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A marca da morte
nos cigarros
Será
que os novos maços com
imagens desagradáveis vão vencer
a atração exercida pela nicotina?
Karina Pastore
e Anna Paula Buchalla
Fotomontagem
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A partir de 1º de fevereiro, começa a circular no Brasil a
nova safra de maços de cigarros impressos de acordo com a resolução
da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. A regra
diz que as sessenta marcas vendidas no país devem estampar no verso
da embalagem uma entre nove imagens associadas aos malefícios do
cigarro. A iniciativa foi copiada de uma experiência bem-sucedida
no Canadá. Com imagens explícitas, agressivas até
uma boca com dentes podres e a gengiva inflamada, um coração
infartado ou um cérebro com as artérias estouradas ,
a campanha do Canadá provocou uma primeira reação
negativa da sociedade, principalmente entre os não-tabagistas.
É que muita gente não queria ser obrigada a conviver com
as cenas repugnantes. O saldo final, no entanto, foi ótimo. Uma
pesquisa realizada pela Sociedade Canadense do Câncer, com mais
de 2.000 pessoas, revela que a contrapropaganda
surtiu efeitos positivos. Por causa das ilustrações, cerca
de 45% dos fumantes ficaram motivados a abandonar o cigarro. "Contra o
tabagismo, nenhuma medida isolada vai resolver o problema, mas toda tentativa
é válida", adverte o psiquiatra Montezuma Pimenta Ferreira,
do ambulatório de tabagismo do Hospital das Clínicas de
São Paulo.
É
esse o propósito da campanha brasileira. Tentar chocar o fumante
(e os não-fumantes à sua volta) de forma a afastá-lo
do vício. A cada ano, o cigarro mata 4 milhões de pessoas
em todo o mundo. A dependência está associada a 90% dos casos
de câncer de pulmão, 85% dos óbitos por enfisema pulmonar,
40% dos derrames cerebrais e 25% dos infartos fatais. Mas será
que as imagens escolhidas são fortes o bastante a ponto de vencer
a atração exercida pela nicotina sobre os dependentes? Uma
das fotografias é impressionante. Ela mostra um bebê esquálido,
o olhar de agonia, que está com a vida sustentada por tubos e fios.
O retrato do sofrimento da criança foi feito em julho do ano passado,
na UTI neonatal de um hospital público de São Paulo. Na
ocasião, o recém-nascido, que é filho de uma fumante,
tinha três semanas de vida. Nascera aos sete meses de gestação,
dois antes do esperado. Pesava cerca de 1 quilo, menos de um terço
do peso médio normal. Infelizmente, as demais imagens usadas não
são verdadeiras como a do bebê. Ao contrário, não
passam de uma encenação malfeita. A cena escolhida para
sugerir que o cigarro provoca mau hálito chega a ser hilariante.
Há
cerca de 30 milhões de fumantes no Brasil. Nas pesquisas sobre
o assunto, 78% dos entrevistados dizem ter vontade de parar de fumar.
O problema está na dificuldade em largar o vício. Como conseqüência
da dependência química provocada pela nicotina e mesmo pela
dependência psicológica, apenas 3% dos fumantes que tentam
abandonar o cigarro atingem seu objetivo ao final de um ano. As advertências
impressas nos maços tratando dos danos causados pelo tabaco são
armas valiosas e podem ajudar a movimentar as estatísticas. Além
da mudança visual, a partir de fevereiro, a indústria fumageira
tem de mexer no conteúdo dos cigarros, reduzindo seus níveis
de alcatrão, nicotina e monóxido de carbono. Fica proibido
também o uso dos termos "baixos teores", "suave", "light" ou "soft".
Desde o ano passado, propaganda de cigarro em território nacional
só dentro dos locais de venda.
A guerra
declarada contra o tabaco colocou o Brasil em posição de
destaque. Há uma curiosidade nessa área, observada em reportagem
do Wall Street Journal. Enquanto uma fatia do governo quer melhorar
a saúde da população, por meio de campanhas desse
tipo, outra, a economia brasileira, lucra e muito com a
indústria fumageira. É o "paradoxo da fumaça". O
maior contribuinte industrial privado do país é a Souza
Cruz, dona de 80% do mercado. Só com ela, o governo arrecadou no
ano passado mais de 3 bilhões de reais. De todos os produtos industrializados,
o cigarro é o que paga mais imposto cerca de 70% dos 6,7
bilhões de reais movimentados pela indústria da fumaça,
em 2000, foram para os cofres públicos, o que equivale a quase
5 bilhões de reais. Hoje, o Brasil é o maior exportador
de folha de tabaco do mundo. Na lista dos produtores, ocupa o terceiro
lugar.
Tentando
lucrar num ambiente hostil (mas que não a proíbe de trabalhar),
a indústria do fumo reage como pode. Em resposta à restrição
da propaganda de cigarros, a Souza Cruz baixou o preço do Derby,
o mais popular do país, de 1,10 real para 1 real. Resultado: o
consumo cresceu vertiginosamente e compensou a queda registrada por algumas
outras marcas. No fim, as vendas da gigante da fumaça aumentaram
6,3% em relação ao ano anterior. O baixo preço do
cigarro brasileiro (o segundo mais barato do mundo, só perdendo
para o da Coréia do Sul) é um grande estímulo ao
vício do tabaco. Outro forte incentivo vem dos cigarros contrabandeados.
Os ilegais, sobretudo os paraguaios e chineses, dominam 35% do mercado
nacional. Um maço dos fajutos pode sair por até 50 centavos
um terço do preço médio dos legais. O preço
de um cafezinho.
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