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Edição 1 735 - 23 de janeiro de 2002
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O salto da classe média

Um campeão do Paris–Dacar? Não,
apenas um administrador de empresas
fazendo um passeio no fim de semana

Adriana Negreiros

 

A manobra de Jaime Andion com seu jipe de tração nas quatro rodas: radical a motor

A foto que você vê aí em cima é um dos melhores momentos de uma voltinha dominical do administrador de empresas baiano Jaime Andion, de 43 anos, a bordo de seu Suzuki Samurai. Dono também de um jipão Land Rover Defender 90, Andion integra a tribo que, em vez de lavar o carro no sábado, trata de lambuzá-lo de lama. São os off-roaders, integrantes da classe média que andam saltando em massa para a prática do esporte que consiste em percorrer trilhas fora de estrada, cheias de barro, areia, mato ou buracos. Num percurso desses, furam-se pneus, arranha-se a lataria e compromete-se a suspensão – fora o risco real de acidentes. Os trilheiros deliram de contentamento. Há cerca de 10.000 praticantes amadores do esporte. Durante a semana, vestem ternos e tailleurs. Nas horas de folga, entram em macacões coloridos e se mandam para a aventura. Andion e sua turma adoram contar os percalços que enfrentam. "Uma vez, pegamos uma chuva num fim de tarde", ele recorda. "Os carros atolavam, não tínhamos visibilidade e só conseguimos sair de lá depois das 3 da madrugada." O acessório indispensável dos off-roaders é a câmara, de foto ou de vídeo, que não os deixa mentir sobre o tamanho das peripécias.

A badalação em torno do turismo ecológico deu força ao off-road. Quem percorre trilhas mantém-se em contato direto com a natureza. A oferta de bons carros com tração nas quatro rodas impulsionou ainda mais o esporte. Em 1996, foram vendidos 933 Toyota Hilux, um dos veículos preferidos pelos aventureiros. Em 2000, a fábrica entregou 7.774 unidades. "Hoje, as próprias montadoras incentivam o off-road", afirma o presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo, Paulo Scaglione. Algumas fábricas promovem competições entre compradores de seus carros fora- de-estrada. Mas há trilheiros que arriscam a sorte até ao volante de um modesto Ford Ka, geralmente sem muito sucesso.

 
Hilda Santos
Hilda, a campeã, põe o carro e o pé na lama (acima). Há quem se arrisque de verdade nos ralis, com um inapropriado Ford Ka, por exemplo. Mas existem caminhos que nem um brutamontes como o Land Rover consegue vencer sem a ajuda de uma balsa (foto abaixo)
Demerval Diniz

Entre os praticantes há desde motoristas recém-habilitados, garotões, até senhores grisalhos mas cheios de adrenalina. O empresário paulista Paulo Hasegawa, de 62 anos, faz trilhas há dois e se tornou tão fanático que chega a varar madrugadas em seu jipe Troller. "Já saí do lamaçal às 5 da manhã e, depois de um banho, fui direto trabalhar", conta. Por causa do desgaste nas trilhas, Hasegawa troca de carro todo ano.

Ainda não são muitas as mulheres nesse meio, mas as que já aderiram têm entusiasmo igual ao dos homens. Há campeonatos específicos para o público feminino, chamados ralis do batom. Um desses eventos, em Salvador, atraiu 92 duplas em dezembro. A vencedora das duas últimas edições é uma publicitária de 34 anos, Hilda Santos, que já sonha com a profissionalização. Ela gasta 600 reais por mês com equipamentos e manutenção do veículo, um Suzuki Samurai. Quando vai competir, as despesas passam de 1.000 reais.

Essa coragem para gastar dinheiro é idêntica à de enfrentar as trilhas. Os carros são submetidos a muito desgaste e a manutenção de um 4x4, especialmente os importados, não é para qualquer bolso. A maioria dos campeonatos oficiais admite amadores na categoria passeio. Sem patrocínio, eles bancam seu custo. Os prêmios em dinheiro, quando existem, são mínimos. O Cerapió, considerado o maior rali do Brasil em número de participantes, cobra entre 120 e 380 reais pela inscrição. São 1.500 quilômetros entre o Ceará e o Piauí, bancando alimentação e hospedagem. Quem vence é premiado com um troféu, na melhor das hipóteses uma bicicleta. Há um ano, o estudante Fernando Diniz, de 21 anos, calculou mal o movimento da maré na Praia de Iguape, no Ceará, e viu seu Troller ser tragado pelas ondas. "Fiquei desesperado", ele recorda. O resgate, depois que a maré baixou, e o conserto ficaram em 2.500 reais. Apesar do susto, Diniz não desiste do esporte. Com o pai, também off-roader, já foi até o Peru de jipe.

A maioria dos praticantes amadores fica fora dos 150 torneios que ocorrem por ano no Brasil. Para eles, o charme está em desbravar novas trilhas, sem pressa, com direito a cenários que jamais conheceriam. Uma das preferidas dos jipeiros vai da cidade do Rio de Janeiro a Búzios. São 210 quilômetros, só 23 de terra e muitos pelas praias, no areião.

Existem 500 atletas profissionais de rali no Brasil, o dobro do que se contava dois anos atrás. Nesse mundo, os gastos com preparação, transporte do carro e apoio podem alcançar 60.000 dólares – para o Paris–Dacar, por exemplo –, e um veículo chega a custar 100.000 dólares, depois de equipado com sistema de orientação por satélite, suspensões especiais e reforço da estrutura. Se alguém gasta, há alguém lucrando. No caso do rali Cerapió, esse alguém é o empresário piauiense Ehrlich Cordão, organizador do evento, que faturou 100.000 reais na última edição.

   
 
   
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