
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
O salto da classe
média
Um campeão
do ParisDacar? Não,
apenas um administrador de empresas
fazendo um passeio no fim de semana
Adriana Negreiros

A manobra
de Jaime Andion com seu jipe de tração nas quatro rodas: radical a
motor |
A foto que
você vê aí em cima é um dos melhores momentos
de uma voltinha dominical do administrador de empresas baiano Jaime Andion,
de 43 anos, a bordo de seu Suzuki Samurai. Dono também de um jipão
Land Rover Defender 90, Andion integra a tribo que, em vez de lavar o
carro no sábado, trata de lambuzá-lo de lama. São
os off-roaders, integrantes da classe média que andam saltando
em massa para a prática do esporte que consiste em percorrer trilhas
fora de estrada, cheias de barro, areia, mato ou buracos. Num percurso
desses, furam-se pneus, arranha-se a lataria e compromete-se a suspensão
fora o risco real de acidentes. Os trilheiros deliram de contentamento.
Há cerca de 10.000 praticantes amadores
do esporte. Durante a semana, vestem ternos e tailleurs. Nas horas de
folga, entram em macacões coloridos e se mandam para a aventura.
Andion e sua turma adoram contar os percalços que enfrentam. "Uma
vez, pegamos uma chuva num fim de tarde", ele recorda. "Os carros atolavam,
não tínhamos visibilidade e só conseguimos sair de
lá depois das 3 da madrugada." O acessório indispensável
dos off-roaders é a câmara, de foto ou de vídeo, que
não os deixa mentir sobre o tamanho das peripécias.
A badalação
em torno do turismo ecológico deu força ao off-road. Quem
percorre trilhas mantém-se em contato direto com a natureza. A
oferta de bons carros com tração nas quatro rodas impulsionou
ainda mais o esporte. Em 1996, foram vendidos 933 Toyota Hilux, um dos
veículos preferidos pelos aventureiros. Em 2000, a fábrica
entregou 7.774 unidades. "Hoje, as próprias
montadoras incentivam o off-road", afirma o presidente da Confederação
Brasileira de Automobilismo, Paulo Scaglione. Algumas fábricas
promovem competições entre compradores de seus carros fora-
de-estrada. Mas há trilheiros que arriscam a sorte até ao
volante de um modesto Ford Ka, geralmente sem muito sucesso.
Hilda Santos
 |
| Hilda,
a campeã, põe o carro e o pé na lama (acima). Há quem se arrisque
de verdade nos ralis, com um inapropriado Ford Ka, por exemplo. Mas
existem caminhos que nem um brutamontes como o Land Rover consegue
vencer sem a ajuda de uma balsa (foto abaixo) |
Demerval Diniz
 |
Entre os
praticantes há desde motoristas recém-habilitados, garotões,
até senhores grisalhos mas cheios de adrenalina. O empresário
paulista Paulo Hasegawa, de 62 anos, faz trilhas há dois e se tornou
tão fanático que chega a varar madrugadas em seu jipe Troller.
"Já saí do lamaçal às 5 da manhã e,
depois de um banho, fui direto trabalhar", conta. Por causa do desgaste
nas trilhas, Hasegawa troca de carro todo ano.
Ainda não
são muitas as mulheres nesse meio, mas as que já aderiram
têm entusiasmo igual ao dos homens. Há campeonatos específicos
para o público feminino, chamados ralis do batom. Um desses eventos,
em Salvador, atraiu 92 duplas em dezembro. A vencedora das duas últimas
edições é uma publicitária de 34 anos, Hilda
Santos, que já sonha com a profissionalização. Ela
gasta 600 reais por mês com equipamentos e manutenção
do veículo, um Suzuki Samurai. Quando vai competir, as despesas
passam de 1.000 reais.
Essa coragem
para gastar dinheiro é idêntica à de enfrentar as
trilhas. Os carros são submetidos a muito desgaste e a manutenção
de um 4x4, especialmente os importados, não é para qualquer
bolso. A maioria dos campeonatos oficiais admite amadores na categoria
passeio. Sem patrocínio, eles bancam seu custo. Os prêmios
em dinheiro, quando existem, são mínimos. O Cerapió,
considerado o maior rali do Brasil em número de participantes,
cobra entre 120 e 380 reais pela inscrição. São 1.500
quilômetros entre o Ceará e o Piauí, bancando alimentação
e hospedagem. Quem vence é premiado com um troféu, na melhor
das hipóteses uma bicicleta. Há um ano, o estudante Fernando
Diniz, de 21 anos, calculou mal o movimento da maré na Praia de
Iguape, no Ceará, e viu seu Troller ser tragado pelas ondas. "Fiquei
desesperado", ele recorda. O resgate, depois que a maré baixou,
e o conserto ficaram em 2.500 reais. Apesar
do susto, Diniz não desiste do esporte. Com o pai, também
off-roader, já foi até o Peru de jipe.
A maioria
dos praticantes amadores fica fora dos 150 torneios que ocorrem por ano
no Brasil. Para eles, o charme está em desbravar novas trilhas,
sem pressa, com direito a cenários que jamais conheceriam. Uma
das preferidas dos jipeiros vai da cidade do Rio de Janeiro a Búzios.
São 210 quilômetros, só 23 de terra e muitos pelas
praias, no areião.
Existem
500 atletas profissionais de rali no Brasil, o dobro do que se contava
dois anos atrás. Nesse mundo, os gastos com preparação,
transporte do carro e apoio podem alcançar 60.000
dólares para o ParisDacar, por exemplo , e um
veículo chega a custar 100.000 dólares,
depois de equipado com sistema de orientação por satélite,
suspensões especiais e reforço da estrutura. Se alguém
gasta, há alguém lucrando. No caso do rali Cerapió,
esse alguém é o empresário piauiense Ehrlich Cordão,
organizador do evento, que faturou 100.000
reais na última edição.
|
|
 |
|
 |

|
 |