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Do vinho para a Coca-Cola

Vanilla Sky, adaptado de um
suspense espanhol de primeira,
mostra as "doenças" que podem
acometer os roteiros europeus
quando eles migram para Hollywood

Isabela Boscov

Veja também
Confira na Estação VEJA um especial sobre o filme Vanilla Sky


César, o protagonista do filme espanhol Preso na Escuridão, vive o pior pesadelo de um narcisista: é envolvido num acidente por uma namorada ciumenta e sai totalmente desfigurado. Os médicos dizem que não é possível reconstruir seu rosto. Depois, afirmam que irão deixá-lo belo como antes. A mulher por quem ele estava apaixonado o rejeita, e depois muda de idéia. A namorada que o arruinou morreu no acidente, mas ele não pára de vê-la. Nada aqui está claro, exceto pelo fato de que, privado de seu reflexo perfeito no espelho, o ego de César está se desintegrando. Nem ele nem a platéia conseguem distinguir realidade de fantasia, e é nessa fronteira angustiante que o diretor Alejandro Amenábar mantém o espectador por quase duas horas, sem trégua. Não é bem o que acontece em Vanilla Sky (Estados Unidos, 2001), uma refilmagem de Preso na Escuridão que almeja ser muito fiel ao original, mas resulta mais confusa do que propriamente intrigante. Produzido por Tom Cruise, Vanilla Sky traz algumas alterações banais. César agora se chama David e é interpretado não por Eduardo Noriega, mas sim por Cruise. A mudança realmente grave é que o filme não tem mais a direção perversamente calculista de Amenábar (para quem o astro produziu o sucesso Os Outros). Não é mais, em suma, a produção ousada que primeiro chamou a atenção de Cruise, e sim um remake à moda americana: uma versão mais pasteurizada e medrosa de uma idéia singular.

Vanilla Sky é uma boa amostra dos males que podem acometer um roteiro europeu quando ele atravessa o Atlântico rumo a Hollywood (veja quadro). Em vez de atores adequados para seus papéis, contratam-se astros. Os traços negativos dos personagens são atenuados. Cenas longas que causem mal-estar à platéia são abreviadas e sanitizadas até o limite da decência criativa (ou para além dele). Se há qualquer menção a um romance no original, ele vira o centro da trama. E, se o roteiro deixa alguma ponta solta, ela há de ser amarrada. Hollywood detesta um final "em aberto" com a mesma intensidade com que a natureza abomina o vácuo.

É verdade que Vanilla Sky não chega a comprometer a honra dos envolvidos. Cameron Crowe é um sujeito talentoso, cujo timbre empático é o trunfo de fitas como Jerry Maguire ou Quase Famosos. Aqui, ele teve a má idéia de moldar uma matéria-prima que não condiz com sua personalidade – ou com a do cinema de Hollywood. Em geral, as adaptações de filmes europeus resultam em desastres bem mais sérios. O pior exemplo talvez seja o do holandês O Silêncio do Lago. Dirigido por George Sluizer, o filme tratava da obsessão de um homem por encontrar a namorada que desaparecera praticamente sob sua vista. Pode ser incluído sem medo numa lista dos melhores suspenses de todos os tempos. Já a refilmagem homônima cabe em qualquer ranking dos piores. O triste é que foi dirigida pelo próprio Sluizer. Ao aceitar a proposta do estúdio americano, ele topou fazer todo tipo de mudança para tornar o filme mais "fácil". Todos esses crimes e contravenções podem ser resumidos, muito grosso modo, numa regrinha básica: o cinema europeu adora um problema, e o americano só quer saber da solução. São mesmo incompatíveis.

 
O QUE MUDA NA TRAVESSIA

MAIS AÇÚCAR – Cidade dos Anjos, tirado de Asas do Desejo, do alemão Wim Wenders, transformou uma fábula sobre o renascimento de uma Berlim dividida num romance meloso e previsível

MENOS ESTILO –
Nikita, de Luc Besson, não primava pelo nexo, mas seu ar pop era irresistível. Bem ao contrário de A Assassina, com Bridget Fonda
Warner Bros

Paramount Pictures

NADA DE IMORALIDADE –
O francês Primo Prima era uma celebração do adultério sem culpa. Já Um Toque de Infidelidade, com Isabella Rossellini e Ted Danson, faz jus ao seu título

 

   
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