido pelo sócio capitalista, é o valor de mercado de suas empresas. "O mercado brasileiro vem crescendo e é muito promissor", diz Paula Santos, 33 anos, sócia da Vesta Technologies, empresa especializada em criar sistemas de comércio eletrônico. Para fundar a Vesta, há dois anos, Paula e o irmão, Hermínio Sotero, 30 anos, abandonaram ótimos empregos. Os dois trabalhavam na Microsoft. Ela, na sede em Redmond, sob as ordens diretas de Melinda French, a atual mulher de Bill Gates. A dupla levantou 2 milhões de dólares com a venda das ações que ganhou como parte de seus rendimentos na época em que trabalhava na Microsoft. Até agora parece ter sido o melhor negócio de sua vida. A Vesta, que faturou 8 milhões de dólares em 1999, foi avaliada em 100 milhões de dólares pelo Latinvest, um dos fundos de investimento americanos que financiam a internet brasileira. É uma das estrelas da economia virtual no Brasil. Os milionários.com.br já formam um time que chama a atenção no cenário econômico do país. Como os pioneiros americanos, eles sonham em transformar seu potencial em riqueza palpável antes que um vento mais forte estoure a bolha.

 

"Acho que Bill Gates não construiu a Microsoft colocando o dinheiro em primeiro lugar"

Oscar Cabral
Edgard: "No princípio, minha motivação era o desafio. Logo comecei a ter uma visão empresarial"


Para os padrões da internet brasileira, o Aonde? (www.aonde.com), site criado pelo estudante Edgard Nogueira, de 17 anos, é um sucesso. Com quase 4 milhões de páginas vistas por mês, ele vem sendo cortejado por bancos interessados em se tornar sócios da empresa. VEJA bateu um papo com Edgard:

Veja – Você criou o Aonde? pensando em ficar rico?
Edgard – No princípio, minha motivação era a curiosidade e o desafio. Logo comecei a ter uma visão empresarial. Sabia que os sites de busca eram os mais visitados e faturavam alto nos Estados Unidos. Tenho chance de ficar rico, mas não penso muito nisso. Acho que Bill Gates, por exemplo, não construiu a Microsoft colocando o dinheiro em primeiro lugar.

Veja – Quando você sentiu que era um empresário?
Nogueira – Desde o início tive de tomar decisões e de falar com outros empresários. Uma vez, recebi um e-mail do vice-presidente da AOL para a América Latina. Ele queria conhecer um diretor do Aonde?. Fui ao encontro em companhia de meu pai. Quando cheguei lá, ele disse que os jovens estão dominando a internet.

Veja – Você já se sentiu tratado como criança numa negociação?
Nogueira – Não. Às vezes eu pedia que meu pai fosse comigo aos encontros de negócios para me ajudar a conduzir a discussão.

Veja – Quem decide o destino do dinheiro do Aonde?
Nogueira – Guardo tudo na conta do Aonde?. Tiro uns 300 reais por mês para minhas despesas pessoais. Meus pais acham que têm de continuar pagando a escola, como fazem com minha irmã.

Veja – Você se considera um geniozinho da internet?
Nogueira – Eu nunca fui mau nem ótimo aluno. Sou um estudante nota 7. Vou à praia, ao cinema e saio para dançar quase todo final de semana. Como não tenho namorada, às vezes fico com alguma garota.

Roberta Paduam


Nem Alan Greenspan sabe se a valorização
das ações de internet é uma bolha

No centro do fenômeno da súbita riqueza da internet americana está o valor dessas companhias, medido pelo preço de suas ações. Juntas, as quinze maiores empresas digitais dos Estados Unidos têm um valor superior ao de todo o estoque de ações negociado no mercado americano no final da década de 80. Dados como esse sempre foram vistos como a prova do vigor do lado digital da economia. Agora, começam a gerar desconfiança. Analistas falam de um movimento que já teria ultrapassado a fase da simples especulação e alcançado sua forma mais perigosa, a de "bolha" – ou seja, um movimento artificial de compra de ações motivado por um otimismo injustificado pela realidade.

