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A
miséria inercial

Escravas
no século XIX: o atraso persiste |
Mauricio Ritter

A
seca no Nordeste, em 1963: população estagnada |
Uma
das maiores realizações do presidente Fernando Henrique
Cardoso no processo de estabilização da economia foi
acabar com a chamada "inflação inercial", que impedia
que ela ocorresse. Durante os anos 80, os preços eram corrigidos
mensalmente com base na inflação calculada no mês
anterior. O que acontecia? No mês seguinte, a inflação
seria igual à do mês anterior pelo menos. Estava
criado um ciclo vicioso. Quando debatem a estabilidade, os economistas
gostam de se referir ao tal "componente inercial" da extinta inflação,
que foi destruído. Havia uma dificuldade adicional para matar
a inflação: ela já era parte da cultura nacional,
como se fosse natural corrigir preços em 80% todos os meses.
Essa visão contaminou uma geração.
Pois a miséria, um desafio tão ou mais monumental
que a inflação antes do Plano Real, também
tem um componente inercial. O problema não foi criado por
este ou aquele governo, mas ao longo da história do país,
e se avoluma ano a ano. Entre as famílias mais pobres, registra-se
hoje uma taxa de natalidade de cinco filhos, maior que a média
entre as faixas mais altas da pirâmide social. Perpetua-se
assim a pobreza, que cresce num ritmo maior que a capacidade de
geração de riqueza e empregos da economia.
O primeiro contingente de miseráveis surgidos no país
foram os escravos. Mesmo depois da Abolição, eles
continuaram vivendo numa situação de pobreza extrema.
Essa herança reflete-se até hoje em estatísticas
como as taxas de analfabetismo e de mortalidade infantil, proporcionalmente
maiores entre a população negra. Nos anos 30, o país
começou a dar seus primeiros passos para se tornar mais urbano
e industrial. O então presidente Getúlio Vargas promoveu
mudanças significativas nas relações trabalhistas,
o que certamente beneficiou muita gente, mas foi um desenvolvimento
seletivo. Quem tinha emprego e estava nas cidades passou a ter a
profissão regulamentada e a ganhar 13º salário,
entre outros benefícios. Melhorou de vida. Os que na mesma
época estavam fora do mercado de trabalho continuaram na
pobreza.
A partir dos anos 50, durante o governo de Juscelino Kubitschek,
o Brasil entrou num processo de industrialização convulsiva,
simbolizado pelo slogan "Cinqüenta anos em cinco". Financiadas
pelo Estado, surgiram a malha rodoviária, a indústria
automobilística, diversas universidades e as grandes usinas
de energia. De 48º PIB mundial na década de 60, o país
saltou para a 8ª posição, vinte anos depois.
O progresso trouxe alguns efeitos colaterais: aumentou as diferenças
regionais entre o Sudeste, onde se concentraram os investimentos
da indústria, e o Nordeste, que permaneceu atrelado a uma
base de economia rural atrasada e sujeita a intempéries como
a seca. As faixas mais altas da pirâmide social foram as mais
beneficiadas por esse processo de desenvolvimento, que teve seu
auge na década de 70. Sua renda cresceu num ritmo mais acentuado
que o das camadas pobres. Foi sempre assim. Com uma singela exceção:
o período inicial do Plano Real, quando milhões de
pobres se beneficiaram do fim do imposto inflacionário e
passaram a ter renda mínima para a sobrevivência.
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