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Edição 1 735 - 23 de janeiro de 2002
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Aprenda: kwashiorkor

 
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A maior parte das pessoas associa a desnutrição a imagens de TV feitas na África, onde legiões de esquálidos esperam que organismos internacionais enviem a próxima refeição. É muito difícil encontrar esse tipo de desnutrido no Brasil. Por aqui é mais comum a imagem da criança "gordinha", falsamente vendendo saúde, como o bebê que aparece na fotografia ao lado. Ele se chama Mateus Barbosa de Souza, tem 3 anos e meio, mas pesa tanto quanto um bebê de 8 meses.

Mateus sofre de subnutrição extrema e não está gordo, mas inchado. Com 3 anos, não anda e só aprendeu a falar "pai". Os sintomas de sua desnutrição foram identificados pela médica Iara Vianna da Silva, que trabalha na cidade de Itinga, em Minas Gerais, onde o garoto vive com o pai, a mãe e três irmãos. Trata-se de mais uma vítima da kwashiorkor. A doença, batizada com uma palavra de origem africana, é resultado da falta de proteína e de outras substâncias, como vitaminas e sais minerais. A kwashiorkor é comum na África e no Brasil, onde as crianças ingerem carboidratos, presentes no arroz, no milho e na mandioca, por exemplo, mas têm carência das proteínas da carne, um alimento caro.

Sem energia para gerar células de defesa, o sistema imunológico enfraquece a tal ponto que qualquer infecção pode matar a criança. Essa era a preocupação da médica quando prescreveu a Mateus a receita reproduzida nesta página. A esperança da doutora é que o garoto sobreviva e tenha forças para lutar contra as seqüelas naturais do quadro. A mais grave é a má-formação do sistema neurológico. O dano é irreversível na maior parte dos casos, e uma das principais conseqüências é a dificuldade de aprendizado. "É triste mas comum ver que algumas famílias já podem estar com o futuro comprometido", diz a médica Iara.

 

A miséria inercial


Escravas no século XIX: o atraso persiste
Mauricio Ritter

A seca no Nordeste, em 1963: população estagnada

Uma das maiores realizações do presidente Fernando Henrique Cardoso no processo de estabilização da economia foi acabar com a chamada "inflação inercial", que impedia que ela ocorresse. Durante os anos 80, os preços eram corrigidos mensalmente com base na inflação calculada no mês anterior. O que acontecia? No mês seguinte, a inflação seria igual à do mês anterior – pelo menos. Estava criado um ciclo vicioso. Quando debatem a estabilidade, os economistas gostam de se referir ao tal "componente inercial" da extinta inflação, que foi destruído. Havia uma dificuldade adicional para matar a inflação: ela já era parte da cultura nacional, como se fosse natural corrigir preços em 80% todos os meses. Essa visão contaminou uma geração.

Pois a miséria, um desafio tão ou mais monumental que a inflação antes do Plano Real, também tem um componente inercial. O problema não foi criado por este ou aquele governo, mas ao longo da história do país, e se avoluma ano a ano. Entre as famílias mais pobres, registra-se hoje uma taxa de natalidade de cinco filhos, maior que a média entre as faixas mais altas da pirâmide social. Perpetua-se assim a pobreza, que cresce num ritmo maior que a capacidade de geração de riqueza e empregos da economia.

O primeiro contingente de miseráveis surgidos no país foram os escravos. Mesmo depois da Abolição, eles continuaram vivendo numa situação de pobreza extrema. Essa herança reflete-se até hoje em estatísticas como as taxas de analfabetismo e de mortalidade infantil, proporcionalmente maiores entre a população negra. Nos anos 30, o país começou a dar seus primeiros passos para se tornar mais urbano e industrial. O então presidente Getúlio Vargas promoveu mudanças significativas nas relações trabalhistas, o que certamente beneficiou muita gente, mas foi um desenvolvimento seletivo. Quem tinha emprego e estava nas cidades passou a ter a profissão regulamentada e a ganhar 13º salário, entre outros benefícios. Melhorou de vida. Os que na mesma época estavam fora do mercado de trabalho continuaram na pobreza.

A partir dos anos 50, durante o governo de Juscelino Kubitschek, o Brasil entrou num processo de industrialização convulsiva, simbolizado pelo slogan "Cinqüenta anos em cinco". Financiadas pelo Estado, surgiram a malha rodoviária, a indústria automobilística, diversas universidades e as grandes usinas de energia. De 48º PIB mundial na década de 60, o país saltou para a 8ª posição, vinte anos depois. O progresso trouxe alguns efeitos colaterais: aumentou as diferenças regionais entre o Sudeste, onde se concentraram os investimentos da indústria, e o Nordeste, que permaneceu atrelado a uma base de economia rural atrasada e sujeita a intempéries como a seca. As faixas mais altas da pirâmide social foram as mais beneficiadas por esse processo de desenvolvimento, que teve seu auge na década de 70. Sua renda cresceu num ritmo mais acentuado que o das camadas pobres. Foi sempre assim. Com uma singela exceção: o período inicial do Plano Real, quando milhões de pobres se beneficiaram do fim do imposto inflacionário e passaram a ter renda mínima para a sobrevivência.

 

Com reportagem de Luís Henrique Amaral

 
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