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Eles ditam, eu reviso
Assim
é a relação entre os espíritos
e Zibia Gasparetto, a médium que
montou um império editorial
Marcelo Marthe
Antonio Milena

Zibia,
com o retrato de seu guia Lucius ao fundo: "Idéia errada eu
bloqueio" |
A médium Zibia Gasparetto garante que teve uma orientação
estratégica dos espíritos quando começou a psicografar
seus livros, nos anos 50. Eles lhe disseram: "Você precisa abrir
uma editora". E assim foi feito. Tempos depois, as vozes sugeriram que
ela fechasse seu centro espírita no bairro paulistano do Ipiranga.
"Compre uma gráfica e invista em divulgação", sussurraram
elas. Segundo a autora, esses conselheiros desencarnados são os
maiores responsáveis por seu sucesso. Mas há um outro fator
que não deve ser desprezado: dona Zibia sabe fazer negócios.
Aos 75 anos, ela é proprietária de um pequeno império,
que atende pelo nome de Vida & Consciência. Com faturamento
estimado em 11 milhões de reais, o grupo possui a maior editora
de obras espiritualistas do país e uma gráfica de médio
porte, com sede própria de 6.000 metros
quadrados. O que impulsiona essa engrenagem até hoje são
os mesmos produtos que lhe deram origem: os best-sellers de Zibia. Desde
os anos 50, ela já psicografou dezoito romances, três volumes
de crônicas e duas antologias de contos. No total, vendeu perto
de 5 milhões de livros (veja quadro abaixo). Só em
2001 foram 600.000, o suficiente para fazer
frente ao desempenho de um Paulo Coelho no mercado nacional. Seu último
romance, Quando É Preciso Voltar, lançado em novembro,
bateu na marca dos 90.000 exemplares em um
mês. "O que faço é subliteratura para os intelectuais.
Mas o público sabe melhor das coisas", alfineta a médium.
| Além
da alma |
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Com sua editora e gráfica, Zibia Gasparetto faturou cerca
de 11 milhões
de reais no ano passado
Somados,
seus 24 livros já venderam 4,8
milhões
de exemplares
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No início,
a fama de Zibia se restringia ao meio espírita. O que não
é pouco. Há mais de 9.000 centros
no país, e centenas de livrarias especializadas, que formam uma
rede de distribuição considerável. A divulgação
boca a boca explica por que, até hoje, seus livros "estouram" tão
logo saem da prensa. Mas já faz tempo que Zibia extrapolou as fronteiras
dos centros espíritas e tornou-se um fenômeno no filão
de esoterismo. Seu leitor atualmente é o mesmo que consome um best-seller
do guru Deepak Chopra, por exemplo. A médium tem um programa de
aconselhamento espiritual numa rádio FM paulistana. E sua imagem
sempre esteve associada à do filho, o também médium
Luiz Gasparetto, dono de uma espécie de spa esotérico
um lance, assim, muito cósmico. Essa heterodoxia incomoda setores
do espiritismo que levam ao pé da letra a doutrina criada no século
XIX pelo francês Allan Kardec. O que mais horroriza os puristas
é o que chamam de "materialismo" da médium. Em vez de abrir
mão dos direitos autorais de suas obras em prol da caridade, como
fez o mineiro Chico Xavier, ela preferiu investir no próprio negócio.
Zibia, que
cursou só o primário e escrevia histórias policiais
à la Agatha Christie antes de virar médium, diz que começou
a psicografar depois de passar algum tempo sentindo dores no braço
direito. Um dia, desatou a escrever. Hoje psicografa no computador, de
terça a quinta, às 3 da tarde. Ela compara seu papel ao
de uma secretária que revisa os textos. Mas às vezes pode
haver intervenções mais radicais. "Se o espírito
vem com uma idéia que eu acho errada, bloqueio mesmo", revela.
A médium credita seus escritos a vários "seres de luz".
O principal deles é Lucius um suposto ex-integrante do Parlamento
inglês e juiz francês em encarnações passadas.
Lucius está por trás de seus livros mais populares, os romances
(que, atenção, casam melodrama com mensagens doutrinárias).
Paralelamente, Zibia vai psicografando contos de autores diversos, até
juntar o suficiente para uma antologia. Entre seus inéditos está
um texto atribuído ao sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987).
Confira os trechos abaixo. Na versão de dona Zibia, um dos
grandes pensadores brasileiros, autor do clássico Casa Grande
& Senzala e dono de uma escrita elegantíssima, teria decidido
escrever contos melosos no além-túmulo. Fica difícil
não concordar com o que o crítico fluminense Agripino Grieco
dizia a respeito das psicografias de autores famosos. Segundo ele, a psicografia
era a prova cabal de que a morte faz muito mal ao estilo (e às
idéias, pode-se acrescentar) de um autor.
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O
estilo após a morte
Compare
um texto do sociólogo Gilberto Freyre com a passagem de um
conto supostamente ditado por seu espírito
"O
ambiente em que começou a vida brasileira foi de quase intoxicação
sexual. O europeu saltava em terra escorregando em índia
nua; os próprios padres da Companhia de Jesus precisavam
descer com cuidado, senão atolavam o pé em carne.
Muitos clérigos deixaram-se contaminar pela devassidão.
As mulheres eram as primeiras a se entregar aos brancos, as mais
ardentes indo esfregar-se nas pernas desses que supunham deuses."
Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre
"Irene
olhou o relógio e suspirou angustiada. Faltavam dez para
as oito. Armando saíra com amigos. Olhou-se no espelho mais
uma vez. Como gostaria de ser linda, elegante, maravilhosa, para
poder vingar-se dele naquela hora. Para ver em seus olhos o arrependimento
por havê-la perdido! Mas ela não se achava bonita.
Seus amigos diziam, era sempre muito requisitada pelos homens, mas
era porque ela era independente, bem na vida, e indiferente."
O Encontro, conto psicografado por Zibia Gasparetto
em 1995
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