Edição 1 637 - 23/2/2000

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Os filhos da pílula de farinha, lindos e amados
Passagens e pacotes com descontos na internet
O novo planetário de Nova York
O drama dos médicos viciados em morfina
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Já se discute a liberação da caça ao jacaré
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Pacote escolar

Ocupado demais para ficar levando seu filho
a aulas disso e daquilo? Período integral nele

Silvia Rogar

 
Selmy Yassuda

Isabela: sapatilha e quimono na mochila

O frio na barriga que acompanha a volta às aulas foi maior neste ano para Isabela Stille, de 7 anos. Além de livros e cadernos, a estudante da 2ª série do ensino fundamental carregou sapatilhas de balé e um quimono na mochila. Entrou às 7h30 e saiu às 17h – sua estréia no período integral do tradicional Colégio Andrews, no Rio de Janeiro. Além das disciplinas do currículo regular, Isabela tem aulas de teatro, balé e judô. Nos intervalos, pode encontrar-se com o irmão, Gustavo, de 13 anos, que desde o ano passado também passa manhãs e tardes no Andrews, uma das muitas escolas no Rio e em São Paulo a aderir, nos últimos anos, ao sistema (em geral, optativo) de período integral. Segundo estimativa das associações de escolas particulares cariocas e paulistanas, o número de instituições que oferecem um dia inteiro de atividades cresceu 15% em 1998 e mais 15% em 1999, o que representa cerca de 1 700 instituições convertidas ao equivalente moderno do semi-internato dos velhos tempos.

 


Depois do almoço, aluno de período integral pode ter aula de:

Línguas
Esportes
Culinária
Teatro
Dança
Música

A disposição das escolas a acolher alunos o dia inteiro é uma mão na roda para pais ocupados. No tempo extra, as crianças têm o que teriam fora do colégio – aulas de dança, de idiomas, de informática – sem que ninguém precise pegar o carro e levá-las até a porta. Também deixa pai e mãe muito mais tranqüilos, por verem seus filhos seguros, em ambiente de confiança, sob orientação pedagógica adequada. Com uma vantagem extra: o dever de casa, estressante ritual de depois da janta, passa a ser feito na própria escola. Que pesa no bolso, pesa – a mensalidade dobra para o aluno de período integral. Mas pouca gente reclama. "Hoje, até as avós trabalham fora", diz Solange Oliveira, vice-diretora do colégio carioca Chapeuzinho Vermelho, que há dois anos descobriu as vantagens do regime integral. Os números comprovam a boa aceitação. Na escola Pueri Domus, em São Paulo, a matrícula triplicou em dois anos. Hoje há 300 alunos passando o dia inteiro no colégio.

 
Antonio Milena
Jéssica e Amanda: aprendendo na escola a cozinhar e a falar inglês

Só vantagens – Desde que o semi-internato sumiu do mapa escolar, na década de 70, período integral era exclusividade das escolas estrangeiras instaladas no Brasil. A volta do sistema tem novidades. Uma delas é o número muito maior de atividades oferecidas. Outra, a maneira como as aulas são dadas – o currículo é preparado de forma a não soterrar o estudante sob uma avalanche de aulas tradicionais, daquelas com aluno na carteira, professor na frente e lousa por todo lado. No Colégio Augusto Laranja, com três unidades em São Paulo, onde o turno ampliado foi inaugurado neste ano, muitas das atividades complementares, como as aulas de culinária e as de artes, são dadas em inglês. As irmãs Amanda, 9 anos, e Jéssica, 7, trocaram com prazer o fim da manhã em frente à televisão pela chance de pôr a mão na massa. A mãe delas, a administradora de empresas Carla Biscalquim, de 33 anos, acha ótimo que, ainda por cima, aprendam outra língua. De um modo geral, os especialistas consideram que, se as aulas extracurriculares forem bem administradas, matricular a criança em período integral só traz vantagens. "O aluno deixa de ver a escola como um lugar desagradável, como o momento chato do dia", diz Paulo Mattos, psiquiatra e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.