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Aula de angústia
Isabelle
Huppert ensina o que é
atuar em A Professora de Piano
Isabela Boscov
Divulgação

Isabelle,
como a pianista Erika, e Magimel, como seu aluno: o amor como humilhação |
Diz a lenda
que, intrigado por ver Dustin Hoffman se exaurir propositalmente a fim
de melhor incorporar seu personagem em Maratona da Morte, o veterano
Laurence Olivier certo dia o interpelou: "Dustin, por que você simplesmente
não interpreta?". A anedota ajuda a avaliar o trabalho da
francesa Isabelle Huppert em A Professora de Piano (La
Pianiste, França/Áustria, 2001), desde sexta-feira em
cartaz em São Paulo. Nesse drama dirigido pelo austríaco
Michael Haneke, Isabelle interpreta no sentido dado à palavra
por Olivier Erika Kohut, uma quarentona que vive uma relação
umbilical com a mãe (Annie Girardot). Elas dividem um apartamento,
não raro se agridem fisicamente e dormem na mesma cama. Um dos
pontos nevrálgicos do relacionamento é o talento de Erika,
ou, mais precisamente, as limitações deste. Erika se apresenta
não em concertos, mas em salões burgueses, e dá aulas
no Conservatório de Viena, onde frustra, solapa e coage seus alunos.
De noite, entretém-se com fantasias sadomasoquistas e mutila-se
com uma impassibilidade assustadora antes de se sentar à mesa do
jantar. Esse controle extremo de Erika sobre seu desejo entra em colapso,
porém, quando Walter (Benoît Magimel), um aluno mais jovem,
se apaixona por ela.
A Professora
de Piano se baseia num romance autobiográfico da austríaca
Elfriede Jelinek, e é um filme típico de Haneke. Como em
Violência Gratuita ou Código Desconhecido,
ele explora aqui, até o limite, o tema da violência psicológica.
Mas o filme pertence tanto a Isabelle quanto ao cineasta. Com sua precisão
e sua abordagem cerebral, despida de sentimentalismo, Isabelle menos se
entrega ao papel o que poderia restringir seu repertório
de emoções do que oferece uma visão fascinante
dele. Tudo na trajetória de Erika se apresenta com sinal invertido.
Zelo materno equivale a parasitismo e dominação, talento
se manifesta como castração e o amor, como controle e humilhação.
É um dos personagens mais complexos com que uma atriz poderia se
defrontar, mas Isabelle (assim como Magimel, premiado em Cannes pela sua
atuação) alcança resultados soberbos. Um exemplo
desde já antológico é a cena em que Walter seduz
a professora tocando Schubert para ela, e em que Erika ao mesmo tempo
se apaixona por ele e se odeia por estar se apaixonando. A câmara
não mostra nada além do rosto da atriz, e com absoluta razão.
Qualquer coisa mais seria supérflua.
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