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O paradoxo da miséria
O
Brasil é o mais rico entre os países com
maior número de pessoas miseráveis. Isso
torna inexplicável a pobreza extrema de
23 milhões de brasileiros, mas mostra que
o problema pode ser atacado com sucesso
Ricardo
Mendonça
Fotos de Pedro Martinelli
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BOLSÕES
DE POBREZA
Metade dos miseráveis brasileiros vive no Nordeste, geralmente
na zona rural de cidades muito pequenas. Nesses bolsões de
pobreza assolados pela seca, falta comida e não há trabalho
para todo mundo. Em muitos casos, a única fonte de rendimento
das famílias é vender ossos aos comerciantes que usam
o "produto" como matéria-prima de ração para
animais. |

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No
dia 11 de dezembro do ano passado, a médica Iara Vianna da Silva
esteve no barraco onde mora o pequeno Mateus Barbosa de Souza, em Itinga,
Minas Gerais. O garoto vive com o pai, a mãe e três irmãos
no bairro mais pobre da cidade, localizada no paupérrimo Vale do
Jequitinhonha. Aos 3 anos e meio, Mateus é vítima de um tipo
de desnutrição conhecida como kwashiorkor, palavra
importada da África, onde a doença foi descrita pela primeira
vez no início do século passado. De tão prevalente
na África, kwashiorkor tem definições em vários
dialetos tribais. Num deles, falado em Gana, a palavra designa originalmente
a criança que não pode ser alimentada pelo leite materno.
Mateus tem a altura de um garoto de 1 ano e 7 meses e o peso de um bebê
de apenas 8 meses. A doença atinge crianças que, privadas
da proteína encontrada no leite materno, num primeiro momento, e
mais tarde na carne, se alimentam basicamente de carboidratos. Numa etapa
inicial, o mal produz fadiga, irritabilidade e letargia. O quadro inclui
diarréia, anemia e retardamento motor. Mateus, por exemplo, não
anda. Não tratada, a doença evolui, a imunidade do paciente
cai e o corpo incha. Aparentemente ele está apenas gordinho. É
nessa fase que se encontra Mateus. Nos casos mais graves, podem ocorrer
deficiência mental e morte. Mesmo tratada, a criança que teve
kwashiorkor dificilmente atinge altura e peso normais. Acostumada
a diagnosticar casos de desnutrição, a médica entregou
à mãe do garoto uma receita com o seguinte teor: "Mateus B.
Souza Ao Serviço Social: Criança desnutrida. Kwashiorkor.
Cesta básica. Precisa comida. Vai morrer. Não anda. Se pegar
infecção, morre".
A doença de Mateus não é apenas um drama familiar,
mas o retrato de uma tragédia nacional: a miséria. O Brasil
passou por uma transformação admirável nos últimos
25 anos. Comparado a 1977, quando se analisam alguns indicadores nem parece
que se trata do mesmo país. Nesse período, o produto interno
bruto aumentou 85%, o número de domicílios com televisão
subiu 150%, o total de residências com telefone triplicou e a frota
de veículos mais do que triplicou. Infelizmente, a taxa de miséria
permaneceu praticamente inalterada e doenças decorrentes da pobreza
extrema, como a de Mateus, repetem-se aos milhares. Segundo um estudo
do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), os miseráveis
representavam, 25 anos atrás, alguma coisa em torno de 17% da população.
O índice mais recente divulgado pelo mesmo instituto informa que
a taxa de miséria está em 14,5%. Trata-se de uma queda muito
pequena diante do amadurecimento social, econômico e político
registrado no período. Queda proporcional, diga-se, pois em números
absolutos o número de desamparados, incapazes de sair de sua situação
sem ajuda, aumentou. Eram 18 milhões há um quarto de século.
São cerca de 23 milhões hoje.
Miséria
é palavra de significado impreciso, como de resto a maior parte
dos termos que se referem à camada menos favorecida da sociedade.
