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Edição 1 735 - 23 de janeiro de 2002
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Aula de angústia

Isabelle Huppert ensina o que é
atuar em A Professora de Piano

Isabela Boscov

 
Divulgação

Isabelle, como a pianista Erika, e Magimel, como seu aluno: o amor como humilhação

Diz a lenda que, intrigado por ver Dustin Hoffman se exaurir propositalmente a fim de melhor incorporar seu personagem em Maratona da Morte, o veterano Laurence Olivier certo dia o interpelou: "Dustin, por que você simplesmente não interpreta?". A anedota ajuda a avaliar o trabalho da francesa Isabelle Huppert em A Professora de Piano (La Pianiste, França/Áustria, 2001), desde sexta-feira em cartaz em São Paulo. Nesse drama dirigido pelo austríaco Michael Haneke, Isabelle interpreta – no sentido dado à palavra por Olivier – Erika Kohut, uma quarentona que vive uma relação umbilical com a mãe (Annie Girardot). Elas dividem um apartamento, não raro se agridem fisicamente e dormem na mesma cama. Um dos pontos nevrálgicos do relacionamento é o talento de Erika, ou, mais precisamente, as limitações deste. Erika se apresenta não em concertos, mas em salões burgueses, e dá aulas no Conservatório de Viena, onde frustra, solapa e coage seus alunos. De noite, entretém-se com fantasias sadomasoquistas e mutila-se com uma impassibilidade assustadora antes de se sentar à mesa do jantar. Esse controle extremo de Erika sobre seu desejo entra em colapso, porém, quando Walter (Benoît Magimel), um aluno mais jovem, se apaixona por ela.

A Professora de Piano se baseia num romance autobiográfico da austríaca Elfriede Jelinek, e é um filme típico de Haneke. Como em Violência Gratuita ou Código Desconhecido, ele explora aqui, até o limite, o tema da violência psicológica. Mas o filme pertence tanto a Isabelle quanto ao cineasta. Com sua precisão e sua abordagem cerebral, despida de sentimentalismo, Isabelle menos se entrega ao papel – o que poderia restringir seu repertório de emoções – do que oferece uma visão fascinante dele. Tudo na trajetória de Erika se apresenta com sinal invertido. Zelo materno equivale a parasitismo e dominação, talento se manifesta como castração e o amor, como controle e humilhação. É um dos personagens mais complexos com que uma atriz poderia se defrontar, mas Isabelle (assim como Magimel, premiado em Cannes pela sua atuação) alcança resultados soberbos. Um exemplo desde já antológico é a cena em que Walter seduz a professora tocando Schubert para ela, e em que Erika ao mesmo tempo se apaixona por ele e se odeia por estar se apaixonando. A câmara não mostra nada além do rosto da atriz, e com absoluta razão. Qualquer coisa mais seria supérflua.

   
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