Nova York, cheguei
Em dois anos, o estilista Fause Haten pulou
da
quase falência para as passarelas dos EUA
Angela Pimenta, de Nova York
Divulgação
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Haten: sucesso com
roupas que parecem embalagem de bombom, segundo o
NYT
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O dia e a hora uma segunda-feira, às 9 da
manhã tinham tudo para acabar em fiasco. Mas
mesmo assim o paulistano Fause Haten, 30 anos, se saiu melhor
que a encomenda na Semana da Moda de Nova York, que marca
a apresentação das coleções
de outono das maiores grifes americanas, com raros estilistas
forasteiros. Não é pouca coisa: a Fashion
Week pode perder para Milão e Paris em prestígio
e elegância, mas, em matéria de dólares
na caixa registradora, é o mais importante acontecimento
do gênero no planeta. Ao som de uma trilha sonora
que fundia músicas de Elis Regina e Frank Sinatra,
e contando com trunfos como a modelo Gisele Bündchen,
que desfilou de graça para ele, Haten colheu elogios
ou, no mínimo, boa vontade da crítica para
com sua coleção, de visual entre o moderno
e o espalhafatoso. "Ele tem um estilo inconfundível",
disse a VEJA Stephen Cojucaru, editor da revista People.
"O que mais me encanta é a maneira pela qual Haten
alia elegância e ousadia em peças básicas
como jeans e camisetas." O exigente The New York Times,
menos entusiasmado, comparou as capas douradas do brasileiro
às embalagens do luxuoso bombom Godiva. O Los
Angeles Times disse que sua coleção é
tão sexy que as modelos pareciam ter se levantado
das areias de Ipanema para desfilar em Nova York.
Neste ano, em Nova York como em toda parte, o preto marcou
muito menos presença na passarela. Uma profusão
de marrons e cinzas e materiais como couro, pele ou cashmere
tomaram conta das roupas apresentadas por gigantes como
Michael Kors e Calvin Klein, os donos irremovíveis
dos dias e horários nobres. Nesse cenário,
a coleção de Fause Haten é mesmo um
carnaval. Rosa, branco, azul e dourado dão o tom
de suas peças, das camisetas, que em Nova York custarão
100 dólares, aos vestidos de noite, a ser vendidos
entre 5.000 e 15.000
dólares em butiques e lojas de departamento de luxo,
como a Bergdorf Goodman e a Barney's. Parece muito dinheiro
e é. Mas para os americanos, que vivem uma onda
de encanto com os exotismos, a marca Fause Haten tem um
diferencial irresistível: um certo toque místico,
do jeito que Madonna gosta. Inspirada no budismo, a coleção
traz camisetas e vestidos estampados com ampliações
fotográficas de flores e frutas, e a cada uma foi
dedicada uma "mensagem" pregada na roupa. As estamparias
de rosa vêm com uma etiqueta interna na qual se lê,
em dourado, a palavra "Love". Nas roupas com motivos de
lírio, está escrito "Protection". E por aí
vai. "Não quero que as pessoas comprem minhas roupas
só por comprar, mas que o façam como uma espécie
de oferenda a si mesmas", prescreve o costureiro. Humm...
Místico de verdade ou não, Haten tem um
santo forte. Há apenas dois anos, sua confecção
praticamente quebrou. Devendo dinheiro a bancos e ex-funcionários,
por pouco ele não abandonou o dedal e a tesoura.
Para se reequilibrar, fechou as duas lojas e abriu outra,
menor, num shopping paulistano. Apesar das dificuldades,
conseguiu mostrar em janeiro do ano passado uma nova coleção
no MorumbiFashion, principal show de moda brasileira. Na
platéia estava o americano John Schulman, gerente
de marketing da marca americana Giorgio Beverly Hills, que
mantém uma butique em Los Angeles, Califórnia.
Atrás de um nome novo, e encantado com o que viu,
Schulman, que viria a se transformar numa espécie
de padrinho de Haten, resolveu encomendar-lhe quinze vestidos
de alta-costura para ser vendidos na butique de Los Angeles.
"Como estava praticamente falido, no começo entrei
em pânico", lembra-se Haten. "Mas depois resolvi encarar
o desafio." O lançamento teve desfile, divulgação
na imprensa e a primeira safra de roupas esgotou-se rapidamente,
indo parar inclusive no guarda-roupa de celebridades, como
a cantora Janet Jackson.
Todos querem Gisele
A Fashion Week provou que
Gisele Bündchen não tem rivais à
altura. Seu cachê oficial era de 7 000 dólares
por hora, mas, para ter a modelo brasileira em seus
desfiles, os estilistas americanos não economizaram.
Impossível saber quanto exatamente Oscar de
la Renta pagou a ela, mas Tommy Hilfiger nem pechinchou:
fez um cheque de 15 000 dólares para duas voltinhas
da moça na passarela.
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Da Califórnia, Haten acabou decolando para a Semana
da Moda de Nova York. Ainda não completamente restabelecido
financeiramente, ele contou com um orçamento de cerca
de 25.000 dólares, indigente
para os padrões americanos. Além do horário
horroroso do desfile e de ter de se apresentar numa sala
menor, o camarim do brasileiro não teve champanhe
nem camareiras em profusão para os catorze modelos
(treze moças e um rapaz, todos brasileiros), cabeleireiros
e maquiadores que trabalharam de graça para o costureiro.
Até Gisele, que é Gisele (veja quadro),
só ganhou um suvenir: uma pedra de ametista dada
por Haten. "Desfilei porque adoro o Fause. Acho que vale
a pena apoiar estilistas brasileiros promissores no circuito
internacional", derrete-se ela. No ano que vem, Fause Haten
deve voltar para o desfile de Nova York com cacife e um
orçamento mais folgado. "Vou trabalhar como um louco
para dar conta do recado", diz ele, que depois da América
do Norte pretende conquistar a Europa, mais precisamente
Paris, para onde segue no fim do mês.