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Edição 1 735 - 23 de janeiro de 2002
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Em primeira mão

Danis Tanovic, o diretor de Terra de
Ninguém,
fala da Guerra da Bósnia
com conhecimento de causa

Isabela Boscov

Durante anos, o diretor bósnio Danis Tanovic esteve na linha de frente da Guerra da Bósnia, em Sarajevo, filmando imagens documentais do sangrento conflito entre seus compatriotas e os sérvios. Tanovic reverte agora essa experiência em um dos mais notáveis filmes da temporada. Terra de Ninguém (No Man's Land, Bósnia/Eslovênia/Inglaterra/França/Bélgica/Itália, 2001), que estréia nesta sexta-feira em São Paulo e no Rio de Janeiro, lembra mais uma das peças do dramaturgo irlandês Samuel Beckett do que um filme de guerra. Chiki, um soldado bósnio, e Nino, um sérvio, se vêem juntos numa trincheira localizada no vácuo entre as linhas de seus respectivos exércitos. Estão feridos, mas não tão gravemente que não desejem sair dali, ou matar um ao outro – ou ambas as coisas. Talvez morram antes disso, já que o terceiro ocupante da trincheira é um bósnio que foi colocado sobre uma mina. Se ele se mexer, todos irão pelos ares. A única esperança de Chiki e Nino é se unirem na tentativa de atrair socorro. Os termos dessa trégua serão ditados por quem está de posse do fuzil e da faca disponíveis na trincheira, posição ocupada ora por Chiki, ora por Nino.

O excelente roteiro de Tanovic não é eficiente só na maneira como reduz uma guerra genocida ao seu elemento mais essencial e absurdo – a "posse de bola", por assim dizer. A cada reviravolta, o diretor amplia o círculo em que esse impasse repercute, das forças da ONU (seu retrato da ação perfunctória destas, aliás, é inclemente) à mídia, sequiosa por mais uma tragédia. Tanovic o faz com habilidade e humor negro. Numa cena exemplar, um soldado sérvio se escandaliza ao ler no jornal sobre os massacres de Ruanda. Outra piada recorrente vem do fato de ninguém, a não ser os inimigos, falar a mesma língua.

Terra de Ninguém agradou em cheio à crítica americana, que gostou também do jeito expansivo de Tanovic. Assim como Abril Despedaçado, de Walter Salles, e o francês O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, o filme bósnio concorre neste domingo ao Globo de Ouro de fita estrangeira. É possível dizer que, mais do que a fantasia alto-astral Amélie, ele é o verdadeiro rival de Abril. São filmes muito diferentes entre si, mas, aos olhos dos votantes do Globo de Ouro (e isso vale também para os da Academia), têm suas semelhanças. Ambos falam de disputas ancestrais e irracionais, mostram culturas que parecem exóticas aos americanos, levam a assinatura de cineastas arrojados e foram muito elogiados pela crítica de Los Angeles. Tudo indica que a dobradinha se repetirá no Oscar, cujas indicações serão divulgadas em 12 de fevereiro.

   
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