O que exatamente quer dizer "pobreza" ou "indigência"? Como identificar
um pobre? Como ter certeza de que existem 14,5% de miseráveis,
e não 10% ou 20%? Não haveria subjetividade demais nessas
estatísticas? Em geral, cada um percebe a miséria por sua
experiência pessoal, como definiu a americana Mollie Orshansky,
uma das maiores especialistas no assunto: "A pobreza, tal qual a beleza,
está nos olhos de quem a vê". Para efeito estatístico,
no entanto, os estudiosos chegaram a uma definição quase
matemática sobre o que são miséria e pobreza. Conseguiram
estabelecer duas grandes linhas. Uma delas é a linha de pobreza,
abaixo da qual estão as pessoas cuja renda não é
suficiente para cobrir os custos mínimos de manutenção
da vida humana: alimentação, moradia, transporte e vestuário.
Isso num cenário em que educação e saúde são
fornecidas de graça pelo governo. Outra é a linha de miséria
(ou de indigência), que determina quem não consegue ganhar
o bastante para garantir aquela que é a mais básica das
necessidades: a alimentação. No caso brasileiro, há
53 milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza. Destas, 30 milhões
vivem entre a linha de pobreza e acima da linha de miséria. Cerca
de 23 milhões estariam na situação que se define
como indigência ou miséria.

MORANDO
NO ESGOTO
Ser miserável significa viver de forma absolutamente precária.
No Recife, favelas enormes são erguidas em cima de mangues
ou rios sem nenhuma condição de segurança e higiene.
Quando a maré sobe, o lixo invade os barracos, espalhando dejetos
de toda a vizinhança pelos cômodos. A falta de saneamento
é responsável pela proliferação de doenças. |
Reforçando,
para evitar confusão: a pobreza no Brasil é formada por
dois grandes grupos. Há 30 milhões de pessoas vivendo com
extrema dificuldade, donas de uma renda mensal per capita inferior a 80
reais. E há mais 23 milhões que vivem ainda em pior situação,
sobrevivendo de maneira primitiva. Não ganham dinheiro bastante
para comprar todos os dias alimentos em quantidade mínima necessária
à manutenção saudável de uma vida produtiva
ou seja, algo em torno de 2.000 calorias. Isso equivale a uma dieta
diária que inclui um pão e meio, cinco colheres de arroz,
meia concha de feijão, um copo de leite, um bife de 100 gramas,
meio ovo e mais três colheres de açúcar, óleo
de soja, farinha de trigo, farinha de mandioca e margarina. Os miseráveis
não têm acesso a essa cesta biológica básica.
Esse é o chamado flagelo social. Não se sabe ainda quais
serão os candidatos a presidente, mas já se sabe qual será
o maior desafio do novo governo: reduzir esse contingente de padrão
africano. Desde já, é bom para os candidatos decorar a palavra
kwashiorkor e seu duro significado na vida de milhões de
brasileiros.
Metade dos que vivem abaixo da linha de miséria mora na Região
Nordeste. Quando se calcula apenas a fatia rural da miséria, o
Nordeste representa mais de 70% do contingente. Essas são aquelas
pessoas que aparecem nas reportagens de TV sobre a seca mostrando o pratinho
de feijão que restou na despensa. Os Estados mais pobres do país,
em termos proporcionais, segundo levantamento recente feito pelo governo,
são Alagoas, Ceará, Maranhão e Piauí. Os que
estão mais bem posicionados são Santa Catarina, São
Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Determinar a faixa de miseráveis
pelo consumo de calorias é um critério internacionalmente
aceito. O que varia é o cardápio. Segundo o último
estudo disponível sobre o assunto, realizado pelos técnicos
da Organização das Nações Unidas, existem
830 milhões de miseráveis no planeta. A doença atinge
todos os continentes, com intensidades diferentes. Na Europa, na Oceania
e na América do Norte o problema tem escala reduzida, pois a miséria
ataca esporádica e temporariamente alguns grupos de imigrantes
clandestinos ou algumas minorias, como as tribos aborígines na
Austrália. A situação muda de patamar na Ásia,
que concentra 63% dos miseráveis do mundo. O caso mais extraordinário
é o da Índia, onde mais de 300 milhões de pessoas
vivem em estado de privação absoluta. Em termos proporcionais,
o epicentro da miséria mundial é a África. No continente
africano, um em cada quatro habitantes passa fome. São 180 milhões
de indigentes numa população de 800 milhões de pessoas.

