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Edição 1 735 - 23 de janeiro de 2002
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Gostamos, e daí?

Pressionados, sul-coreanos
assumem, com orgulho, o hábito
de comer carne de cachorro

 
Reuters

Cachorros à venda em mercado sul-coreano: criados para o abate

Quando sediou os Jogos Olímpicos de 1988, a Coréia do Sul fez de tudo para coibir ou no mínimo esconder o hábito nacional de degustar pratos à base de carne de cachorro. Na época, o governo chegou a fechar milhares de restaurantes que serviam a iguaria, também popular na China e no Vietnã. Agora, com o país mais seguro de si, o festim de lulus virou questão de honra e os sul-coreanos estão se preparando para a Copa do Mundo, que vão co-sediar com o Japão, com uma nova atitude: comem, sim, carne canina, e ninguém tem nada com isso. "Consumir carne de cachorro é questão de orgulho nacional", diz um comunicado assinado por 166 líderes de diversos setores da sociedade sul-coreana. "Nossa cultura alimentar tem milhares de anos. Chamar-nos de bárbaros por causa dela é o mesmo que criticar essa cultura milenar."

O assunto vem sendo discutido há meses na Coréia do Sul, em debates e editoriais na imprensa. Desde novembro passado, virou tema obrigatório, com a divulgação da carta na qual o presidente da Federação Internacional de Futebol (Fifa), Joseph Blatter, sugere ao comitê de organização da Copa na Coréia a suspensão do consumo de carne de cachorro durante o mês da competição – ou que, pelo menos, sejam eliminados os "elementos de crueldade" da prática. Por crueldade entenda-se o costume de matar o animal por enforcamento ou espancamento, tidos como ideais para obter carne mais macia e suculenta. Consagrados ao longo de séculos, os dois métodos foram proibidos por lei. Agora, o abate de cães é feito com choque elétrico.

 
AP

Lulus na panela: prato caro do restaurante especializado

Um dos aspectos mais interessantes do debate é a utilização de conceitos de relativismo cultural, a base do pensamento politicamente correto nos países ocidentais, para defender a comilança. "No código cultural ocidental, cães são quase seres humanos. Na cultura confucionista, em que a hierarquia é valorizada, seres humanos e cachorros não são jamais considerados iguais", explica um editorial do jornal JoongAng Ilbo, intitulado "Nem todo cachorro pode ser comido" – alusão ao insistente argumento sul-coreano de que a carne canina consumida no país não vem de poodles fofinhos nem de adoráveis labradores, mas sim de animais criados para a panela. São pequenos e amarelados, de corpo comprido e pernas curtas, e costumam ser vendidos em mercados, onde chegam amontoados em gaiolas. Atribui-se à sua carne, de gosto e cheiro fortes e apreciada principalmente pelos homens, poderes afrodisíacos e terapêuticos – ensopado de cachorro é uma espécie de canja de galinha dos doentes sul-coreanos. Seu único senão: é cara. Só uma minoria tem dinheiro para freqüentar os restaurantes especializados.

   
 
   
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