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23 de janeiro de 2008
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Entrevista: João Guilherme Estrella
O sobrevivente

O protagonista do livro Meu Nome Não É Johnny, que
virou filme, fala de vício, tráfico, prisão e de como renasceu


Ronaldo Soares

"Ficava três, quatro noites sem dormir, sem comer. Tomava ácido e cheirava cocaína ao mesmo tempo"

O carioca João Guilherme Estrella tem uma história como poucas. Entre 1989 e 1995, chegou a ser o principal distribuidor de drogas para a elite do Rio de Janeiro, credencial que lhe franqueou acesso às melhores festas da cidade e a transações milionárias. No auge de sua carreira, recebeu 150 000 dólares em uma única partida de cocaína para a Europa. Em seguida, foi preso e condenado a dois anos de reclusão. Primeiro, na carceragem da Polícia Federal, espremido numa cela com integrantes da facção criminosa Comando Vermelho. Depois, num manicômio judiciário. Aos 46 anos, está casado com uma advogada, pretende ter um filho, trabalha como produtor musical, prepara-se para lançar um CD e é o protagonista do livro que virou filme de sucesso. Meu Nome Não É Johnny (Ed. Record), escrito pelo jornalista Guilherme Fiuza, vendeu 22 000 exemplares desde 2004. O filme homônimo, com Selton Mello no papel principal, estreou no início de janeiro e já foi visto por quase 1 milhão de pessoas. Na semana passada, Estrella recebeu VEJA em sua produtora, em Ipanema, para a seguinte entrevista.

Veja – O que leva um jovem de família estruturada, situação financeira privilegiada e boa educação, como era o seu caso, a mergulhar nas drogas?
Estrella – Geralmente as pessoas acham que isso está ligado a insatisfação, problemas familiares, perdas afetivas, episódios de violência doméstica. Para mim, não é bem isso. A partir da minha própria experiência, acredito que, na maioria dos casos, o uso de drogas é apenas uma fase, superada quando o jovem faz a transição para uma postura mais séria na vida. Quando comecei a fumar maconha, com 14 anos, era um consumo esporádico, recreativo. Minha família estava completamente estruturada, eu estudava em um colégio muito bom, tinha amor em casa, diálogo, liberdade com confiança... Isso permaneceu durante todo o meu período de experimentação de drogas, que foi até os 18, 19 anos. O filme retrata o momento em que meu pai adoece, ele e minha mãe se separam e a família começa a se desestruturar. Não foi isso que me fez virar traficante. Mas essas coisas aconteceram num momento em que talvez eu começasse a realizar aquela passagem para o mundo adulto. Essa transição foi completamente atropelada.

Veja – Quando o senhor se deu conta de que era um viciado?
Estrella – Em nenhum momento caiu a ficha. Eu simplesmente não parava para pensar nisso, estava num ritmo alucinante. Ficava três, quatro, cinco noites sem dormir, sem comer, só bebendo, fumando cigarro e cheirando. Tomava ácido e cheirava cocaína ao mesmo tempo, uma mistura bombástica. Só bateu uma certa preocupação depois dos 28 anos, quando comecei a negociar cocaína e ela passou a chegar a minhas mãos em quantidades realmente exageradas. No começo, 3, 4 quilos de cada vez, mas no auge cheguei a negociar 15 quilos.

Veja – O que exatamente o atraía?
Estrella – Vários fatores explicam o poder de sedução das drogas. O principal deles, pela minha experiência, é que elas representam a extensão da adolescência. Não deixá-las é uma forma de continuar levando aquela vida de diversão, ausência de patrão, não-cumprimento de ordens, liberdade, aventura. Quando você passa a revender, agrega a isso uma sensação de poder efêmera, ligada à quantidade de dinheiro que entra e também ao tamanho do assédio das pessoas. Você sente que realmente está movimentando a cidade, não é mais um mero espectador dos fatos.

Veja – O senhor virou um "barão do pó" mesmo sem ter uma grande estrutura por trás de seus negócios. Como conseguiu isso?
Estrella – Eu fazia tudo praticamente sozinho, não queria saber da estrutura que fazia a droga chegar até mim. Havia uma pessoa que trazia a cocaína de Rondonópolis (MT), e só. Esse cara até tentou me apresentar as pessoas acima dele, mas eu nunca quis saber dessa coisa de Colômbia, Bolívia, matutos, facções, morros etc. Me bastava esse contato. Quando chegava um caminhão com 200 quilos de cocaína, esse cara me ligava. Eu ficava com 10, 15 quilos de pó, antes de ele começar a distribuição. Era um privilégio. Eu recebia com exclusividade uma quantidade bem razoável de uma cocaína de qualidade. Mas não fazia nem contabilidade das minhas vendas, não tinha o menor controle. Quando as pessoas me pediam para comprar fiado, eu topava, mesmo sabendo que a maioria não iria pagar. Era uma forma de me livrar de clientes indesejáveis. Quando o cara vinha me pedir de novo, eu dizia: "Queridão, tchau". Vendia 1 grama de cocaína pura por 30 reais, enquanto na rua se comprava meio grama de cocaína misturada pelo mesmo preço. Então chegou um momento em que pouca gente vendia, só eu. Por isso a polícia passou a me considerar um dos principais traficantes do Rio de Janeiro.

