Edição 1 637 - 23/2/2000

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Última cortada

Chega ao Brasil o aparelho de barbear de
três lâminas, que custou 1 bilhão de dólares

Maurício Cardoso

O aparelho de três lâminas da Gillette que chega às lojas e farmácias brasileiras na próxima semana custou 1 bilhão de dólares para ser desenvolvido. Hoje ele é produzido em Boston, nos Estados Unidos, numa fábrica em que apenas cinco pessoas trabalham na linha de montagem totalmente automatizada. O resultado é que o consumidor poderá ter no banheiro de casa um equipamento cujo refinamento tecnológico é mais apurado que o de uma Ferrari. Para cortar bem, uma lâmina de barbear tem de ser muito delgada. Em geral, mede 0,00006 milímetro. A lâmina do Mach3 mal chega a 0,000054, 10% menos do que a normal. Para tirar essa lasquinha de aço, visível apenas ao microscópio, sem diminuir-lhe a resistência foi necessário aplicar um revestimento feito de uma liga de carbono com estrutura molecular semelhante à do diamante, o material mais duro que existe na natureza.

 
A terceira lâmina

O dinheiro e os recursos gastos para criar o Mach3

Custo do projeto: 1 bilhão de dólares
Tempo de pesquisas e
desenvolvimento:
6 anos
Cientistas envolvidos: 500
Componentes patenteados: 35

Por trás do aparelho, esconde-se o intelecto de 500 cientistas que trabalharam durante seis anos nos laboratórios da Gillette nos Estados Unidos e na Inglaterra e consumiram aquela montanha de dinheiro para produzir uma pequena jóia da tecnologia. Cerca de 1 bilhão de dólares foi quanto a Volkswagen jogou na criação do New Beetle, o remake glamourizado do velho Fusca. A Gillette investiu a mesma quantia para fazer um aparelho de barbear. É uma jogada forte. Sua intenção é dominar o mercado formado pelos 2,5 bilhões de homens que acordam a cada manhã no planeta e não saem de casa antes do barbear.

Apesar de ter apenas 24 componentes, o desenvolvimento do Mach3 resultou no registro de 35 patentes. Pelo grau de conhecimento técnico necessário para produzi-lo, o novo barbeador teve um desenvolvimento típico dos produtos da era da tecnologia da informação, ou IT, a sigla em inglês pela qual essa nova era da manufatura é conhecida. O que distingue os produtos IT, como os programas e chips de computador, é o alto volume de investimento inicial na sua concepção, seguido de um custo quase zero de produção comercial. É assim com os sistemas operacionais dos computadores e com os chips, os processadores em torno dos quais se constroem os PCs. O desenvolvimento de um novo sistema operacional como o Windows 2000 da Microsoft ou de um chip inovador consome centenas de milhões de dólares. Uma vez fabricado o primeiro protótipo para a linha de montagem, o custo de produção se torna desprezível. Custa 70 centavos de dólar gravar o Windows 2000 num CD. O primeiro barbeador Mach3 consumiu 1 bilhão de dólares. O segundo pode ser produzido por menos de 2 dólares a unidade. Seu preço no Brasil será de 12, 50 reais.

No Brasil, o segundo mercado de lâminas de barbear do mundo, estão 48 milhões desses consumidores. Um quarto deles ainda usa aquelas lâminas fininhas da primeira geração de aparelhos de barbear, uma invenção do americano King Camp Gillette, no início do século XX. Apenas 25% dos brasileiros usam os barbeadores mais modernos, e também mais caros. A grande maioria é usuária dos aparelhos descartáveis de plástico, menos confortáveis mas muito mais baratos. Com o lançamento do Mach3, a empresa pretende alterar essa distribuição e aumentar sua fatia no mercado. A experiência dos Estados Unidos, onde o produto foi lançado há dois anos, serve como estímulo. Lá, em um ano, o Mach3 ganhou 10% dos consumidores de barbeadores. "O mais importante é que 74% das pessoas que experimentaram o aparelho continuaram com ele", diz Abelardo Garcia, diretor de negócios da Gillette do Brasil. Mas o que tem o Mach3 que os outros não têm?

