Edição 1 637 - 23/2/2000

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Foi acidente, mas são lindos

Bebês da pílula de farinha fazem 1 ano e seus pais
ainda brigam com o laboratório na Justiça

Alice Granato

 
Fotos: Marcelo Zocchio

No sentido anti-horário: Pablo, Rafaela, Sarah, Diego, Daniele, Vítor, Paula e Daiana

Daniele, Diego, Pablo, Vítor, Daiana, Paula, Rafaela e Sarah. Em comum, essas oito crianças têm o fato de não ter nascido por escolha de seus pais. Todas elas são fruto de um erro de laboratório. Suas mães engravidaram em 1998 depois de tomar as pílulas de farinha feitas pelo laboratório Schering do Brasil, imaginando que fossem anticoncepcionais. Tratado como escândalo na época, o acidente logo caiu no esquecimento. Os bebês acabam de completar 1 ano. Estão todos saudáveis, gorduchos e risonhos, graças ao esforço das mães, que continuam a brigar na Justiça para assegurar-lhes o futuro.

O laboratório, que nunca quis muita conversa com as famílias, já teve de arcar com as primeiras despesas da chegada desses filhos inesperados. Antes de as crianças nascerem, essas famílias receberam entre 6.000 e 8.000 reais para custear o parto e comprar enxoval. "Recebi o dinheiro três dias antes de dar à luz", conta Silvana Dangel, 36 anos, mãe de Rafaela. "Foi a salvação." A empresa também paga mensalmente entre um e três salários mínimos a cada família, como ajuda de custo na criação dos pimpolhos, para a compra de fraldas descartáveis, leite em pó e mamadeiras. Até o desfecho das ações judiciais ainda em andamento, a soma pode crescer muito mais. Os advogados das vítimas reivindicam, entre outras coisas, pagamento da educação das crianças até a universidade e indenizações por danos morais entre 100.000 e 1 milhão de reais por família.

 

As mães com os bebês: apesar das dificuldades financeiras, eles estão saudáveis

A advogada Adriana Lopes da Silva, de 29 anos, mãe de Paula, está recebendo três salários mínimos da Schering do Brasil, dinheiro que, segundo diz, nem de longe compensa a queda no padrão de vida que tinha antes do nascimento do bebê. "Tive de cortar atividades extras das minhas outras duas filhas", afirma a advogada. Por sorte, Paula nasceu forte e saudável. Como não pensava em engravidar na época em que ingeriu a pílula de farinha, Adriana tomava fortes medicamentos para emagrecer, proibidos para gestantes. "Por essa razão, tive uma gravidez de risco e passei por momentos terríveis achando que minha filha poderia nascer com problema", conta. "Os quarenta minutos do exame morfológico nunca vão sair da minha cabeça. Foi um alívio enorme descobrir que estava tudo bem com ela."

Aos 33 anos, Meire Inamine, mãe de Daniele e mais um casal, viu sua vida virar de ponta-cabeça quando soube que estava grávida. Pouco antes, por exigência de seu médico, tinha assinado um termo de responsabilidade de que não engravidaria, já que estava tomando um medicamento para corrigir uma disfunção hormonal. "Quando vi o exame não pude acreditar", lembra. "Logo eu, que sempre tomei tanto cuidado." Seu drama piorou no terceiro mês de gravidez, quando teve um descolamento de placenta e ficou impedida de dirigir e fazer esforço. "Como moro em apartamento sem elevador, não podia ir para minha própria casa. Tive de ficar hospedada na casa de minha mãe." Hoje, cada sorriso de Daniele é uma recompensa. "Nós conseguimos superar muitas das dificuldades", diz Meire.

Dos mais de 200 casos de gravidez atribuídos ao erro do laboratório em 1998, esses oito estão entre os mais bem encaminhados porque as famílias, representadas pelo Instituto de Defesa do Consumidor, Idec, conseguiram liminares favoráveis na Justiça. Dos outros casos, apenas cerca de trinta mulheres conseguiram provas suficientes para obter essas liminares. Muitos processos ainda estão em andamento e a probabilidade é de que demorem anos para obter uma sentença final. Em 1998, o Microvlar era a pílula mais vendida do país, com 1,7 milhão de consumidoras. Os problemas começaram quando pílulas de farinha, usadas para teste de máquinas, foram parar nas farmácias. "Houve um desvio criminal de algumas cartelas", alega o advogado da Schering, Cid Scartezzini Filho. Segundo ele, a empresa respeitará todas as decisões judiciais e indenizará as mulheres se assim for determinado.

A maioria das famílias enfrenta dificuldades financeiras e ainda está atrapalhada com a "surpresa" em casa. Aos 40 anos, a empregada doméstica Maria Lúcia do Nascimento está às voltas com Daiana, sua filha temporã. Com dois filhos adolescentes, o marido aposentado e o salário de 150 reais por mês, ela nem sonhava em engravidar novamente. "Foi um choque", diz. A compensação é Daiana. Quando engravidou, a doméstica tomava antidepressivos e já estava em idade de risco para ter filhos. Daiana tem quinze anos de diferença em relação a Diogo, o primeiro filho de Maria Lúcia. São ele e a irmã, Dione, de 12 anos, que a ajudam a cuidar da pequena. Para não correr riscos novamente, Maria Lúcia acaba de ligar as trompas.

Dessas oito mulheres que brigam na Justiça com assistência do Idec, apenas duas continuam usando pílula para se proteger – mas não da Schering. Uma delas é Karin Jeromin, de 27 anos, mãe de Sarah. Trabalha em um escritório, onde ganha 300 reais por mês, e mora nos fundos da casa dos pais, que ajudam na criação da neta. Quando engravidou, Karin namorava o pai da menina havia seis meses. Hoje, o casal continua a manter o relacionamento, mas mora em casas separadas. "Não era a hora de engravidar", diz. "Adoro minha filha, mas seria muito melhor se eu tivesse planejado sua chegada."