Foi acidente, mas são lindos
Bebês da pílula de farinha fazem 1 ano
e seus pais
ainda brigam com o laboratório na Justiça
Alice Granato
Fotos: Marcelo Zocchio
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No sentido anti-horário:
Pablo, Rafaela, Sarah, Diego, Daniele, Vítor,
Paula e Daiana
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Daniele, Diego, Pablo, Vítor, Daiana, Paula, Rafaela e
Sarah. Em comum, essas oito crianças têm o fato de não ter
nascido por escolha de seus pais. Todas elas são fruto de
um erro de laboratório. Suas mães engravidaram em 1998 depois
de tomar as pílulas de farinha feitas pelo laboratório Schering
do Brasil, imaginando que fossem anticoncepcionais. Tratado
como escândalo na época, o acidente logo caiu no esquecimento.
Os bebês acabam de completar 1 ano. Estão todos saudáveis,
gorduchos e risonhos, graças ao esforço das mães, que continuam
a brigar na Justiça para assegurar-lhes o futuro.
O laboratório, que nunca quis muita conversa com as famílias,
já teve de arcar com as primeiras despesas da chegada desses
filhos inesperados. Antes de as crianças nascerem, essas
famílias receberam entre 6.000
e 8.000 reais para custear o parto e comprar enxoval. "Recebi
o dinheiro três dias antes de dar à luz", conta Silvana
Dangel, 36 anos, mãe de Rafaela. "Foi a salvação."
A empresa também paga mensalmente entre um e três salários
mínimos a cada família, como ajuda de custo na criação dos
pimpolhos, para a compra de fraldas descartáveis, leite
em pó e mamadeiras. Até o desfecho das ações judiciais ainda
em andamento, a soma pode crescer muito mais. Os advogados
das vítimas reivindicam, entre outras coisas, pagamento
da educação das crianças até a universidade e indenizações
por danos morais entre 100.000
e 1 milhão de reais por família.
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As mães com
os bebês: apesar das dificuldades financeiras,
eles estão saudáveis
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A advogada Adriana Lopes da Silva, de 29 anos, mãe de Paula,
está recebendo três salários mínimos da Schering do Brasil,
dinheiro que, segundo diz, nem de longe compensa a queda
no padrão de vida que tinha antes do nascimento do bebê.
"Tive de cortar atividades extras das minhas outras
duas filhas", afirma a advogada. Por sorte, Paula nasceu
forte e saudável. Como não pensava em engravidar na época
em que ingeriu a pílula de farinha, Adriana tomava fortes
medicamentos para emagrecer, proibidos para gestantes. "Por
essa razão, tive uma gravidez de risco e passei por momentos
terríveis achando que minha filha poderia nascer com problema",
conta. "Os quarenta minutos do exame morfológico nunca
vão sair da minha cabeça. Foi um alívio enorme descobrir
que estava tudo bem com ela."
Aos 33 anos, Meire Inamine, mãe de Daniele e mais um casal,
viu sua vida virar de ponta-cabeça quando soube que estava
grávida. Pouco antes, por exigência de seu médico, tinha
assinado um termo de responsabilidade de que não engravidaria,
já que estava tomando um medicamento para corrigir uma disfunção
hormonal. "Quando vi o exame não pude acreditar",
lembra. "Logo eu, que sempre tomei tanto cuidado."
Seu drama piorou no terceiro mês de gravidez, quando teve
um descolamento de placenta e ficou impedida de dirigir
e fazer esforço. "Como moro em apartamento sem elevador,
não podia ir para minha própria casa. Tive de ficar hospedada
na casa de minha mãe." Hoje, cada sorriso de Daniele
é uma recompensa. "Nós conseguimos superar muitas das
dificuldades", diz Meire.
Dos mais de 200 casos de gravidez atribuídos ao erro do
laboratório em 1998, esses oito estão entre os mais bem
encaminhados porque as famílias, representadas pelo Instituto
de Defesa do Consumidor, Idec, conseguiram liminares favoráveis
na Justiça. Dos outros casos, apenas cerca de trinta mulheres
conseguiram provas suficientes para obter essas liminares.
Muitos processos ainda estão em andamento e a probabilidade
é de que demorem anos para obter uma sentença final. Em
1998, o Microvlar era a pílula mais vendida do país, com
1,7 milhão de consumidoras. Os problemas começaram quando
pílulas de farinha, usadas para teste de máquinas, foram
parar nas farmácias. "Houve um desvio criminal de algumas
cartelas", alega o advogado da Schering, Cid Scartezzini
Filho. Segundo ele, a empresa respeitará todas as decisões
judiciais e indenizará as mulheres se assim for determinado.
A maioria das famílias enfrenta dificuldades financeiras
e ainda está atrapalhada com a "surpresa" em casa.
Aos 40 anos, a empregada doméstica Maria Lúcia do Nascimento
está às voltas com Daiana, sua filha temporã. Com dois filhos
adolescentes, o marido aposentado e o salário de 150 reais
por mês, ela nem sonhava em engravidar novamente. "Foi
um choque", diz. A compensação é Daiana. Quando engravidou,
a doméstica tomava antidepressivos e já estava em idade
de risco para ter filhos. Daiana tem quinze anos de diferença
em relação a Diogo, o primeiro filho de Maria Lúcia. São
ele e a irmã, Dione, de 12 anos, que a ajudam a cuidar da
pequena. Para não correr riscos novamente, Maria Lúcia acaba
de ligar as trompas.
Dessas oito mulheres que brigam na Justiça com assistência
do Idec, apenas duas continuam usando pílula para se proteger
mas não da Schering. Uma delas é Karin Jeromin, de
27 anos, mãe de Sarah. Trabalha em um escritório, onde ganha
300 reais por mês, e mora nos fundos da casa dos pais, que
ajudam na criação da neta. Quando engravidou, Karin namorava
o pai da menina havia seis meses. Hoje, o casal continua
a manter o relacionamento, mas mora em casas separadas.
"Não era a hora de engravidar", diz. "Adoro
minha filha, mas seria muito melhor se eu tivesse planejado
sua chegada."