Uma biografia reconstitui
a admirável trajetória do
diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello, encarnação
dos melhores ideais humanitários da ONU
Jerônimo Teixeira
No
seu primeiro dia em Gorazde sitiada pelas tropas sérvias
em 1994, em um dos episódios mais dramáticos da
Guerra da Bósnia , o brasileiro Sérgio Vieira
de Mello, que chefiara o comboio de ajuda humanitária
da ONU até a cidade, fez questão de se apresentar
impecável em seu terno bem cortado. Seus assessores aproveitaram
para debochar de sua aparente vaidade. "Se nos mostrarmos
na melhor aparência, vamos lembrar as pessoas aqui da
dignidade que elas costumavam ter", retrucou Vieira de
Mello. E ele logo deu a primeira instrução: era
preciso circular pela cidade, para mostrar a bandeira azul da
ONU à população civil que havia dias estava
sob bombardeio constante. Em todas as zonas de conflito em que
atuou em seus 34 anos de carreira na ONU em lugares como
Bangladesh, Sudão, Moçambique, Líbano,
Ruanda, Kosovo e Timor Leste , Vieira de Mello mostrava
a mesma preocupação com a dignidade das vítimas
da guerra, do desterro, da fome. VEJA teve acesso a uma prova
editorial de Chasing the Flame Sérgio Vieira
de Mello and the Fight to Save the World (No Rastro
da Chama Sérgio Vieira de Mello e a Luta para
Salvar o Mundo), biografia que será lançada
no próximo mês nos Estados Unidos (e que ainda
neste ano deve ser publicada no Brasil pela Companhia das Letras).
Na obra, o diplomata brasileiro é retratado como uma
encarnação dos melhores ideais humanitários
que inspiraram a fundação da ONU depois da II
Guerra Mundial. Mas a jornalista americana Samantha Power também
mostra como Vieira de Mello que morreu em uma missão
no Iraque, no atentado a bomba contra a sede da ONU em Bagdá
promovido pela Al Qaeda em 2003 foi uma figura emblemática
das limitações da ONU. Sua trajetória revela
a relativa impotência da organização diante
das grandes catástrofes humanas da história recente.
Luke Frazza/AFP
Com Bush na Casa Branca, em 2003:
mesmo fazendo cobranças duras, ele encantou o presidente
americano
Nascido
em 1948, o carioca Sérgio Vieira de Mello era filho de
um diplomata, Arnaldo, que foi compulsoriamente aposentado pela
ditadura militar em 1969. Sérgio costumava invocar a
humilhação imposta ao pai pelo governo brasileiro
quando lhe perguntavam por que nunca se alistou no Itamaraty.
Recém-formado em filosofia pela Universidade Sorbonne,
em Paris, encontrou trabalho no Alto Comissariado para Refugiados
da ONU no mesmo ano em que seu pai deixava a diplomacia. Vieira
de Mello participara dos protestos estudantis de Paris, em 1968,
e a princípio levou as mesmas idéias para seu
trabalho em Bangladesh e no Sudão. Sofreu um choque de
realidade em 1982, ao lado das forças de paz no Líbano
a invasão do país por Israel, em desacordo
com resoluções da ONU, foi uma amarga decepção
para o ainda ingênuo Vieira de Mello, que a partir de
então se tornou mais pragmático. Sua carreira
não foi isenta de equívocos, como mostra Samantha
Power. Durante a Guerra da Bósnia, o brasileiro se mostrou
excessivamente cioso da política de neutralidade da ONU
e negligenciou a natureza desigual do conflito. Deixou de condenar
os crimes de guerra sérvios com a firmeza necessária
chegou até a andar pelas lojas de Belgrado em
busca de um presente para Slobodan Milosevic, o ditador da Sérvia.
O próprio Vieira de Mello revisaria essas posturas. No
seu retorno aos Bálcãs, em 1999, durante uma nova
investida expansionista da Sérvia desta vez sobre
a província do Kosovo , ele se mostrou bem menos
condescendente e até aprovou o bombardeio da Otan às
posições sérvias. Na sua atuação
durante a independência do Timor Leste do jugo da Indonésia,
entre 1999 e 2002, Vieira de Mello também se mostraria
inflexível nas denúncias dos crimes indonésios.
Vieira de Mello sacrificou
a vida familiar pelo trabalho. Sempre em lugares perigosos,
sobrou-lhe pouco tempo de convivência com os dois filhos
que teve com Annie, sua mulher francesa. Mas, homem charmoso,
nunca teve dificuldade em arranjar companhia feminina. No Camboja,
carregou uma namorada holandesa para negociações
na selva com os guerrilheiros genocidas do Khmer Vermelho. No
Timor Leste, conheceu a argentina Carolina Larriera, também
funcionária da ONU, com quem pretendia se casar. Carolina
trabalhava na ONU de Bagdá em 2003, quando ocorreu o
atentado. Perfeito oposto do burocrata acomodado (e às
vezes corrupto) que prospera em muitos escritórios da
ONU, Vieira de Mello era um homem de ação. Desempenhava
suas funções com destemor. No tempo que passou
em Sarajevo, por exemplo, recusava-se a sair à rua com
o colete à prova de balas que é padrão
da ONU seria um desrespeito com a população
local, que não tinha proteção, dizia.
Oscar
Cabral
Carolina Larriera, a namorada
argentina: sobrevivente do atentado em Bagdá
Muito bem documentada, a biografia de Samantha Power permite
um vislumbre das limitações e contradições
da instituição que Vieira de Mello tão
apaixonadamente defendeu. Sem autonomia de combate, as forças
de paz da ONU muitas vezes são chamadas para missões
paliativas, nas quais se limitam a "monitorar" massacres
em curso. As determinações do Conselho de Segurança
da ONU que Vieira de Mello era chamado a cumprir se revelavam
freqüentemente vagas, porque os países-membros não
querem se comprometer com linhas de ação claras.
O diplomata brasileiro se viu confrontado com a impotência
da ONU diante de tragédias humanas mas sua biografia
prova que resta algo a ser defendido na organização.
A atuação de Vieira de Mello, afinal, trouxe alívio
ao sofrimento das populações vitimadas. Sua especial
conjunção de firmeza e habilidade de negociação
se mostrou quando, como chefe do Alto Comissariado de Direitos
Humanos da ONU, Vieira de Mello foi recebido pelo presidente
George W. Bush na Casa Branca episódio relatado
em saborosos detalhes em Chasing the Flame. Quando Bush
falou das medidas excepcionais exigidas pela guerra ao terrorismo,
Vieira de Mello concordou e lembrou que ele mesmo autorizara
que as forças da ONU atirassem para matar em confrontos
com milícias pró-Indonésia no Timor Leste.
Com isso, surpreendeu e encantou o presidente americano e conseguiu
esticar a audiência de quinze para trinta minutos
nos quais não deixou de cobrar o governo americano por
sua postura ambígua em relação à
tortura e pelas violações de direitos humanos
na prisão de Guantánamo.