FUTURO COMPROMETIDO
As pessoas que têm até 15
anos representam 30% da população brasileira, mas são
45% do universo de miseráveis.
No paupérrimo Vale do Jequitinhonha,
em Minas Gerais, e em várias outras
regiões pobres, elas moram em condições extremamente
precárias. Muitas vezes, um entrelaçado
de palha serve de cama para
as crianças. |
Com
seus 23 milhões de miseráveis, o Brasil representa 3% do
problema mundial. Pode parecer pouco, mas é uma inserção
global três vezes maior do que nossa participação,
por exemplo, no comércio mundial, em que o Brasil aparece com menos
de 1% do movimento de compra e venda de mercadorias. Um mergulho qualitativo
sobre a questão dá a devida coloração à
situação brasileira. Para isso, tome-se o ranking dos países
com renda per capita semelhante à brasileira. São eles México,
Bulgária, Chile e Costa Rica. Sabe qual tem taxa de pobreza equivalente
à brasileira? Nenhum. O pior deles, a Costa Rica, tem proporcionalmente
pouco mais da metade do número de pobres do Brasil. As comparações
internacionais trabalham com a certeza de que todos os países revelam
dados confiáveis. Pode-se olhar a questão sob outro prisma,
mas nem por isso o quadro fica menos dramático. Observe-se o ranking
dos países segundo o porcentual da população vivendo
abaixo da linha de pobreza. Onde está o Brasil? Está ao
lado de Botsuana, República Dominicana, Mauritânia e Guiné.
Ocorre que, entre nossos "colegas de fome", digamos assim, a renda per
capita varia entre 15% e metade da renda brasileira. Ou seja, não
importa de que ângulo se olhe, o Brasil é hoje o país
mais rico do mundo com a maior taxa de pobreza. A isso se chama injustiça
social.
Há
razões de sobra, além do óbvio constrangimento moral,
para tentar de vez minorar esse problema. Do ponto de vista econômico,
a pobreza extrema e inelutável reduz a competitividade do país
e restringe suas possibilidades de mover a economia pela força
do mercado interno. Mas a verdade cruel é que, nas contas macroeconômicas,
a questão da miséria absoluta é apenas um detalhe.
A porção mais pobre da pirâmide, os miseráveis,
não produz e pouco consome. Ou seja, os miseráveis nem entram
na equação econômica de um país moderno. Teoricamente,
a economia pode muito bem funcionar sem que se leve em conta sua existência.
A economia brasileira se situa entre as dez maiores do mundo e chegou
a atrair no ano 2000 investimentos estrangeiros da ordem de 30 bilhões
de dólares. Quase metade dos usuários de internet da América
Latina concentra-se no Brasil. Depois dos Estados Unidos, é a nação
que mais compra aviões executivos e tem a cidade com a segunda
maior frota de helicópteros do planeta. No campo da medicina, há
hospitais e centros de pesquisa nacionais que servem de referência
mundial em áreas como a cardiologia. Todas essas conquistas ocorreram
sem que a miséria se tenha retraído no país. É
aí que entra a questão ética. "Mais do que uma consideração
de ordem econômica, a dívida social é moralmente inaceitável,
e por essa razão tem de ser saldada", afirma o deputado Delfim
Netto (PPB-SP).
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