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Roberto
Pompeu de Toledo
O bem que pode
fazer uma
engasgada
O colapso
de Bush
diante de um
inocente salgadinho talvez traga
os EUA de volta ao senso crítico
Na semana
passada George W. Bush foi à lona ao engasgar com um salgadinho
e com isso voltou a ser George W. Bush. Ele já estava fazendo falta.
Entre 11 de setembro do ano passado, o dia dos atentados terroristas em
Nova York e Washington, e o dia do engasgo, vigorou outro George W. Bush.
Não era mais o trapalhão que esquece nomes e troca palavras,
o homem cujo horizonte intelectual e cuja visão de mundo não
vão além das botas de rancheiro do Texas. Inventou-se outro
George W. Bush, estadista, sábio, equilibrado, firme, sereno, justo,
eficaz. Um presidente "à altura dos acontecimentos", como se cansou
de dizer. Não há evidências de que, fosse outro o
presidente, o processo seria conduzido de modo diferente. As circunstâncias,
o clima vigente no país, as tradições americanas,
as reações pavlovianas da máquina de governo, esteja
na Presidência quem estiver tudo conduzia a que as coisas evoluíssem
como evoluíram. No entanto, preferiu-se imaginar que Bush fez a
diferença. "O povo tem necessidade de um herói idealizado",
disse, numa reportagem do New York Times, o psicanalista Peter
Wolson, de Beverly Hills. "Existe o desejo de que o presidente seja uma
figura paternal forte e poderosa."
Um dos fenômenos
marcantes do pós-11 de setembro, nos Estados Unidos, foi o derrame
de pieguices em torno do presidente. Momento alto, nessa linha, foi a
capa da revista Newsweek datada de 3 de dezembro. Nela aparecem
o presidente e madame Bush, ambos sorridentes, de corpo inteiro, posando
para a foto num gramado talvez o gramado da Casa Branca , um cachorrinho
na frente, outro atrás. Nada mais doméstico, conservador,
simpático e reconfortante. Sobre a foto, o título, soando
meio a manual de auto-ajuda, meio a consultório sentimental: "De
onde tiramos nossa força". Nada menos do que isso! Nas páginas
internas da revista, o casal presidencial troca recíprocas gentilezas
ele enaltece a calma que ela lhe dá; ela, a segurança
que ele lhe confere. E ambos afirmam a importância que, em suas
vidas, têm a oração e a fé. Tudo muito tocante.
Muito irritante, também, pelo sentimentalismo e vulgaridade, mas
o fato é que nada disso glorificação do presidente,
fantasias em torno de sua figura, sentimentalismo até os limites
do mau gosto é inocente. Tudo persegue um resultado, e faz parte
da lógica institucional que, ao fim e ao cabo, faz os Estados Unidos
ser a potência que são.
A invenção
do novo Bush resulta de três características que têm
fundas raízes na sociedade americana. A primeira é o culto
ao sucesso. Os Estados Unidos são sucessomaníacos tanto
quanto outros povos são fracassomaníacos. E quando o sucesso
não é lá muito cientificamente comprovável,
mas contemplaria o interesse geral, declara-se que ele existe, e pronto.
Foi assim com Bush. Declarou-se, depois do 11 de setembro, que ele era
um sucesso. Em outros países (vide o Brasil), na dúvida
declara-se que tal pessoa, ou tal empreendimento, é um fracasso.
Nos Estados Unidos, declara-se que é um sucesso. Gosta-se ainda
mais de fazer isso quando a pessoa à qual se atribui o sucesso
apresenta notórias limitações. É o velho caso
de amor dos americanos com Forrest Gump. Bush não é o único
a chegar com fama de medíocre à Casa Branca e ser declarado
um sucesso. Harry Truman e Ronald Reagan são, no gênero,
dois predecessores ilustres.
A segunda
característica é o que por lá se chama de bipartisanship.
Bipartisanship é a palavra usada para significar a união
dos dois partidos em torno do objetivo comum, em certos assuntos, especialmente
de política externa, e especialmente em hora de crise. Em outros
países (vide a Argentina), a crise divide. Nos Estados Unidos,
une. E une em torno do governo. O surto de patriotismo que tomou conta
do país, depois dos atentados, confundiu-se com governismo. A terceira
característica, parente próxima do bipartisanship,
é a reverência às instituições, a mais
visível das quais, de percepção mais singela e imediata,
é a Presidência. Em outros países (vide a Argentina),
a Presidência pode virar um balão furado e/ou um saco de
pancada. Nos Estados Unidos, como ponto de convergência do sistema
que é, vira, em tempo de crise, ponto de convergência de
toda a nação. E, se é assim com a Presidência,
assim será com seu ocupante. O presidente é o sistema.
O presidente é o país.
Tais características
explicam a conversa fiada em torno de Bush. O.k., em boa parte, reconheça-se
e enfatize-se , elas são responsáveis pela força
dos Estados Unidos. Mas que essa história de "estadista", homem
"à altura dos acontecimentos", capas de revista com o título
"De onde tiramos nossa força" e fenômenos assemelhados configuram
uma ridicularia sentimentalóide, lá isso é. É
uma conversa de embalar basbaques, indigna da inteligência americana.
Ainda bem que Bush engoliu mal o salgadinho. Ele volta ao normal. E, com
ele, espera-se que o país volte ao normal, com um pouco menos de
arrebatamentos, um pouco mais de senso crítico.
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