Edição 1 637 - 23/2/2000

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Troca-troca e faz-de-conta

"O PSDB, que vive com a bandeira da reforma política desfraldada, em nome da fidelidade partidária, este ano foi o campeão do aliciamento"



O aliciamento de parlamentares para engordar bancadas e ganhar a preferência na escolha da presidência das comissões — as mais valorizadas são as de Constituição e Justiça e de Economia — e da presidência das duas casas legislativas é fato que se repete com o mesmo enredo em toda abertura de nova sessão do Congresso. Todos saem à caça de colegas parlamentares de outros partidos, querendo que mudem para sua legenda. Os que perdem a corrida reclamam do oportunismo, falta de ética e oferta de vantagens. Seguem-se as ameaças de retaliação, a demanda para que a reforma política seja aprovada logo. Muitos ficam magoados. A mágoa está na constituição informal da política brasileira. É um fato político relevante. Quem se sente maltratado pelo próprio partido, pelos aliados ou pelo governo, torna pública sua mágoa. Habitualmente, tolera-se que venha acompanhada de alguma hostilidade em relação a quem magoou, de ataques políticos, sem muita ofensa pessoal. Passado o rompante, negocia-se a retratação das mágoas, o que envolve alguma concessão ou adulação ao magoado.

Há operadores profissionais de mágoas no Congresso. Desta vez, o PFL em bloco ficou magoado com o PSDB, porque este, na undécima hora, formou um bloco com o PTB e se transformou na maior bancada. Aliás, nem precisava, porque, usando de artifícios que o partido sempre condenou, já havia superado o PFL no leilão de troca de legenda, fechando 103 deputados, contra os 101 dos liberais. Ficou magoado também com o PMDB, que formou outro bloco de ocasião com o PST/PTN e se classificou em segundo para as prebendas parlamentares, saindo de 96 para 102 deputados. O PFL, embora tenha tentado o mesmo com o PPB, fracassando por uma questiúncula formal — ah, o poder democrático das formalidades! —, denuncia as manobras e não abdica da posição preferencial na sucessão do peemedebista Michel Temer na presidência da Câmara no ano que vem.

Podem esperar que depois do carnaval dos blocos de oportunidade virá a micareta da reconciliação e da lavagem das mágoas. O PFL pode acabar ficando com a futura presidência da Câmara. A escolha tem sido feita por acordo entre os partidos, freqüentemente desobedecendo à regra da maior bancada. Tudo pode, se há acordo. O PSDB ficará magoado e terá suas compensações. Nada será como antes, mas ficará tudo igual. O Congresso, na sua vida doméstica, é um clube. E a dança das cadeiras é o seu jogo predileto.

Os que perdem reclamam indignados, como se não fossem a dança previsível, os parceiros conhecidos, as regras sabidas e o resultado esperado. Logo surge alguém — dessa vez o coro tem até o presidente — para pedir urgência para a reforma política. Mas para que uma reforma tão complexa para uma questão tão doméstica? Bastaria mudar a regrinha regimental que incentiva essa dança. Querer inventar uma camisa-de-força inexeqüível e inédita, para forçar fidelidade partidária — que existe nos temas programáticos, embora se dissolva em outros temas — só para evitar o troca-troca, é não querer mudar. Não precisa criar voto distrital misto nem cláusulas de exclusão. É só democratizar o Congresso. Se os cargos forem decididos no voto, a dança das cadeiras perde sentido. Mas voto é sempre muito arriscado. Sabe-se lá quem seria eleito... Então, que valha o número de cadeiras que sai das urnas, pela escolha popular, e não a formação de faz-de-conta, saída do aliciamento.

O PSDB, que vive com a bandeira da reforma política desfraldada, em nome da fidelidade partidária, este ano foi o campeão do aliciamento. Antes havia sido o PFL. O PMDB já teve seus dias de campeão. O PSDB estaria se peemedebizando ou pefelizando? Não pude deixar de notar, nas fotos dos jornais em que o líder tucano Aécio Neves abraça o deputado Roberto Jefferson, tucanos reformistas de carteirinha aplaudindo com os olhos brilhando de entusiasmo. Também, não é que isso tudo tenha muita importância, caro (e)leitor. Eles mudam de partido, mas continuam tal e qual. Quanto mais parece mudar, mais fica tudo como está.

 

Sérgio Abranches é cientista político