Veja – A idéia de que um dia a polícia o pegaria não vinha a sua mente?
Estrella – Também nesse caso demorou a cair a ficha. Só me dei conta do perigo quando fui preso pela primeira vez. Eu estava num restaurante com amigos, uns policiais me pegaram no banheiro e me levaram para o carro. Fiz um acordo ali mesmo. Eles queriam 5 000 dólares, mas acabei pagando 3 500, que foi o que deu para arrumar. Minha sorte foi ter fechado o acordo logo no carro, evitando que eles entrassem na minha casa, onde havia meio quilo de cocaína. Se eles fossem lá, o acerto sairia bem mais caro, provavelmente uns 30.000 dólares.

Veja – Se pediam alto assim, é de imaginar que os ganhos eram realmente exorbitantes.
Estrella – Tinha amigo meu que ficava impressionado. Em uma hora e meia, na sexta-feira, eu ganhava mais do que o cara, que ralava para caramba o mês inteiro. Numa sexta à noite ganhava o salário daqueles brasileiros que estão no patamar mais alto da pirâmide, o equivalente hoje a 20 000 reais. Mas não estava naquilo por dinheiro. Existia até um certo desprezo por ele. Eu torrava tudo o que ganhava, não tinha nenhum apego. O dinheiro era mais um ingrediente para movimentar aquela aventura toda.

Veja – Que acabou na prisão...
Estrella – Foram duas situações distintas na cadeia. Na Polícia Federal, como não denunciei ninguém, meu castigo foi ficar na cela de uma facção criminosa, o Comando Vermelho. Na custódia da PF havia uns 150 presos, de integrantes de facções inimigas a cidadãos estrangeiros. É um ambiente pesadíssimo, você corre risco de vida 24 horas por dia. Aqui fora, a gente xinga o amigo e tudo bem. Na cadeia, se fizer isso, mesmo de brincadeira, você pode dormir e não acordar. No manicômio era outra situação. As pessoas costumam dizer que é mais fácil lá, mas não é bem assim. Você está dentro de uma cela que não tem problema de superlotação, mas vai dormir no mesmo lugar, trancado, com pessoas que sofrem de psicoses gravíssimas. Havia psicopatas que mataram pais, filhos. Eles tomam toneladas de remédios. Eu vigiava para ver se estavam tomando mesmo. E dava bronca quando não tomavam. Senão, era impossível dormir. Mesmo assim, tentaram me matar três vezes.

Veja – É possível ressocializar um ser humano em um ambiente daqueles?
Estrella – Não há nada que indique isso. Lembro até de um episódio que ajuda a explicar por quê. Pedi para minha família trazer o Banco Imobiliário para eu jogar com os caras na cela. Quando o jogo parava naquela casinha do "Vá ao banco e pegue 500 reais", nunca tinha dinheiro. Os caras roubavam o banco. De verdade. As cedulazinhas sumiam. Tinha gente que não devolvia nem depois do jogo. Chegava uma hora em que não havia mais dinheiro para jogar, uma coisa impressionante. É uma forma de falar brincando de uma coisa séria. Não há nada naquele ambiente que ajude alguém a se ressocializar. Outros problemas também são graves...

Veja – Quais?
Estrella – Tive provas cabais de que o sigilo previsto na delação premiada não existe. Recebi em minhas mãos o depoimento de um preso que aceitou me delatar. Isso me chegou por um advogado que não era o meu. Cada vírgula da delação que o cara havia feito estava ali, na minha frente. Pelo acordo, ninguém poderia saber daquilo. E eu, dentro de uma carceragem, recebi a informação integral. Os presos da minha cela queriam matar o cara, mas não deixei.

Veja – Qual foi sua estratégia para sobreviver?
Estrella – Tenho uma enorme capacidade de me adaptar às situações. Percebi rapidamente que, mais do que me manter vivo fisicamente, eu tinha de combater a minha própria mente, que se tornara um inimigo perigosíssimo. O fator psicológico era avassalador. Era nisso que eu tinha de focar para sobreviver. No manicômio, eu vi um cara sadio, normal, ficar maluco. Ele não agüentou a barra e começou a andar em círculos, lendo a Bíblia o tempo todo. O cara pirou.

