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Edição 1 735 - 23 de janeiro de 2002
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Roberto Pompeu de Toledo

O bem que pode
fazer uma
engasgada

O colapso de Bush diante de um
inocente
salgadinho talvez traga
os EUA de volta ao senso crítico

Na semana passada George W. Bush foi à lona ao engasgar com um salgadinho e com isso voltou a ser George W. Bush. Ele já estava fazendo falta. Entre 11 de setembro do ano passado, o dia dos atentados terroristas em Nova York e Washington, e o dia do engasgo, vigorou outro George W. Bush. Não era mais o trapalhão que esquece nomes e troca palavras, o homem cujo horizonte intelectual e cuja visão de mundo não vão além das botas de rancheiro do Texas. Inventou-se outro George W. Bush, estadista, sábio, equilibrado, firme, sereno, justo, eficaz. Um presidente "à altura dos acontecimentos", como se cansou de dizer. Não há evidências de que, fosse outro o presidente, o processo seria conduzido de modo diferente. As circunstâncias, o clima vigente no país, as tradições americanas, as reações pavlovianas da máquina de governo, esteja na Presidência quem estiver – tudo conduzia a que as coisas evoluíssem como evoluíram. No entanto, preferiu-se imaginar que Bush fez a diferença. "O povo tem necessidade de um herói idealizado", disse, numa reportagem do New York Times, o psicanalista Peter Wolson, de Beverly Hills. "Existe o desejo de que o presidente seja uma figura paternal forte e poderosa."

Um dos fenômenos marcantes do pós-11 de setembro, nos Estados Unidos, foi o derrame de pieguices em torno do presidente. Momento alto, nessa linha, foi a capa da revista Newsweek datada de 3 de dezembro. Nela aparecem o presidente e madame Bush, ambos sorridentes, de corpo inteiro, posando para a foto num gramado – talvez o gramado da Casa Branca –, um cachorrinho na frente, outro atrás. Nada mais doméstico, conservador, simpático e reconfortante. Sobre a foto, o título, soando meio a manual de auto-ajuda, meio a consultório sentimental: "De onde tiramos nossa força". Nada menos do que isso! Nas páginas internas da revista, o casal presidencial troca recíprocas gentilezas – ele enaltece a calma que ela lhe dá; ela, a segurança que ele lhe confere. E ambos afirmam a importância que, em suas vidas, têm a oração e a fé. Tudo muito tocante. Muito irritante, também, pelo sentimentalismo e vulgaridade, mas o fato é que nada disso – glorificação do presidente, fantasias em torno de sua figura, sentimentalismo até os limites do mau gosto – é inocente. Tudo persegue um resultado, e faz parte da lógica institucional que, ao fim e ao cabo, faz os Estados Unidos ser a potência que são.

A invenção do novo Bush resulta de três características que têm fundas raízes na sociedade americana. A primeira é o culto ao sucesso. Os Estados Unidos são sucessomaníacos tanto quanto outros povos são fracassomaníacos. E quando o sucesso não é lá muito cientificamente comprovável, mas contemplaria o interesse geral, declara-se que ele existe, e pronto. Foi assim com Bush. Declarou-se, depois do 11 de setembro, que ele era um sucesso. Em outros países (vide o Brasil), na dúvida declara-se que tal pessoa, ou tal empreendimento, é um fracasso. Nos Estados Unidos, declara-se que é um sucesso. Gosta-se ainda mais de fazer isso quando a pessoa à qual se atribui o sucesso apresenta notórias limitações. É o velho caso de amor dos americanos com Forrest Gump. Bush não é o único a chegar com fama de medíocre à Casa Branca e ser declarado um sucesso. Harry Truman e Ronald Reagan são, no gênero, dois predecessores ilustres.

A segunda característica é o que por lá se chama de bipartisanship. Bipartisanship é a palavra usada para significar a união dos dois partidos em torno do objetivo comum, em certos assuntos, especialmente de política externa, e especialmente em hora de crise. Em outros países (vide a Argentina), a crise divide. Nos Estados Unidos, une. E une em torno do governo. O surto de patriotismo que tomou conta do país, depois dos atentados, confundiu-se com governismo. A terceira característica, parente próxima do bipartisanship, é a reverência às instituições, a mais visível das quais, de percepção mais singela e imediata, é a Presidência. Em outros países (vide a Argentina), a Presidência pode virar um balão furado e/ou um saco de pancada. Nos Estados Unidos, como ponto de convergência do sistema que é, vira, em tempo de crise, ponto de convergência de toda a nação. E, se é assim com a Presidência, assim será com seu ocupante. O presidente é o sistema. O presidente é o país.

Tais características explicam a conversa fiada em torno de Bush. O.k., em boa parte, reconheça-se – e enfatize-se –, elas são responsáveis pela força dos Estados Unidos. Mas que essa história de "estadista", homem "à altura dos acontecimentos", capas de revista com o título "De onde tiramos nossa força" e fenômenos assemelhados configuram uma ridicularia sentimentalóide, lá isso é. É uma conversa de embalar basbaques, indigna da inteligência americana. Ainda bem que Bush engoliu mal o salgadinho. Ele volta ao normal. E, com ele, espera-se que o país volte ao normal, com um pouco menos de arrebatamentos, um pouco mais de senso crítico.

   
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