Edição 1 637 - 23/2/2000

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Nova York, cheguei

Em dois anos, o estilista Fause Haten pulou da
quase falência para as passarelas dos EUA

Angela Pimenta, de Nova York

 
Divulgação

Haten: sucesso com roupas que parecem embalagem de bombom, segundo o NYT

O dia e a hora – uma segunda-feira, às 9 da manhã – tinham tudo para acabar em fiasco. Mas mesmo assim o paulistano Fause Haten, 30 anos, se saiu melhor que a encomenda na Semana da Moda de Nova York, que marca a apresentação das coleções de outono das maiores grifes americanas, com raros estilistas forasteiros. Não é pouca coisa: a Fashion Week pode perder para Milão e Paris em prestígio e elegância, mas, em matéria de dólares na caixa registradora, é o mais importante acontecimento do gênero no planeta. Ao som de uma trilha sonora que fundia músicas de Elis Regina e Frank Sinatra, e contando com trunfos como a modelo Gisele Bündchen, que desfilou de graça para ele, Haten colheu elogios ou, no mínimo, boa vontade da crítica para com sua coleção, de visual entre o moderno e o espalhafatoso. "Ele tem um estilo inconfundível", disse a VEJA Stephen Cojucaru, editor da revista People. "O que mais me encanta é a maneira pela qual Haten alia elegância e ousadia em peças básicas como jeans e camisetas." O exigente The New York Times, menos entusiasmado, comparou as capas douradas do brasileiro às embalagens do luxuoso bombom Godiva. O Los Angeles Times disse que sua coleção é tão sexy que as modelos pareciam ter se levantado das areias de Ipanema para desfilar em Nova York.

Neste ano, em Nova York como em toda parte, o preto marcou muito menos presença na passarela. Uma profusão de marrons e cinzas e materiais como couro, pele ou cashmere tomaram conta das roupas apresentadas por gigantes como Michael Kors e Calvin Klein, os donos irremovíveis dos dias e horários nobres. Nesse cenário, a coleção de Fause Haten é mesmo um carnaval. Rosa, branco, azul e dourado dão o tom de suas peças, das camisetas, que em Nova York custarão 100 dólares, aos vestidos de noite, a ser vendidos entre 5.000 e 15.000 dólares em butiques e lojas de departamento de luxo, como a Bergdorf Goodman e a Barney's. Parece muito dinheiro – e é. Mas para os americanos, que vivem uma onda de encanto com os exotismos, a marca Fause Haten tem um diferencial irresistível: um certo toque místico, do jeito que Madonna gosta. Inspirada no budismo, a coleção traz camisetas e vestidos estampados com ampliações fotográficas de flores e frutas, e a cada uma foi dedicada uma "mensagem" pregada na roupa. As estamparias de rosa vêm com uma etiqueta interna na qual se lê, em dourado, a palavra "Love". Nas roupas com motivos de lírio, está escrito "Protection". E por aí vai. "Não quero que as pessoas comprem minhas roupas só por comprar, mas que o façam como uma espécie de oferenda a si mesmas", prescreve o costureiro. Humm...

Místico de verdade ou não, Haten tem um santo forte. Há apenas dois anos, sua confecção praticamente quebrou. Devendo dinheiro a bancos e ex-funcionários, por pouco ele não abandonou o dedal e a tesoura. Para se reequilibrar, fechou as duas lojas e abriu outra, menor, num shopping paulistano. Apesar das dificuldades, conseguiu mostrar em janeiro do ano passado uma nova coleção no MorumbiFashion, principal show de moda brasileira. Na platéia estava o americano John Schulman, gerente de marketing da marca americana Giorgio Beverly Hills, que mantém uma butique em Los Angeles, Califórnia. Atrás de um nome novo, e encantado com o que viu, Schulman, que viria a se transformar numa espécie de padrinho de Haten, resolveu encomendar-lhe quinze vestidos de alta-costura para ser vendidos na butique de Los Angeles. "Como estava praticamente falido, no começo entrei em pânico", lembra-se Haten. "Mas depois resolvi encarar o desafio." O lançamento teve desfile, divulgação na imprensa e a primeira safra de roupas esgotou-se rapidamente, indo parar inclusive no guarda-roupa de celebridades, como a cantora Janet Jackson.

 


Todos querem Gisele

A Fashion Week provou que Gisele Bündchen não tem rivais à altura. Seu cachê oficial era de 7 000 dólares por hora, mas, para ter a modelo brasileira em seus desfiles, os estilistas americanos não economizaram. Impossível saber quanto exatamente Oscar de la Renta pagou a ela, mas Tommy Hilfiger nem pechinchou: fez um cheque de 15 000 dólares para duas voltinhas da moça na passarela.

Da Califórnia, Haten acabou decolando para a Semana da Moda de Nova York. Ainda não completamente restabelecido financeiramente, ele contou com um orçamento de cerca de 25.000 dólares, indigente para os padrões americanos. Além do horário horroroso do desfile e de ter de se apresentar numa sala menor, o camarim do brasileiro não teve champanhe nem camareiras em profusão para os catorze modelos (treze moças e um rapaz, todos brasileiros), cabeleireiros e maquiadores que trabalharam de graça para o costureiro. Até Gisele, que é Gisele (veja quadro), só ganhou um suvenir: uma pedra de ametista dada por Haten. "Desfilei porque adoro o Fause. Acho que vale a pena apoiar estilistas brasileiros promissores no circuito internacional", derrete-se ela. No ano que vem, Fause Haten deve voltar para o desfile de Nova York com cacife e um orçamento mais folgado. "Vou trabalhar como um louco para dar conta do recado", diz ele, que depois da América do Norte pretende conquistar a Europa, mais precisamente Paris, para onde segue no fim do mês.