Tecnologia, acima de tudo. Desde que foram inventados os aparelhos de barbear com cartucho, no início dos anos 70, os fabricantes estão perseguindo o barbeador de três lâminas. O objetivo era conseguir cortar o pêlo da barba o mais rente possível e causar o mínimo de irritação na pele. O aparelho de duas lâminas paralelas surgiu quase que ao mesmo tempo que os cartuchos de uma lâmina. Mas, quando se colocava a terceira lâmina, ela provocava mais irritação na pele do que se podia tolerar. Outros avanços significativos, como a invenção do cartucho móvel, nos anos 80, e das lâminas flutuantes, nos 90, prepararam o caminho para sua chegada. A partir de 1992, a Gillette montou uma operação de guerra para superar a grande barreira. Além de um exército de cientistas, a empresa montou uma equipe de segurança para guardar seu segredo. A história da empreitada inclui até a prisão de um funcionário que tentou roubar o projeto para vender à concorrência. Nenhuma pessoa que trabalhou em seu desenvolvimento tinha conhecimento do processo global.

Como seu antecessor, o Sensor Excel, o Mach3 também tem a cabeça móvel. A diferença está na forma de fixação da cabeça ao cabo do aparelho. No caso do Mach3, o cartucho é preso ao aparelho por suas extremidades, o que permite maior amplitude de movimento, fazendo com que as lâminas deslizem sobre a pele, amoldando-se às curvas do rosto. Antes o barbeador era puxado como se fosse um rodo, agora ele trabalha como um pincel. Apesar de proporcionar maior maleabilidade, apresenta aqui seu ponto fraco. Os usuários reclamam que, com essa dinâmica, se torna difícil atingir a barba na base inferior do nariz.

A grande novidade do Mach3 é mesmo a terceira lâmina, um artifício perseguido durante 27 anos, que também só foi possível graças a um avanço já presente no Sensor – as lâminas flutuantes independentes. Aquelas da propaganda "A primeira faz tchan, a segunda faz tchun". No Mach3 não se sabe o que fará a terceira. O que se sabe é que elas estão dispostas em níveis microscopicamente diferentes e progressivos. Dessa maneira, cada fio de barba é cortado três vezes numa só passada do barbeador pelo rosto. E a irritação da pele é mínima, garantem os fabricantes do produto. "A grande dificuldade era encontrar um sistema em que cada lâmina atingisse o fio de barba no momento certo, sem provocar esfolamento na pele", diz Julie Coelho, gerente de negócios da Gillette. "O sistema de lâminas progressivas do Mach3 conseguiu."

Outras novidades do novo aparelho estão à vista. Uma de suas peculiaridades é a chamada arquitetura aberta do cartucho, que permite a passagem da água por seu interior proporcionando maior facilidade para remover os fios de barba cortados e a espuma usada na limpeza do Mach3. A fita lubrificante do cartucho, já existente em outros modelos, vem com um marcador azul, que serve para medir a durabilidade das lâminas. Quando o marcador perde a cor, indica que a lâmina perdeu sua eficiência plena e está na hora de ser substituída. Outra alteração notável é a do cabo emborrachado do aparelho, com formato ergonômico, que proporciona maior segurança e conforto. Até o fim do ano a Gillette deverá estar lançando a versão feminina do Mach3. É mais uma tentativa vigorosa de aumentar sua participação no mercado brasileiro. Com 52 milhões de usuárias de depiladores com lâmina, as mulheres representam uma fatia de mercado maior do que a masculina. Para a Gillette, o Mach3 simboliza uma ferramenta para enfrentar seu maior desafio no Brasil: fazer com que os consumidores troquem o mais barato pelo mais eficiente.

 
A evolução do corte – 1970

Navalha


Inventada pelo francês Jean-Jacques Perret, era um instrumento perigoso, que cortava tanto a barba quanto o rosto


Gillette 1903

Gillette


Montada sobre um
aparelho em forma de T, a lâmina descartável incorporou o nome de seu inventor, o americano King Camp Gillette


Barbeador com cartucho1970

Barbeador com cartucho

 

As lâminas embutidas em cartuchos são mais fáceis de manusear. Evoluem com a criação de lâminas paralelas e do cartucho móvel


Mach3 2000

Mach3


Chega ao Brasil o aparelho de três lâminas móveis inventado em 1998. As lâminas se amoldam às curvas do rosto, tornando o corte mais suave e mais rente à pele

Fotos: Claus Stellfied/ Claudia Paiva/ Divulgação