Edição 1 637 - 23/2/2000

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Mar de jacarés

Eles estão sobrando na Amazônia e no Pantanal.
E já se discute liberação da caça

Ricardo Villela

 
Miguel Chaves
Lagoa repleta de jacarés em fazenda pantaneira: cena habitual na região


A foto à esquerda mostra uma cena rotineira no Pantanal Mato-Grossense. Todos os dias, quando os primeiros raios de sol iluminam a maior planície alagada do planeta, milhões de jacarés disputam espaço nas margens de lagoas e rios. Segundo estimativa feita por zoólogos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Embrapa, há 3,5 milhões de jacarés adultos no Pantanal, número que pode chegar a 35 milhões se contados os filhotes, numa proporção de quarenta para cada ser humano morador da região. É jacaré que não acaba mais. Dados como este, somados aos indícios de recuperação do preço da pele desses animais no mercado internacional, estão despertando em alguns fazendeiros o apetite pela caça. É um tema que costuma deixar os ambientalistas de cabelo em pé. Ocorre que, desta vez, os defensores da caça estão afinados com membros da comunidade científica. "Do ponto de vista técnico, é perfeitamente viável", diz Guilherme Mourão, pesquisador da Embrapa Pantanal. "Naturalmente, teríamos de criar regras bastante rígidas para evitar a matança indiscriminada."

O movimento pela liberação da caça ultrapassou os limites do Pantanal e está ecoando na Amazônia, outra região em que os jacarés estão sobrando. Há dez anos, o zoólogo Ronis Da Silveira estuda as populações de jacarés na reserva ecológica de Mamirauá, no Rio Solimões. No início do trabalho, Silveira avistava no máximo 300 animais para cada quilômetro de rio pesquisado. Hoje, conta mais de 2.000. Estima-se que existam cerca de 25 milhões de jacarés adultos na Amazônia. A pesquisa de Silveira pode servir de base para um projeto piloto em Mamirauá. A caça criteriosa garantiria a sobrevivência da espécie e, de quebra, preservaria os peixes ao diminuir o número de ribeirinhos que trabalham na pesca. "As fêmeas colocam os ovos em lagos remotos no interior da floresta", explica Silveira. "Se restringirmos a caça aos lagos mais próximos do leito dos rios e estabelecermos tamanho mínimo e cotas, a caça pode se tornar uma atividade sustentável para a população ribeirinha."

Antonio Ribeiro
Carcaças sem a pele em rio do Pantanal: cena comum nos anos 80

Parte da grita contra a caça tem origem na história recente do Pantanal. Durante toda a década de 80, quando a pele de jacaré estava em alta no mercado internacional, a região foi invadida por coureiros. Era mais fácil encontrar carcaças de jacarés na beira das lagoas do que tuiuiús, ave-símbolo da região, na copa das árvores. Chegou-se a falar em 1 milhão de jacarés tirados do Pantanal por ano. Os caçadores resistiram à repressão policial, mas não às forças de mercado. No início dos anos 90, os preços da pele despencaram e os coureiros foram obrigados a procurar outro ganha-pão. O surpreendente é que, segundo os estudos mais recentes, mesmo na época da caça a população de jacarés não esteve ameaçada. A explicação mais uma vez está no mercado. Como só as peles de animais grandes tinham valor, os coureiros davam preferência para jacarés com pelo menos 1,5 metro de comprimento. Ao atingir esse tamanho, as fêmeas já reproduziram ao menos uma vez.

Marcelo Breyne


O Brasil tem uma das legislações de proteção da fauna mais rigorosas do mundo. A caça profissional é proibida por lei federal desde 1967 e mesmo a amadora só é permitida no Rio Grande do Sul. Tamanho rigor não impede que a caça seja praticada nos quatro cantos do país. Só na região de Mamirauá, são caçados 8.000 jacarés por ano, cuja carne é vendida em Belém e contrabandeada para a Colômbia. Opositores e defensores da causa só concordam em um ponto: a caça ilegal é a mais danosa ao meio ambiente porque é feita sem critério. Os defensores apostam na liberação da caça com regras rígidas como a melhor forma de controlar a atividade.

 

Saiba mais

 


Outros bichos que estão sobrando

Elefantes
Os 70 000 elefantes que vivem no Zimbábue são um estorvo para os fazendeiros. Devoram 300 quilos de folha por dia.

Búfalos
Os búfalos foram levados a Rondônia por fazendeiros quarenta anos atrás. Hoje são uma praga na Reserva Ecológica de Guaporé.

Baleias
Há indícios de superpopulação de baleia minke na faixa do litoral nordestino que vai do Recife a Natal.

Javalis
Trazidos da Europa para o Uruguai, eles cruzaram a fronteira do Brasil e estão destruindo arrozais gaúchos.

Alces
Na Finlândia, a população desses animais explodiu em razão do desaparecimento dos predadores naturais, o lobo e o tigre siberiano.

Capivaras
Com a extinção da onça pintada no noroeste de São Paulo, elas se multiplicaram e estão destruindo as plantações.

Veados-do-rabo-branco
Há sessenta anos, eram 500 000 nos Estados Unidos. Protegidos por lei, já são 27 milhões e provocam 500 000 acidentes de automóvel por ano.

Focas
Os cinco milhões de focas no Canadá consomem 10 bilhões de pescados por ano.

   
  O que VEJA já publicou sobre o assunto:
  Bichos de sobra
  Está sobrando baleia
   

Sites relacionados ao tema:

  Ibama
 

U.S. Fish and Wildlife Service