O silêncio rompido
Ricardo Benichio
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Cristina, Karina e Sandra: o drama
dos médicos |
A confissão de um vício não é
fácil para ninguém. Mais difícil ainda
para os médicos, profissionais educados e treinados
para zelar pela vida. A dependência química
entre os homens de branco não representa uma ameaça
apenas a eles próprios, mas aos pacientes sob os
seus cuidados. Por essa razão a reportagem que VEJA
publica nesta edição contando o drama de médicos
que sucumbiram e depois venceram o vício representa
um extraordinário esforço jornalístico.
Por duas semanas, a subeditora Cristina Poles e a repórter
Sandra Boccia dedicaram-se a desvendar os dramas humanos
que brotam dessa delicada situação. O problema
atingiu uma tal dimensão nos hospitais que chamou
a atenção das autoridades de saúde
em diversos países. Sua incidência no Brasil
é bem maior do que se imagina.
As repórteres de VEJA ouviram relatos de médicos
confessando que se injetavam morfina entre um plantão
e outro. Eles surrupiam ampolas da droga das farmácias
dos hospitais ou dão apenas metade da dose aos pacientes,
ficando com o resto para uso próprio. Durante a apuração,
em que entrevistaram quarenta pessoas, Cristina e Sandra
depararam com o lado mais trágico da luta contra
a dependência: a morte por overdose de um dos entrevistados.
Cerca de um mês depois de relatar em detalhes como
entrara no vício e como vinha tentando se libertar,
um dos médicos ouvidos por elas teve uma recaída
fatal. Ao lado do corpo, foram encontradas três ampolas
vazias de morfina. "Ele se culpava muito pensando na possibilidade
de ter prejudicado algum paciente", diz Cristina. "O maior
medo deles era perder o respeito dos pacientes", conta Sandra,
sobre outros médicos por ela entrevistados. Em negociações
tensas elas convenceram alguns deles a se identificar e
se deixar fotografar. O cirurgião baiano Samuel Paulo
Thomas contou publicamente sua história pela primeira
vez. Coordenada pela editora Karina Pastore, a reportagem
ilumina um problema grave que sem o esforço e talento
das jornalistas poderia ter ficado nas sombras.