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As
bolhas de miseráveis parecem ter paredes de aço no país.
Parecem inexpugnáveis. Elas sobrevivem intactas, indiferentes aos
progressos que o país experimenta a sua volta. Não regridem
sequer diante de fenômenos sociais que em outros países e situações
históricas foram decisivos para derrotar a pobreza. Entre esses fenômenos
está a mobilidade social. O Brasil é um campeão da
especialidade mas nem isso adiantou para bulir com as estatísticas
da pobreza absoluta. Nas pesquisas que listam os povos mais empreendedores
do planeta, os brasileiros aparecem nos primeiros lugares. A mobilidade
social no país está entre uma das mais altas do planeta. Cerca
de 80% dos brasileiros que se encontram hoje no topo da pirâmide social
tiveram uma origem mais humilde. Eles começaram a vida num patamar
inferior e foram subindo vários degraus ao longo da carreira profissional.
Por que os miseráveis não entram nessa roda ascendente? Porque
não se qualificam sequer para os degraus mais baixos da engrenagem.
"O fato de reunir tanta miséria faz do Brasil um caso singularíssimo",
afirma o economista Edmar Bacha, responsável nos anos 70 pela criação
do termo Belíndia, usado para definir um país onde convivem
a riqueza belga e a miséria indiana. Essa perplexidade diante de
uma nação com diferenças tão marcantes entre
os mais ricos e os mais pobres já assaltara, no fim do século
XIX, o primeiro-ministro inglês Benjamin Disraeli (1804-1881). "Somos
dois países em um só território", dizia ele, para justificar
o ímpeto igualitário da reforma social que marcou seu governo.
A
questão da miséria no Brasil tem componentes ainda mais
perversos que a simples escassez de recursos que caracteriza o
problema em outros países, especialmente no continente africano.
Ela abrange dois grandes paradoxos. O primeiro deles é que, no
Brasil da miséria, há comida sobrando. O prêmio Nobel
de Economia Amartya Sen explica que alguns países conhecem a fome
como resultado da ausência de alimentos. Em outros, a fome é
resultado da falta de dinheiro por parte de uma fatia da população.
Ásia e África convivem com a fome clássica há
séculos. Ali falta comida. A atual produção de alimentos
no continente africano está 20% abaixo da registrada na década
de 70, quando a população tinha metade do tamanho. No caso
brasileiro, no mesmo período, a safra de grãos mais que
dobrou. E o preço caiu. Enquanto o Brasil aprendeu que por aqui
"em se plantando tudo dá", Ásia e África conheceram
justamente o inverso. Em 1333, a fome matou 4 milhões de chineses
numa única região. Em 1770, vitimou pelo menos 10 milhões
de indianos. A Etiópia, que virou sinônimo de fome na década
de 70, perdeu um terço de sua população na miséria
entre 1888 e 1892.

VIVENDO
COMO ANIMAIS
Completamente excluídos das engrenagens de desenvolvimento
da sociedade, os miseráveis são reduzidos a uma condição
subumana. Seu único horizonte passa a ser a luta feroz pela
sobrevivência. No lixão de Valparaíso, a poucos
quilômetros de Brasília, há gente disputando os
restos com os animais. |
O
segundo paradoxo é que nunca se gastou tanto dinheiro na área
social e, mesmo assim, a situação não melhora. Os
governos municipais, estaduais e federal arrecadam na forma de impostos,
taxas e contribuições o equivalente a 34% do PIB. De cada
10 reais arrecadados, 6 são investidos na área social. São
usados anualmente 21% do PIB em políticas nessa área. Nenhuma
outra nação da América Latina gasta tanto. O governo
conseguiu realizar até mesmo uma façanha quando criou o
Comunidade Solidária, pilotado pela primeira-dama Ruth Cardoso.
O projeto eliminou as repartições-balcão da área
social, como a Legião Brasileira de Assistência ou o Ministério
do Bem-Estar Social. Em vez da corrupção, surgiu a figura
da parceria entre os três níveis de governo e as organizações
da sociedade civil. Graças ao Comunidade Solidária e ao
chamado terceiro setor, a assistência social vive um momento especial.
Um exército de voluntários que já conta com mais
de 20 milhões de pessoas ajuda a tornar menos sofrida a vida de
doentes, menores e idosos abandonados e os miseráveis. Infelizmente,
tal apoio não basta para reverter os indicadores sociais. E por
quê?
Uma explicação diz respeito ao desempenho da economia. Há
uma ligação direta entre crescimento e movimentação
ascendente dos pobres na escala social. Entre 1950 e o fim dos anos 70,
fase de crescimento, a taxa de pobreza caiu. Na década perdida
de 80 e na década frustrada de 90, a economia se comportou mal
e a taxa de miséria subiu. Alguns exemplos desse verdadeiro tobogã
social: na crise do petróleo, de 1979, o total de miseráveis
saltou de 22% da população para 24%. Chegou a 25% no auge
da recessão de 1983 e atingiu seu ponto mais baixo em 1986, durante
o Plano Cruzado, com 9,8%. Como o plano não vingou, a inflação
ressurgiu e o número de pobres aumentou. A taxa chegou a 21,4%
da população em 1990. Com o Real, caiu a um patamar próximo
a 15%. Mas desde então se estabilizou. Na prática, o país
pouco evoluiu nesse campo em 25 anos. Os estudiosos afirmam que a taxa
de miséria só entrará em queda quando a economia
voltar a crescer com mais força.
