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Edição 1 735 - 23 de janeiro de 2002
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A marca da morte
nos cigarros

Será que os novos maços com
imagens desagradáveis vão vencer
a atração exercida pela nicotina?

Karina Pastore e Anna Paula Buchalla


Fotomontagem


A partir de 1º de fevereiro, começa a circular no Brasil a nova safra de maços de cigarros impressos de acordo com a resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. A regra diz que as sessenta marcas vendidas no país devem estampar no verso da embalagem uma entre nove imagens associadas aos malefícios do cigarro. A iniciativa foi copiada de uma experiência bem-sucedida no Canadá. Com imagens explícitas, agressivas até – uma boca com dentes podres e a gengiva inflamada, um coração infartado ou um cérebro com as artérias estouradas –, a campanha do Canadá provocou uma primeira reação negativa da sociedade, principalmente entre os não-tabagistas. É que muita gente não queria ser obrigada a conviver com as cenas repugnantes. O saldo final, no entanto, foi ótimo. Uma pesquisa realizada pela Sociedade Canadense do Câncer, com mais de 2.000 pessoas, revela que a contrapropaganda surtiu efeitos positivos. Por causa das ilustrações, cerca de 45% dos fumantes ficaram motivados a abandonar o cigarro. "Contra o tabagismo, nenhuma medida isolada vai resolver o problema, mas toda tentativa é válida", adverte o psiquiatra Montezuma Pimenta Ferreira, do ambulatório de tabagismo do Hospital das Clínicas de São Paulo.

É esse o propósito da campanha brasileira. Tentar chocar o fumante (e os não-fumantes à sua volta) de forma a afastá-lo do vício. A cada ano, o cigarro mata 4 milhões de pessoas em todo o mundo. A dependência está associada a 90% dos casos de câncer de pulmão, 85% dos óbitos por enfisema pulmonar, 40% dos derrames cerebrais e 25% dos infartos fatais. Mas será que as imagens escolhidas são fortes o bastante a ponto de vencer a atração exercida pela nicotina sobre os dependentes? Uma das fotografias é impressionante. Ela mostra um bebê esquálido, o olhar de agonia, que está com a vida sustentada por tubos e fios. O retrato do sofrimento da criança foi feito em julho do ano passado, na UTI neonatal de um hospital público de São Paulo. Na ocasião, o recém-nascido, que é filho de uma fumante, tinha três semanas de vida. Nascera aos sete meses de gestação, dois antes do esperado. Pesava cerca de 1 quilo, menos de um terço do peso médio normal. Infelizmente, as demais imagens usadas não são verdadeiras como a do bebê. Ao contrário, não passam de uma encenação malfeita. A cena escolhida para sugerir que o cigarro provoca mau hálito chega a ser hilariante.

Há cerca de 30 milhões de fumantes no Brasil. Nas pesquisas sobre o assunto, 78% dos entrevistados dizem ter vontade de parar de fumar. O problema está na dificuldade em largar o vício. Como conseqüência da dependência química provocada pela nicotina e mesmo pela dependência psicológica, apenas 3% dos fumantes que tentam abandonar o cigarro atingem seu objetivo ao final de um ano. As advertências impressas nos maços tratando dos danos causados pelo tabaco são armas valiosas e podem ajudar a movimentar as estatísticas. Além da mudança visual, a partir de fevereiro, a indústria fumageira tem de mexer no conteúdo dos cigarros, reduzindo seus níveis de alcatrão, nicotina e monóxido de carbono. Fica proibido também o uso dos termos "baixos teores", "suave", "light" ou "soft". Desde o ano passado, propaganda de cigarro em território nacional só dentro dos locais de venda.

A guerra declarada contra o tabaco colocou o Brasil em posição de destaque. Há uma curiosidade nessa área, observada em reportagem do Wall Street Journal. Enquanto uma fatia do governo quer melhorar a saúde da população, por meio de campanhas desse tipo, outra, a economia brasileira, lucra – e muito – com a indústria fumageira. É o "paradoxo da fumaça". O maior contribuinte industrial privado do país é a Souza Cruz, dona de 80% do mercado. Só com ela, o governo arrecadou no ano passado mais de 3 bilhões de reais. De todos os produtos industrializados, o cigarro é o que paga mais imposto – cerca de 70% dos 6,7 bilhões de reais movimentados pela indústria da fumaça, em 2000, foram para os cofres públicos, o que equivale a quase 5 bilhões de reais. Hoje, o Brasil é o maior exportador de folha de tabaco do mundo. Na lista dos produtores, ocupa o terceiro lugar.

Tentando lucrar num ambiente hostil (mas que não a proíbe de trabalhar), a indústria do fumo reage como pode. Em resposta à restrição da propaganda de cigarros, a Souza Cruz baixou o preço do Derby, o mais popular do país, de 1,10 real para 1 real. Resultado: o consumo cresceu vertiginosamente e compensou a queda registrada por algumas outras marcas. No fim, as vendas da gigante da fumaça aumentaram 6,3% em relação ao ano anterior. O baixo preço do cigarro brasileiro (o segundo mais barato do mundo, só perdendo para o da Coréia do Sul) é um grande estímulo ao vício do tabaco. Outro forte incentivo vem dos cigarros contrabandeados. Os ilegais, sobretudo os paraguaios e chineses, dominam 35% do mercado nacional. Um maço dos fajutos pode sair por até 50 centavos – um terço do preço médio dos legais. O preço de um cafezinho.

 
As outras imagens do Brasil...
Advertências sobre os riscos de impotência sexual, infarto, mau hálito e câncer na boca: pouco convincentes

 
... e, no Canadá, males explícitos

Desde dezembro de 2000, os maços de cigarros vendidos no Canadá trazem fotografias dos males causados pelo fumo (fotos abaixo). No ano passado, a Sociedade Canadense do Câncer realizou um estudo para analisar o impacto da campanha. Foram entrevistados 2 031 pessoas com mais de 18 anos. Dessas, cerca de 650 eram fumantes. A seguir, os principais resultados da pesquisa

40% dos que decidiram largar o cigarro disseram ter tomado a decisão em virtude das imagens estampadas nos maços

Em mais de uma ocasião 21% dos fumantes desistiram de acender um cigarro ao se lembrar das fotografias

27% reduziram o número de cigarros consumidos em casa

Pelo menos uma vez, 17% jogaram os maços fora por vergonha das imagens
 
Fotos divulgação
Boca doente: a mais chocante para os canadenses
Cenas da campanha: a disfunção erétil... ...um coração que sofreu infarto... ...e um cérebro com derrame

 



   
 
   
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