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Edição 1 735 - 23 de janeiro de 2002
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Eles ditam, eu reviso

Assim é a relação entre os espíritos
e Zibia Gasparetto, a médium que
montou um império editorial

Marcelo Marthe


Antonio Milena

Zibia, com o retrato de seu guia Lucius ao fundo: "Idéia errada eu bloqueio"


A médium Zibia Gasparetto garante que teve uma orientação estratégica dos espíritos quando começou a psicografar seus livros, nos anos 50. Eles lhe disseram: "Você precisa abrir uma editora". E assim foi feito. Tempos depois, as vozes sugeriram que ela fechasse seu centro espírita no bairro paulistano do Ipiranga. "Compre uma gráfica e invista em divulgação", sussurraram elas. Segundo a autora, esses conselheiros desencarnados são os maiores responsáveis por seu sucesso. Mas há um outro fator que não deve ser desprezado: dona Zibia sabe fazer negócios. Aos 75 anos, ela é proprietária de um pequeno império, que atende pelo nome de Vida & Consciência. Com faturamento estimado em 11 milhões de reais, o grupo possui a maior editora de obras espiritualistas do país e uma gráfica de médio porte, com sede própria de 6.000 metros quadrados. O que impulsiona essa engrenagem até hoje são os mesmos produtos que lhe deram origem: os best-sellers de Zibia. Desde os anos 50, ela já psicografou dezoito romances, três volumes de crônicas e duas antologias de contos. No total, vendeu perto de 5 milhões de livros (veja quadro abaixo). Só em 2001 foram 600.000, o suficiente para fazer frente ao desempenho de um Paulo Coelho no mercado nacional. Seu último romance, Quando É Preciso Voltar, lançado em novembro, bateu na marca dos 90.000 exemplares em um mês. "O que faço é subliteratura para os intelectuais. Mas o público sabe melhor das coisas", alfineta a médium.

 
Além da alma

Com sua editora e gráfica, Zibia Gasparetto faturou cerca de 11 milhões de reais no ano passado

Somados, seus 24 livros já venderam 4,8 milhões de exemplares

No início, a fama de Zibia se restringia ao meio espírita. O que não é pouco. Há mais de 9.000 centros no país, e centenas de livrarias especializadas, que formam uma rede de distribuição considerável. A divulgação boca a boca explica por que, até hoje, seus livros "estouram" tão logo saem da prensa. Mas já faz tempo que Zibia extrapolou as fronteiras dos centros espíritas e tornou-se um fenômeno no filão de esoterismo. Seu leitor atualmente é o mesmo que consome um best-seller do guru Deepak Chopra, por exemplo. A médium tem um programa de aconselhamento espiritual numa rádio FM paulistana. E sua imagem sempre esteve associada à do filho, o também médium Luiz Gasparetto, dono de uma espécie de spa esotérico – um lance, assim, muito cósmico. Essa heterodoxia incomoda setores do espiritismo que levam ao pé da letra a doutrina criada no século XIX pelo francês Allan Kardec. O que mais horroriza os puristas é o que chamam de "materialismo" da médium. Em vez de abrir mão dos direitos autorais de suas obras em prol da caridade, como fez o mineiro Chico Xavier, ela preferiu investir no próprio negócio.

Zibia, que cursou só o primário e escrevia histórias policiais à la Agatha Christie antes de virar médium, diz que começou a psicografar depois de passar algum tempo sentindo dores no braço direito. Um dia, desatou a escrever. Hoje psicografa no computador, de terça a quinta, às 3 da tarde. Ela compara seu papel ao de uma secretária que revisa os textos. Mas às vezes pode haver intervenções mais radicais. "Se o espírito vem com uma idéia que eu acho errada, bloqueio mesmo", revela. A médium credita seus escritos a vários "seres de luz". O principal deles é Lucius – um suposto ex-integrante do Parlamento inglês e juiz francês em encarnações passadas. Lucius está por trás de seus livros mais populares, os romances (que, atenção, casam melodrama com mensagens doutrinárias). Paralelamente, Zibia vai psicografando contos de autores diversos, até juntar o suficiente para uma antologia. Entre seus inéditos está um texto atribuído ao sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987). Confira os trechos abaixo. Na versão de dona Zibia, um dos grandes pensadores brasileiros, autor do clássico Casa Grande & Senzala e dono de uma escrita elegantíssima, teria decidido escrever contos melosos no além-túmulo. Fica difícil não concordar com o que o crítico fluminense Agripino Grieco dizia a respeito das psicografias de autores famosos. Segundo ele, a psicografia era a prova cabal de que a morte faz muito mal ao estilo (e às idéias, pode-se acrescentar) de um autor.

 

O estilo após a morte

Compare um texto do sociólogo Gilberto Freyre com a passagem de um conto supostamente ditado por seu espírito

"O ambiente em que começou a vida brasileira foi de quase intoxicação sexual. O europeu saltava em terra escorregando em índia nua; os próprios padres da Companhia de Jesus precisavam descer com cuidado, senão atolavam o pé em carne. Muitos clérigos deixaram-se contaminar pela devassidão. As mulheres eram as primeiras a se entregar aos brancos, as mais ardentes indo esfregar-se nas pernas desses que supunham deuses."
Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre

"Irene olhou o relógio e suspirou angustiada. Faltavam dez para as oito. Armando saíra com amigos. Olhou-se no espelho mais uma vez. Como gostaria de ser linda, elegante, maravilhosa, para poder vingar-se dele naquela hora. Para ver em seus olhos o arrependimento por havê-la perdido! Mas ela não se achava bonita. Seus amigos diziam, era sempre muito requisitada pelos homens, mas era porque ela era independente, bem na vida, e indiferente."
O Encontro, conto psicografado por Zibia Gasparetto em 1995

 

   
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