A pedra do apocalipse
É maior do que Curitiba
e pode destruir a Terra daqui
a milhões de anos
Beatriz Barbosa
Um antigo sonho dos cientistas espaciais de todo o mundo começou
a virar realidade na semana passada. Pela primeira vez, eles
conseguiram imagens de boa qualidade de um dos maiores asteróides
que de tempo em tempo cruzam a órbita terrestre em sua viagem
ao redor do Sol. As fotos foram tiradas pela sonda Near, que
desde segunda-feira gira em torno de Eros, uma rocha voadora
de 442 quilômetros quadrados, maior do que a cidade de Curitiba.
As imagens mostram crateras de até 5 quilômetros de diâmetro,
montes e reentrâncias de um mundo de forma estranha. Parecido
com uma batata e situado a 250 milhões de quilômetros da Terra,
Eros é tão exótico quanto perigoso. Os cientistas acreditam
que, dentro de 1,5 milhão a 5 milhões de anos, o batatão rochoso
pode-se espatifar em nosso planeta. Sorte dos atuais seres humanos,
que não estarão vivos até lá. Se isso acontecer mesmo, o estrago
será maior que o choque cósmico que, há 65 milhões de anos,
pôs fim aos dinossauros.
Conhecer bem Eros significa ter nas mãos dados que permitam
traçar estratégias de proteção da Terra. O risco de uma trombada
sideral tornou-se, nos últimos anos, grande preocupação dos
cientistas. Pelo menos 900 rochedos semelhantes circulam pelo
sistema solar em trajetórias que passam nos arredores de nosso
planeta. "A importância do projeto Near é enorme",
reconhece o físico brasileiro Marcelo Gleiser, professor do
Dartmouth College, em New Hampshire, Estados Unidos. "Graças
a ele, se algum dia um asteróide estiver em rota de colisão
com a Terra, o homem terá condições de tentar interceptá-lo
ou de procurar outra saída para evitar a tragédia."
Caso uma pedrona do tamanho de Eros caísse aqui, seria o fim
da civilização como a conhecemos hoje (veja quadro
ou simulação
em Shockwave Flash). O impacto produziria uma onda de
choque milhares de vezes superior à resultante da detonação
simultânea de todo o arsenal nuclear existente. A temperatura
no local do impacto ultrapassaria os 5.000 graus Celsius. Pelo menos nove programas de observação
do espaço funcionam em institutos de pesquisa dos Estados Unidos
e da Europa para evitar uma tragédia assim. A Nasa e o Pentágono
têm projetos conjuntos para prever e afastar esse tipo de ameaça,
enquanto na Universidade do Arizona cientistas patrulham o movimento
de 108 asteróides considerados perigosos. Até no Brasil, pesquisadores
da Universidade de São Paulo estão atentos e mantêm um programa
de estudo desse tipo de corpo celeste.
Restos de um planeta Em junho do ano passado, um
grupo de cientistas apoiado pela Organização das Nações Unidas
e pela União Internacional Astronômica criou uma escala em que
os asteróides ganham notas de zero a 10, de acordo com o potencial
de colisão com a Terra. Até agora todos os asteróides catalogados
estão dentro do risco zero, isso num período de cerca de 100
anos. "O problema é que os programas de rastreamento atuais
ainda estão longe de ser eficientes", alerta Gleiser. "É
bem possível descobrirmos amanhã um asteróide novo que vai chocar-se
com a Terra dentro de apenas dois anos."
É por isso que os dados coletados pela Near são cruciais. Com
a nave, é possível decifrar alguns enigmas, como a estrutura
geológica desses corpos celestes, e calcular com precisão maneiras
de desviar sua rota ou mesmo de tentar destruí-los com um míssil.
Munida de instrumentos de alta tecnologia e de uma poderosa
câmara fotográfica, a sonda descobriu que a rocha de Eros é
duríssima, organizada em camadas, o que leva os cientistas a
imaginar que no passado o asteróide foi parte de um corpo celeste
muito maior, talvez até de um planeta.
A quantidade de crateras na superfície também já permite concluir
que Eros circula no espaço desde o início da formação do sistema
solar, trombando com outros asteróides, cometas e meteoros.
Sua força gravitacional é irrisória. Na superfície de Eros,
se um ser humano tomasse o impulso necessário para saltar uma
valeta de 1 metro na Terra seria lançado a uma distância de
quase 2 quilômetros. Gravidade tão reduzida permite que a sonda
Near mantenha uma velocidade de apenas 3 quilômetros por hora
para se sustentar em sua órbita. Na Terra precisaria viajar
a 11.000 quilômetros por hora para
não despencar na superfície. Até o ano que vem, a Near estará
se aproximando aos poucos do asteróide, passando de 330 quilômetros
para apenas 500 metros. Em meados de 2001, deverá realizar a
parte mais ousada de sua odisséia pelo espaço e arriscar um
pouso na superfície de Eros. Aí, sim, será coisa de Hollywood,
uma conquista igualzinha à da equipe de Bruce Willis no filme
Armageddon.