Última cortada
Chega ao Brasil o aparelho
de barbear de
três
lâminas, que custou 1 bilhão de dólares
Maurício Cardoso
O aparelho de três lâminas da Gillette que chega
às lojas e farmácias brasileiras na próxima
semana custou 1 bilhão de dólares para ser desenvolvido.
Hoje ele é produzido em Boston, nos Estados Unidos, numa
fábrica em que apenas cinco pessoas trabalham na linha
de montagem totalmente automatizada. O resultado é que
o consumidor poderá ter no banheiro de casa um equipamento
cujo refinamento tecnológico é mais apurado que
o de uma Ferrari. Para cortar bem, uma lâmina de barbear
tem de ser muito delgada. Em geral, mede 0,00006 milímetro.
A lâmina do Mach3 mal chega a 0,000054, 10% menos do que
a normal. Para tirar essa lasquinha de aço, visível
apenas ao microscópio, sem diminuir-lhe a resistência
foi necessário aplicar um revestimento feito de uma liga
de carbono com estrutura molecular semelhante à do diamante,
o material mais duro que existe na natureza.
| A
terceira lâmina |
|
O dinheiro
e os recursos gastos para criar o Mach3
Custo do projeto: 1 bilhão
de dólares
Tempo de pesquisas e
desenvolvimento: 6 anos
Cientistas envolvidos: 500
Componentes patenteados:
35
|
Por trás do aparelho, esconde-se o intelecto de 500
cientistas que trabalharam durante seis anos nos laboratórios
da Gillette nos Estados Unidos e na Inglaterra e consumiram
aquela montanha de dinheiro para produzir uma pequena jóia
da tecnologia. Cerca de 1 bilhão de dólares foi
quanto a Volkswagen jogou na criação do New Beetle,
o remake glamourizado do velho Fusca. A Gillette investiu a
mesma quantia para fazer um aparelho de barbear. É uma
jogada forte. Sua intenção é dominar o
mercado formado pelos 2,5 bilhões de homens que acordam
a cada manhã no planeta e não saem de casa antes
do barbear.
Apesar de ter apenas 24 componentes, o desenvolvimento do
Mach3 resultou no registro de 35 patentes. Pelo grau de conhecimento
técnico necessário para produzi-lo, o novo barbeador
teve um desenvolvimento típico dos produtos da era da
tecnologia da informação, ou IT, a sigla em inglês
pela qual essa nova era da manufatura é conhecida. O
que distingue os produtos IT, como os programas e chips de computador,
é o alto volume de investimento inicial na sua concepção,
seguido de um custo quase zero de produção comercial.
É assim com os sistemas operacionais dos computadores
e com os chips, os processadores em torno dos quais se constroem
os PCs. O desenvolvimento de um novo sistema operacional como
o Windows 2000 da Microsoft ou de um chip inovador consome centenas
de milhões de dólares. Uma vez fabricado o primeiro
protótipo para a linha de montagem, o custo de produção
se torna desprezível. Custa 70 centavos de dólar
gravar o Windows 2000 num CD. O primeiro barbeador Mach3 consumiu
1 bilhão de dólares. O segundo pode ser produzido
por menos de 2 dólares a unidade. Seu preço no
Brasil será de 12, 50 reais.
No Brasil, o segundo mercado de lâminas de barbear do
mundo, estão 48 milhões desses consumidores. Um
quarto deles ainda usa aquelas lâminas fininhas da primeira
geração de aparelhos de barbear, uma invenção
do americano King Camp Gillette, no início do século
XX. Apenas 25% dos brasileiros usam os barbeadores mais modernos,
e também mais caros. A grande maioria é usuária
dos aparelhos descartáveis de plástico, menos
confortáveis mas muito mais baratos. Com o lançamento
do Mach3, a empresa pretende alterar essa distribuição
e aumentar sua fatia no mercado. A experiência dos Estados
Unidos, onde o produto foi lançado há dois anos,
serve como estímulo. Lá, em um ano, o Mach3 ganhou
10% dos consumidores de barbeadores. "O mais importante é
que 74% das pessoas que experimentaram o aparelho continuaram
com ele", diz Abelardo Garcia, diretor de negócios da
Gillette do Brasil. Mas o que tem o Mach3 que os outros não
têm?
Tecnologia, acima de tudo. Desde que foram inventados os aparelhos
de barbear com cartucho, no início dos anos 70, os fabricantes
estão perseguindo o barbeador de três lâminas.