Pesquisadores
do governo fizeram várias simulações para averiguar
o tipo de impacto sobre a pobreza que o crescimento econômico poderia
proporcionar. A conclusão de um desses estudos é que o crescimento,
quando associado a um modelo de distribuição de renda, pode
transformar por completo uma nação. Hong Kong, Cingapura,
Taiwan e Coréia do Sul acharam uma saída por essa via. Nos
anos 60 eram países mais atrasados que o Brasil e hoje já
estão bem à nossa frente em termos sociais. A fórmula
usada nesse período combinou investimentos maciços em educação,
saúde e reforma agrária. Quando se fala em distribuição
de renda, a inclinação natural de alguns governantes é
imaginar a criação de um novo imposto, uma espécie
de CPMF da fome. É uma solução perigosamente enganadora.
"Impostos para erradicar a pobreza tiram a competitividade das empresas,
diminuem o potencial de crescimento do país, reduzem a renda e
o número de postos de trabalho", afirma o ex-ministro Mailson da
Nóbrega.
Mais relevante que criar outras fontes de receita é discutir o
destino do dinheiro que o governo arrecada. O recurso gasto pela área
social do governo é insuficiente não porque se desvia, mas
porque vigora no país um modelo concentrador reforçado pela
Constituição de 1988. O professor José Márcio
Camargo, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro,
fez as contas sobre a natureza das despesas sociais (educação,
saúde, previdência e assistência social). Do total
de recursos gastos com educação, por exemplo, 60% se destinam
às universidades estatais, onde estudam os mais favorecidos. O
programa de bolsas de estudo do governo segue no mesmo caminho. Apenas
0,3% do dinheiro fica com os 20% mais pobres. Os 20% mais ricos embolsam
34% do total. No caso da saúde, a esmagadora maioria dos recursos
fica com a medicina curativa e a menor parte dirige-se aos gastos preventivos.
Uma parcela ínfima das despesas sociais vai para o saneamento,
forma importante de melhorar a expectativa de vida ao nascer e reduzir
a mortalidade infantil. A Previdência Social, lembra o professor,
é o exemplo mais grave. Só 7% do dinheiro gasto com o sistema
de pagamento de aposentadorias fica com os 20% mais pobres. Os 20% mais
ricos recebem 30% do total. Camargo arrisca um cálculo: se o Congresso
Nacional aprovasse uma reforma na Previdência que eliminasse o déficit
do sistema e obrigasse os estudantes ricos das universidades do governo
a pagar mensalidade, isso liberaria 50 bilhões de reais para atender
os pobres. "Os recursos sociais deveriam ser apropriados pelos pobres,
mas acontece justamente o contrário", afirma Camargo. Fica a sugestão
aos candidatos ao governo neste ano de eleições presidenciais.
Se o Brasil adotasse o modelo proposto por Camargo apenas no campo da
educação, ou seja, se concentrasse as despesas no ensino
básico e deixasse de lado os gastos com as universidades federais,
talvez conseguisse operar uma pequena revolução. Uma pesquisa
recente descobriu que, se o pai não estudou, o filho só
fica três anos na escola. Mas, se o pai tiver cursado o ciclo elementar,
ainda que sem completá-lo, o tempo de permanência do filho
na escola dobra. No limite, filhos de quem fez o doutorado estudam durante
catorze anos. A conseqüência econômica da educação
é fabulosa. Um trabalho do Ipea mostra que a garantia de escolaridade
de cinco anos para toda a população brasileira faria a miséria
cair 6%. A mesma garantia por dez anos reduziria a pobreza em 13%. "Desarmar
os mecanismos que concentram renda no Brasil é o único caminho
para tirar as pessoas da linha de miséria e construir um modelo
de sociedade mais justo", lembra o economista Marcelo Néri, estudioso
da Fundação Getúlio Vargas.

FAMÍLIAS
SEM ESPERANÇA
As minorias também estão entre as principais vítimas
da miséria. Na região do município de Dourados,
em Mato Grosso do Sul, 9 000 índios vivem em condições
de extrema pobreza. Eles passam o mês esperando por uma cesta
básica doada pela prefeitura e seu patrimônio se resume
à lona do barraco, à roupa do corpo e a uma panela velha. |
Como
conseqüência do emprego inadequado dos recursos, o Brasil aparece
todos os anos nas listagens internacionais como um dos países com
maior concentração de renda do planeta. Significa dizer
que, apesar de não se tratar de uma nação pobre,
perpetua-se um fosso gigantesco entre a base e o topo da pirâmide.
No país mais rico do mundo, os Estados Unidos, a diferença
de renda média entre os 20% mais pobres e os 20% mais ricos é
de oito vezes. Na Alemanha, ela é de seis vezes. Nas nações
do Terceiro Mundo, a conta é mais desigual, mas nada se compara
ao Brasil. No Chile, a diferença é de dezoito vezes e na
Guatemala, de trinta. Pois bem: em solo pátrio, essa diferença
é de 33 vezes. Numericamente, isso pode ser traduzido de outras
formas: 1% da população, a parcela mais rica, detém
a mesma quantidade de recursos que os 50% mais pobres. Outro modo de ver
esse problema é tomando como base os 10% mais ricos. Juntos, eles
concentram metade da renda nacional.
Um
dos métodos mais precisos para aferir o grau de desigualdade social
de uma nação é um índice chamado Gini, em
homenagem a Corrado Gini, pesquisador italiano que o criou. O Gini brasileiro
permanece ruim e inalterado há mais de vinte anos. Há alguns
meses, ao avaliar essas estatísticas e fazer um balanço
positivo de seu governo nessa área, o presidente Fernando Henrique
Cardoso concluiu seu raciocínio com a seguinte frase: "Houve uma
melhoria muito pequena na distribuição de renda, muito pequena".
Está na hora de mudar isso. Uma saída razoável é
valer-se das diferenças na busca da solução. Por
que não convocar as melhores cabeças do Brasil-Bélgica
para melhorar de vida a porção Índia? Com a palavra,
os candidatos.
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