Edição 1 637 - 23/2/2000

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O silêncio rompido

 
Ricardo Benichio
Cristina, Karina e Sandra: o drama
dos médicos

A confissão de um vício não é fácil para ninguém. Mais difícil ainda para os médicos, profissionais educados e treinados para zelar pela vida. A dependência química entre os homens de branco não representa uma ameaça apenas a eles próprios, mas aos pacientes sob os seus cuidados. Por essa razão a reportagem que VEJA publica nesta edição contando o drama de médicos que sucumbiram e depois venceram o vício representa um extraordinário esforço jornalístico. Por duas semanas, a subeditora Cristina Poles e a repórter Sandra Boccia dedicaram-se a desvendar os dramas humanos que brotam dessa delicada situação. O problema atingiu uma tal dimensão nos hospitais que chamou a atenção das autoridades de saúde em diversos países. Sua incidência no Brasil é bem maior do que se imagina.

As repórteres de VEJA ouviram relatos de médicos confessando que se injetavam morfina entre um plantão e outro. Eles surrupiam ampolas da droga das farmácias dos hospitais ou dão apenas metade da dose aos pacientes, ficando com o resto para uso próprio. Durante a apuração, em que entrevistaram quarenta pessoas, Cristina e Sandra depararam com o lado mais trágico da luta contra a dependência: a morte por overdose de um dos entrevistados. Cerca de um mês depois de relatar em detalhes como entrara no vício e como vinha tentando se libertar, um dos médicos ouvidos por elas teve uma recaída fatal. Ao lado do corpo, foram encontradas três ampolas vazias de morfina. "Ele se culpava muito pensando na possibilidade de ter prejudicado algum paciente", diz Cristina. "O maior medo deles era perder o respeito dos pacientes", conta Sandra, sobre outros médicos por ela entrevistados. Em negociações tensas elas convenceram alguns deles a se identificar e se deixar fotografar. O cirurgião baiano Samuel Paulo Thomas contou publicamente sua história pela primeira vez. Coordenada pela editora Karina Pastore, a reportagem ilumina um problema grave que sem o esforço e talento das jornalistas poderia ter ficado nas sombras.