O problema de toda bolha é que ela pode explodir e espalhar prejuízo por todos os lados. No século XVII, a Europa se agitou sob a febre da tulipa. Todos queriam os bulbos que garantissem as flores mais raras. Em fevereiro de 1677, o preço dos bulbos aumentou 28 vezes em poucas semanas. Depois, despencou. Fortunas pessoais ruíram, mas a economia mercantil sobreviveu. Apenas uma vez, na quebra da Bolsa de Nova York de 1929, a bolha foi capaz de espalhar estragos em série pelo mundo afora. Nem o mais pessimista dos analistas foi capaz, até agora, de apostar sua reputação na queda do preço das ações pontocom. A resposta dos maiores economistas, entre eles Alan Greenspan, presidente do banco central americano, sobre se a valorização das ações de internet é uma bolha tem sido: "Ninguém sabe". Se nem eles sabem, é bom colocar as barbas de molho.

Ricardo Galuppo


Eu investiria numa idéia de negócio on-line que...

...me oferecesse uma boa solução de segurança. Mesmo que ela fosse apresentada por um estudante.
Mario Fleck,
presidente da Andersen Consulting
no Brasil

...reunisse empresas de um mesmo ramo e estimulasse negócios entre elas. Esse tipo de serviço aumenta as oportunidades para os pequenos e reduz os custos para os grandes.
Ana Carolina Ferraz
Aidar, do Chase Capital Partners

Daniela Picoral
Grégio: custos mais baixos


...simplificasse a vida do usuário sem cobrar mais por isso. Numa corretora on-line que cobrasse taxas mais baixas que as de uma corretora convencional pela compra e venda de ações.
Odécio Grégio,
diretor de tecnologia do Bradesco

...se baseasse na pergunta "Como entregar?". Esse é o grande desafio para quem pretende vender pela rede.
Patrice Etlin,
sócio do Advent International


Uma ação contra os vândalos da rede

Divulgação
Mudge: o ex-hacker combate a pirataria


A recente onda de ataques aos mais famosos endereços da internet, como CNN, Amazon e eBay, mereceu atenção especial do governo dos Estados Unidos. Na terça-feira passada, o presidente Bill Clinton convocou uma reunião na Casa Branca com os principais executivos da indústria de tecnologia e com membros do primeiro escalão do governo americano. O objetivo era discutir diretrizes sobre um assunto que preocupa cada vez mais os internautas: a segurança na internet. O secretário de Comércio, William Daley, um dos defensores da criação de mecanismos de defesa, que estava em missão oficial no Brasil, foi chamado de volta a Washington para participar do encontro. "Não há motivo para pânico", disse Clinton. "Mas precisamos começar a nos preocupar com isso."

A reunião aconteceu um dia depois da mais recente ousadia dos vândalos cibernéticos. O alvo, dessa vez, foi o próprio Clinton. Ele participava de um bate-papo on-line, no site da rede de televisão a cabo CNN. Durante a conversa, um ousado internauta furou o bloqueio do programa que filtrava as perguntas e escreveu, como se fosse Clinton: "Gostaria de ver mais pornografia na internet". A intrusão causou constrangimento.

Entre os executivos do primeiro time que atenderam à reunião – entre eles representantes da Microsoft, da IBM, da AOL, da ISS, além de Janet Reno, secretária de Justiça, e do próprio Daley –, quem mais chamou a atenção foi um rapaz que parecia recém-chegado de um festival de rock. Seus cabelos nos ombros contrastavam com o terno e a gravata bem-comportados. Conhecido como Mudge, ele é um ex-hacker, vândalo da internet, que se tornou aliado do governo no combate à pirataria virtual. É mais ou menos como se Al Capone se tivesse unido a Eliot Ness para combater a Máfia. No mundo da internet, as empresas costumam contratar hackers para cuidar da segurança. A intenção do governo é utilizar o conhecimento técnico de Mudge para melhorar os sistemas de proteção às informações que transitam pela rede e desenvolver armas contra ataques iguais aos das últimas semanas.

Clinton pedirá ao Congresso a liberação de 9 milhões de dólares para a criação de um centro de segurança cibernética. O objetivo do instituto é monitorar, relatar e trocar informações sobre a ação de hackers. Pouco antes dos ataques que paralisaram os serviços on-line, algumas instituições financeiras do país receberam informes sobre as ações planejadas pelos hackers. Nada puderam fazer. A atual política de segurança diz que as informações obtidas por meio de uma rede de segurança privada só podem ser usadas internamente. Os relatórios com as ameaças foram arquivados. O monitoramento proposto por Clinton não pretende criar mecanismos de censura. A manutenção da liberdade irrestrita de expressão é uma das maiores conquistas do mundo pontocom. O governo americano não vai comprar essa briga.

Gustavo Poloni