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Gostamos, e daí?
Pressionados,
sul-coreanos
assumem, com orgulho, o hábito
de comer carne de cachorro
Reuters

Cachorros
à venda em mercado sul-coreano: criados para o abate |
Quando sediou
os Jogos Olímpicos de 1988, a Coréia do Sul fez de tudo
para coibir ou no mínimo esconder o hábito nacional de degustar
pratos à base de carne de cachorro. Na época, o governo
chegou a fechar milhares de restaurantes que serviam a iguaria, também
popular na China e no Vietnã. Agora, com o país mais seguro
de si, o festim de lulus virou questão de honra e os sul-coreanos
estão se preparando para a Copa do Mundo, que vão co-sediar
com o Japão, com uma nova atitude: comem, sim, carne canina, e
ninguém tem nada com isso. "Consumir carne de cachorro é
questão de orgulho nacional", diz um comunicado assinado por 166
líderes de diversos setores da sociedade sul-coreana. "Nossa cultura
alimentar tem milhares de anos. Chamar-nos de bárbaros por causa
dela é o mesmo que criticar essa cultura milenar."
O assunto
vem sendo discutido há meses na Coréia do Sul, em debates
e editoriais na imprensa. Desde novembro passado, virou tema obrigatório,
com a divulgação da carta na qual o presidente da Federação
Internacional de Futebol (Fifa), Joseph Blatter, sugere ao comitê
de organização da Copa na Coréia a suspensão
do consumo de carne de cachorro durante o mês da competição
ou que, pelo menos, sejam eliminados os "elementos de crueldade"
da prática. Por crueldade entenda-se o costume de matar o animal
por enforcamento ou espancamento, tidos como ideais para obter carne mais
macia e suculenta. Consagrados ao longo de séculos, os dois métodos
foram proibidos por lei. Agora, o abate de cães é feito
com choque elétrico.
AP

Lulus
na panela: prato caro do restaurante especializado |
Um dos aspectos
mais interessantes do debate é a utilização de conceitos
de relativismo cultural, a base do pensamento politicamente correto nos
países ocidentais, para defender a comilança. "No código
cultural ocidental, cães são quase seres humanos. Na cultura
confucionista, em que a hierarquia é valorizada, seres humanos
e cachorros não são jamais considerados iguais", explica
um editorial do jornal JoongAng Ilbo, intitulado "Nem todo cachorro
pode ser comido" alusão ao insistente argumento sul-coreano
de que a carne canina consumida no país não vem de poodles
fofinhos nem de adoráveis labradores, mas sim de animais criados
para a panela. São pequenos e amarelados, de corpo comprido e pernas
curtas, e costumam ser vendidos em mercados, onde chegam amontoados em
gaiolas. Atribui-se à sua carne, de gosto e cheiro fortes e apreciada
principalmente pelos homens, poderes afrodisíacos e terapêuticos
ensopado de cachorro é uma espécie de canja de galinha
dos doentes sul-coreanos. Seu único senão: é cara.
Só uma minoria tem dinheiro para freqüentar os restaurantes
especializados.
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