O objetivo era conseguir cortar o pêlo da barba o mais
rente possível e causar o mínimo de irritação
na pele. O aparelho de duas lâminas paralelas surgiu quase
que ao mesmo tempo que os cartuchos de uma lâmina. Mas,
quando se colocava a terceira lâmina, ela provocava mais
irritação na pele do que se podia tolerar. Outros
avanços significativos, como a invenção
do cartucho móvel, nos anos 80, e das lâminas flutuantes,
nos 90, prepararam o caminho para sua chegada. A partir de 1992,
a Gillette montou uma operação de guerra para
superar a grande barreira. Além de um exército
de cientistas, a empresa montou uma equipe de segurança
para guardar seu segredo. A história da empreitada inclui
até a prisão de um funcionário que tentou
roubar o projeto para vender à concorrência. Nenhuma
pessoa que trabalhou em seu desenvolvimento tinha conhecimento
do processo global.
Como seu antecessor, o Sensor Excel, o Mach3 também
tem a cabeça móvel. A diferença está
na forma de fixação da cabeça ao cabo do
aparelho. No caso do Mach3, o cartucho é preso ao aparelho
por suas extremidades, o que permite maior amplitude de movimento,
fazendo com que as lâminas deslizem sobre a pele, amoldando-se
às curvas do rosto. Antes o barbeador era puxado como
se fosse um rodo, agora ele trabalha como um pincel. Apesar
de proporcionar maior maleabilidade, apresenta aqui seu ponto
fraco. Os usuários reclamam que, com essa dinâmica,
se torna difícil atingir a barba na base inferior do
nariz.
A grande novidade do Mach3 é mesmo a terceira lâmina,
um artifício perseguido durante 27 anos, que também
só foi possível graças a um avanço
já presente no Sensor as lâminas flutuantes
independentes. Aquelas da propaganda "A primeira faz tchan,
a segunda faz tchun". No Mach3 não se sabe o que fará
a terceira. O que se sabe é que elas estão dispostas
em níveis microscopicamente diferentes e progressivos.
Dessa maneira, cada fio de barba é cortado três
vezes numa só passada do barbeador pelo rosto. E a irritação
da pele é mínima, garantem os fabricantes do produto.
"A grande dificuldade era encontrar um sistema em que cada lâmina
atingisse o fio de barba no momento certo, sem provocar esfolamento
na pele", diz Julie Coelho, gerente de negócios da Gillette.
"O sistema de lâminas progressivas do Mach3 conseguiu."
Outras novidades do novo aparelho estão à vista.
Uma de suas peculiaridades é a chamada arquitetura aberta
do cartucho, que permite a passagem da água por seu interior
proporcionando maior facilidade para remover os fios de barba
cortados e a espuma usada na limpeza do Mach3. A fita lubrificante
do cartucho, já existente em outros modelos, vem com
um marcador azul, que serve para medir a durabilidade das lâminas.
Quando o marcador perde a cor, indica que a lâmina perdeu
sua eficiência plena e está na hora de ser substituída.
Outra alteração notável é a do cabo
emborrachado do aparelho, com formato ergonômico, que
proporciona maior segurança e conforto. Até o
fim do ano a Gillette deverá estar lançando a
versão feminina do Mach3. É mais uma tentativa
vigorosa de aumentar sua participação no mercado
brasileiro. Com 52 milhões de usuárias de depiladores
com lâmina, as mulheres representam uma fatia de mercado
maior do que a masculina. Para a Gillette, o Mach3 simboliza
uma ferramenta para enfrentar seu maior desafio no Brasil: fazer
com que os consumidores troquem o mais barato pelo mais eficiente.
| A
evolução do corte – 1970
|
|
Navalha
Inventada pelo francês Jean-Jacques Perret, era
um instrumento perigoso, que cortava tanto a barba quanto
o rosto
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| Gillette
–
1903 |
|
Gillette
Montada sobre um aparelho
em forma de T, a lâmina
descartável incorporou o nome de seu
inventor, o americano King Camp Gillette
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| Barbeador
com cartucho
– 1970 |
|
Barbeador com cartucho
As lâminas embutidas em cartuchos
são mais fáceis de manusear. Evoluem com
a criação de lâminas paralelas e do
cartucho móvel
|
| Mach3
–
2000 |
|
Mach3
Chega ao Brasil o aparelho de
três lâminas móveis inventado em 1998.
As lâminas se amoldam às curvas do rosto,
tornando o corte mais suave e mais rente à pele
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Fotos: Claus Stellfied/ Claudia
Paiva/ Divulgação