Veja – E o senhor, como fez para preservar sua sanidade mental?
Estrella – No início, na carceragem da PF, foi muito difícil. Uma coisa que eu fazia para manter a cabeça em ordem era ficar horas embaixo d’água, meditando no chuveiro, que era um cano na parede. Eu ficava muito ali, até que os presos me avisaram que, como a gente não pegava muito sol, meu pulmão poderia ser afetado. A primeira semana foi horrível. Cheguei a chorar algumas vezes. Baixinho, claro, para ninguém perceber. Na cadeia não se chora. Vi um cara receber a notícia da morte do irmão, ficar arrasado, mas não deixar correr uma lágrima. Já no manicômio, se a juíza não tivesse me permitido o uso de um instrumento musical e se eu não tivesse trabalhado lá dentro, teria sido insuportável.

Veja – Como é a passagem do tempo dentro de uma prisão?
Estrella – O dia simplesmente não acaba. Ali dentro, dois anos são uma eternidade. Em um dia você pode ler um livro inteiro, fazer duas músicas, trabalhar seis horas num expediente qualquer da cadeia, assistir a um filme na televisão, à novela, ao jornal da TV, e quando vai ver ainda são 4 da tarde. O dia não termina, é uma coisa impressionante. Agora, reconheço também que foi na prisão que eu passei a me enxergar, a me observar. Quem vem da adolescência e emenda numa loucura daquelas não reflete sobre si mesmo. Descobri que eu não tinha me visto ainda por dentro. E esse é um momento muito importante, em que você passa a valorizar a família absurdamente e a perceber quanto tem de cultivar isso. Minha família, que tinha ficado à parte quando eu comecei a me envolver com drogas, me amparou no momento mais difícil. Ela não me abandonou.

Veja – O senhor trata de forma bem-humorada fatos trágicos. Isso é uma fuga?
Estrella – O bom humor sempre foi um grande companheiro. Parece incrível, mas eu até consegui me divertir em alguns momentos. Quando trabalhava na administração do manicômio, por exemplo, peguei um monte de caixas de clipes e elásticos para brincar de guerra com os presos. Eu distribuía para o pessoal da minha cela, e a gente invadia a cela dos outros dando "tiros" com aquilo. Os caras ficaram chateados porque só a gente tinha esse privilégio, e passei a fornecer elásticos e clipes a todo mundo. Mas tivemos de parar, porque as pessoas estavam se machucando.

Veja – Se o senhor tivesse o condão de mudar algo em sua vida, que momento escolheria?
Estrella – O que vou falar não deve ser interpretado como arrependimento, pois não é. Quando resolvi fazer a última viagem para vender cocaína na Europa, que foi o que me levou à prisão, tive a sensação de que era a hora de desistir. Eu ia começar a trabalhar, tinha acertado com um amigo de ser diretor artístico de uma casa de shows. Tive aquele sexto sentido, mas não segui meu instinto. Por outro lado, eu também precisava daquilo, precisava bater em algum muro. Em vez de ser preso, eu poderia ter morrido de overdose. Até hoje não sei como meu organismo suportou a quantidade gigantesca de cocaína que consumi. Também não sei como consegui largar o vício sem fazer tratamento para enfrentar as crises de abstinência na prisão, que eram muito violentas. O máximo que fiz foi tomar diazepam durante dois meses no manicômio, porque estava agitado demais, ansioso à espera da sentença, e precisava me acalmar. Desde que saí da prisão não uso drogas. Uma vez por mês tomo chope com uns amigos, e só. Me permito isso porque os psicanalistas não me consideraram um dependente químico. Consigo manter um consumo leve, espaçado. Não é algo que um dependente químico consiga fazer.

Veja – A que o senhor atribui o envolvimento cada vez maior de jovens de classe média com drogas e com o tráfico?
Estrella – Na grande maioria, são histórias parecidas com a minha, de rapazes que não têm a menor noção da conseqüência de seus atos. Se por três ou quatro dias eles passassem pelo que passei, talvez pensassem duas vezes. O que me preocupa é que, se eles forem presos, talvez sejam condenados a uma pena exagerada. Uma coisa que os juízes têm de observar, seja o réu pobre, seja rico, é a história dele. Sei que é difícil, porque há milhares de processos, não há tempo nem juízes em quantidade suficiente para julgar cada indivíduo de forma mais humana.

Veja – Como se sente com essa exposição toda que o senhor ganhou em decorrência do filme e do livro?
Estrella – Eu só recebo parabéns. Não contei a minha história para passar mensagens do tipo faça isso, não faça aquilo. Mas é muito bacana que as pessoas tenham entendido que isso é uma volta por cima. Eu me sinto como se estivesse encerrando um ciclo, com o disco que vou lançar agora. A principal coisa que o consumo de drogas fez comigo foi me dispersar, desviar-me dos objetivos principais da minha vida. A última lembrança que tenho de algo que eu queria muito na minha adolescência era ser músico. Por isso, esse disco é um ciclo que se fecha. Agora posso me considerar uma pessoa pronta para seguir adiante.


 

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