Mar de jacarés
Eles estão sobrando na Amazônia
e no Pantanal.
E já se discute liberação da caça
Ricardo Villela
Miguel Chaves
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| Lagoa repleta de jacarés
em fazenda pantaneira: cena habitual na região |
A foto à esquerda mostra uma cena rotineira no Pantanal
Mato-Grossense. Todos os dias, quando os primeiros raios
de sol iluminam a maior planície alagada do planeta, milhões
de jacarés disputam espaço nas margens de lagoas e rios.
Segundo estimativa feita por zoólogos da Empresa Brasileira
de Pesquisa Agropecuária, Embrapa, há 3,5 milhões de jacarés
adultos no Pantanal, número que pode chegar a 35 milhões
se contados os filhotes, numa proporção de quarenta para
cada ser humano morador da região. É jacaré que não acaba
mais. Dados como este, somados aos indícios de recuperação
do preço da pele desses animais no mercado internacional,
estão despertando em alguns fazendeiros o apetite pela caça.
É um tema que costuma deixar os ambientalistas de cabelo
em pé. Ocorre que, desta vez, os defensores da caça estão
afinados com membros da comunidade científica. "Do
ponto de vista técnico, é perfeitamente viável", diz
Guilherme Mourão, pesquisador da Embrapa Pantanal. "Naturalmente,
teríamos de criar regras bastante rígidas para evitar a
matança indiscriminada."
O
movimento pela liberação da caça ultrapassou os limites
do Pantanal e está ecoando na Amazônia, outra região em
que os jacarés estão sobrando. Há dez anos, o zoólogo Ronis
Da Silveira estuda as populações de jacarés na reserva ecológica
de Mamirauá, no Rio Solimões. No início do trabalho, Silveira
avistava no máximo 300 animais para cada quilômetro de rio
pesquisado. Hoje, conta mais de 2.000. Estima-se que existam cerca de 25 milhões de jacarés
adultos na Amazônia. A pesquisa de Silveira pode servir
de base para um projeto piloto em Mamirauá. A caça criteriosa
garantiria a sobrevivência da espécie e, de quebra, preservaria
os peixes ao diminuir o número de ribeirinhos que trabalham
na pesca. "As fêmeas colocam os ovos em lagos remotos
no interior da floresta", explica Silveira. "Se
restringirmos a caça aos lagos mais próximos do leito dos
rios e estabelecermos tamanho mínimo e cotas, a caça pode
se tornar uma atividade sustentável para a população ribeirinha."
Antonio Ribeiro
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| Carcaças sem a pele em
rio do Pantanal: cena comum nos anos 80 |
Parte da grita contra a caça tem origem na história recente
do Pantanal. Durante toda a década de 80, quando a pele de
jacaré estava em alta no mercado internacional, a região foi
invadida por coureiros. Era mais fácil encontrar carcaças
de jacarés na beira das lagoas do que tuiuiús, ave-símbolo
da região, na copa das árvores. Chegou-se a falar em 1 milhão
de jacarés tirados do Pantanal por ano. Os caçadores resistiram
à repressão policial, mas não às forças de mercado. No início
dos anos 90, os preços da pele despencaram e os coureiros
foram obrigados a procurar outro ganha-pão. O surpreendente
é que, segundo os estudos mais recentes, mesmo na época da
caça a população de jacarés não esteve ameaçada. A explicação
mais uma vez está no mercado. Como só as peles de animais
grandes tinham valor, os coureiros davam preferência para
jacarés com pelo menos 1,5 metro de comprimento. Ao atingir
esse tamanho, as fêmeas já reproduziram ao menos uma vez.
Marcelo Breyne
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O Brasil tem uma das legislações de proteção da fauna mais
rigorosas do mundo. A caça profissional é proibida por lei
federal desde 1967 e mesmo a amadora só é permitida no Rio
Grande do Sul. Tamanho rigor não impede que a caça seja
praticada nos quatro cantos do país. Só na região de Mamirauá,
são caçados 8.000 jacarés por
ano, cuja carne é vendida em Belém e contrabandeada para
a Colômbia. Opositores e defensores da causa só concordam
em um ponto: a caça ilegal é a mais danosa ao meio ambiente
porque é feita sem critério. Os defensores apostam na liberação
da caça com regras rígidas como a melhor forma de controlar
a atividade.
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Saiba
mais
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Outros bichos que estão sobrando
Elefantes
Os 70 000 elefantes que vivem no Zimbábue são
um estorvo para os fazendeiros. Devoram 300
quilos de folha por dia.
Búfalos
Os búfalos foram levados a Rondônia por fazendeiros
quarenta anos atrás. Hoje são uma praga na Reserva
Ecológica de Guaporé.
Baleias
Há indícios de superpopulação de baleia minke
na faixa do litoral nordestino que vai do Recife
a Natal.
Javalis
Trazidos da Europa para o Uruguai, eles cruzaram
a fronteira do Brasil e estão destruindo arrozais
gaúchos.
Alces
Na Finlândia, a população desses animais
explodiu em razão do desaparecimento dos predadores
naturais, o lobo e o tigre siberiano.
Capivaras
Com a extinção da onça pintada no noroeste de
São Paulo, elas se multiplicaram e estão destruindo
as plantações.
Veados-do-rabo-branco
Há sessenta anos, eram 500 000 nos Estados Unidos.
Protegidos por lei, já são 27 milhões e provocam
500 000 acidentes de automóvel por ano.
Focas
Os cinco milhões de focas no Canadá consomem
10 bilhões de pescados por ano.
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O que
VEJA já publicou sobre o assunto: |
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Bichos
de sobra |
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Está
sobrando baleia |
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Sites relacionados ao tema:
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