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Em primeira mão
Danis
Tanovic, o diretor de Terra de
Ninguém, fala da Guerra da Bósnia
com conhecimento de causa
Isabela Boscov
Durante
anos, o diretor bósnio Danis Tanovic esteve na linha de frente
da Guerra da Bósnia, em Sarajevo, filmando imagens documentais
do sangrento conflito entre seus compatriotas e os sérvios. Tanovic
reverte agora essa experiência em um dos mais notáveis filmes
da temporada. Terra de Ninguém (No Man's Land,
Bósnia/Eslovênia/Inglaterra/França/Bélgica/Itália,
2001), que estréia nesta sexta-feira em São Paulo e no Rio
de Janeiro, lembra mais uma das peças do dramaturgo irlandês
Samuel Beckett do que um filme de guerra. Chiki, um soldado bósnio,
e Nino, um sérvio, se vêem juntos numa trincheira localizada
no vácuo entre as linhas de seus respectivos exércitos.
Estão feridos, mas não tão gravemente que não
desejem sair dali, ou matar um ao outro ou ambas as coisas. Talvez
morram antes disso, já que o terceiro ocupante da trincheira é
um bósnio que foi colocado sobre uma mina. Se ele se mexer, todos
irão pelos ares. A única esperança de Chiki e Nino
é se unirem na tentativa de atrair socorro. Os termos dessa trégua
serão ditados por quem está de posse do fuzil e da faca
disponíveis na trincheira, posição ocupada ora por
Chiki, ora por Nino.
O excelente
roteiro de Tanovic não é eficiente só na maneira
como reduz uma guerra genocida ao seu elemento mais essencial e absurdo
a "posse de bola", por assim dizer. A cada reviravolta, o diretor
amplia o círculo em que esse impasse repercute, das forças
da ONU (seu retrato da ação perfunctória destas,
aliás, é inclemente) à mídia, sequiosa por
mais uma tragédia. Tanovic o faz com habilidade e humor negro.
Numa cena exemplar, um soldado sérvio se escandaliza ao ler no
jornal sobre os massacres de Ruanda. Outra piada recorrente vem do fato
de ninguém, a não ser os inimigos, falar a mesma língua.
Terra
de Ninguém agradou em cheio à crítica americana,
que gostou também do jeito expansivo de Tanovic. Assim como Abril
Despedaçado, de Walter Salles, e o francês O Fabuloso
Destino de Amélie Poulain, o filme bósnio concorre neste
domingo ao Globo de Ouro de fita estrangeira. É possível
dizer que, mais do que a fantasia alto-astral Amélie, ele
é o verdadeiro rival de Abril. São filmes muito diferentes
entre si, mas, aos olhos dos votantes do Globo de Ouro (e isso vale também
para os da Academia), têm suas semelhanças. Ambos falam de
disputas ancestrais e irracionais, mostram culturas que parecem exóticas
aos americanos, levam a assinatura de cineastas arrojados e foram muito
elogiados pela crítica de Los Angeles. Tudo indica que a dobradinha
se repetirá no Oscar, cujas indicações serão
divulgadas em 12 de fevereiro.
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