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Edição 1 735 - 23 de janeiro de 2002
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A reposta do corpo

Lesão no quadril tira Guga das quadras e mostra que até os atletas têm seus limites

Anna Paula Buchalla

Os atletas e os preparadores físicos gostam de dizer que só a repetição leva à perfeição. O organismo responde: a repetição pode levar a lesões. Na semana passada, a resposta do corpo atingiu Gustavo Kuerten, que foi eliminado já na primeira rodada do Aberto da Austrália. A derrota deveu-se às fortes dores na região da virilha. Uma ressonância magnética feita em dezembro já havia detectado uma lesão no lado direito do quadril do tenista número 2 do mundo. Como as dores eram suportáveis, Guga achou que seria possível enfrentar as quadras rápidas da Austrália. Desclassificado, ele desabafou: "A pior derrota para mim foi como cheguei ao final do jogo". Ele estava extremamente cansado, exaurido pelo sofrimento físico.

O preço do sucesso de um atleta de alta performance são o cansaço e a dor. Guga está pagando por ele. Sua rotina de treino é exaustiva – oito horas diárias, sob o olhar do treinador Larri Passos. Sem contar ainda o calendário extenso das competições, com torneios de janeiro até o fim de novembro. O tenista brasileiro sofreu uma ruptura no lábrum acetabular, cartilagem fibrosa que envolve a articulação do quadril. Esse tipo de lesão está relacionado ao estilo de jogo de Guga. "É cada vez maior o número de tenistas profissionais com problemas na região dos quadris e dores ao redor da virilha", diz o médico Rogério Teixeira, autor de uma tese de mestrado na Universidade Federal de São Paulo sobre contusões causadas pelo tênis. Até os anos 80, explica o doutor Teixeira, no momento de rebater uma bola de direita, jogadores como o sueco Bjorn Borg projetavam a perna esquerda para a frente. Os tenistas de hoje, a exemplo de Guga, mantêm as pernas paralelas. Nessa posição, o atleta ganha mais força nos membros superiores e amplitude de movimentos. Força-se, no entanto, muito os músculos e articulações. O corpo reclama devido à constante e brusca rotação do tronco.

Cada vez mais se requer que os atletas profissionais superem os próprios limites. Os tenistas costumam sofrer também de tendinite nos ombros, dores na coluna e pubialgia. Essa última é conhecida como o "mal moderno" dos esportistas, entre eles também os jogadores de futebol e rúgbi e os praticantes de esgrima. O problema é resultado do esforço que se exige da musculatura interna da coxa. O craque Ronaldinho, da Internazionale de Milão, nunca mais foi o mesmo depois do rompimento do ligamento patelar de seu joelho direito – outro tipo muito comum de lesão entre os jogadores de futebol, basquete e vôlei. Ana Moser, uma das musas do vôlei na década de 90, teve de encerrar a carreira precocemente por causa de contusões no joelho esquerdo, lombalgia e tendinite no ombro. Os maratonistas, por sua vez, sofrem cada vez mais com a fratura por stress dos ossos das pernas, principalmente a tíbia.

Os primeiros sinais de que o corpo de Guga não agüentava mais tanto esforço surgiram em março do ano passado. A partir desta semana, inicia um programa intensivo de fisioterapia – mas ele não interromperá os treinos. Como a lesão é irreversível, o objetivo é fazer com que o atleta se adapte a ela e consiga jogar com a mesma intensidade, sem sentir dor. Se o quadro não melhorar, o último recurso é a cirurgia para a retirada total da cartilagem, o que o deixaria fora das quadras por, no mínimo, dois meses.

 

   
 
   
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