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Heróis ou
bandidos?
O australiano
Peter Carey vai
buscar as raízes de seu país na
Londres de Charles Dickens
Jerônimo
Teixeira
Aclamado
romancista australiano, Peter Carey, 58 anos, vive em Nova York há
uma década. Nesse exílio confortável, persegue um
espectro que assombra escritores desde o romantismo: a identidade nacional.
Tarefa complicada, se lembrarmos que a Austrália nasceu como colônia
penal, na época em que o sol nunca se punha no Império Britânico.
Carey parece esforçar-se para afirmar a dignidade dos primeiros
australianos. Em Jack Maggs (tradução de Vera
Whately; Record; 366 páginas; 40 reais), lançado em 1997,
ele vai desencavar as raízes de seu país na Londres do célebre
autor inglês Charles Dickens (1812-1870).
O personagem
que dá título ao romance é inspirado em Abel Magwitch,
o violento condenado que irrompe nas primeiras páginas do clássico
Grandes Esperanças. Mas as mudanças vão além
dos nomes próprios. Carey retoma e altera as situações
originalmente imaginadas por Dickens para retirar o bandido da relativa
obscuridade em que estava envolto naquela obra. Para o autor australiano,
Maggs tem todo o direito de reivindicar a posição de herói.
O condenado será, sem saber, um dos fundadores de uma nação.
A ação
do romance tem lugar em Londres, em 1837. Depois de anos degredado na
Austrália, onde fez fortuna como oleiro, Jack Maggs retorna à
Inglaterra, onde corre o risco de ser enforcado como foragido. Deseja
encontrar o jovem Henry Phipps, seu herdeiro e protegido. Mas, à
diferença de Pip, protagonista de Grandes Esperanças,
Phipps é um gentleman afetado que não demonstra a mínima
gratidão por seu protetor secreto. Pelo contrário, foge
de Maggs. Em sua busca por Phipps, Maggs conta com a ajuda hesitante de
Tobias Oates, um escritor que planeja descobrir os segredos do ex-detento
para compor um romance sobre a personalidade criminosa. Oates é
o personagem mais interessante do livro: trata-se de um retrato nem sempre
lisonjeiro do próprio Dickens.
Jack
Maggs busca o clima folhetinesco de Dickens. Estão lá
inclusive as indefectíveis crianças pobres. O problema é
que Carey exagerou no melodrama e esqueceu o humor do modelo. As reviravoltas
do enredo são muitas vezes forçadas. A reconstituição
de época também decepciona: "imundas" e "fétidas"
são adjetivos aplicados a todas as vielas de Londres. O australiano
Peter Carey parece ter querido homenagear, mas também desafiar,
seu antecessor literário inglês. Na queda-de-braço,
contudo, Magwitch ainda leva a melhor sobre Maggs.
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